dados propiciados para uma escrita etnográfica não podemos esquecer de pontuar o antropólogo Jack Goody, em sua obra “O mito, o ritual e o oral” (2012), onde no capítulo três: “O antropólogo e o gravador de sons” (p. 58-62), realiza uma abordagem teórica sobre o uso do gravador pelos antropólogos nos anos de 1950 e a revolução que ocasionou.
O campo já pode vir ao gabinete, sem ser pelo papel e pelo lápis, mas com o informante falando, modificando o entendimento sobre a ‘observação participante’, que consistia em algumas incursões ao campo com anotações, por vezes, esporádicas.
Eu não só podia gravar no próprio contexto da apresentação, em vez de ter de levar um “informante” para minha cabana, mas também tinha a oportunidade de rever a verdadeira recitação calmamente. Isso já era algo muito significativo, pois quando pedíamos a um “informante” que recitasse, ele provavelmente nos dava aquilo que queríamos ouvir [as partes narrativas, por exemplo, sem incluir as partes filosóficas]. No entanto, do meu ponto de vista, o mais importante foi que, em vez de trabalhar com lápis e papel em uma situação de trabalho de campo, agora podíamos gravar com relativa facilidade uma pluralidade de versões de uma única recitação. (GOODY, 2012, p.58)
Esta exposição reflexiva a partir de Goody nos remete a outro antropólogo brasileiro, Roberto Cardoso de Oliveira, em sua obra “O trabalho do antropólogo” (2006); onde, dos capítulos primeiro ao sexto, principalmente os capítulos “o trabalho do antropólogo: olhar,
ouvir, escrever” e “o lugar – em lugar – do método” há uma preocupação com o fazer
antropológico e as configurações desse fazer em termos teóricos, epistemológicos e metodológicos para a Antropologia e o papel da etnografia em contextos dialógicos e interpretativistas.
A preocupação com a etnografia também se dá nos trabalhos de outra antropóloga brasileira, Mariza Peirano (1995), com preocupação mais voltada ao próprio fazer etnografia e o como está sendo feito essa mesma etnografia. Preocupação esta, que alguns retomam com o uso das novas tecnologias da comunicação e a netnografia, tanto no fazer etnográfico, quanto dos usos que estão sendo feitos com os conhecimentos e a exposição dos grupos e pessoas pesquisadas nesses meios, sem desconsiderar, claro, as próprias questões éticas do fazer ciência.
Netnografia, enquanto produto, é “um relato através de textos escritos, imagens, sons
e vídeos da cibercultura online, que informa através dos métodos da antropologia cultural”
(KOZINETS, 2010, p. 62). Enquanto processo, netnografia é uma “metodologia de pesquisa
qualitativa que se adapta a novas técnicas de pesquisa etnográfica para o estudo das culturas e comunidades que estão surgindo através da comunicação mediada por novas tecnologias”
(KOZINETS, 2010, p. 62).
O líder da associação elencado para a realização da pesquisa, utiliza as novas tecnologias da comunicação para criar redes e, assim, discutir e apresentar propostas sugeridas por outros ciganos que venham a contemplar uma gama maior de situações aos
diversos grupos em seus vários contextos. Lembrando aqui o que Barth problematiza sobre a manutenção da identidade Pathan, ao escrever a respeito da intercomunicação na formação de uma rede.
Não se pode presumir despreocupadamente que a intercomunicação dentro do grupo étnico consiga disseminar de maneira adequada informações que permitam a manutenção, ao longo do tempo, de um conjunto compartilhado de valores e percepções, apesar de essa intercomunicação formar uma rede contínua. (BARTH, 2000, p. 69).
Assim, tanto a abordagem de Kozinets (2002), quanto de Montardo & Rocha (2005) sobre a netnografia como um instrumento de trabalho metodológico para coleta de dados nas novas tecnologias da comunicação foram primordiais para pensar e interagir no que se refere ao estar em contato direto com a associação.
Havia também, obviamente, a etnografia com quem está manuseando essas tecnologias e o que é disponibilizado como informação, por meio das análises dessas etnografias e netnografias.
Um dos pensamentos nesse momento é estarmos em uma nova virada paradigmática, onde ainda somos carentes de conhecimentos para a formulação de uma pergunta que venha propiciar respostas, sobre que período ou “onda” é esta que estamos vivenciando com o uso das novas tecnologias da informação e da comunicação. Dessa forma, pude lembrar Hannah Arendt, quando diz que “uma crise nos obriga a voltar às questões
mesmas e exige respostas novas ou velhas” (ARENDT, 2009, p. 223).
Assim como a internet e as redes sociais ajudaram as pessoas pesquisadas a se apresentarem para o contexto global, esses mesmos instrumentos ajudam o pesquisador a coletar informações e a entrar em contato com essas pessoas pesquisadas mais rápido.
No contexto de Malinowski o estar lá com papel e lápis era o disponível para o pesquisador, em nosso contexto atual, com as novas tecnologias da informação e da comunicação, temos os pesquisados dentro de nossa casa e estamos com eles em seus vários locais de atuação e vivencias simultaneamente.
No campo estamos com nossos aparelhos de celular com mecanismos que nos permitem fazer anotações, fotografar, capturar imagens em vídeo, gravar áudio, enviar mensagens e informações, conversarmos em tempo real por vídeo conferência e ligarmos para obtermos ou darmos alguma informação. O computador, a máquina de escrever, o gravador de áudio, a máquina fotográfica, a câmara de vídeo, agora, cabe em nossa palma da mão. Em “A Arte da Guerra” de Sun Tzu (2006), encontramos um indicativo de que “há
[...] alguns territórios que não devem ser contestados”. (SUN TZU, 2006, p. 26). As novas
tecnologias quando usadas contrariam algumas dessas instruções, porque todas as estradas passam a ser percorridas e todos os territórios podem ser contestados, com todos os limites ultrapassados, já é possível estar em dois locais ao mesmo tempo, as webs conferências, o uso do aparelho celular para falar em todos os locais e com todas as pessoas são a prova cabal disso.
Quando estamos conectados somos viajantes, mesmo estando em um local. As novas tecnologias não são metáforas das formas de integração do global com o local, elas são o canal propiciadores desse diálogo entre local e global e vice-versa, entre o estar lá e o estar aqui.