Para alguns historiadores e sociólogos, faz sentido perceber o Brasil como predominantemente misto, como uma sociedade em que as diferenças étnicas foram resolvidas pela mestiçagem. Não se nega a existência dos segmentos étnicos negro, amarelo e branco, mas é calculada e relevada a maioria numérica mestiça. A referência a uma convivência harmônica entre as etnias no Brasil, bem como a anterioridade da classe sobre a raça32 nas relações sociais são ideias presentes em Gilberto Freyre (2003) em sua obra Casa Grande e Senzala.
Em outras palavras, com a noção de “democracia racial” – quer compreendida como ideal a ser alcançado, ou seja, como uma quimera de relações; quer vista como configuração factual da realidade brasileira – preconiza-se que as desigualdades sociais não estão atreladas às diferenças étnicas, já que elas já estão resolvidas, e de que outros elementos importam mais para a análise das dinâmicas sociais. (FREYRE, [1933] 2003; HASENBALG, [1979] 2005; RIBEIRO M., 2014). Tal “democracia racial”, abordada nos estudos de Freyre, continuou encontrando eco em outras análises sociológicas, antropológicas e históricas até os anos 197033. Mantendo a coerência com essa visão, dois argumentos complementares fundacionais são levantados: a convivência “pacífica” diante da diversidade étnica presente no Brasil resultou na miscigenação ainda hoje visível. Essa modalidade antirracista defende a miscigenação como um fato vivenciado cotidianamente e como um ideal a ser reforçado e mantido por sua propagação. Para esses antirracistas, a conciliação nas relações raciais entre negros e brancos,
32 É com muita cautela que se utiliza o termo raça neste texto. Ele se refere à dimensão sócio-política e cultural
que procede a hierarquizações de pessoas com base em sua cor da pele. Cabe também um adendo sobre o termo etnia (“do grego ethnikos, adjetivo de ethos e se refere a povo ou nação”) que aqui assume a compreensão de grupo social cuja unidade se depreende pela consciência de experiências, origens e/ou interesses comuns, cuja língua, unidade de território, tradições, ou monumentos históricos são, não obrigatoriamente, outros fatores identitários. (BOBBIO, 1998, p. 449, 450; CASHMORE, 2000, p. 196 e 197).
33 Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (1999) elenca uma série de estudos que derrubam a pretensa suavidade do
segmentos majoritários, é tangível, irrefutável pela imagem do mestiço pardo, calculado, por esses, como prevalente em números em nossa sociedade. Divulgar essa realidade é um modo de reforço, e de combate ao racismo freando-o, já que ele é considerado insignificante, prevenindo que se avulte.
O oposto disso é considerado como agitação social descabida, como criação de divisões inexistentes e como iniciativa racista. Ali Kamel (2006), em seu ilustrativo título, Não somos
racistas: reação aos que querem nos transformar em uma nação bicolor, opõe-se às críticas à
noção de democracia racial, ao dizer que:
[...] Era como se o ideal de nação a que me referi [democracia racial] tivesse como objetivo seu contrário: idealizar uma ração sem racismo para melhor exercer o racismo. O papel da ciência “para o bem os negros” seria desmascarar isso, tirando o véu da ideologia e substituindo-a pela realidade do racismo. Esse raciocínio, levava, porém, ao paroxismo de permitir a suposição de que um racismo explícito é melhor do que um racismo envergonhado, esquecendo-se de que o primeiro oprime sem pudor, enquanto o segundo, muitas vezes, deixa de oprimir pelo pudor. (KAMEL, 2006, p. 20).
Em suma, é como se desvelar o racismo não fizesse emergir um racismo já factual, mas sim criasse um precedente para a proliferação de um racismo não aparente. E o racismo, por sua vez, seria um simulacro gestado por grupos que preferem ver a nação cindida a unida. Tal ilusão desses grupos promoveria o racismo frontal, despudorado e mais violento, substituto de um racismo rechaçado pelo pudor, por razões éticas. No entanto, é de se notar que mesmo com tons de crítica e ironia, a problematização do que é real aponta para a predileção, por parte de Kamel, por um racismo “envergonhado”, por ser presumidamente menos opressor que um frontal. Excetuando-se o fato de que a predileção não deve ser por racismo algum, subestima-se, com isso, a violência do racismo velado.34
2.2.2.1 Os efeitos do “antirracismo antirracialista”
Admite-se que aqui no Brasil existe um “racismo suave” (GUIMARÃES, 1999), percepção eufêmica e equivocada se pensadas, por exemplo, as consequências socioeconômicas. As repercussões do racismo no Brasil são de natureza vária. Dentre os variados aspectos da estrutura social atingidos há, por exemplo, o subemprego, o desemprego, a miséria, a
criminalidade, a habitação precária, educação sucateada, caso sejam vistos somente os prejuízos econômicos para a população negra. Se acrescidos, aos aspectos econômicos, os aspectos jurídicos, o quadro contaria com os poucos casos de punição por crime de racismo, bem como com a incipiência de políticas públicas efetivamente atuantes para os negros, demonstrando a parcialidade da lei no que toca as questões raciais.
Isso abala as condições de igualdade, de cidadania plena para a população negra. Consequências psíquicas e emocionais também integram o campo de ação do racismo. À população negra foi negado o direito de autoestima continuamente solapada pela ideia do branco como autenticidade e modelo estético dissimulados em justificativas como preferências pessoais e “boa aparência”. Como resposta a isso, há um contínuo processo de desconstrução de imagens negativas de si e de conscientização como forma de engajamento e militância social e racial.
E os aspectos supracitados não têm a pretensão de esgotamento de o quanto o racismo no Brasil não é “suave” por sua exiguidade. Conforme salienta Hasenbalg (1979 [2005]) apud Bento (2014, p.148), as relações raciais no Brasil trazem “em seu cerne: a negação do preconceito e da discriminação, a isenção do branco e a culpabilização dos negros”. É esse o esquema de pensamento que rege a pesquisa já convertida em anedota de que é comum se conhecer um racista, mas não se apresentar como tal.
A tese principal do livro de Ali Kamel pode ser assim colocada: O Brasil, um país miscigenado, de maioria parda, não é racista. Portanto, Kamel segue a linha de sociólogos e historiadores que, embora declaradamente se oponham ao racismo e o percebam como algo vil, o admitem como questão de menor relevância no país. A desigualdade social brasileira estaria desvinculada das questões raciais e seria produzida pela má distribuição de renda e escolaridade deficitária. Kamel (2006, p.19), a fim de reforçar sua visão, recorre à obra freyreana, afirmando que ela teria celebrado a miscigenação, algo que ele adjetiva como principal “virtude” do Brasil:
O papel de Freyre, porém, foi outro, muito mais marcante. No debate com o pensamento majoritário de então, o que Freyre fez foi resgatar a importância do negro para a construção de nossa identidade nacional, para a construção da nossa cultura, do nosso jeito de pensar, agir, falar. Ele enalteceu a figura do negro, dando a ele sua real dimensão, sua real importância. A nossa miscigenação, concluímos depois de ler Freyre, não é nossa chaga, mas a nossa principal virtude. Hoje, quando vejo o Movimento Negro depreciar Gilberto Freyre, detratando-o como a um inimigo, fico tonto. Os ataques só podem ser decorrentes de uma leitura apressada, se é que decorrem mesmo de uma leitura. (KAMEL, 2006, p. 19).
Falar em racismo como marca principal das relações raciais no Brasil seria desonesto e devastaria a estabilidade social para Kamel (2006). Segundo esse raciocínio, a união e harmonia são a realidade étnico-racial do Brasil, causa e consequência da miscigenação. Sendo assim, a atitude justa é exaltar a democracia racial apontada por Freyre, cujo trabalho teria elevado o papel do negro nessa realidade miscigenada. O contrário, seria uma iniciativa racista, um modo de produzir perturbações em uma sociedade harmônica por meio de engodos ideológicos. Tal isenção, contudo, nesse sentido, garante a perpetuação das atitudes discriminatórias em vários níveis na sociedade. Pode-se dizer que acontece uma negação da existência do racismo ou uma admissão de sua realidade incidental, ou ainda a ilusão de que ele desaparecerá se ignorado (e será reforçado se abordado) – de qualquer modo, conclui-se que não há a necessidade de agenda de discussão.
Mesmo quando há a admissão do racismo e da necessidade de uma luta contrária, isso ocorre de forma modular. Seguindo essa lógica, o antirracismo pode se configurar pelas simultâneas negação do racismo do “eu” e localização no outro. Isso pode representar que o racismo do Brasil é menor do que o de outros países, como ocorre nos Estados Unidos da América. Para sustentar essa tese, fala-se da recorrência e frontalidade de atos violentos culminando em genocídio da população negra, por exemplo.
Pode-se dizer, portanto, que ‘apressadas’, aligeiradas são as conclusões obtidas com essa visão de miscigenação no Brasil. Romantizam-se as relações inicialmente violentas entre homens colonizadores e mulheres colonizadas, abusos sexuais esses que originaram os mestiços brasileiros. Não leva em conta ainda o fato de que a ideia de um Brasil mestiço não necessariamente é positiva. Isso se dá porque o Brasil mestiço respaldou um projeto de nação que estaria atrelado à progressiva (no sentido de gradativo e de melhoramento) dominância dos genes da etnia branca sobre a negra até se obter um total embranquecimento da população. Projeto esse que persistiu até mesmo durante a importação de mão-de-obra estrangeira europeia em substituição à exploração escrava negra. Projeto esse que ainda persiste quando se pensa sobre os juízos acerca da nossa diversidade mestiça. O racismo no Brasil é associado à cor da pele vinculando a pertença social à tonalidade da tez: segundo essa lógica, quanto mais clara for a pele do indivíduo, mais cidadão ele é, chegando-se à exclusão no caso de alguns indivíduos negros.
Conceber mistura e mestiçagem como resolução de disparidades raciais e advogar pelo antirracialismo que nega a existência da circulação da noção de raça por seu embargo puramente científico deságua ainda na subnotificação da segregação institucional e formal que se apresenta equivocadamente como uma prova da harmonia das relações sociais aqui no Brasil. (GUIMARÃES, 1999). O que outorga isso é que não são reportados grandes conflitos sociais nem os efeitos abertamente segregacionistas da defesa das políticas públicas universalistas como único caminho admissível. Acreditar, portanto, na democracia racial é um modo de manter a aparência harmônica das relações raciais no Brasil enquanto, na prática, escamoteia- se continuamente o contingente negro em diversos aspectos.
Pode-se concluir então que não se trata simplesmente de eleger um racismo explícito sobre um envergonhado como acusou Kamel (2006). Mas de explicitar um racismo factual que segue se propagando como algo invisível, inexistente e nem por isso menos violento. (GUIMARÃES, 1999). Admitir, exclusivamente por critérios numéricos, excluindo as análises sociológicas, que há uma maioria parda no Brasil é um modo de omitir, a cisão social traduzida nas diferenças entre brancos e não brancos. Por sua vez, a omissão e o desacordo sobre a real natureza das relações sociais no Brasil resultam, até hoje, em um entrave para a necessidade de implantação de políticas públicas no país. Projeta-se uma nação de etnias miscigenadas, a fim de se respaldarem, precipitadamente, políticas universalistas, não políticas para grupos minoritários. O primeiro sociólogo a estabelecer a relação direta entre discriminação e desigualdade social no Brasil foi Carlos Hasenbalg ([1979] 2005). Para Hasenbalg ([1979] 2005, p.116 apud GUIMARÃES, 1999), o Brasil possui “o melhor dos mundos [...] mantendo de maneira simultânea o privilégio branco e a subordinação da população negra”. Esse autor interpreta, portanto, o conceito de democracia racial, como uma imagem propositalmente reforçada para manter as diferenças raciais, e seus questionamentos latentes na arena política.
Com isso, evita-se que a raça se constitua em um princípio de identidade coletiva e ação política, e a “eficácia da ideologia racial imperante se traduz no esvaziamento do conflito racial aberto e da articulação política da população de cor, fazendo com que os componentes racistas do sistema permaneçam incontestados, sem necessidade de apelo a um alto grau de coerção”. Dessa forma, ficam simultaneamente prostradas a articulação do povo negro e a assunção de responsabilidade do branco, já que haveria a predileção pela diluição dessas duas etnias no mestiço ideal.
Essa retirada de foco do lugar que o branco ocupa, bem como o professo desconforto em se discutir sua responsabilidade nas desigualdades raciais, longe de promover a ou retratar a boa convivência etnicorracial, reitera as desigualdades sociais e raciais. Como explica Maria Aparecida da Silva Bento (2014), o silêncio sobre esse assunto traz repercussões simbólicas e concretas, como é o legado positivo da escravatura para a etnia branca:
Há benefícios concretos e simbólicos em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco na história do Brasil. Este silêncio e cegueira permitem não prestar contas, não compensar, não indenizar os negros: no final das contas, são interesses econômicos em jogo. Por essa razão, políticas compensatórias ou de ação afirmativa são taxadas de protecionistas, cuja meta é premiar a incompetência negra etc., etc. (BENTO, 2014, p. 03).
Aproximar o estigma da cor negra ao privilégio da cor branca é importante para alcançar uma análise mais holística, portanto. Em outras palavras, deslocar o campo visual da problematização do negro para o da problematização do branco demonstra que o usufruto de privilégios também se dá pela manutenção de determinados discursos e ideologias.
Priorizar a investigação do antirracismo é justamente analisar esse lugar de isenção dos sujeitos em relação à violência racista. É um deslocamento analítico necessário, justamente porque se intenta perceber justamente a imunidade em relação ao racismo. Nesse sentido, o trabalho com os temas antirracismo e antiescravagismo visa a demarcação das identidades em relação ao negro, todavia, não o colocando como o “problema” a ser analisado, mas observando, ao mesmo tempo, elementos relacionais e circundantes. Com isso, ao mesmo tempo em que não se despreza a relação com o tema da escravidão e com o racismo respectivamente, percebe-se uma tentativa de deslocamento analítico como forma de obter um resultado mais imparcial.