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39 INDEX NOMINÜM ET RERÜM
Então a apresentação de dissimetrias sociais como naturais facilita sua aceitação. Esse “natural” pode ser lido como deslocado temporal ou espacialmente. O natural é descontextualizado, não passível de análise crítica por se apresentar como algo sem vínculos, apartado, imparcial. Também, em termos científicos, essa naturalização cristaliza hierarquias recorrendo não somente à aspectos biológicos, mas também à eugenia e à genética: evocando o “bom nascimento”, o “bom sangue” e a “boa seleção de genes”:
“[...]” há diversas maneiras de naturalizar as hierarquias sociais. O termo “natural”, empregado em sentido amplo, significa uma ordem a-histórica ou trans-histórica, isenta de interesses contingentes e particulares, representando apenas atributos gerais da espécie humana ou das divindades.
A ordem natural presumida, portanto, pode ter uma justificativa teológica (origem divina); científica (endodeterminada); ou cultural (necessidade histórica – como no caso de evolucionistas que justifiquem a subordinação de uma espécie humana por outra).” (GUIMARÃES, 1999, p. 32).
Assim determinadas justificativas se assemelham a esse tipo de esquema de raciocínio, como aquelas que ligam a subordinação escrava à natureza do negro, tido como intrinsecamente inábil ou que fundamentam a subjugação feminina à natural posição inferior da mulher. Nesse tocante, é pertinente a análise de Antônio Sérgio Alfredo Guimarães:
Toda e qualquer hierarquia social... faz apelo a uma ordem natural. [...] A ordem econômica, por exemplo, pode ser justificada como sendo um produto de virtudes individuais (os pobres são pobres porque lhes faltam sentimentos nobres, virtudes e valores do ethos capitalista). (GUIMARÃES, 1999, p. 06).
Esse uso linguístico da cor, naturalizado porque corrente e porque faz apelo a essa ordem natural das coisas se alia a estereotipia. O estereótipo, nesse caso, forma-se tanto mediante a antecipação de imagens quanto a cristalização de ideologias acerca do negro como a questão da promiscuidade, da violência e da indolência. A cor em si concorre para a formação de um ethos para outrem, anterior à formulação de qualquer texto/discurso pelo interlocutor e dificilmente atenuado pro fatores de ordem extracromatológica, já que, para certos sujeitos, a associação de determinadas ideias a corpos específicos são quase instantâneas Justifica-se então uma corrente de estudos antirracistas concorda que a negação da conceptualização científica, biológica de raça não apaga os resquícios das cisões nas relações interindividuais e cotidianas – concretizando a raça empiricamente.
Enfrenta-se, com isso, um paradoxo: o reconhecimento do conceito de raça é necessário para o combate deste mesmo conceito. Não importa a essa corrente antirracista escamotear o racismo empírico pois, conforme já visto neste capítulo, isso desemboca em uma estratégia racista. Camuflar a existência da discriminação racial abre margem para medidas equivocadas e contraproducentes que conduzem ao erro da análise do problema social por compreendê-lo como tensão de classe, não de cor.
2.2.6 “Eu não sou racista”: subjetivação dos antirracismos
“Eu não sou racista” é o que assevera, em agosto de 2014, por sua vez, a porto-alegrense Patrícia Moreira53, uma mulher, jovem torcedora do Grêmio, com sua face contrita, voz embargada pelo pranto, em uma entrevista coletiva. Ladeada por um advogado que precocemente lhe toma a palavra, ela limita sua declaração a uma afirmativa como autodefesa: “De coração, eu não sou racista nada [prantos], aquela palavra macaco não foi racismo da minha parte... não teve intenção racista... foi no calor do jogo, eu não queria nunca prejudicar o Grêmio, eu amo o Grêmio”54.
Não obstante a exiguidade de palavras, a argumentação está contida no todo verbo-visual. Imageticamente, tem-se uma jovem, cuja aparência emana os sentidos construídos de fragilidade por ser jovem e mulher, na posição vulnerável e indefesa respaldada em uma confissão verbal. O enunciado aponta para o equívoco, para a afirmação de que a declaração teria sido não intencional, tendo utilizado uma palavra mal colocada. No calor das emoções. E só. O ethos construído então é o de uma torcedora levada pelas emoções do momento a cometer
53 Toma-se Patrícia Moreira pelo destaque e repercussão midiática do caso. Não se ignora contudo que, no referido
acontecimento, havia outros torcedores envolvidos, encobertos pelo anonimato e por uma investigação não exitosa em identificá-los, o que não os isenta da prática igualmente violenta. Registre-se ainda que embora, tenham sido apontados, mais tarde, como infratores, os torcedores Eder Braga, Fernando Ascal e Ricardo Rychter não sofreram linchamento público. Foi Patrícia Moreira quem direta e imediatamente sofreu sanções, até mesmo desproporcionais e contraproducentes da sociedade. Por exemplo, ela teve a casa onde morou a vida toda incendiada e alega que sofreu ameaças contra sua vida e de estupro após larga repercussão do episódio. Não se pode deixar de comentar a dimensão misógina agindo com a justificativa antirracista nesses casos. O Grêmio foi expulso pela 3ª Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva da Copa do Brasil em 2014 devido ao episódio. Desde 2016, Patrícia Moreira recuperou sua vida profissional como assistente terceirizada de um Centro Médico e Odontológico da Brigada Militar. (Torcedora do Grêmio que insultou Aranha em 2014
vive no anonimato (23/10/2017). Disponível em: <https://esportes.r7.com/futebol/torcedora-do-gremio-que-
insultou-aranha-em-2014-vive-no-anonimato-23102017>. Acesso em: 20 dez. 2017).
54 Entrevista de Patrícia Moreira no programa Encontro com Fátima Bernardes (9 de setembro de 2014).
uma gafe. Sua defesa se dá pela negativa do racismo, pela assunção de uma postura não racista neste momento.
Levanta-se, no entanto, a questão da subjetividade, a partir da colocação dos pronomes “eu” e “minha” no enunciado de Patrícia Moreira acima. Esses pronomes representam a voz de quem efetiva e literalmente organiza o texto. Quando ela dissocia o racismo de seu caráter pessoal, afirmando-se uma mera torcedora passional e, portanto, pouco consequente, isso não impede a análise de que a subjetividade do texto também pode escapar às intenções individuais.
Pode-se afirmar isso tendo em vista que a AD trabalha com o descentramento, a cisão e o efeito- sujeito: o sujeito é ilusoriamente um centro originador de enunciados, com sentidos não raro conflitantes e até mesmo contraditórios sendo um efeito-sujeito enunciativo: Pêcheux ([1975] 1997a, p. 166, grifo do autor) diz que os indivíduos são ‘interpelados’, “sem se dar conta, e tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade a ocupar o seu lugar” na dinâmica social. O relacionamento do sujeito com as FDs, a alocação mais forte em uma FD específica, bem como a relação com o pré-construído e com o interdiscurso é o corrobora para a formação da identidade antirracista da torcedora do Grêmio. (CHARAUDEAU E MAINGUENEAU, 2008, p.266, 267). O já-dito, a memória discursiva, possibilita todo o dizer:
De acordo com este conceito, as pessoas são filiadas a um saber discursivo que não se aprende, mas que produz seus efeitos por intermédio da ideologia e do inconsciente. O interdiscurso é articulado ao complexo de formações ideológicas representadas no discurso pelas formações discursivas: algo significa antes, em algum lugar e independentemente. As formações discursivas são aquilo que o sujeito pode e deve dizer em situação dada, em uma conjuntura dada. O dizer está, pois, ligado às suas condições de produção. Há um vínculo constitutivo ligando o dizer com a sua exterioridade.
(ORLANDI, 2005, p.11).
As FDs, no entanto, “não constituem a maneira de ser dos indivíduos”. (PÊCHEUX ([1975] 1997a, p. 166). É possível, portanto, compreender o descentramento identitário de Patrícia Moreira. Há uma tensão entre o sujeito que tem a impressão de ser a fonte de seu dizer e o sujeito que reproduz valores históricos fissurando os discursos. Ela prossegue com sua alegação de sua não intencionalidade racista, verbalizando sua inocência no caso ela segue, agora em entrevista privada. Em uma situação de fala mais controlada, cujo preparo favorece um maior
monitoramento do que é dito, ela concede as seguintes declarações no dia 14 de setembro de 2014 ao Programa Domingo Legal55 do Sistema Brasileiro de Televisão – SBT56:
Celso Portioli: Quando você chamou o goleiro Aranha de “macaco” qual era
sua intenção?
Patrícia Moreira: Não era ofendê-lo, era para... deixar ele... pelo menos para
o Grêmio conseguir fazer um gol... eu fui junto com a torcida, não fui só eu.
CP: Você estava fazendo parte coro, não? PM: Sim.
CP: A intenção sua não era ofendê-lo? PM: Não, de jeito nenhum.
CP: Bom, depois dessa repercussão toda que teve o caso em todo Brasil, você
passou a encarar de outra maneira as ofensas ditas a jogadores, a... às torcidas?
PM: Sim.
CP: Como você está encarando isso a partir de agora?
PM: A gente tem de respeitar as pessoas, não importa o lugar onde a gente tá,
se é num estádio, se é no trânsito, a gente tem de respeitar... [...]
PM: Eu quero dar um abraço nele, para mostrar para ele que eu não sou uma
pessoa ruim. Eu sei que não é justo do [sic] que eu falei, mas perdão, ele sabe como foi um jogo de futebol [...] mas perdão do fundo do meu coração.
Apesar de responder negativamente à pergunta sobre ser sua a intenção de ofender, acontece que o enunciado “Macaco!”, como foi posto, escapa à dimensão exclusivamente intencional. Enquanto sujeito que organiza a fala, tem-se a ilusão de controle sobre a linguagem que submerge ideologias impregnadas no inconsciente coletivo. Envolve perceber, para tanto, que, independente da intenção ou da não intenção de ofensa, o enunciado em questão foi produzido, por vários membros de uma torcida, como resposta à insatisfação ao desempenho de um jogador negro. A seleção verbal apresentada por um sujeito pode gerar uma incompatibilidade entre realidade expressa pelo sujeito responsável pelo dizer e a realidade percebida pela instância interlocutiva já que locutor e interlocutor podem estar relacionados a diferentes possibilidades semânticas de suas respectivas FDs.
Tanto o direcionamento a um jogador negro, quanto o fato de se dar no âmbito do futebol, não podem ser ignorados. Analisando-se as condições de produção, percebe-se que o negro, como ocorreu no convívio social em geral, teve uma inclusão difícil na história do futebol nacional.
55 SBT Domingo Legal Portiolli faz entrevista exclusiva com a torcedora do Grêmio (14 de setembro de 2014).
Disponível em:< https://www.youtube.com/watch?v=VU-28QS2KoU. > Acesso em: 16 de setembro de 2014.
56 Transcrição própria. Um comentário adicional vai para a preparação e condução da entrevista de cerca de 30
minutos que, embora, na chamada do programa dominical apresentado por Celso Portioli, tenha falado sobre a preocupação com os episódios racistas, voltou-se para perguntas, majoritariamente, sobre os danos sofridos pela agressora, bem como pelos seus sentimentos e os de sua família em relação a isso.
Inicialmente os negros não eram aceitos por se questionar sua capacidade esportiva, mérito pessoal, atentando-se à sua dignidade e à dos clubes de futebol que os contratavam.57
Embora hoje já se tenha um número expressivo de negros atuantes nos grandes clubes de futebol do Brasil, as ofensivas racistas não cessaram: nem no que diz respeito a atos de injúria como o aqui analisado, nem no que concerne à representatividade estrutural dos negros, que até o ano de 2018 não figuravam na presidência desses mesmos clubes, sendo sub-representado enquanto treinadores58 – o que reforça a ainda atual desigualdade já que o negro é contratado
para compor mão-de-obra “braçal”, não intelectual no contexto do futebol brasileiro .
Adicionalmente, o episódio do jogo do Grêmio, veio na esteira da campanha online e hashtag homônima #saynotoracism59, promovidas pela Federação Interacional de Futebol – Fifa quando da realização da Copa do Mundo de Futebol do mesmo ano, motivada e uma recorrência de episódios racistas contra negros tanto dentro do Brasil quanto internacionalmente.
À parte dessa minimização60 do ocorrido, o goleiro Mário Lúcio Duarte Costa (mais conhecido como Aranha), para quem foi apontado o “Macaco!” uníssono da torcida61, declarou: “Como
ser humano, eu precisava do pedido dela, [aceito] a desculpa dela, o que não quer dizer que eu não quero que a justiça seja feita”62. Em uma clara diferenciação entre o entendimento das devidas repercussões emocionais e jurídicas do caso, para ele ofensivo e criminoso.
O enunciado “Macaco!” não pode ser visto como termo transparente. Até porque o signo “macaco” não se restringe ao significado atual e dicionarizado. Não é meramente designativo,
57 Embora o Vasco da Gama tenha como marca a aceitação de longa data de jogadores negros, o primeiro time a
fazer isso, em 1900, foi o Ponte Preta, que sintomaticamente, teria ganhado o apelido de “macaca”. Disponível em: <http://www.observatorioracialfutebol.com.br/historias/clubes-pioneiros-na-insercao-do-jogador-negro-no- futebol-brasileiro/>. Acesso em: 20 nov. 2018.
58 Cf. a matéria que apontou que nenhum dos presidentes dos 40 clubes das séries A e B de então era negro.
Disponível em < https://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/pesquisa-aponta-ausencia-de- presidentes-negros-nos-clubes-das-series-a-e-b.ghtml >. Acesso em: 22 nov. 2017. Essa situação persistiu em 2018 conforme matéria do Correio Brasiliense para o Dia da Consciência Negra de 2018. Disponível em: <https://www.df.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/futebolnacional/2018/11/20/noticia_futebol_nacional ,63439/series-a-e-b-nenhum-treinador-negro.shtml>. Acesso em: 20 nov. 2018.
59 Traduzida como “Diga não ao racismo!”.
60 Em muitos casos, as queixas às agressões injuriosas racistas são compreendidas como de menor importância ou
como oportunismo sensacionalista. Cf. Apêndice A – “Mimimi”, Modos de isenção nas relações raciais.
61 O goleiro Aranha, em entrevista concedida no dia do jogo, 28/08/2014, reportada pelo mesmo programa Domingo Legal com Celso Portioli, afirma ainda ter ouvido antes do coro “Macaco!” da torcida em geral “preto fedido, seu preto, bando de preto”.
62 Trecho de entrevista coletiva reportado na mesma edição do programa televisivo Encontro com Fátima Bernardes.
isento de juízos prejudiciais e neutro como declarou a torcedora gremista assessorada por seu advogado. Sua opacidade sígnica permite um fluxo conflituoso e atávico de noções. “Macaco!” refrata a realidade direcionando para outros sentidos, outros pontos de vista, outros locutores. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV [1929] 2009). Para Pêcheux ([1975] 1997a, p. 169):
Queremos dizer que, para nós, a produção do sentido é estritamente indissociável da relação de paráfrase entre sequências tais que a família parafrástica destas sequências constitui o que se poderia chamar a “matriz do sentido”.
[...] afirmamos que o “sentido” de uma sequência só é materialmente concebível na medida em que se concebe esta sequência como pertencente necessariamente a esta ou aquela formação discursiva (o que explica, de passagem, que ela possa ter vários sentidos).
A palavra “macaco” aqui modifica seu funcionamento como uma paráfrase: é trazida com força enunciativa como signo ideológico – é a marca convencional que aponta a cristalização de hierarquização histórica e ideológica na língua enquanto “campo” ou “arena” social. (BAKHTIN, [1952-3]1992). A leitura de José Luiz Fiorin (2015), assim elucida este ponto:
Se a sociedade é dividida em grupos sociais com interesses divergentes então os discursos são sempre os espaços privilegiados de luta entre vozes sociais o que significa que são precipuamente o lugar da contradição ou seja, da argumentação pois a base de toda dialética é a exposição de uma tese e sua refutação (FIORIN, 2015, p. 06).
Os discursos, como receptáculos das vozes sociais, das diferenças de classe, abrigam, consequentemente, a divergência também. A palavra, como elemento da língua que materializa os discursos, não pode ser entendida como pacífica, portanto. Isso vale também para “macaco”, palavra convertida em enunciado no episódio em questão, que comporta uma ainda latente cadeia semântica, de difícil desconstrução, já que ganhou reforço pelos usos linguísticos de gerações sucessivas, e, consequentemente, de lenta ressignificação.
O goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, por sua vez, em uma atitude contestatória, utiliza-se do mesmo gênero discursivo-textual entrevista coletiva, que tem como característica a simultaneidade entre produção e divulgação do texto, obtendo assim maior alcance e atenção públicos em um menor tempo. Faz isso como forma de reversão de posições entre vítima e algoz, dominante e dominado da situação, buscando uma reparação. Ele formula então enunciados em contraposição aos enunciados da torcedora gremista.
Sobre as características do enunciado, nas palavras de Bakhtin: “Por mais monológico que seja um enunciado [...] ele não pode deixar de ser também, em certo grau uma resposta ao que já foi dito [...]” (BAKHTIN, [1952-3]1992, p. 317). Quando trata da caracterização e delimitação do que constituiria um enunciado, Bakhtin, contrapõe-se à visão monológica de língua como expressão e formação do pensamento, do ponto de vista de um falante, sem a necessária participação do outro e de um ouvinte ora não previsto, ora passivo, justificável somente no âmbito da análise de uma frase/oração. Ele depreende que o modo de construção do enunciado como dialógico. Sendo assim, um enunciado seria resposta a outro(s) enunciado(s). Pode ser uma resposta imediata, como foi o caso da resposta do goleiro à torcedora, mas pode ser também um diálogo em sentido amplo.
Assim como em um diálogo cotidiano são previstas respostas, nos gêneros discursivos, vistos como um diálogo lato sensu, subentende-se uma compreensão responsiva ativa. Desse modo, considerando-se a ideia de diálogo com enunciados recuados no tempo, produzidos anteriormente, pode-se pensar que um enunciado atual presentifica resquícios ou “mais ínfimos matizes” da voz de uma cadeia enunciativa:
[...] o enunciado é repleto de reações-resposta a outros enunciados numa dada esfera da comunicação verbal. Estas reações assumem formas variáveis: podemos introduzir diretamente o enunciado alheio no contexto de nosso próprio enunciado, podemos introduzir-lhe somente palavras isoladas ou orações que então figuram nele a título de enunciado completo. Nesses casos, o enunciado completou a palavra, tomados isoladamente, podem conservar sua alteridade na expressão, ou então ser modificados [...] Por mais monológico que seja um enunciado [...] ele não pode deixa de ser também, em certo grau uma resposta ao que já foi dito [...] A resposta transparecerá nas tonalidades do sentido, da expressividade, do estilo, nos mais ínfimos matizes da composição. (BAKHTIN, [1952-3]1992, p.316-7).
O enunciado é emoldurado pelas posturas responsivas de cada sujeito que fala/escreve tudo o que pretendia dizer em um dado momento e sob dadas condições. Portanto, podem-se perceber os gêneros como réplicas de um diálogo. “O enunciado está repleto de ecos e lembranças de outros enunciados aos quais está vinculado no interior de uma esfera comum da comunicação verbal”.(BAKHTIN, [1952-3]1992, p. 317, grifo nosso). Desse modo, Patrícia Moreira fez “parte do coro” para além do estádio de futebol, enfeixando numa declaração as disposições racistas históricas.
Sendo assim, no diálogo lato sensu entre enunciado, os atuais seriam “uma resposta ao que já foi dito sobre o mesmo objeto” algo que pode ser pensado também para enunciados a serem ainda gerados, conforme definem Charaudeau e Maingueneau (2008):
dialogismo – Conceito emprestado, pela Análise do Discurso, ao Círculo de
Bakhtin e que se refere às relações que todo enunciado mantém com os
enunciados produzidos anteriormente, bem como os enunciados futuros que poderão os destinatários produzirem [...] (grifo nosso.)
Esse não era, portanto, um assunto interpessoal. Não seria um encontro a dois, como ecoado pelo pedido de Patrícia Moreira, que pacificaria o ocorrido. Também pode não ter tido uma motivação pessoal, no sentido de intencional, subjetivamente formulada. O “Macaco!” por Patrícia desferido presentifica vozes outras, que, recuadas a um outro recorte temporal, tentavam aproximar negros de elementos não humanos: coisas ou animais. De um tempo em que macaco, visto ora como não humano ou pré-humano, enquadrava os negros como sub- humanos. Fazendo vir à tona, via linguagem, a ideologia antes alocada inconsciente.
Em um movimento complementar ao de não responsabilização, há o movimento de afirmação do antirracismo. Patrícia Moreira, anuncia seus projetos na mesma entrevista do Domingo
Legal: “Eu quero, sinceramente, poder ajudar numa luta contra o racismo, não só dentro do
estádio, mas na rua, na vida social das pessoas. Como eu fiquei marcada no racismo, então eu quero ajudar numa luta dessas.” O plano de um ativismo social antirracista vem em decorrência não de uma assunção do enquadramento injurioso, mas por ela ter ficado marcada, externamente, unilateralmente e – segundo a totalidade da entrevista permite afirmar – injustamente.