CHAPITRE 6 : CONCLUSION
6.3 Travaux futurs
A epígrafe em destaque é um entre dezenas de depoimentos que assinalam a experiência autodidata dos militantes libertários. Nela, Jaime Cubero rememorava passagens de sua militância no Centro de Cultura Social em São Paulo, afirmando a experiência de procurar o conhecimento como marca indelével no militante anarquista. A leitura tem centralidade na autoformação dos militantes libertários. Entre as variadas estratégias de difusão dos ideais, atravessando épocas e conjunturas diversas, repousou muitas vezes nos livros o estímulo para a busca de uma nova maneira de compreender o mundo ao redor, de questionar as organizações sociais vigentes e pugnar pela transformação baseada no compromisso ético do anarquismo.
Destacamos a experiência do livro e da leitura mediando o encontro com a experiência social do anarquismo. Muitos encontrariam (e não mais abandonariam) o anarquismo pela primeira vez na leitura de um ―A Conquista do Pão‖, de Piotr Kropotkin, ou em algum folheto que cruzara o Atlântico trazendo ―Entre Camponeses‖ ou ―No Café‖, nos quais Errico Malatesta, em linguagem coloquial e explicação dialógica simples, concitava os trabalhadores
aos princípios do socialismo libertário... Uma leitura, um livro, um autor podem figurar como estímulo inicial, os responsáveis diretos pela adesão às ideias ácratas; por desencadear, enfim, o ―despertar‖ militante.
Herdeiros de um período do associativismo dos trabalhadores em que algumas das mais notáveis características foram a busca permanente de aperfeiçoamento intelectual, o aumento da instrução e a ampliação da fração de leitores entre as camadas populares (HOBSBAWM, 1988, p. 364), o fascínio exercido pelos livros portadores das ―novas idéias‖ e as práticas de leituras por meio das quais seus conteúdos tornaram-se acessíveis lhes atravessam invariavelmente os relatos de memória. E isto se explica também em razão das experiências vividas na construção do ser militante. No âmbito da cultura associativa, o jornal e o livro são elementos de coesão, de vivência em coletivos, de formação de sensibilidades nos vários modos da solidariedade e do apoio mútuo.
Um dos mais belos relatos sobre o autodidatismo, o ―desejo de saber‖ e a fascinação ante o descortinar de um novo mundo pela leitura, devemos à anarquista Maria Lacerda de Moura, que anotou, à maneira de prefácio, em seu livro Renovação, de 1919:
A razão deste livro é simples, Estudei sozinha, Eu mesma me indicava os autores que devia ler. Conheci-os, uns através dos outros. E lia tudo: livros de filosofia, lógica, pedagogia, psicologia, moral... procurando interpretar [...]
Páginas e páginas eu devorava avidamente. E minh‘alma se extasiava ante tantas maravilhas e sentia turbamentos, arroubos indescritíveis. Quando julgava interpretar uma página ardente de Rousseau, um pensamento excelso de Platão, uma teoria de Spencer, quando sentia a filosofia de Guerra Junqueiro, o amor de Tolstoi ou de Kropotkin, a poesia de Goethe, – as lágrimas quase me banhavam o rosto, e prosseguia enlevada.
Conheci a fascinação deslumbrada das primeiras leituras. [...] eu percorria as folhas da história e vivi mergulhada em todas as épocas. [...] Uma sede intensa de saber apoderou-se inteiramente de mim. [...] Compreendi a grande necessidade de educar o meu espírito, aprendi a ler, a armazenar os conhecimentos adquiridos, a arrostar com as dificuldades que apareciam a cada momento. [...] E tive pena das mulheres que não lêem. [...]
Uma necessidade imperiosa de meu ser mandava que eu mostrasse à mulher patrícia que, aqui mesmo onde vivemos, há um mundo novo, desconhecido de nós mulheres, um mundo de felicidades estranhas, indefinidas, delicadas, – o mundo dos livros bons que nos ensinam a viver vida intensa, a ser útil, a derramar a flux – idéias novas, desejos de uma existência de trabalho profícuo, atraente (MOURA, 1919, p. 11–12).
Nas lembranças de Jaime Cubero, militante do Centro de Cultura Social de São Paulo, o ―desejo de saber‖ implicava subtrair das poucas horas que o trabalho deixava ao descanso diário o tempo da leitura e discussão das obras que lhe formavam a consciência libertária. Uma ânsia de leitura e informação, que supera os obstáculos de natureza material na busca do conhecimento no qual se podem basear as transformações sociais:
Quando eu tinha uns 15 anos, nós resolvemos (eu e meu cunhado) estudar anarquismo juntos, a fazer leituras comentadas. O irmão dele também era sapateiro e trabalhava na banquinha de sapateiro. Eu saía da fábrica e ia o mais rápido possível para casa, jantava e ia pra a casa dele. Tinha um quartinho onde ele trabalhava, no fundo do quintal, e ali nós ficávamos lendo. Lia um pouco, cada um comentando a leitura. Eu me lembro, aliás uma coisa que eu tenho citado em vários lugares, era o livro Manolín, edição de 1910. É a história de uma utopia realizada, de uma sociedade que camponeses formaram na Espanha. Havia muitos livros de propaganda na Espanha. Este livro justamente descreve uma comunidade anarquista e como eles vão resolvendo todos os problemas e aumentando a comunidade. Uma luta, uma prática direta das idéias, criava-se naquela época uma sociedade libertária. Praticamente, comecei a entrar no anarquismo por aí. O pai do meu cunhado tinha trazido da Espanha uma biblioteca. É uma coisa curiosa, no começo do século todos os militantes do movimento faziam sua pequena biblioteca em casa, tinham seus livros, colecionavam seus jornais, revistas (CUBERO In: JEREMIAS et al., 2002, p. 110–111).
O fragmento transcrito remete a questões atinentes à história social do livro e da leitura. Destaca o ambiente modesto do ofício, o ―quartinho de fundo de quintal‖, prestando-se ao encontro das primeiras leituras e experiências de ensino mútuo, pela leitura comentada. É necessário atentar ao esforço da leitura nessas condições da existência material; saídos de extensa jornada de trabalho, ia-se ―o mais rápido o possível‖ em busca das leituras que informavam sobre o ideal libertário. Esse tipo de atitude exemplifica bem o processo de autoformação de muitos militantes, frequentemente dificultado pela necessidade de cedo integrar o mundo do trabalho.
Estudando o caso argentino, enfocando memórias de militantes libertários autodidatas até a década de 1940, Nicolás Quiroga identificou certas invocações comuns nesses relatos, em especial as carências econômicas (falta de tempo, de material de leitura apropriado, de iluminação, de espaço). Assim, a aprendizagem se torna, muitas vezes, uma missão, e a engenhosidade e a tenacidade ajudam a superar limitações. Quiroga a chamou ―leitura bulímica‖,
identificando-a a uma compulsão quase física, da voracidade de digerir leituras, como algo que passa da simples atividade de tempo livre a uma ―profissão de fé‖, uma prática iniciática, exacerbada tanto mais naqueles que lograram desempenhar algum papel de protagonismo político (QUIROGA, 2004). É à ligação a um programa e a uma práxis que se pode creditar a ênfase poética com que o anarquista platense Pascual Vuotto rememora suas leituras: ―No primeiro dia de trabalho, às 12 horas, o chefe me mandou ir almoçar. Esse almoço consistiu em ler algumas páginas de um livro. Regressei trazendo, em vez de um palito de dentes na boca, um dardo no coração‖ (VUOTTO apud QUIROGA, 2004, p. 8).
Assim se passava com Jaime Cubero. Nas poucas horas livres do dia, o alimento da alma: os livros. Mas não somente a leitura; práticas específicas de potenciá-la e torná-la instrumento de sociabilidade: ―Lia um pouco cada um comentando a leitura‖. A compreensão das obras, das ideias que transmitia, era também coletiva. Na memória do autodidata, o lugar certo das primeiras leituras: a ―leyenda popular Manolín‖, novela socialista escrita por Estevan Beltrán Morales, como a porta de entrada para as reflexões sobre a questão social. O Manolín, note-se, chega-lhe às mãos por meio do diligente esforço de autoformação na constituição de bibliotecas militantes, com esforço organizadas e mantidas. O anarquismo entrava na pauta de leituras e discussões de Jaime, seu irmão Francisco e Liberto Lemos, nos livros que o pai deste último, o anticlerical José Lemos, trouxera na bagagem quando deixara a Espanha para buscar melhor sorte em terras brasileiras. A convicção na importância da instrução que redime fazia dos livros companheiros inseparáveis.
Ilustração 21 – Manolín, Córdoba, Imprensa Moderna, 5ª edição, 1913.
A invocação de Cubero ao papel da biblioteca compartilhada no despertar militante e no esforço de autoformação possibilita perceber certas práticas de leitura. Os acervos militantes encontravam-se em permanente movimentação. Entre os libertários dificilmente teria espaço a leitura individual, de acervos privados, com os livros retornando ao repouso das prateleiras depois de concluída a leitura. A aspiração maior da literatura libertária era lograr a mais larga circulação. Roger Chartier já lembrara que a posse privada do livro não dá a medida da potencialidade do acesso à leitura, uma vez que as práticas de leitura coletivas e participadas desempenham papel relevante na difusão do impresso:
[...] a posse privada do livro não apenas é precariamente registrada por inventários incompletos e apressados, mas ainda não constitui o único acesso possível ao impresso, que pode ser consultado em biblioteca ou em um gabinete de leitura, alugado em uma livraria, emprestado de um amigo, decifrado em comum na rua ou em um ateliê, lido em voz alta em público ou em reunião (CHARTIER, 2001, p. 77).
A biblioteca, o gabinete de leituras, a redação de um jornal proporcionam o aprendizado coletivo, pela troca de experiências e de informações, pelo debate e discussão do que se lê, pelas indicações de novos autores, em vista do aprofundamento de determinado tema. ―O acesso à cultura letrada‖, afirma Deaecto, ―consiste, muitas vezes, em práticas coletivas,
nas quais os meios de sociabilidade são determinantes para sua difusão‖ (DEAECTO, 2011, p. 35). É a esse movimento de aprendizagem coletiva que nos remetem as memórias de Luce Fabbri, relembrando a experiência de seu pai, o anarquista italiano Luigi Fabbri, como administrador de uma biblioteca pública na municipalidade de Bolonha. Fabbri, professor do ensino primário, fora encarregado de organizar e coordenar uma biblioteca noturna para operários, nos anos finais da década de 1910, ―momento de grande fermento pela Revolução Russa‖, conta-nos Luce. A tônica do autodidatismo e do caráter coletivo do aprendizado sobressai:
Todos os operários da localidade chegavam e pagavam livros, discutiam, falavam do que tinham lido, perguntavam a meu pai; alguns pediam conselho ao meu pai sobre as leituras... As conversas giravam muito em torno dos livros, ―gostei‖, ―não entendi nada‖... Então, meu pai sugeria ler este que era mais fácil, fazia um pouco um trabalho de ensino. Quando havia interesse por um determinado tema, ele comprava mais livro, podia ser de sociologia e história, era o que mais interessava às pessoas. Outros queriam romances, ele indicava autores e depois discutiam quando devolviam os livros; às vezes, saíam discussões, intervinham outros, ―eu gostei‖, ―eu não‖, ―por que gostou?‖ (FABBRI apud RAGO, 2001, p. 220)
Nos ateneus, sindicatos, círculos de estudos, grêmios e centros de cultura, o lugar da biblioteca era certo. Nesses ambientes, contribuíam para a formação política dos militantes, orientavam a formulação das ideias de propaganda e agitação e concorreram para a ―elevação moral‖ dos trabalhadores. Além destas, as bibliotecas particulares eram, no mais das vezes, compartilhadas com amigos e companheiros de luta, permitindo enriquecer os acervos de determinados círculos de estudo, como destacou Menezes Tello em estudo a propósito dos lugares de educação, leitura e formação política dos intelectuais revolucionários do proletariado (MENEZES TELLO, 2009/2010, p. 58).
Durante os anos 1930, a biblioteca do Centro de Cultura Social de São Paulo confundia-se com o acervo particular formado por Edgard Leuenroth. Este, além de livros do próprio Edgard, era constituído por livros oriundos de outras coleções particulares, como a do socialista Antonio Piccarolo ou do anarquista Rodolpho Felippe, além de outros militantes. Livros anteriormente pertencentes à Biblioteca Social A Inovadora, que editou e difundiu a literatura libertária nos anos 1920; e à União dos Operários em
Fábricas de Tecidos também compunham a coleção, indicando o intercâmbio de livros entre militantes e associações (PARRA, 2014, p. 141).
Entretanto, se não é possível contar com uma biblioteca que ofereça amparo à busca de conhecimento que Cubero considerava um imperativo ético e moral dos militantes anarquistas, competia àqueles ciosos de aprofundar os conhecimentos sobre as ―questões sociais‖ a busca de informação e leituras nas quais se pudesse divisar solução às ―incongruências‖ da sociedade. Não raro essa descoberta poderia vir na surpresa de um achado, porta de entrada para o interminável caminho da instrução, como no relato entusiasmado de Raul Vital, a propósito de seu ―encontro‖ com o anarquismo:
Eis quando em 1946, em um ‗cebo‘, em busca de livros mais baratos, deparei casualmente com um volume carcomido pelas traças, da autoria de Hamon, ‗Socialismo e Anarquismo‘. Peguei-o para satisfazer a minha curiosidade intelectual. Foi como se um raio de luz repentinamente iluminasse a minha alma às escuras! Senti o impacto de uma emoção idêntico ao garimpeiro que passa bôa parte da vida buscando um diamante. Compreendi, de relance, que a doutrina anarquista continha o ideal humano mais puro, mais elevado, mais digno e mais humano (Ação Direta, jun. 1958).
O encontro com a obra clássica de Agustin Hamon, publicada em 1910 em Lisboa pela Livraria Internacional, permitiu a Vital descortinar diante de seus olhos perspectivas novas de ―ler o mundo‖, de interpretar a realidade a partir de premissas nas quais identificou ―elevados ideais‖ e que, a partir de então, ganharam a sua adesão e entusiasmo como divulgador. A dimensão dessa descoberta podemos vislumbrar no potente simbolismo da metáfora ―luz- sombra‖, que reapareceria, não por acaso, no ano seguinte, quando Vital punha a circular o jornal O Archote, escudado pela alegoria do facho de luz do ideal a dissipar as trevas da ignorância.
Sebos e livrarias, então, entram definitivamente no roteiro da cidade em busca de novos achados. A descoberta apenas começara e exigiria, a partir de então, incessante busca pelo conhecimento, driblando dificuldades que iam das falta de recursos materiais ao pouco volume de obras nas quais se pudesse divisar os princípios do anarquismo, muitas vezes censuradas e apreendidas durante os períodos ditatoriais:
[...] Daí por diante, comecei a procurar obras sôbre o assunto. Perguntava, interessado, aos livreiros: – Que tem o Sr. aí sobre
Anarquismo? Raro era o que dispunha de um ou de outro volume. Informavam-me, então, que estavam todas esgotadas. Circulavam lá uma ou outra escapadas às apreensões policiais, verificadas poucos anos antes, pelo governo ditatorial, para conter a onda arrasadora do pensamento revolucionário do país. E ninguém ousava imprimir, visto os grandes prejuízos sofridos pelas confiscações. Ademais, receavam perseguições e prisões.
Raul Vital, Reflexões de um Anarquista. (Ação Direta, jun. 1958).
À carência de acesso às obras de teor libertário – esgotadas, perseguidas, censuradas, confiscadas – somava-se a necessidade de ―ganhar a vida‖ – que cedo impedia a frequência nos bancos escolares – e os parcos recursos que impunham a busca pelos livros cujos preços não fossem proibitivos. Vários dos militantes autodidatas não tiveram escolaridade regular; o empenho pessoal e o compromisso militante explicam a procura do conhecimento.
A leitura, qualquer que fosse a sua natureza, já significava, por si, ruptura com o cotidiano do trabalhador e das camadas populares, pelo que representava de distanciamento não apenas dos hábitos da cultura oral, mas inclusive do que usualmente consideravam-se práticas de lazer, além de constituir um ato de superação em relação aos obstáculos que as condições de vida impunham. Foi assim que Daniel Roche viu a difusão da leitura entre as camadas populares parisienses durante o século XVIII, quando impressos e novos modos de leitura, passaram a fazer parte do cotidiano popular, por meio da profusão de jornais, cartazes, literatura popular, tabuletas de rua, manuais e almanaques:
O povo parisiense muda, e sem dúvida a literatura tem o seu papel nessa mudança. Todavia, mais que o teor dos escritos que ele consegue ler (podem ser alienantes, podem ser libertadores), é a sua própria difusão que, acelerando-se, constitui um fermento de mudança. Primeiro porque comprar livros ou brochuras supõe, sem ser algo fora do comum, um gesto financeiro; depois porque ler exige um esforço físico, é uma conquista sobre as más condições de moradia, iluminação, promiscuidade, sobre a dificuldade de decifrar os caracteres mal impressos; é, enfim, uma ruptura com os hábitos orais e as práticas correntes de lazer. [...] (ROCHE, 2010, p. 298).
Mudar a vida, romper com a realidade de uma sociedade ―radicalmente heterônoma‖, perseguindo o anseio de autonomia, como refere Muller, animou, desde muito, a luta dos trabalhadores pela instrução redentora. É luta permanente, que supera limitações e obstáculos para recusar, não
somente a miséria e as péssimas condições de trabalho, mas, sobretudo, o indiferentismo e a impotência em relação às forças de dominação da sociedade.
Tornar isso possível é o sonho desses indivíduos que compõem o mundo do trabalho, e se inicia com o sequestro de horas de sono, de horas de descanso após um dia de um trabalho que não os estimula a pensar, em encontros com companheiros para ler, escrever, fundar jornais operários. [...] Noites subtraídas do descanso, principalmente noites de estudo e de embriaguez pelo saber do qual se apropriam, prolongamentos de jornadas de trabalho para ouvir instrutores do povo e que, antes de tudo, são noites em que se permitem aprender, sonhar, discutir, ler ou escrever. Pensar mais que tudo (MULLER, 2011, p. 48-49).
Repete-se o ―recurso à instrução errante e duramente obtida‖, que E. P. Thompson encontrou investigando os caminhos pelos quais os trabalhadores compuseram um quadro ―fundamentalmente político da organização da sociedade‖, desde finais do século XVIII (THOMPSON, 2002c, p. 304). O desejo de saber e a importância que os trabalhadores dão ao argumento impresso acompanha as horas de trabalho, às vezes determinando a escolha profissional – fundamentalmente política, diga-se – como no caso do militante anarquista Rafael Fernandez, de Porto Alegre: ―Adotei essa profissão [amolador de facas] por duas razões fundamentais: primeiro porque me deixava livre, para sempre, da figura do patrão; segundo, porque me deixava mais tempo para ler‖ (FERNANDEZ apud MARÇAL, 1995, p. 62).
Fernandez nascera em León, na Espanha, e com a família, no início dos anos 1920, cruzara o Atlântico em busca do sonho de uma vida melhor na América. Pela fronteira argentina, chegou a Porto Alegre, onde se fixou. Trabalhou na mineração, na construção civil, foi vendedor de livros, antes de ganhar a vida como amolador de facas. Militante convicto, os impressos e a leitura marcam de forma indelével sua atuação. Distribuidor da imprensa libertária no sul do Brasil, atividade que o levaria à prisão algumas vezes, trazia nítida na mente a lembrança da oposição ao anarquismo, sobretudo por parte dos militantes comunistas: ―Estes, quando viam vender A Plebe e Ação Direta, logo começavam a dizer aos fregueses da barbearia Martinez que os meus jornais estavam a serviço dos americanos‖ (RODRIGUES, 1998, p. 128).
Ler, instruir-se, adquirir o conhecimento que permitisse transformar a própria vida e a de todos. Fugir à ordem heterônoma da sociedade. Autoformar-se, cultivar o espírito, eis a ―obrigação‖ do compromisso militante, rememorado por Cubero de seus primeiros contatos com velhos anarquistas. A escolha do caminho da militância política implica na ―responsabilidade de saber‖, na obtenção do conhecimento que pode pôr termo aos padecimentos da humanidade pela transformação social, tal qual era concebida pelo militante libertário:
Desde o início, quando comecei a participar do movimento anarquista, entrei em contato com militantes que não tiveram nenhuma escolaridade regular, mas que demonstravam muito saber e conhecimento. Eu os admirava muito. Pensava que o conhecimento deles, a facilidade de falar, de escrever era uma coisa adquirida com muito empenho pessoal e obstinação. Como uma verdadeira obrigação e envolvimento com o conhecimento e a militância. Uma responsabilidade de saber, mesmo sem condições materiais, sem condições de cursar regularmente qualquer coisa. Sentia que aquelas pessoas tinham a obrigação, imposta por elas mesmas, de procurar se instruir, de procurar os livros, de questioná-los. Logo que entrei para o Centro de Cultura Social, com dezoito anos, fui percebendo o que se passava a minha volta e formei o conceito do que é ser militante anarquista. Se ele vai lutar no movimento pela mudança da sociedade, ele tem que estar preocupado com a sua formação intelectual (CUBERO apud VALVERDE, 2007, p. 402).
Ser um militante anarquista, compreendera Cubero observando a militância à sua volta, dizia respeito a abraçar a práxis política com o empenho necessário à superação dos obstáculos que se antepunham ao desejo de saber dos trabalhadores. A boa articulação da oratória ou da escrita nos