4.2 Étude de la structure de la couche limite visqueuse
4.2.4 Après la transition
Por fim, dois trabalhos recentes tratam do choro em Florianópolis. Izomar Lacerda (2007), em monografia de conclusão de curso, abordou o tema com uma perspectiva antropológica, de modo a dar ênfase aos discursos, hábitos e modos de se relacionar dos praticantes do gênero, desenvolvendo para isso a noção de campo chorístico, a partir da idéia de campo de Pierre Bourdieu. Apesar da ênfase nas ciências sociais, o autor não negligencia alguns aspectos históricos, no que concerne ao choro na capital catarinense. Nesse sentido, afirma que:
O choro tem uma relação antiga com a Ilha de Santa Catarina, que remete pelo menos às primeiras décadas do século XX, numa concomitância com o desenvolvimento do gênero no Rio de Janeiro e em outras partes do Brasil. Segundo relatos de antigos praticantes desse gênero, a prática desta música é recorrente na Ilha desde a década de 20, mas com ressalvas de que anteriormente já haveria a presença desta na Ilha. (: 7, grifos meus)
Antes de sublinhar a contemporaneidade das práticas relacionadas ao choro entre Florianópolis e a capital fluminense, Lacerda faz uma ressalva quanto à existência de “um discurso que tende a assumir este [o Rio de Janeiro] como o pólo por excelência da
constituição do choro enquanto gênero musical” (ibid.) encontrada na literatura sobre o gênero.
Para sua pesquisa, Lacerda buscou inserir-se no meio chorístico e, para tanto, tentou identificar locais onde a prática do gênero era corrente, o que lhe fez concluir que não havia na Ilha um reduto específico para o choro, mas predominava o que o ele chamou de itinerância, isto é, o gênero e seus praticantes se fazem presentes em bares, shows e eventos sem periodicidade e sem um calendário particular, embora esforços no sentido de criar rodas de choro fossem empreendidos, porém, pelos músicos mais jovens e em geral oriundos de outros locais do país. Nesse sentido, o autor conclui pela falta de uma “cultura da roda de choro” na cidade, fato corroborado por alguns de seus informantes (os quais o autor optou por manter anônimos), como no relato abaixo, de um praticante de aproximadamente 80 anos, que afirmou haverem apenas reuniões “com o caráter de ensaio, com repertório pré-definido, tendo os músicos mais ou menos fixos, sem a possibilidade de se chegar e sair tocando” (: 29).
“Eu nunca vi esse tipo de coisa (roda) por aqui. O pessoal se reunia pra ensaio mesmo. Não tinha público, não tinha nada, nem bebida, nem comida, nem festa, só um cigarro, (risos) e era mais pra ensaiar pra tocar num bar ou numa apresentação, (...) isso é coisa do pessoal mais novo que parece que ta fazendo um encontro desse aí, porque antigamente não tinha não”. (apud Lacerda 2007: 29)
Esta possível ausência de uma “cultura de roda de choro”, no entanto, não implica em falta de tradição de choro na Ilha. Nesse sentido, Lacerda obteve, de diferentes informantes, referências a uma ‘velha guarda’ do choro ilhéu, dentre os quais cita “Seu Noca, Seu Célio, ainda vivos, e Seu Carlinhos, Seu Nilo, Seu Zequinha e Seu Léo, já falecidos” (: 30). O autor, no entanto, notou a carência de um vínculo maior das novas gerações para com estes antigos chorões, o que ele chamou de falta de reconhecimento
prático (: 31), no sentido de que, embora houvesse o devido respeito a estas figuras, nada se fazia em termos de ações – em termos práticos – em prol da devida valorização deles, como gravar ou executar suas músicas, prestar homenagens, ou atos semelhantes.
Lacerda buscou notar alguma característica singular – ou sotaque – do choro em relação ao praticado no Rio de Janeiro, perguntando diretamente a seus informantes, que responderam, de modo geral, afirmativamente, embora não fossem capazes de identificá-
lo concretamente no plano coletivo e, por fim, foi dada a ressalva de que este “sotaque” estaria em construção (: 37).
O autor detectou, entre seus informantes, o discurso acerca do atraso da Ilha, ou de sua “modernidade tardia”, discurso este que, o próprio Lacerda destaca, é recorrente na Ilha, assunto que será abordado na segunda parte deste trabalho. Como conseqüência direta disto, salienta o autor, o discurso do músico local coloca o choro do Rio de Janeiro como o “ideal a ser seguido” (: 39).
A pesquisa de Santos (2008), também uma monografia de conclusão de curso, buscou analisar elementos interpretativos característicos do choro Edna, de 1979, de Nilo Dutra e Carlos Vieira, compositores de Florianópolis. O trabalho também traz um panorama do choro na cidade, além de informações biográficas dos autores da peça. O autor aponta reminiscências de peças compostas por compositores catarinenses, entre valsas, schottisch, polcas e mazurkas desde meados do século XX (: 24-25). Santos teve acesso aos acervos de Sueli Souza Sepetiba, neta de Álvaro de Souza (1879-1939), e de Carlos Alberto A. Vieira, neto de Sebastião Bousfield Vieira, incluindo um caderno de 1917 com choros, valsas, polcas e schottisches de autoria de Sebastião e de Álvaro50, este último, filho do compositor catarinense José Brasilício de Souza.
Desde as primeiras manifestações da música popular que mais tarde passa a ser chamada de choro - por volta do fim do séc. XIX no Rio de Janeiro - já havia, simultaneamente em Santa Catarina, compositores como José Brasilício de Souza que possuía em meio a sua obra musical polcas e valsas com linguagem semelhante àquelas compostas pelos antigos chorões. (Santos 2008: 16)
Santos também comenta o período entre os anos de 1950 e 1970, quando as rádios da cidade transmitiam a música ao vivo de diversos conjuntos regionais, período o qual, para o autor, “o movimento cultural na cidade de Florianópolis era muito grande e forte” (: 33).
50 Santos apresentou em seu TCC, apenas a título de exemplo, a polca “Gilberto”, de Álvaro de Souza, e,
em anexo, “Saudades de ti”, de Sebastião Vieira. O caderno foi copiado pelo autor mediante fotos digitais, às quais tive acesso.
O autor traz a informação da destacada participação do Regional do Nilo – do qual faziam parte Carlos Vieira e Léo, Nilo Dutra51 – em um concurso de choros no Rio de Janeiro.
Segundo o violonista Wagner Segura, antes do Grupo Vibrações, Carlinhos integrou o Regional do Nilo na década de [19]70, chegando a se apresentar num concurso de choro no Rio de Janeiro, onde participou o Grupo Carioquinhas e na comissão julgadora participava o mestre Horondino Silva, conhecido como Dino Sete Cordas. O Regional ilhéu ficou entre os seis classificados. (Santos 2008: 33-34)
Outra informação semelhante foi fornecida a Lacerda.
Segundo alguns informantes, o choro Avaí, de autoria de Seu Léo, foi vice-campeão do I Concurso de Conjuntos de Choro no Rio em 1977, onde o prêmio de melhor composição ficou com o choro Recado de Rossini Ferreira. Infelizmente não tive evidências sobre este fato, mas, é de muita importância, pois, no livro de Cazes (1999), no capítulo dedicado aos festivais de choro no Rio e em São Paulo, há referência aos três primeiros colocados na categoria de melhor grupo (todos do Rio e S. Paulo) e apenas ao primeiro colocado na categoria melhor composição, no caso Rossini. Esta informação merece atenção em trabalhos futuros. (Lacerda 2007: 31; nota de rodapé)
A confusão entre a categoria e a colocação (sexto colocado entre os regionais ou segundo lugar entre as composições? Ou ambos?) pode ter se dado devido a falhas dos informantes, levando-se em conta que se trata de um fato temporalmente tão distante, ocorrido há aproximadamente 30 anos. O problema é que o I Concurso de Conjuntos de
Choro ao qual os informantes parecem se referir aconteceu no Rio de Janeiro em 1977, mais precisamente no mês de agosto, de acordo com Cazes (2005: 159). Não encontramos nenhuma referência a tal evento em pelo menos três publicações da imprensa local nos meses próximos ao evento52 nem nos arquivos particulares consultados. Além disso, causa estranheza que um fato tão significativo tenha passado em branco em uma longa matéria sobre O Regional do Nilo de novembro daquele ano53,
portanto logo após o concurso. Resta ainda a hipótese de que Cazes ou os informantes de Lacerda tenham se enganado quanto à data do concurso, de modo que o conjunto possa
51 Para maiores informações sobre o conjunto, ver último capítulo deste trabalho.
52 Foram pesquisados o Diário Catarinense (não confundir com o atual, do grupo RBS, que só começou a
circular no meio da década de 1980), A Gazeta e O Estado.
53 “Os sete homens que fazem o choro na Ilha”. Jornal de Santa Catarina. Domingo e Segunda-feira, 13 e 14 de Novembro de 1977. Página 18. Ver transcrição no Anexo II
ter ido antes ou depois de 1977 ao Rio, talvez em uma das outras três edições do concurso, ocorridas em 1978, 1979 e 1980 (datas também informadas por Cazes), ou até mesmo pode se tratar de algum outro concurso.
Este segundo capítulo partiu de uma revisão de literatura e exame de discursos e narrativas para depois definir o choro como manifestação de uma musicalidade existente em solo brasileiro, incluindo-se Florianópolis, cidade esta cujas manifestações musicais relacionadas ao choro nos dedicaremos a olhar mais cuidadosamente na segunda parte deste trabalho.