4.2 Étude de la structure de la couche limite visqueuse
5.1.1 Méthode de mesure
3.1 A música em Desterro54 – Período colonial; primeiros registros
Ao longo deste terceiro capítulo será comentada de uma forma contextualizada a vida musical (enfatizando a música popular e o choro) da Desterro/Florianópolis a partir de seus tempos coloniais até os tempos dos regionais das rádios locais. De início, este primeiro item do capítulo é relativo ao período colonial.
Em meados do século XVI a Ilha de Santa Catarina começa a ser episodicamente visitada por navegantes portugueses e de outras nacionalidades e habitada por desterrados, desertores, náufragos e missionários, que se somariam aos habitantes nativos já presentes. A ilha, por sua localização estratégica e por seus recursos naturais, tornou-se ponto de suprimento de embarcações e expedições que circulavam por este litoral. Em 1662, liderados pelo bandeirante vicentista Francisco Dias Velho, um grupo de familiares, índios subjugados e padres jesuítas deu início ao pequeno povoado de Nossa Senhora do Desterro, na ilha de Santa Catarina. Este povoado, ao final do mesmo século, foi massacrado por piratas que agiram em vingança por terem sido rendidos tempos antes pelo bandeirante, deixando a ilha praticamente desabitada. Apenas em 1730 foi restabelecido o povoado, a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro, nos esforços do governo português pela vigilância e ocupação do litoral sul do Brasil, no qual a ilha cumpria importante papel militar-estratégico. Concomitantemente, entre 1748 a 1756 a Coroa portuguesa iniciou um processo de povoamento, transferindo para o este litoral parte da população do arquipélago dos Açores e da Ilha da Madeira, aproveitando também para desafogar estas ilhas, que sofriam com excedente populacional (Piazza 1983). Esta população forneceria, até os dias de hoje, alguns dos traços culturais mais
54 A capital de Santa Catarina foi batizada, como veremos, como Nossa Senhora do Desterro. Apenas no
fim do século XIX, já na República, foi rebatizada como Florianópolis, homenagem ao então presidente Floriano Peixoto. Tal denominação é polêmica até os dias de hoje, uma vez que Peixoto teria, com a derrocada da Revolta da Armada, ordenado a execução de rebeldes locais na ilha de Anhatomirim, nas proximidades da cidade (ver: Piazza 1979: 507-517; Florianópolis, origens e destinos de uma cidade a beira-mar 1996: vol.13).
valorizados pelo discurso local nos esforços pela construção de uma identidade regional55.
Deste modo, a população da ilha foi sendo constituída pelos portugueses e por seus descendentes já nascidos em território brasileiro, por escravos oriundos da África e pelos arredios nativos.
As primeiras notícias conhecidas sobre atividades musicais na Ilha de Santa Catarina são datadas do século XVII e XVIII, com a passagem de padres jesuítas, o estabelecimento de missões e a fundação do Colégio de Desterro, de acordo com a comunicação do projeto de pesquisa A música na imprensa em Desterro no séc. XIX (Universidade do Estado de Santa Catarina) coordenado por Holler (2008). O autor indica também como importante fonte para a historiografia local os relatos de viajantes de passagem pela ilha. Algumas passagens estão especificadas abaixo.
Pernetty testemunhou um concerto de música instrumental de compositores europeus realizado por oficiais portugueses e um baile na casa do governador em 1763 (apud Haro 1990: 82, 83). Em uma publicação de 1829, outro viajante, este brasileiro, descreve um baile no ano de 1797, para o qual foi convidado, comparando-o elogiosamente aos de centros considerados mais importantes no Brasil.
Em um baile que também deu o dito governador pelo mesmo motivo, vi uma brilhante companhia de senhoras e de homens, das famílias mais distintas do país, e uma numerosa orquestra, em que se tocaram todos os instrumentos de sopro, e de cordas, com harmonia e bom gosto. Cantaram várias senhoras e dançaram minuetes, contradanças e valsas, tudo segundo os usos da Europa. Fiquei admirado de encontrar tudo isto em uma terra tão pequena do Brasil (...) e a excepção do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, em nenhuma das terras em que estive, observei nas senhoras a polidez, urbanidade, e boas maneiras, que tinha encontrado nas de Santa Catarina... (Paulo Jozé Miguel de Brito apud Costa 2004: 24)
Daqui vale ressaltar o registro da execução de danças de origem européia interpretadas por conjuntos locais, ainda em fins do século XVIII, prática esta que, com a
55 A segunda guerra mundial, que resultou na derrocada das potências do Eixo – entre as quais Itália e Alemanha –, deixou como conseqüência a estigmatização dos povos e culturas oriundos daqueles países ao longo da década de 1940. Este fato contribui para a ascensão, em fins da mesma década, de um novo discurso de valorização do imigrante de origem açoriana, que agora se torna o responsável pela herança cultural predominante no litoral sul do Brasil. Nesse sentido, afrodescendentes e indígenas mais uma vez são postos de lado em prol de uma nova narrativa branca. (Mortari e Cardoso 2000: 86; sobre açorianismo, ver também Flores 1997)
desenvoltura com que se tocava, se cantava e se dançava relatadas neste testemunho nos permite imaginar que devia ser repetida com alguma freqüência.
Em 1803, Lisiansky conta ter presenciado “esquisitas danças típicas” dos escravos negros locais (apud Haro 1990: 154). Lagsdorff, em relato referente aos anos de 1803 e 1804, narra encontros familiares com danças e canções ao som de saltério56 e guitarra (: 163), descreve a dança e a música dos escravos negros (: 169-170) e relata o costume de realização de serenatas57:
Na véspera da festa dos três reis, costuma-se fazer uma pequena serenata: do namorado à namorada, do amigo ao amigo, em suma, de um para o outro. Nós não sabíamos de tal costume e, após a calada da meia-noite, fomos despertados pela suave e calma harmonia de cantos melódicos, acompanhados de flautas e guitarras. (...) Somente na manhã seguinte é que soubemos que a serenata é prova de querer bem e de amizade, quer havíamos conquistado junto a moradores durante a nossa estada aqui. (apud Haro 1990: 170)
Langsdorff também relata ter ouvido canções interpretadas pelas filhas de um morador do continente que lhe serviu de guia em uma expedição (apud Haro 1990: 170- 171). O viajante transcreveu uma das canções e anexou-a à publicação de sua narrativa com o título de “ária brasileira” ou “modinha”, segundo Holler (2008) “a partitura mais antiga de uma modinha datada e indubitavelmente coletada no Brasil”.
O historiador Oswaldo Rodrigues Cabral indica ter havido o ensino e a prática musical na ilha desde pelo menos o século XVIII, citando José de Almeida Moura, um professor de música que teria atuado na segunda metade do século, deixando discípulos, e a esposa do governador Francisco de Souza de Mendes (1765-1775), “amante da música, que atraía cantadores e executantes à sua casa para ouvi-los, gostando principalmente das modinhas populares, doces e ingênuas, importadas dos açores e mesmo do Reino” (Cabral 1979: 53).
Embora os exemplos anteriores sejam poucos e esparsos, fruto da pouca documentação disponível, eles são indícios que sugerem a existência, no período colonial, no pequeno povoado de Nossa Senhora do Desterro e arredores, de uma vida
56 Segundo Holler, esta é a única referência encontrada da presença do saltério na Ilha, embora tenha sido à época instrumento comum entre os portugueses.
57 A serenata tem origem aos fins da Idade Média, geralmente realizada à noite e com propósitos
românticos. Sua primeira referência conhecida no Brasil está no relato de um viajante português, em 1717, na Bahia (Tinhorão 2005: 13).
musical sintonizada com os acontecimentos de outros centros e recorrente em todas as camadas sociais: cantos e danças dos escravos negros, concertos, serenatas, canções e bailes entre os estratos mais altos. Em outra perspectiva, pode ter havido desde estes tempos a coexistência de diferentes musicalidades, até onde a estrutura da sociedade colonial permitia.