Justification par action
CATÉGORIE 61 – TRANSFERTS AUX MÉNAGES
Pode-se agora perguntar se a Ontologia, a outra ciência metafísica que, na Arquitetônica da razão pura, figura ao lado das outras ciências que pertencem a divisões da Metafísica da Natureza pode ser considerada filosofia transcendental. Segundo a caracterização oferecida nessa seção, não deve haver dúvida de que a ontologia é uma filosofia transcendental. Mais do que isso, só a filosofia transcendental é única e exclusivamente uma ontologia. A caracterização que Kant oferta nessa seção é a seguinte: “[a] filosofia transcendental [...] considera apenas o entendimento e a própria razão num
319 KrV A 841 / B 869.
sistema de todos os conceitos e princípios que se referem a objetos em geral sem admitir objetos que sejam dados (ontologia)320.
Tendo assim, neste capítulo, obtido como resultado que somente a ontologia como uma das ciências constitutivas da Metafísica da Natureza deve ser considerada como filosofia transcendental, temos também por resultado um motivo adicional, ao já apresentado no capítulo anterior, para a impugnação da hipótese aventada no segundo capítulo (que surgira devido a algumas imprecisões de Kant, que, por um lado, atribuía à Crítica da Razão Pura um escopo propedêutico à filosofia transcendental e, por outro, ao sistema da razão pura) e que mostramos ser sustentada por alguns comentaristas de Kant, de que o sistema da razão pura deveria se identificar à filosofia transcendental.
A impugnação dessa hipótese nos conduz à possibilidade de que a segunda hipótese que aventamos no segundo capítulo e foi lá posta em suspensão, em função de perseguirmos a sustentada por alguns comentadores de Kant, possa vir a ser sustentável e, assim, nos ofertar elementos para uma revisão da solução do enigma apresentado no segundo capítulo que nos conduza à identificação dos status e escopos da Crítica da Razão Pura. Tal hipótese, lembremos, é que Kant sustenta haver uma diferença entre sistema da razão pura e filosofia transcendental. Essa última deve pertencer ao primeiro como uma das ciências em que este se constitui, tendo por escopo a realização do já executado pela Crítica da Razão Pura no que compete à investigação que conduz aos princípios da síntese em toda a sua extensão, mais uma análise detalhada dos conceitos primitivos e a extração destes de derivados.
No capítulo anterior demonstramos que Kant, na Introdução da Lógica Transcendental, em B 80-1 oferta uma explicação do sentido em que deve ser entendido o termo “transcendental”, referindo-se ao empreendimento realizado nas seções da Estética transcendental e da Analítica transcendental. Ademais, na Crítica da Razão Pura também podemos constatar outras passagens em que Kant considera que essa própria obra é uma filosofia transcendental. Por exemplo, ainda sobre a Estética transcendental, afirma: “Na medida em que a sensibilidade deverá conter representações a priori, que constituem as condições mediante as quais os objetos nos são dados, pertence à filosofia transcendental”321.
Assim como essas, também se pode encontrar, na obra, passagens que remetem a temas abordados na Analítica transcendental à alçada da Filosofa Transcendental. Um exemplo disso ocorre no capítulo primeiro da Analítica dos conceitos:
320 KrV A 845 / B 873.
A filosofia transcendental possui a vantagem, mas também a obrigação, de procurar os seus conceitos segundo um princípio porque se originam de modo puro e não mesclado do entendimento como unidade absoluta, tendo consequentemente que se interconectar segundo um conceito ou uma ideia. Uma tal interconexão, porém, fornece uma regra pela qual se poderá determinar a priori o lugar de cada conceito puro do entendimento e completude de todos em conjunto; do contrário, tudo isso dependeria do capricho ou do acaso322.
Dado assim o fato de que, na seção da Arquitetônica da razão pura, Kant considera que a filosofia transcendental é exclusivamente uma ontologia e que esta é uma das partes em que se divide a Metafísica da Natureza à qual a Crítica da Razão da Pura é propedêutica, e que, em seções antecedentes a esta, também considera que essa própria obra já é uma filosofia transcendental, devido ao que executa nas seções da Estética transcendental e da Analítica transcendental, e assevera que o conhecimento transcendental, que é a função da obra expor, se restringe ao executado nessas seções, a primeira questão que surge é a seguinte: Considera Kant que a Crítica da Razão Pura já executa, nas seções acima mencionadas, uma filosofia transcendental como ontologia?
Dado tal questionamento procedemos, no próximo capítulo, à demonstração de que, nos Progressos, encontramos referências a que a Crítica da Razão da Pura é uma filosofia transcendental, concebida como ontologia devido ao que executa nas seções da Estética transcendental e na Analítica transcendental. Demonstrado que tal é o caso, passamos a nos ocupar em encontrar uma resposta ao seguinte contrassenso que surge de tal identificação: se a filosofia transcendental/ontologia é executada nas seções da Estética transcendental e na Analítica transcendental, e esta é propedêutica à Metafísica da Natureza, a qual contém, como sua primeira parte, a filosofia transcendental/ontologia aí exposta, então a filosofia transcendental/ontologia é uma propedêutica de si mesma e deveria ser transposta tal qual é exposta na Estética transcendental e Analítica transcendental para a primeira parte da Metafísica da Natureza, de que é propedêutica. Posteriormente, nos ocupamos em demonstrar que tal contrassenso é aparente e, por fim, que os elementos que conduzem à sua resolução apontam para a demonstração de uma peculiar viabilidade de sustentação da segunda hipótese surgida no capítulo segundo.
322 KrV A 67B / 92.
5. DA FILOSOFIA TRANSCENDENTAL COMO ONTOLOGIA SER