5. Session Mobility
5.3. Mobile Node Control Mode
5.3.1. Transferring a Session to a Single Local Device
O estudo da percepção ambiental, nesta seção, torna-se importante ferramenta em busca da relativização entre o objetivo e o subjetivo, entre as pessoas e o lugar, podendo gerar melhor entendimento da inter-relação entre o homem e a natureza. Dessa forma, faremos algumas reflexões, especialmente ligadas ao uso e ocupação da Lagoa Piçarreira do Cabrinha e desenvolvimento local, considerando os valores culturais e comunitários, as relações entre os moradores do lugar e suas participações com essa atividade, ressaltando de certa forma essa dimensão.
É importante salientar que a perspectiva psicológica no conceito de espaço geográfico, segundo Oliveira (1997), não deve ser excluída, pois a compreensão
desse espaço não se restringe apenas ao geométrico, físico, mas também ao psicológico. Essa concepção, se contemplada, propicia subsídios para uma maior e melhor compreensão das interações das pessoas com os espaços das Lagoas.
Esta perspectiva se justifica considerando que, por meio da percepção e da experiência/ vivência, a pessoa busca conhecer seu meio ambiente. Assimila formas de ação para uso, sua valorização e, quando necessário, para adotar atitudes no que tange a esse meio. É dessa forma que o homem interage e se integra com seu meio ambiente e adota atitudes ao apoderar-se do seu mundo vivido, transformando-o positivamente, ou de maneira impactante, no caso, pelo uso e ocupação do entorno da Lagoa.
Para a autora (op. cit., p.62), tudo o que é visualizado, sentido e ouvido, resumem-se na forma pela qual o meio ambiente é percebido, reafirma “[...] à percepção é justamente uma interpretação com o fim de nos restituir a realidade objetiva, através da atribuição de significado aos objetos percebidos [...]”. Nesse sentido, quando visualizamos, sentimos e ouvimos alguma coisa no meio, a este conferimos significado, que permanece incessantemente na memória.
Segundo Teles (1993), perceber é conhecer, através dos sentidos, objetos e situações; é organizar interiormente os elementos levados pelos sentidos a partir do mundo exterior. Afirma o referido autor, “cada homem vive mais em função de seu mundo interior, do que em função da realidade objetiva. Muitas vezes o que uma pessoa sente, pensa e imagina depende mais de sua experiência interior do que dos fatos e acontecimentos objetivos.” (TELES, 1993, p. 148-149)
Isto posto significa que as pessoas percebem conforme sua visão individual, sua personalidade, refletindo sempre sua natureza, seus anseios, experiências e desejos. Destaquemos, ainda, que as experiências incluem “tanto as positivas e agradáveis de paisagens e lugares, como experiências repulsivas, negativas e desagradáveis” (MACHADO, 1988, p. 32).
Prossegue o autor realçando que as informações recebidas do ambiente podem ser incutidas, determinadas e modificadas pelo sentimento, explicando assim que é a partir do interesse pessoal sobre pessoas, lugares, paisagens ou coisas, é que passamos a diferenciá-los. Complementa ainda destacando: vemos, ouvimos, sentimos, tocamos tudo aquilo que estimula nossos sentimentos, mas percebemos somente o que nossa mente seleciona através da atribuição de significados. A
percepção é então altamente seletiva, exploratória, antecipadora (MACHADO, 1988, p. 39-44).
É evidente que o estudo da percepção ambiental nos remete diretamente a uma análise dos impactos ambientais no entorno das Lagoas de Teresina especificamente na Lagoa Piçarreira do Cabrinha, a partir da percepção dos moradores, que se alia à interpretação clara de Ferrara (1999, p. 153), para quem “percepção é a informação na mesma medida em que a informação: uso e hábitos são signos do lugar informado que só revela na medida em que é submetido a uma operação que expõe a lógica de sua linguagem”.
Diante do objeto percebido, neste contexto, a paisagem e os sentidos afloram, e sua leitura esbarra na interpretação, em uma tentativa de objetivar o subjetivo. Vasconcellos (1997) se refere à interpretação ambiental como uma tradução da linguagem da natureza para a linguagem comum das pessoas, fazendo-as perceber um mundo antes nunca visto. Uma vez interpretada, a paisagem passa a ser apropriada, na qual o prevalecer dos sentimentos ou a carga emocional diferida cumprirá uma função de significá-la. Uma paisagem imbuída de várias camadas de significados (pessoais, sociais, culturais) reporta-se, assim, a um lugar.
Estudos sobre os fenômenos perceptivos do mundo visual buscam uma análise e consequente compreensão do processo de construção do ambiente, a partir da interpretação do espaço vivido. Bachelard (1998, p. 19) argumenta que “o espaço percebido pela imaginação não pode ser o espaço indiferente entregue à mensuração e a reflexão do geômetra. É um espaço vivido. E vivido não em sua positividade, mas com todas as particularidades da imaginação”.
Cada indivíduo percebe o mundo de forma diferente, particularizando seu interesse, interpretando símbolos, ritos e mitos conforme seu modo de vida. É o que reforça Merleau - Ponty (1999, p. 14): “o mundo é aquilo que nós percebemos [...] o mundo não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo”. Olhar em volta e se reconhecer como integrante da paisagem faz parte do processo de construção do lugar, que engloba, entretanto, todos os sentidos: odores, ruídos e sensações táteis.
Ao discorrer sobre percepção ambiental, faz-se necessária uma diferenciação entre sensação, percepção e cognição: “sensação significa que existe um órgão corporal para a execução da percepção, enquanto percepção corresponde à apreensão de uma realidade sensível e com acréscimo de uma significação, e
cognição tem o significado de conhecer (-se) e construir o objeto de conhecimentos” (OLIVEIRA, 2002, p. 191).
Na visão de Tuan (1980), a percepção ambiental é a resposta dos sentidos dos indivíduos aos estímulos externos e emitidos pelo espaço que o circunda. Podemos interpretar que esta abordagem captura o indivíduo da condição passiva do mero observador do meio ambiente e o transporta ao nível da ação, quando este indivíduo não só utiliza a visão como também a cognição. Ao compreender determinados fenômenos que perpassam sua forma de se relacionar com o ambiente em que vive, o indivíduo é capaz de assumir atitudes ambientais que transformem seu próprio espaço em lugar. Esta interpretação se aproxima intimamente da abordagem de Ferrara (1999), que destaca a percepção como forma de extrair os alicerces da ação urbana, da intervenção capaz de dar ao homem poder de decisão sobre o espaço, poder de cidadania.
Para Ferrara (1989, p. 264), na percepção ambiental:
é a forma de conhecimento, processo ativo de representação que vai muito além do que se vê ou penetra pelos sentidos, mas é uma prática representativa de claras consequências sociais e culturais. [...] Supõe uma elaboração de informações que ocorrem no interior do indivíduo a partir de pequenas experiências, porém são apenas possíveis e, nesse sentido não podem ser jornais, previstas e programadas.
Ao aceitar a percepção como um ato subjetivo, as investigações devem ser contempladas em uma abordagem humanística e subjetiva. Desde os anos 1970, vários estudiosos da geografia começaram a estabelecer um elo entre a percepção e conceitos geográficos como lugar e paisagem para indicar atitudes e valores das pessoas sobre o meio ambiente (TUAN, 1980).
Segundo Tuan (1980) e Oliveira (1997), as pessoas, na trajetória de sua vivência, passam a perceber, reagir e a responder de forma diferente em relação às ações do ambiente a que estão expostas, tendo em vista os processos educativos, culturais emotivos e sensitivos. As manifestações oriundas desses processos, são respostas das percepções dos processos de cognição, assim como dos julgamentos e expectativas de cada pessoa. Embora algumas das manifestações psicológicas sejam evidenciadas, são permanentes e afetam o mundo de comportamento, em grande parte dos acontecimentos, inconsciente.
Nesta perspectiva, compreender a percepção dos moradores sobre impactos ambientais no entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, possibilita analisar a maneira como esses moradores intervêm nesse espaço, e como são afetados por esses impactos ambientais. É importante salientar que as percepções desses moradores, ou seja, a identificação das distintas percepções contribui para a gestão dos conflitos, no planejamento, nas práticas e programas de educação ambiental (HOEFFEL et al., 2008). Propicia, ainda, a análise de valores, interesses e expectativas dos moradores em pauta no que tange à preservação e manutenção do patrimônio natural e artificial.
Para Tuan (1980), a percepção é entendida como produto da ativação dos sentidos (somáticos), cuja exploração é dirigida por valores culturais. Cada pessoa percebe o ambiente a seu modo e sua interpretação depende da maneira como cada uma capta e traduz as informações transmitidas pelo meio ambiente, reagindo e respondendo de forma diferenciada às ações sobre o meio em que vive.
O cenário paisagístico é lugar da representação de sensações e desejos de cada olhar, e mapas mentais são representações de realidade vivida (NOGUEIRA, 2002). As imagens, os traços culturais, os valores e as experiências contidas na vida de cada um são elementos condutores da representação do espaço em que vive. É uma leitura individual em bases coletivas.
Ressaltando a percepção como processo, Hoeffel et al. (2008) caracterizam como uma atividade que contempla o organismo e o ambiente, e que é estimulada pelos órgãos dos sentidos e por ideias mentais. Dessa forma, concepções em relação ao ambiente abarcam respostas e reações a impressões, estímulos e sentimentos, mediados pelos sentidos, bem como envolvem processos mentais referentes às experiências individuais.
O autor descreve que a percepção ambiental não trata apenas da obtenção de informações, mas de significados; busca definir conhecimentos e estimular novos valores, promover o exercício dos aspectos cognitivos, criar perspectivas, levantar questionamentos, e, assim, proporcionar a participação das pessoas e trabalhar a percepção, a curiosidade e a criatividade humana. A percepção ambiental é um importante instrumento na defesa do meio ambiente, colaborando para a reaproximação do homem com a natureza.
Corroborando as idéias de Hoeffel et al., Cordeiro e Santos (2010) discorrem sobre o significado de percepção ambiental que engloba sentimentos, leitura da
realidade, imaginário, representação social, crenças, saberes, cultura e intencionalidade. Estes aspectos relevantes possuem grande influência sobre o comportamento das pessoas, que interagem com os conhecimentos adquiridos com a elaboração de um cenário que possibilita uma relação entre os meios natural e social.
Na trajetória histórica da ciência geográfica, as relações do homem com o ambiente sempre propiciaram interesses aos geógrafos. Independente da evolução de desenvolvimento de cada sociedade, as relações acontecem sempre de maneira íntima e permanente, mas podem acontecer mais ou menos de forma intensa, de acordo com a tradição cultural, que desempenha papel significativo na determinação do comportamento das pessoas em relação ao seu ambiente. Apesar de permanente durante toda a vida, as interações variam por meio do tempo e entre regiões e culturas.
Essas diferentes percepções que permeiam o fenômeno em estudo, no entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, é que nos proporcionarão compreender como se apresenta o nível de consciência e ações concretas dos moradores locais, com relação à cobrança e acompanhamento do poder público no que diz respeito à proteção e à preservação do meio urbano local.
Dessa forma a percepção ambiental se apresenta como fundamental, tendo em vista o entendimento das inter-relações entre o meio ambiente e os sujeitos, ou seja, como a população percebe o seu meio circundante, expressando suas opiniões, expectativas e propondo normas de conduta.
Assim os estudos que se caracterizam pela aplicação da percepção ambiental visam investigar a forma como a pessoa vê, interpreta, convive e se adapta à realidade do ambiente em que vive, essencialmente em se tratando de ambientes instáveis ou vulneráveis social e naturalmente (OKAMOTO, 1996). É o caso da área da pesquisa.
A importância de se compreender as percepções e vivências dos moradores do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha em frente às questões de impactos ambientais e sociais denota o fato de que as informações identificadas desses sujeitos podem ser consideradas como parâmetros para elaboração de políticas públicas municipais.
Os teóricos trabalhados nesse item, uns supervalorizam a subjetividade e outros deixam bem clara a relação da subjetividade com a objetividade. Tomamos
para análise acerca da percepção dos moradores sobre os impactos ambientais no entorno da Lagoa em estudo, os seguintes autores: Machado (1988), que apresenta a percepção como seletiva, ou seja, nem tudo que vemos, conseguimos observar, vai ser incorporado à nossa percepção, só incorpora aquilo a que nós atribuimos um significado; Tuan (1980) e Oliveira (1997) que afirmam que a percepção está associada aos processos educativos, culturais, emotivos e sensitivos, ou seja, eles envolvem na percepção dois aspectos, a subjetividade e o mundo exterior.
2 TRAJETÓRIA TEÓRICO-METODOLÓGICA
Tomar a decisão de optar por uma abordagem metodológica que oriente e organize o percurso de uma investigação tem estreita relação com a formação do pesquisador, suas implicações no contexto da investigação. Por isso, antes de descrevermos a abordagem metodológica abriremos um espaço para relatar as nossas experiências de vida e formação que convergem para o objeto da pesquisa.