• Aucun résultat trouvé

A etnografia para Angrosino (2009) é a arte e a ciência de narrar um grupo humano, suas instituições, seus comportamentos interpessoais, suas produções materiais e suas crenças contemplando a narração holística de um povo e seu modo de vida. Logo, para esse estudioso, "[...] etnografia também é um produto de pesquisa. É uma narrativa sobre a comunidade em estudo que evoca e experiência vivida daquela comunidade e que convida o leitor para um vicário encontro com as pessoas [...]" (ANGROSINO, 2009, p.34).

Nessa concepção concebemos que a etnografia é escrita perceptível e que a narração etnográfica está ligada à qualidade de que observa, da sensibilidade ao outro participante, do conhecimento sobre a realidade estudada, seus signos, normas e eventos, da inteligência e da imaginação do investigador.

Para Clifford (1998) fazer etnografia requer um contínuo vai e vem, entre a aproximação da comunidade investigada e um posterior afastamento para a realização da análise. Nessa perspectiva, como pesquisadora imergirmos no campo investigado, captando as percepções dos moradores por meio dos gestos, falas, vivências e nos distanciamos para sistematizar os significados capturados, objetivando elaborar a análise da pluralidade de linguagens mesmo contraditórias entre si, além dos olhares diversos.

No processo do levantamento das percepções dos moradores foi possível aprimorar o dispositivo da pesquisa (roteiro da entrevista) em relação aos subtemas dos blocos temáticos, pois, de acordo com André (1995), ao pesquisador, ao utilizar a etnografia, é permitido modificar as técnicas de coleta, se necessário revendo os itens que orientam a pesquisa e os sujeitos. Disso "dependerá de como serão os contatos iniciais do pesquisador, de sua forma de entrada no campo, de sua aceitação ou não e de sua interação com os participantes" (ANDRÉ, 1995, p. 60)

Os princípios da etnometodologia em relação com a etnografia guiaram nosso olhar como pesquisadora, para entender com minúcias, a “articulação homem- espaço”, buscando compreender como os moradores do entorno da Lagoa da Piçarreira do Cabrinha, implicados nesse contexto, irão desvelar suas percepções, vivências, compreensões, preocupações, proposições, objetividades e subjetividades acerca do seu dia a dia, na suas atividades cotidianas.

A etnometodologia, segundo Garfinkel (1967 apud COULON, 1995) olha a realidade coletiva com a certeza de que homens e mulheres nas suas inter-relações e interações cotidianas constroem saberes específicos e símbolos particulares, e para tal, utilizam-se de etnométodos.

Esta investigação fundamentou-se nos aportes teóricos de conceitos- chave que subsidiam a etnometodologia e que interagem num vocabulário específico e estabelecido por conceitos e pelas suas peculiaridades e interdepedências assim especificados e definidos a seguir: prática/ realização/indicialidade/ reflexidade/ accountability e noção de membro.

 Prática/ realização = é a prática vivida, experimentada e refletida no processo de intercâmbio dos sujeitos, homens e mulheres, na construção e (re)construção da vida em sociedade decorrente das leituras e (re)leituras do universo, interagidas pelas linguagens em que as manifestações dos atores se concretizam. É da experiência vivenciada pelos moradores do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha em sua construção sóciocultural advinda de uma relação homem/ natureza, um dos caminhos, desse estudo, que vai evidenciar como esses moradores compreendem sua inserção nesse espaço e para além dele, e como usam esse espaço.

 As indicialidades (COULON, 1995) expressas no discurso das linguagens ordinárias como ocorrências de palavras, não devem ser tomadas como pura e simples expressão "objetiva", pois em seu contexto ganham significados para além de sua objetividade. A indicialidade manifesta nas relações que se estabelecem no espaço lacustre em estudo entre moradores homem/natureza/sociedade, é princípio nesta pesquisa na medida em que a leitura, análise e compreensão das expressões indexais da linguagem ordinária que acontece diariamente nestas relações, poderão favorecer a esta pesquisadora indícios de desvelamento do objeto.

 A reflexidade para Coulon (1995, p. 41) "[...] designa, portanto as práticas que ao mesmo tempo descrevem e constituem o quadro social". Podemos constatar que é nas inter-relações dos sujeitos em suas atividades cotidianas, que se elaboram suas compreensões e idealização do mundo, executando sua reflexividade, daí detecta-se uma

equivalência das potencialidades dos membros tanto nas formas de descrever as interações quanto de produzi-las. Nessas atividades, as descrições produzidas pelos membros são sempre encarnadas, isto é, ganha forma peculiar do narrador (MACEDO, 2006). Nesse discurso " o que a noção de reflexibilidade evidencia é que no processo de ação social se constitui e se é constituído" (MACEDO, 2006, p. 76).

 O princípio da Accountability é evidenciado pela reflexibilidade, se constitui no que mais se aproxima das descrições dos sujeitos sobre o mundo vivido. A sua característica é compreendida pela capacidade manifestada pelos membros de se apresentarem incessantemente à realidade produzida e vivenciada. Refletir a relação homem-natureza à luz da accountability é compreendê-la de modo mais aproximado e profundo de seus elementos estruturantes. Significa a condição manifestada para apropriar-se dos processos de inter-relações que se definem nessas vivências e são apresentadas ao se construírem. Compreendemos as intersubjetividades decorrentes das falas dos moradores do entorno da Lagoa da Piçarreira do Cabrinha sobre os impactos ambientais por meio dos quais realizam suas sistematizações de maneira consciente, ou não, de modo a subsidiar suas relações com o outro e com o meio.

 A noção de membro nesta pesquisa, refere-se à interação dos sujeitos que ao estabelecerem a comunicação em seus grupos de pertença, compartilham a construção social. O membro é identificado como pessoa, que apresenta como característica preponderante, o domínio da linguagem comum ao grupo e se relaciona em rede de significados em suas inter-relações.

Etnografia e etnometodologia se apoiaram, ainda, nos princípios da multirreferencialidade (ARDOINO, 1998), complexidade (MORIN, 2007), implicação (LOURAU, 1998; Macedo, 2010), escuta sensível (BARBIERI, 1998).

Os princípios da multirreferencialidade, complexidade, implicação, escuta sensível e compreensão, conforme foram anunciados constituíram fundamentos epistemológicos que alicerçaram as bases metodológicas desta investigação, proporcionando maior aproximação com o objeto de estudo e, por conseguinte,

compreensão da percepção das falas desveladas dos moradores da Lagoa Piçarreira do Cabrinha.

O princípio da multirreferencialidade evidencia-se como aquele que subsidia esta pesquisa, portanto a compreensão da percepção pautada na sociologia de processo de Elias (1994; 1995; 1998; 2005) atribui-se-à compreensão de que se deve abordar os fenômenos na sua complexidade no sentido moriano, como a arte de “utilizar as informações que surgem durante a ação, integrá-las, formular esquemas de ação e ser capaz de reunir o máximo de certezas, para defrontar o incerto”. (MORIN, 2000, p. 148)

Para Ardoino (1998), a multirreferencialidade é o principio epistemológico essencial a esta pesquisa, considerando que nos auxilia na compreensão das relações que podemos estabelecer pela percepção dada pelos moradores ao conjunto dos impactos ambientais resultantes de sua experiência no entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha em Teresina – PI. Nesse sentido, foi necessário direcionar a esses processos uma pluralidade de olhares e de linguagens que pudessem refletir tal realidade e os olhares dirigidos a ela, o que somente é viável a partir de uma abordagem qualitativa com base nos princípios da complexidade e da multirreferencialidade.

Outro princípio fundamental à construção da tese nos remeteu ao conceito de implicação (LOURAU, 1998; MACEDO, 2010) bem como, à relação entre engajamento e distanciação (ELIAS, 1998). Logo, estar implicado corresponde a engajar-se pessoal e coletivamente, como pesquisador, em nossa práxis científica, considerando nossa condição de sujeito que sente e interpreta a vida, o mundo e as coisas do mundo, de forma consciente ou não. Em nossa pesquisa, nos implicamos com os cenários constitutivos dos moradores da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, na cidade de Teresina(PI) e, neles, nossos vínculos afetivos, profissionais, éticos, políticos procuraram se articular às suas experiências de vida naquele contexto.

Nossas implicações oscilam entre estar envolvidos e alienados (ELIAS, 1998); ou seja, ao tempo em que nos envolvemos nos fatos, atuando neles de forma comprometida, procuramos nos afastar das opiniões padronizadas, envoltas na coerção emocional dos fatos, procurando retirar deles suas potencialidades, sobretudo aquelas advindas do conhecimento, para que possamos, dessa forma, transpor as situações dilemáticas.

Adotamos ainda a noção de “escuta sensível” (BARBIERI, 1998) como um princípio, por meio do qual, à medida que procuramos compreender o “excedente” de sentido que existe na prática ou na situação vivenciada pelos moradores do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, deixamo-nos surpreender pelo desconhecido que, sem cessar, anima a vida. Então, mais do que uma escuta com um sentido de atenção, trata-se de uma “relação mediada pela escuta do outro e de nós mesmos” (MACEDO, 2010, p. 198), que procura, por aproximação, compreender as percepções desses moradores sobre os impactos ambientais no lugar em que habitam.

Desse modo, compreender (BOURDIEU, 2001) o outro supõe a compreensão das condições de existência e das condições sociais de que o sujeito é produto. Mergulhamos, desta forma, no universo existencial dos moradores, procurando entendê-los nos contextos dos quais são oriundos, nas condições sociais em que se encontram.

É uma compreensão que não se manifesta em um vazio, em uma abstração, mas tem como referência a experiência com um sentido de vida; e, dessa forma, “compreender e explicar é a mesma coisa” (Id. ibid.). Por conseguinte, enquanto escuta que se esforça para aceitar e reconhecer o outro, ela se apoia na empatia que busca “saber sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo do outro para compreender do interior as ações, os sistemas de ideias, de valores, de símbolos e de mitos” (MACEDO, 2010, p. 198).

A perspectiva dimensionada possibilitou que a pesquisa vá além de uma simples observação, mas estivemos atentos para capturar, interpretar a percepção dos moradores acerca dos impactos ambientais considerando as vivências, experiências nesse espaço lacustre. Pois são olhares relacionados a um mesmo mundo que dialogam, discutem se aceitam e se descrevem e, ao descreverem se reconhecem, reconhecem um ao outro. E o seu auto-reconhecimento e ao outro expressam o que fazem e o que pensam se aperfeiçoam e, ao se aperfeiçoarem em equilíbrio, no respeito, na cumplicidade e nas tensões, constroem história e contam suas histórias, que são trabalhadas no cotidiano das reuniões, na família, na escola, no trabalho, na igreja, no lazer.

Esta abordagem qualitativa que direcionou a penetração no universo dos sentidos e dos significados das práticas e relações humanas (MINAYO, 2002), nos motivou a investigar o problema como desafio na busca de captura das percepções,

sistematizá-las a partir das leituras emergidas das falas dos moradores do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha.

Documents relatifs