5. Session Mobility
5.4. Session Handoff (SH) mode
Ao refletir sobre as experiências formativas, a imagem que nos vem à mente é a de uma viagem que evocamos, sob inspiração de uma passagem da obra Confissões de Rousseau, contada por Larrosa (2004). O autor relata que Rousseau caminhava no bosque de Vincennes, ao mesmo tempo em que lia um jornal, e caiu. O que teria feito Rousseau cair foi, na verdade, o fato de ter tomado consciência de si próprio, percebendo-se como realmente era. Vivia a experiência de se ver transformado em outro homem, cujo coração, ideias e sentimentos se harmonizavam pela primeira vez em sua vida.
Essa passagem de Rousseau, contada por Larrosa, nos inspira e reforça a imagem da nossa própria formação, como uma viagem em que, como personagem, iniciamos um percurso, no qual sempre procuramos buscar a nós próprios, como se houvesse um destino a descobrir, mas, na certeza de sua ausência, sempre seria possível inventá-lo. Debruçada sobre nossa própria experiência como possibilidade de conhecimento e formação, defrontávamos conosco, com nossas certezas e incertezas, insuficiências, inseguranças.
À guisa do que vimos afirmando, destacamos que iniciamos a nossa trajetória de formação universitária na cidade de Teresina, Piauí, o que significa além de um sonho, um compromisso pessoal, profissional e social. Dessa forma, começamos o curso de Licenciatura Plena em Ciências Biológicas, habilitação em Biologia, na Universidade Federal do Piauí- UFPI, concluído em fevereiro de 1979. Como iniciante na vida acadêmica as experiências vivenciadas marcaram, de certa forma, nossa maneira de ser, configuraram nossa personalidade, fazendo e me transformando no que somos ao mesmo tempo em que nos transformávamos em outra pessoa.
Durante a graduação, participamos de vários eventos científicos e de atividades de organização e coordenação na área de Meio Ambiente em instituições governamentais e não governamentais. Nesse percurso, atuamos como professora de Biologia do ensino médio na Unidade Escolar “São Francisco de Assis”, considerada uma escola destaque do Estado na década de 1970.
No ano de 1976, por intermédio de convênio entre a Secretaria de Educação do Estado do Piauí e a Universidade Federal do Piauí- UFPI fomos selecionadas para ser professora de Biologia na supracitada Unidade Escolar, competindo com colegas licenciandos do referido curso. Iniciamos as atividades de ensino em março de 1976, e a partir de março de 1978 até janeiro de 1986 passamos a fazer parte do quadro de Supervisão Pedagógica de 1º e 2º graus em nível central, na qualidade de Supervisora Pedagógica das Áreas de Ciências e de Biologia dessa Secretaria, passando a elaborar, orientar, acompanhar e avaliar projetos e diretrizes vinculadas às referidas áreas.
No ano mencionado, atuamos como Consultora Ambiental na Fundação Rio Parnaíba - FURPA, entidade não governamental, onde com uma equipe multidisciplinar formada por voluntários da FURPA UFPI, IBAMA, EMBRAPA, ABIOPI e SEMAR elaboramos e executamos encontros, seminários e campanhas educativas voltadas para a preservação dos rios Parnaíba e Poti em Teresina- PI. Essas iniciativas nos incentivaram e nos permitiram aprofundar os conhecimentos na área de Meio Ambiente o que propiciou, anos mais tarde, experiência para orientar projetos dos alunos bolsistas do PIBIC/ UESPI, que resultaram em publicações em eventos científicos.
Destacamos que as experiências supracitadas nos afetaram e contribuíram na construção de nossa personalidade, à medida em que as circunstâncias nos autorizavam a tornar-nos autoras de nós mesmas. Nesse sentido, inspiramo-nos no pensamento de Larossa (2002), quando expressa que se torna incapaz de experiência aquele que se põe, se opõe, se impõe, mas não se expõe; que se comporta indiferente ao que se lhe passa; e, dessa forma, nada lhe acontece, nada lhe sucede, o toca, nada lhe chega e nada o afeta, a quem nada o ameaça e a quem nada ocorre.
Nessa trajetória de formação, após a conclusão do curso de graduação, participamos ativamente de cursos de especialização Lato sensu, aperfeiçoamento e de extensão os quais proporcionaram uma formação
eclética e integrada à preocupação com os problemas ambientais. Seguramente, o conjunto dessas experiências, aliadas a outras, constituíram o embrião daquilo que se materializa atualmente, na forma de tese de doutorado que busca compreender a percepção que os moradores da Lagoa Piçarreira do Cabrinha atribuem aos impactos ambientais do entorno dessa Lagoa e como suas vidas são afetadas neste espaço lacustre.
O esforço para compreender o mundo, a nós mesmas, aos outros, conduziram-nos a contextos diferenciados, porém interligados do ponto de vista da formação. Dessa forma, fomos professora de Biologia do Ensino Médio pela Secretaria da Educação do Estado do Piauí- 1976/1986); professora de Biologia (Centro de Ensino Superior do Piauí- CESP- 1986 a 1992); coordenadora do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas (CESP- 1986 a 1992); coordenadora geral de cursos (CESP- 1989 e 1990); chefe do Departamento de Ciências Biológicas e Educação Física (Universidade Estadual do Piauí - UESPI 1990 a 1993); chefe da Divisão de Pesquisa da Coordenadoria de Pesquisa e Pós-graduação da Diretoria de Ensino, Pesquisa e Extensão (UESPI - 1992); Vice-diretora do Centro de Ciências Biológicas e da Agricultura (UESPI - 2003 a 2007), dentre outras experiências semelhantes.
A sala de aula se constituiu como um lugar no qual nos sentíamos e ainda nos sentimos extremamente confortáveis. Vimos com muita clareza que realizar pesquisas que tivessem como lócus os ambientes de ensino e aprendizagem de Biologia nos trariam muita satisfação e poderiam contribuir para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem.
O planejamento das atividades didático-pedagógicas para as disciplinas que ministrávamos não se constituiu uma atividade fácil. Havia a dificuldade e a inexistência de materiais didáticos sobre os conteúdos que deveriam ser trabalhados. Essas dificuldades nos inspiraram a produção de material contextualizado para cada disciplina o que resultou na elaboração e publicação, em parceria, do livro intitulado: Didática Participativa. A publicação desta obra se deu em 1996, como material didático para os cursos de licenciaturas na modalidade – Período Especial da Universidade Estadual do Piauí - UESPI. Com vistas à qualidade das aulas e, consequentemente, atenta à aprendizagem dos discentes, buscamos subsídios na literatura clássica e contemporânea internacional, nacional e regional.
Fazemos parte do quadro de docentes da UESPI que nos oferece condições satisfatórias de trabalho e oportuniza estabelecer relações profissionais com colegas da nossa e de outras unidades e/ou instituições, o que possibilita o intercâmbio de conhecimentos e ideias que são continuamente, ampliadas e aprofundadas.
O conjunto das experiências vivenciadas em ensino, pesquisa e extensão envolveram nossas implicações nos contextos das instituições educacionais, articuladas àquelas que se operacionalizaram na realidade externa à Unidade- exemplificando, o Projeto de Pesquisa Percepção de Moradores sobre os Impactos Ambientais no Entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, zona Norte de Teresina- PI- contribuíram como referencial de maior experiência na área e também proporcionaram publicações, que seguramente, facilitaram a elaboração de textos de capítulos da tese. Esses estudos e experiências ganharam dimensão por representarem implicações, sentidos e interpretações de acordo com nossas vivências no tempo e nos espaços formativos (ARAÚJO, 2011).
A continuidade de nossa formação em nível Stricto sensu aconteceu em 2010, quando a Universidade Estadual do Piauí - UESPI e Universidade Federal de Pernambuco - UFPE assinaram convênio para execução do Programa DINTER em Geografia. Pontuamos que este convênio se constituiu uma oportunidade de qualificação profissional, tendo em vista que sempre estivemos voltadas para as atividades de ensino, pesquisa e para a organização e coordenação de eventos na área ambiental. Outra decisão estava relacionada à ideia de que o período de realização do doutorado marcaria o início da nossa transição da área de pesquisa em Biologia e Educação para a área de pesquisa em Geografia, áreas que são, diga-se de passagem, afins.
Enfatizamos que durante o período em que cursamos as disciplinas do doutorado a intimidade que desenvolvemos com as fontes bibliográficas, passando a aprofundar mais os estudos para a nossa tese, foram marcantes para o nosso desenvolvimento. Nossa formação inicial se assemelhou a uma viagem segura, controlada, pretensamente prevenida quanto às incertezas para, assim, chegar aonde pretendiamos. Ou seja, pautava-se no modelo newtoniano-cartesiano, o qual, a despeito de ter contribuído no desenvolvimento científico e tecnológico do mundo atual, contribuiu também para alienar o homem da natureza, do trabalho criativo, de si mesmo e dos outros.
Dessa forma, esse tempo de experiência durante o doutorado, fez-nos compreender que a formação é muito mais do que seguir itinerários prescritivos, muitas vezes autoritários, com normatizações conservadoras e duradouras, pautados em uma ideia de ensino transmissível e conhecimento acumulado, ideias essas de acordo com a construção de uma visão fixa, acabada. O conjunto das experiências vividas subjetiva e objetivamente, nas relações estabelecidas com os colegas no doutorado, os professores, os gestores e instituições formadoras, propiciaram um amadurecimento pessoal e profissional, que nos mobilizaram a compreender que a formação se constitui como processos sempre inacabados, forjados nas itinerâncias e errâncias (MACEDO, 2010) da nossa condição de ser humano. Debruçando sobre nossa própria experiência como possibilidade de conhecimento e formação, defrontávamos conosco, com nossas incertezas, insuficiências, inseguranças.
Neste aprendizado, destacamos como uma experiência relevante: a organização teórico-metodológica de execução da disciplina Métodos e Técnicas de Pesquisa, ministrada pela Professora Dra. Maria Zanin, no período de 03 a 08 de outubro de 2011, na UFPE. A disciplina foi estruturada em 06 (seis) aulas com as seguintes atividades de ensino-aprendizagem: exposição oral dos conteúdos, debates, leituras, estudos individuais e grupo, resolução de exercícios, exposição individual da primeira e segunda versões do projeto de pesquisa, exposição em painéis. A cada aula era escolhido 01 (um) ou 02 (dois) relator(es) para sistematizar as atividades desenvolvidas. Ao final da disciplina cada aluno elaborou um relatório não apenas como exigência legal, à obtenção de nota, mas também, como um instrumento capaz de impulsionar a criação de uma cultura de planejamento ou na acepção do termo, “acompanhar a execução das ações”.
Não podemos deixar de ressaltar a importância da experiência de campo vivida nos Assentamentos Rurais das cidades de Teresina, Demerval Lobão, Oeiras, São Raimundo Nonato, São João e Guadalupe na disciplina: Tópicos Especiais em Geografia Agrária dos Professores Doutores – Caio Augusto Amorim Maciel e Cládio Ubiratan Gonçalves, período de 21 a 25 de novembro de 2011. A experiência nesses Assentamentos, nos permitiu não somente observar, descrever e comparar o meio rural, visando à compreensão do ordenamento territorial e ambiental a partir das unidades produtivas e seus modos de vida mas, sobretudo, compreender os processos interativos, reflexivos e cooperativos dos assentados no meio que vivem.
Como resultado dessa experiência, elaboramos um Relatório com riqueza de detalhes sobre as atividades de campo da disciplina em foco e divulgação dos resultados para a turma.
Outra atividade de campo enriquecedora para nossos estudos do doutorado foi a disciplina Estudos Integrados do Meio Ambiente do Professor Doutor Antônio Carlos de Barros Corrêa, da UFPE, ministrada no período de 01 a 03 de fevereiro de 2012. Fizemos Avaliação Qualitativa do Grau de Vulnerabilidade em Ambientes da Zona Urbana de Teresina, Piauí em 06 (seis) pontos: Aterro Controlado, Planalto Bela Vista, Terraço Rio Poti, Extração Mineral, Parque da Cidade e Lagoa Piçarreira, tomando como parâmetros: coordenadas, elevação, formas de relevo, estrutura superficial, uso da terra, vegetação, processos superficiais e grau de estabilidade. Conclusão, a estabilidade morfodinâmica dos diferentes ambientes analisados evidenciou que a maioria encontra-se em nível máximo de vulnerabilidade, o que representa pela escala de Tricard um grau de sensibilidade a uma situação de risco. Este trabalho, bastante enriquecedor para nossas pesquisas, foi apresentado em evento científico.
As experiências, em seu conjunto, nos dirigiram à participação com apresentação de trabalhos em congressos nacionais e internacionais, dentre os quais, destacamos: Sentidos de Moradores Sobre os Impactos Ambientais no Sistema Lagunar dos Rios Poti e Parnaíba- Teresina- PI (2012- III Seminário Nacional do Laboratório de Estudos sobre Espaço, Cultura e Política - LECGEO/ UFPE); Percepção dos Moradores de Bairros da Zona Norte de Teresina- PI sobre os Impactos Ambientais nas Lagoas da Região *(XII Simpósio de Produção Científica e XI Seminário de Iniciação Cientifica- 2012); * As Lagoas da Zona Norte de Teresina- PI: Caracterização e Proposta Paisagística; Percepção de Moradores sobre os Impactos Ambientais no Entrono da Lagoa Piçarreira, Bairro Matadouro em Teresina- PI; e Percepção Ambiental e Planejamento Urbano: Reflexões sobre o Espaço Lagunar na Globalização (2013- III Congresso Internacional Ciências, Tecnologias y Culturas. Diálogos entre las Disciplinas del Conocimiento. Mirando al Futuro de América Latina y el Caribe- Hacia uma Internacional del Conocimiento). Transformações e Permanências do Espaço: Entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha em Teresina- PI (2013. Direito, Educação, Ética e Sustentabilidade: Diálogo entre os vários Ramos do Conhecimento no Contexto da America Latina e do Caribe- Bogotá- Colômbia).
As considerações dimensionadas nos remetem a retornar à queda de Rousseau mencionada no início desse registro, mostrando que esse fato revela, na verdade, a luta paradoxal entre o desmoronamento do nosso eu e a afirmação de nós próprios. Ao tomar consciência do nosso eu, ainda assim, a pergunta fundamental continua: ─ Quem sou eu? E essa indagação nos mobiliza a continuar nossa viagem de formação, como um processo, uma aventura, “uma viagem no não planejado e não traçado antecipadamente, uma viagem aberta, em que pode acontecer qualquer coisa, e na qual não se sabe aonde se vai chegar nem mesmo se vai se chegar a algum lugar” (LARROSA, 2004).
Dessa forma, buscar compreender as relações que podem ser estabelecidas entre a percepção dada pelos moradores do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha de Teresina-PI, ao conjunto dos impactos ambientais vivenciados por eles e o uso e ocupação desse espaço exigiu do nosso trabalho um aporte teórico e metodológico que proporcionou a aproximação, o máximo possível, com o objeto pesquisado.
A partir do objeto de estudo que tratou da articulação entre homem-natureza, evidenciando como os moradores do entorno da Lagoa da Piçarreira do Cabrinha da zona Norte de Teresina, compreendem sua inserção nesse meio e para além, e como usam e ocupam esse espaço, pressupomos que para a existência de uma educação ambiental eficaz e que leve em conta o perfil das populações que habitam o entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, é mister, como ponto de partida, compreender a maneira como os próprios sujeitos sociais vivenciam, nomeiam e valorizam seu ambiente.Há, portanto, a necessidade de lançar à realidade e seus processos um feixe de olhares e uma pluralidade de linguagens que possam traduzir a realidade e os olhares dirigidos a ela, o que somente é possível a partir de uma leitura multirreferencial e complexa (MACEDO, 2010).
Como estratégia metodológica para o desenvolvimento da pesquisa, fizemos o uso da etnografia por meio da qual descrevemos a cultura dos moradores, seus hábitos, crenças, processos de interação social: conhecimentos, as idéias, as habilidades, normas de comportamento e os hábitos adquiridos na vida social desses moradores. Para tanto, lançamos neste item algumas ideias de autores da etnografia como método para este estudo, bem como de princípios da etnometodologia, que deram suporte para uma maior compreensão acerca do objeto de estudo.
2.2 Etnografia e Princípios da Etnometodologia: fundamentos teórico-