J ONE SHOT I
29 TRACK GREATER
Quanto mais a futura ação salvífica de Deus rompe todas as analogias da história vivida e transmitida por Israel sobre seu Deus, e faz transbordar para a história dos povos o julgamento que principia com Israel, tanto mais nitidamente se delineiam os primeiros vestígios de uma escatologia universalmente humana. Neste ponto já se vislumbra, provavelmente, aquilo que se deve chamar apocalíptica (2003:157; itálicas do autor)
Não vamos aqui resenhar as diferenças entre apocalíptica e profecia. Elas estão muito bem elencadas no texto que estamos examinando (2003:160-61). Queremos, sim, elencar os elementos principais na descrição, e apontar para as tensões que se dão na elaboração do tema. O próprio Moltmann aponta para o caráter problemático do assunto, ao afirmar as diversas e contraditórias opiniões que se têm a respeito da apocalíptica nos diferentes expoentes do tema, por exemplo, as divergências entre G. Von Rad e W. Pannemberg. A pergunta decisiva é pela continuidade: a apocalíptica, com o seu interesse pela cosmologia, permanece o não dentro da escatologia, que é, na sua versão profética, antes de tudo, uma
15 Aqui parece se sentir com muita força a ausência de uma teologia do Antigo Testamento que leve em conta os escritos da sabedoria em Israel. Na reflexão teológica de Gerard Von Rad na sua Teologie das Altentestament não inclui estes textos da sabedoria, os quais com muita sutileza e profundeza tematizam o sofrimento humano e a vida. Sendo G.Von Rad o fundamento bíblico em Moltmann, fica claro o porque desta ausência.
esperança histórica, ou se, por outro lado, opõe-se a ela de forma irreconciliável. Com efeito, apesar de tantos elementos claramente contraditórios em relação com a escatologia profética,16 a apocalíptica não é mais do que a inserção do cosmos na escatologia. Não é que a escatologia se torne cosmológica e estável, fixa; ao contrário, a cosmologia faz-se escatológica quando o cosmos como um todo é inserido historicamente dentro do processo do eschaton (2003:164). Mais do que uma simples periodização da história, a apocalíptica estende (estica?) a história cosmológica e a transforma em história escatológica. Desta forma, o cosmos vira um éon; ao éon presente, segue o éon eterno.
Fica evidente como a escatologia realmente não pode ser universal a menos que passe pela apocalíptica, visto que é a apocalíptica que pensa a escatologia em termos cosmológicos, isto é, não são somente Israel ou os povos que participam do sofrimento do fim dos tempos, mas a criação como um todo. “Através dela [a apocalíptica] a escatologia se torna o horizonte universal de toda a teologia” (2003:165). Eis o porquê, trinta anos depois, a escatologia de Moltmann encontra quatro grandes divisões; à escatologia pessoal segue a histórica, e a esta última segue a cósmica (a quarta, a divina é necessária para fechar o seu sistema teológico).
Qual o tratamento do assunto em A vinda de Deus? Comecemos por destacar um elemento que aparece já em 1964 e parece ter continuidade em 1995. Em 1964 Moltmann descreve a relação entre ameaça – julgamento – promessa – e salvação, como estando dentro de uma mesma e só estrutura. A salvação se dá na superação (e esta de caráter escatológico) deste esquema em um esquema que só contempla a salvação: o Deus da ira superado pela bondade de Deus, etc. (2003:158). Por isso, em 1995 ele afirma o que já citamos, não há início de um novo mundo sem o fim deste velho mundo... Destarte, os sofrimentos e horrores atuais passam a ser “os efeitos colaterais necessários do novo nascimento do mundo” (1995:250, grifo nosso). E continua no mesmo parágrafo: “O ocaso deste mundo já é propriamente o primeiro ato da salvação”. Para Moltmann a apocalíptica não deixa de ter um forte elemento esperançoso, de apelo à práxis de libertação e de transformação do nosso mundo. “A interpretação apocalíptica do tempo, sem dúvida, é o contexto da consciência missionária protocristã” (1995:251). A práxis de Jesus vincula dois elementos: uma pregação que por vezes é claramente apocalíptica e, ao mesmo tempo, uma proclamação (prática) do reino messiânico de Deus; portanto, o pano de fundo apocalíptico da sua pregação se complementa, neste caso, com uma prática revolucionária de transformação radical do
16 Isto é, conceição determinista da história e caráter irrevogável do julgamento, tematização do “mundo”–não de Israel e os povos, como na profecia–, radicalidade absoluta a respeito da transformação –não mais reforma ou aperfeiçoamento, mas “nova criação”–, abstração da história
mundo. Como atuaram e se articularam estas duas coisas na pessoa de Jesus? Ou, colocando melhor a questão, qual a contribuição dos redatores dos evangelhos em termos do encorajamento para uma esperança em meio a horizontes históricos fechados a partir da vida de Jesus? Esteve a vida de Jesus estreitamente ligada a esperanças apocalípticas de modo a sua mensagem depender diretamente destas esperanças? Estas perguntas parecem levar a um beco sem-saída. O máximo que poderia ser feito em relação a estas perguntas é explorar uma resposta a partir do estudo das comunidades primitivas. É bastante complexo. Entretanto, para Moltmann é certo que “as comunidades cristãs do 1º século retomaram as antigas concepções apocalípticas do fim do mundo” (1995:252).
Esta retomada da apocalíptica na sua categoria de fim do mundo está em estreita relação com a compreensão escatológica do evento de Cristo. A fórmula é: o fim ainda não veio, mas o novo já está presente apontando para a superposição das duas dimensões do tempo.
...o deslocamento cristão de fases dos éons leva a uma simultaneidade em que se sobrepõem o velho éon, que ainda está correndo ao encontro do seu fim, e o novo éon, que já começou com a vinda de Cristo e a efusão do Espírito de Deus. (1995:253) Em meio ao seu mundo decadente, a comunidade protocristã é lançada em missão messiânica sob a memoria ressurrectionis Christi, sendo compelida a olhar através do horizonte da morte para dentro do novo espaço de vida eterna, o novo mundo de Deus; em conseqüência, viver essa esperança significa agir em conformidade com esse mundo, mundo de justiça e de paz (1995:255).
Infelizmente não podemos aqui descrever a totalidade de elementos que Moltmann discute na sua escatologia a respeito deste tema. Fica faltando a consideração dos outros aspectos como o juízo final, a doutrina da reconciliação universal, a predestinação, a ida de Cristo ao Inferno, etc. Temos então optado por escolher aqueles pontos que são de maior relevância e que se relacionam diretamente com os elementos que nós pretendemos problematizar na nossa dissertação. Na esperança de termos dado escolhido bem estes assuntos centrais e em termos dado um adequado tratamento segundo a perspectiva do autor, prosseguimos ao último elemento da nossa análise que, em relação com os dois pontos anteriores, será muito mais breve.