(...) Por isso é justo sublinhar que a escatologia cristã é, no seu cerne, “cristologia em perspectiva escatológica” (2003:230)
A escatologia em Moltmann é um movimento teológico que parte da cristologia. Isto aparece claramente em várias passagens do texto de 1995, “A vinda de Deus”. Diante de cada questão colocada, o critério ao que ele recorre para iniciar a argumentação é Cristo, a cristologia. É o “método de dar respostas cristológicas a perguntas escatológicas” em suas próprias palavras (1995:271). Mas isto também se encontra desde o início da teologia em Moltmann. Em 1964, na sua Teologia da esperança, o tema do Reino de Deus não tem tratamento em nenhum dos capítulos, exceto ao aparecer como um subitem? Na reflexão sobre A ressurreição e o futuro de Jesus Cristo.12 Ali, logo no início, aparece de modo claro e preciso: “A tendência escatológica da revelação de Cristo mostra que as palavras euangelion e epangelia constituem uma só coisa”. Isto é, o fio condutor continua a ser o mesmo: é a promessa que está no centro do desenvolvimento teológico de todos os assuntos a serem tratados por ele. Neste caso, o Reino de Deus é apresentado no seu caráter de promessa: a boa notícia do Reino é a promessa do futuro Reino de Deus. Da mesma forma que a ressurreição de Cristo revela o futuro da humanidade, como irrupção absoluta e declaração da vontade de Deus perante o mundo, assim também a vida e pregação de Jesus, os seus milagres e os seus sinais são, da mesma forma, irrupções históricas do futuro prometido de Deus. O Reino, visto de forma seminal na vida e obra de Jesus, terá a sua completude na era escatológica do futuro de Jesus Cristo.
Com esse pano de fundo que acabamos de esclarecer sobre o caráter cristológico na escatologia moltmaniana, queremos comentar brevemente nesta seção a relação entre Ressurreição e Reino de Deus.
Em Moltmann há uma redução teológica na categoria cristológica da ressurreição. Isto nós tentamos explicitar no ponto anterior. Cristo é central na teologia enquanto relacionado com este evento (até certo ponto poder-se-ia dizer que incluso Jesus acaba passando a um segundo plano diante do ‘conceito’ de ressurreição). Assim, a sua vida, e o seu discurso veiculado na sua pregação e nos seus ensinamentos só revestem importância se e somente se eles estiverem orientados pelo evento da ressurreição. Em outras palavras, na teologia da esperança, ‘esperança’ é correlato de ‘ressurreição’. Não é possível termos esperança a não ser na esperança da ressurreição. Como foi analisado na seção anterior, a partir desta categoria
resultam várias conseqüências e fundamentações. A ressurreição passa a ser o critério hermenêutico central que articula toda a teologia. Ela é indispensável até para pensar a vida de Jesus. Não é a vida de Jesus que determina o valor da ressurreição, é a ressurreição que determina a relevância da vida e obra de Jesus. Bem o disse o apóstolo Paulo: “Se Jesus não ressuscitou, vã é a nossa fé”. Pois bem, não podemos entender o tratamento que Moltmann dá à categoria de Reino desligada da análise feita no ponto anterior, isto é, no referente à ressurreição como o evento escatológico primário, primeiro, primigênio. Assim resulta que se, por um lado, a ressurreição aponta para a ‘vida eterna’ como um dos símbolos com que se expressa a esperança escatológica, por outro lado “Vida eterna só existe no Reino de Deus” (1995:145). Portanto: se ressurreição é a primeira promessa de Deus, o Reino é, da mesma forma, a promessa maior no interior da qual inscreve-se a esperança de vida eterna.
Mas aqui será necessário acrescentar a seguinte relação: assim como a ressurreição se apresenta como um evento escatológico, da mesma forma o Reino será uma realidade escatológica. Não entender o seu caráter escatológico levará ao quiliasmo histórico, ou ao apocalipsismo histórico, dois erros decorrentes desta incompreensão que serão analisados mais à frente. A pergunta neste ponto poderia ser: qual é finalmente o elemento revolucionário da teologia da esperança que busca, na tematização do Reino de Deus, a transformação do nosso mundo? Para Moltmann a missão decorre diretamente de uma reflexão sobre a ressurreição: é a análise da tendência interna da ressurreição que faz surgir a consciência da missão. Considere-se:
Poder-se-ia dizer que a escatologia cristã é conhecimento através da tendência da Ressurreição e do futuro de Cristo e por isso passa imediatamente à ciência prática da missão. (...) A concepção cristã de história não é a ciência a respeito dos milhares de anos do universo histórico, através de um conhecimento secreto de um pretenso plano de Deus para a História, mas é a consciência da missão pelo conhecimento do comissionamento divino, a saber, a consciência da existência da contradição entre esse mundo e o sinal que é a cruz, sob cujo signo estão a missão cristã e a esperança dos cristãos. As aparições pascais de Cristo são evidentemente aparições de comissionamento. (2003:233).
Nesta citação podemos ver claramente como Moltmann se posiciona em contra das escatologias dispensacionalistas e o seu conceito determinista de história. Por outro lado, a consciência da missão decorre claramente da percepção –igualmente histórica– que está guiada por um conhecimento concreto, conhecimento este que parte da ressurreição, e que orienta a compreender a história na direção desse horizonte cuja função principal é a de contradição do presente. Há, portanto, uma relação direta entre o evento revelatório da ressuscitação de Jesus pelo Pai, e a história de missão decorrente que se abre para o futuro, orientada pelo horizonte de promessa aberto pela ressurreição. Portanto “a esta realidade da
Ressurreição de Jesus se segue o testemunho da pregação missionária universal como algo inseparável” (2003:223). Por quê? Porque neste evento, e no aprofundamento do seu significado, os discípulos procuraram entender o que ele lhes revelava; “eles constroem a sua fé no horizonte das expectativas, esperanças e interrogações proféticas e apocalípticas concernentes àquilo que, conforme as promessas desse Deus, deve ainda vir” (2003:229; itálicas nossas). Tais promessas estão em relação direta com as promessas de Deus já feitas ao povo de Israel, que, junto com a consideração do estado atual imperfeito do nosso mundo que contradiz a promessa, preenche a missão com conteúdos concretos.
A ressurreição, portanto, revela-lhes a necessidade de transformação do mundo cuja caminhada deve ir necessariamente orientada pela lógica da ressuscitação do crucificado, e pela luta contra as estruturas que levaram o justo à cruz. O Reino, na pregação de Jesus, se manifesta para eles como o horizonte onde a promessa de ressurreição, que é entendida como promessa de vida plena, vida eterna, terá o seu cumprimento pleno. Por fim, ao considerar a compreensão que Moltmann tem acerca da realidade histórica e presente como realidade a ser redimida, é preciso explicitar porque e como é que em Cristo dá-se início ao Reino de Deus. Para Moltmann a justificativa da missão e o seu caráter absoluto estão diretamente ligados com um pressuposto: a necessidade de a existência humana ser total e radicalmente questionada (2003:169). É só através desse questionamento onde a história (aludindo ao conceito semita de história) tem verdadeiramente a sua origem. Este questionamento acontece, para Moltmann, na unicidade (caráter único) e originalidade do evento crístico em Jesus. Nesse evento a revelação não se esgota na história, mas se estende para além dela pela conexão que há entre o evento e a promessa com a qual se liga (2003:169-170). À singularidade deste evento, corresponde indefectivelmente a pregação missionária: “somente a pregação missionária está à altura do caráter histórico e escatológico desse evento” (2003:226). Ainda dentro da relação entre cristologia e reino de Deus, consideramos necessário nos determos com maior detalhe, como anunciado no ponto um, sobre a relação entre história, historicidade da Ressurreição, e a missão cristã, mas trataremos o conteúdo da reflexão num item diferente, a seguir.