Na entrevista e no questionário são colocadas questões aos paisW acerca de como se comportam habitualmente com os seus filhos em diversas situações e face a diversos comportamentos destes. Procura-se assim um comportamento modal, desvalorizando-se as
nuances criadas por exemplo pelo contexto. Esta técnica faz sobretudo apelo à capacidade de
introspecção e de descrição dos pais. A linguagem, oral ou escrita, é um canal priveligiado nesta situação. A principal vantagem deste tipo de método é a enorme quantidade de informação que se pode recolher numa pequena porção de tempo. Esta informação diz muitas vezes respeito a comportamentos que dificilmente se manifestam na presença de um observador ou que variam consideravelmente de situação para situação. Os pais têm uma posição priveligiada para observar estes comportamentos menos comuns ou que só aparecem na intimidade da relação mãe-filho. E assim um instrumento de trabalho bastante cómodo e perspicaz.
Os questionários, sendo compostos principalmente por questões fechadas, são mais fáceis de administrar (é necessário menos treino), codificar e analisar. As entrevistas, muitas vezes incluindo perguntas abertas só codificáveis a posteriori, exigem uma relação face-a-face e, portanto, são mais exigentes em termos de administração.
Tanto o questionário como a entrevista estão sujeitos a críticas relativas à fidelidade e à validade da informação que permitem recolher, na medida em que se baseiam nas competências dos pais para se auto-analisarem e descreverem os seus próprios comportamentos e o contexto onde ocorreram (Maccoby & Martin, 1983). De facto, os pais nem sempre têm consciência daquilo que acontece, o que é compreensível visto que as situações de interacção são situações com uma forte carga emocional. O envolvimento dos pais nem sempre lhes permite o distanciamento necessário a uma análise e descrição completa e objectiva, tanto dos comportamentos como dos contextos.
Por outro lado, nem todos os pais dispõem das competências linguísticas necessárias à interpretação das questões escritas ou orais e à produção verbal das suas respostas. As competências linguísticas podem constranger, limitar ou mesmo deturpar os conteúdos que os seus pais pretendem transmitir. Termos com significados ambíguos ou pouco claros, por exemplo, podem ser entendidos ou utilizados de forma diferente por duas mães. O factor
( A entrevista também pode ser respondida pelos filhos relativamente aos comportamentos educativos dos pais
memória também é determinante quando se pretende que os pais relatem acontecimentos passados. São frequentes os esquecimentos, as confusões temporais, ou as confusões entre acontecimentos passados com diferentes filhos, mesmo nos pais mais diferenciados intelectualmente.
Outro aspecto que pode influenciar a validade da informação recolhida é a desejabilidade social. Aquilo que é um padrão considerado correcto numa dada sociedade, seja porque faz parte da cultura dominante, seja por ser transmitido através de peritos em educação ou via mass media, pode ser facilmente absorvido pelos pais no seu discurso, provavelmente de uma forma pouco consciente. Os pais preocupam-se sempre em dar uma boa imagem de si próprios. Não se pode porém deixar de concordar com Rubin e Mills (1992) que relativizam a questão quando afirmam que a descontinuidade entre os comportamentos relatados pelo próprio e os comportamentos observados por outrem, é um problema comum a várias áreas de estudo da Psicologia, não sendo específica do estudo dos pais.
A entrevista, sendo mais dispendiosa do que o questionário, tem porém algumas vantagens sobre este último. Por um lado, permite estabelecer uma relação interpessoal positiva com os pais, relação esta indispensável para o prosseguimento de etapas posteriores, quando se trata de estudos mais prolongados. Por outro lado, permite uma maior garantia de que, de facto, os pais estão a entender aquilo que se lhes está a pedir, diminuindo a possibilidade de ambiguidades ou más interpretações e aumentando assim a validade das respostas.
Tendo em vista aumentar o carácter de objectividade das respostas dos pais e facilitar os seus processos mnemónicos, utilizam-se por vezes as chamadas vignettes({\ sobretudo
quando se está interessado em situações específicas da interacção pais-filhos, como é o caso dos encontros/conflitos disciplinares. Neste contexto, as vignettes são descrições sucintas e claras de situações hipotéticas de interacção, em que a mãe (ou o pai) se deve imaginar a ela própria e ao seu filho/a como protagonistas daquela situação. Em geral, quando se trata de uma situação que nunca ocorreu, pede-se ao adulto que imagine que ela ocorreria. A partir daí, colocam-se diversas questões, consoante os objectivos da investigação. A questão que mais comummente aparece é a relativa ao comportamento que o adulto apresentaria naquela
situação. Questões menos frequentes têm a ver com a justificação do seu comportamento, com a justificação do comportamento da criança (atribuições) e com as emoções sentidas.
No domínio do estudo dos comportamentos educativos parentais, este tipo de metodologia foi utilizado, entre outros, por Gerris e Janssen (1988), Grusec, Dix e Mills (1982), Grusec e Kuczynski (1980), Mills e Rubin (1992) e Reid e Valsiner (1986, sobretudo no estudo dos comportamentos disciplinares utilizados pelos pais, utilizando portanto histórias que implicavam transgressões a regras ou a padrões morais por parte da criança^1). Os investigadores que utilizam as vignettes como metodologia de recolha da
informação sobre as interacções disciplinares, pretendem ainda demonstrar que as variáveis situacionais são um factor determinante no tipo de comportamento apresentado pelos pais (estes estudos serão revistos mais à frente).
As vignettes colocam os entrevistados face a tarefas de natureza verbal-construtiva (Reid & Valsiner, 1986), as quais pretendem ser ecologicamente válidas, representativas de situações da vida real. Na medida em que se trata de situações concretas, objectivas e não ambíguas, a linguagem não constitui um entrave à compreensão dos conteúdos (a não ser que sejam apresentadas por escrito) nem à emissão de uma resposta concreta, mesmo pelas mães de nível educativo mais baixo. A informação recolhida através das vignettes é uma informação actual, minimamente retrospectiva e, portanto, altamente acessível ao consciente das mães. Por outro lado, esta informação dificilmente será obtida através de uma metodologia de observação directa.
Poder-se-á pensar que as mães, quando descrevem o seu comportamento, estão a ser influenciadas pelos padrões mais desejáveis socialmente, tal como acontece com as respostas à entrevista ou ao questionário de uma maneira geral. Porém, os estudos realizados não apontam neste sentido, na medida em que comportamentos disciplinares menos desejáveis do ponto de vista social (do tipo punitivo) aparecem referidos com bastante frequência (Grusec & Kuczynski, 1980). O facto de se apresentar à mãe a descrição de um comportamento inadequado, realizado pelo seu filho, como um acto consumado (apesar de hipotético), contribuirá para que a mãe sinta que a sua relação com a criança é compreendida, aceite e, como tal se sinta à vontade, sem necessidade de assumir uma atitude defensiva, visto que não se sente avaliada. Kochanska, Kuczynski e Radke-Yarrow (1989), comparando as respostas das mães a vignettes com a observação em contexto naturalista dos seus comportamentos
disciplinares, apoiam a validade ecológica desta técnica. Nalguns estudos é colocada à mãe a questão de realmente a criança se comportar de acordo com o descrito; neste caso, a pergunta deverá ser colocada no fim, a não ser que a existência do comportamento na criança seja uma condição necessária para a colocação das outras questões.
Continuando na linha da consideração dos pais como principal fonte informativa, uma outra metodologia utilizada por alguns investigadores (Chapman & Zahn-Waxier, 1982; Hoffman,1960; Trickett & Kuczynski, 1986; Zahn-Waxler, Radke-Yarrow & King, 1979) consiste em relatórios elaborados pelos pais^. Esta metodologia permite obter uma descrição de acontecimentos relativamente raros, privados, intensos e dificilmente acessíveis através de técnicas estandartizadas. Os relatórios dos pais podem ter diversos formatos. O mais vulgar é o diário, em que é registada a ocorrência de comportamentos facilmente identificáveis por intervalos de tempo. A introdução de uma certa estruturação temporal minimiza o problema da retrospecção da informação, apesar de não resolver por completo o problema da memória. Neste caso, é preferível fornecer ajudas mnemónicas, na medida em que a memória de reconhecimento é mais eficaz do que a memória de evocação (Maccoby & Martin, 1983). Outro problema do registo sob a forma de diário tem a ver com a representatividade do dia ou da semana a que o registo diz respeito. Para solucionar, ou pelo menos minimizar esta questão, será aconselhável obter uma amostragem de vários períodos de tempo para anular os efeitos de circunstâncias não usuais. Constata-se ainda o risco de as mães, tornando-se mais conscientes dos seus comportamentos e dos determinantes destes (dada a exigência de auto- observação colocada pela tarefa), introduzirem modificações nos mesmos (Grusec & Lytton, 1988).
Há ainda autores que optaram por treinar os pais na realização deste tipo de registo (Trickett & Kuczynski, 1986; Zahn-Waxler & Chapman, 1982; Zahn-Waxler et ai., 1979). São definidos apriori quais os acontecimentos-alvo sobre os quais a observação deve recair. Estes acontecimentos são denominados de incidentes críticos. As mães devem relatar todos os incidentes que ocorrerem durante um determinado período de tempo e imediatamente a seguir à sua ocorrência. Deve ser um relatório detalhado e específico, não só dos comportamentos da criança e da mãe, mas também dos acontecimentos antecedentes e consequentes e do contexto global onde se inserem. As reacções afectivas de parte a parte constituem outra variável
( ' O estudo de F. Goodnough (1931) sobre as causas, frequência e duração das birras das crianças e os métodos
educativos dos pais e o estudo de Clifford (1959) sobre a disciplina, zanga e outras emoções na família, são citados como os primeiros estudos a utilizar esta técnica de recolha de dados, respectivamente por Grusec e Lytton (1988) e Trickett e Kuczynski (1986).
susceptível de ser considerada. Os comportamentos e sentimentos descritos são posteriormente codificados, por pessoas devidamente treinadas.
A avaliação da fidelidade dos registos parentais é uma das dificuldades que os investigadores têm encontrado, na medida em que a introdução de um segundo observador iria modificar o contexto de observação. Quando se trata de observar apenas os comportamentos da criança que surgem em resposta aos comportamentos do adulto, a situação torna-se mais fácil de resolver (Zahn-Waxler & Chapman, 1982). Dada a forte carga emocional das situações que são objecto de observação, as principais fontes de erro são, na perspectiva de Hoffman (1960), as seguintes: (1) esquecer ou distorcer não intencionalmente a informação; (2) falsificar deliberadamente a informação e (3) distorcer de forma motivada mas inconsciente a informação. A fim de evitar estes erros, este autor propõe que: (1) seja recolhida a informação relativamente ao dia anterior; (2) se aumente o interesse dos pais pelo estudo, mostrando que não estão a ser avaliados no sentido negativo do termo e (3) se enfatize a descrição factual e os detalhes para que haja um desinvestimento emocional nos significados dos comportamentos.
Note-se que os relatórios parentais dos incidentes críticos permitem obter o mesmo tipo de informação das vignettes, com a vantagem de corresponderem a situações de facto e não a situações hipotéticas, mas com a desvantagem de implicarem por parte das mães um maior envolvimento no seu dia a dia. Note-se ainda que estas duas técnicas se revelam especialmente adequadas quando o objectivo da investigação envolve a recolha de informação sobre os comportamentos específicos e o contexto onde ocorrem e em especial sobre os encontros disciplinares. Por outro lado, as entrevistas e os questionários revelam-se mais adequados quando se trata de recolher informação sobre atitudes, valores e comportamentos modais que caracterizam os estilos educativos parentais.