Oxycodone
2) Titration de la morphine par voie intraveineuse
Segundo Sandroni (2009), em 1990-1991 Siba (Sérgio Veloso), guitarrista e estudante de música da Universidade de Pernambuco, foi assistente de pesquisa do etnomusicólogo John Murphy que estava fazendo pesquisas de campo na Zona da Mata para sua tese sobre o cavalo-marinho. Lá conheceu a rabeca e iniciou seus estudos no instrumento, passando a frequentar constantemente a região e a criar relações estreitas com mestres e brincantes, como Mestre Batista, líder dos grupos de cavalo-marinho e maracatu Estrela de Ouro de Aliança, Luiz Paixão e Mestre Salú, rabequeiros de referência não só para Siba mas para o contexto da música de rabeca. Conforme contou em uma aula show ministrada no SESC Consolação em fevereiro de 2019:
E essa foi a minha escola de rabeca, eu nunca fui violinista, na verdade eu era guitarrista, já me envolvia com a cultura popular da minha cidade, Recife e também do Pernambuco em geral. Conheci o cavalo-marinho e através da rabeca e como músico que eu já era, consegui uma entrada em uma cultura que é bem mais abrangente, é a cultura de toda uma região que envolve não só esse teatro mas uma festa de rua muito importante pra mim que é o Maracatu de Baque Solto. O fato é que a rabeca foi o meu instrumento de começo profissional, com o aprendizado da rabeca eu formei minha primeira banda, que é o Mestre Ambrósio, uma banda que teve a sorte de percorrer um caminho razoavelmente longo, viajava muito e também para outros países, e a rabeca foi sempre meu instrumento principal (SIBA, 2019).
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Siba, nascido em 1969 na cidade de Recife e criado no subúrbio de Olinda, foi o primeiro filho de classe média urbana de sua família, que vinda do agreste, tinha seus pais como primeiros graduados nessa história. Mesmo sendo incentivado a ouvir música e tocar quando criança, era posto que deveria fazer uma faculdade que lhe oferecesse estabilidade financeira pelos caminhos convencionais, por isso, teve de quebrar muitas barreiras em sua família para assumir a profissão de músico e poeta. E conforme conta também em sua aula show, foi à Zona da Mata procurando se aprofundar e aprender sobre a cultura da região a fim de inseri-la em seu trabalho como músico.
Ao me assumir artista com 18 pra 19 anos, tinha uma clareza muito grande de que eu vivia num lugar que tinha uma riqueza que fazia parte de mim desde sempre e que aquilo era ponto de partida de um campo muito vasto como artista. A grande inspiração sempre foi, desde essa época, a música popular urbana, (...) a música cubana, toda a música que se forma na África dos anos 50 em diante, pois tem nela esse processo de um conflito entre a herança do colonizador com uma matriz cultural local muito viva, muito intensa. E ali se gera uma coisa nova, recorrente em todos os países da África, são mil histórias, e não cabe aqui muito discutir isso, mas eu tinha essa referência, me interessava muito pela cultura pop africana e via que aquilo de algum modo aparecia em Recife também, já tinha essa ligação e a partir desse momento ela foi consciência de uma música. E então sai percorrendo a cultura popular a que eu tinha acesso, e eu tinha uma ligação muito forte com a poesia e cantoria já. Quando cheguei na Mata Norte eu já tinha essa clareza, e lá foi o lugar que eu consegui um campo de me desenvolver, porque tinha uma tradição viva, é onde tá talvez o ponto de inflexão, onde eu poderia ter seguido um caminho mais de pesquisador, um caminho mais prático da coisa, já que ele pega o material, organiza e reformula de uma maneira lógica. Já eu naquele momento, tinha clareza que eu era um artista, então a parte de pesquisa era muito mais bagunçada, eu nunca fiz pesquisa de fato, fiz pesquisa como artista, com vivência e processamento das notas e informações simbólicas (SIBA, 2019). O Mestre Ambrósio, cujo nome faz referência ao mestre de cerimônias do cavalo-marinho da Zona da Mata Norte de Pernambuco, teve seu primeiro disco independente lançado em 1996. A banda era composta por Siba na guitarra e rabeca, Eder "O" Rocha e Maurício Alves na percussão, Helder Vasconcelos nos teclados, percussão e fole de oito baixos, Mazinho Lima no baixo elétrico e triângulo e Sérgio Cassiano percussão e voz.
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Sua sonoridade específica extrapolou os limites da rabeca da Zona da Mata pernambucana para além dos bancos de cavalo marinho e dos grupos de maracatu, levando-a a grandes palcos, junto a instrumentos elétricos, amplificadores, abrindo caminho para outras possibilidades rítmicas, melódicas e harmônicas. Conforme explica Linemburg:
Na música popular urbana, a rabeca atingiu visibilidade nacional e internacional, em meados da década de 1990, integrando o instrumental do Grupo Mestre Ambrósio, de Pernambuco. Nas mãos do multi instrumentista e compositor Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, mais conhecido como Siba, a rabeca foi empregada num contexto diferenciado, incomum para o instrumento, como por exemplo, ao lado da guitarra elétrica, amplificada e em grandes palcos. O produto da fusão de elementos tradicionais (ritmos e instrumentos) a outros da cena pop foi descrita pelos integrantes da banda como “música urbana de sentimento rural” (LINEMBURG, 2015, p.37).
Segundo Sandroni (2009, p.66) “em novembro de 1996, todos os integrantes do Mestre Ambrósio mudam-se para São Paulo. Siba e seus amigos assinam com a Sony Music, e em 1999 aparece seu segundo CD (Fuá na casa de Cabral). O grupo se dispersa pouco depois do lançamento do terceiro CD em 2001 (Terceiro samba).”
Figura 18: Matéria do Jornal O Globo Fonte: Jornal O Globo24
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Jornal O Globo. Coco,maracatu e baticum eletrônico. 19/5/1999 - Segundo Caderno, p. 5. Disponível em: <https://acervo.oglobo.globo.com> Acesso em: 06 jun. 2019.
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Sandroni também conta que, este segundo CD foi gravado em São Paulo e mixado em Nova Iorque, e embora não tenha correspondido às perspectivas de sucesso almejadas pelo grupo, que buscava maior acesso às rádios, tornou-se uma referência neste determinado campo da música de rabeca (SANDRONI, 2009. p. 66). Pode-se notar ainda na reportagem acima, a relevância da produção musical de Mitar Subotić (Suba), sérvio radicado no Brasil que foi um dos produtores mais conceituados nos anos 90.
Mesmo com sua morte prematura em 99, aos 38 anos, em pouco mais de 20 anos Suba construiu uma carreira interessante e foi um artista essencial para tratar a harmonia de criações que juntam o folclórico e o local com bases e ambientações que se criam no eletrônico tornando a experiência musical extremamente sensorial (BLOG DO JOAQUIM, 2013).
Este álbum aponta a profundidade do processo de hibridação em ação, revelando inúmeros agentes, estruturas e práticas na construção de um produto para o consumo urbano. A ligação do Mestre Ambrósio com as brincadeiras de Cavalo-Marinho foi de grande relevância, tanto para o folguedo quanto para a banda, conforme comenta o INRC:
No campo musical, trouxe ao público nacional e internacional a rabeca e músicas com ritmos inspirados no Cavalo-Marinho, incluindo, no primeiro CD, como música incidental [0:32], a toada da figura Pisa Pilão tocada por um banco de Cavalo-Marinho, e iniciando o seu segundo CD Fuá na Casa de Cabral (1998) com a faixa Trupé (queima carvão) [1:25] com participação especial de Mestre Biu Alexandre (voz), Luis Paixão (rabeca), Manoel Deodato (pandeiro), Biu Roque (bage e voz), Manoel Roque (bage e voz), Sidrak (mineiro), Borba (Mateus, bexiga), Miço (Bastião, bexiga), grandes músicos e toadeiros dos Cavalos-Marinhos pernambucanos. No mais, o grupo Mestre Ambrósio também divulgou a dança e as figuras do brinquedo, trazendo na capa do seu primeiro CD a imagem de uma máscara, artefato indispensável das figuras do Cavalo-Marinho (INRC, 2014, p. 141).
Em 2001, Siba muda-se de São Paulo para Nazaré da Mata e, através de fundos públicos revertidos para a cultura, grava o seu CD “Fuloresta do Samba”. Diferentemente da última produção, este álbum foi gravado em uma usina de cana- de-açúcar desativada na zona rural, com um estúdio móvel adaptado e músicos da região. O repertório segue as linhas de coco, ciranda e maracatu rural, e conta com
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instrumentos de percussão tradicionais da região (mineiro, bombinho e caixa) e metais (trompete, tuba, saxofone e trombone). A inovação deste disco se deu pela inserção de tuba e saxofone neste tipo de repertório (SANDRONI, 2009. p. 67).
Lima discorre que Siba conseguiu levar a música de rabeca a outros segmentos da sociedade, “sua música é consumida por uma faixa expressiva de jovens de classe média urbana, e a atividade deste músico vem deixar claro que é possível inserir a rabeca no circuito da música pop urbana e nos conjuntos com instrumentos eletrônicos.” (LIMA, 2001. p. 2). Assim como a rabeca pode ser inserida em um conjunto de música de câmara erudita, como fez José Gramani, ou em outros desdobramentos do universo musical, como fazem Thomas Rohrer, Filpo Ribeiro, Renata Rosa, Antônio Nóbrega e tantos outros rabequeiros.
Sobre a relação de Siba com a música tradicional, o surgimento do Mestre Ambrósio e toda a influência que essa banda provocou até os dias atuais, podemos citar Canclini:
Como a hibridação funde estruturas ou práticas sociais discretas para gerar novas estruturas e novas práticas? As vezes, isso ocorre de modo não planejado ou é resultado imprevisto de processos migratórios, turísticos ou de intercâmbio econômico ou comunicacional. Mas frequentemente a hibridação surge da criatividade individual e coletiva. Não só nas artes, mas também na vida cotidiana e no desenvolvimento tecnológico. Busca-se
reconverter um patrimônio (uma fábrica, uma capacitação
profissional, um conjunto de saberes e técnicas) para reinseri-lo em novas condições de produção e mercado (CANCLINI, 2006. p. 22).
Assim, Chico Science e Siba, embora diferentes em alguns aspectos, são reconhecimentos nacional e internacionalmente como representantes do Manguebeat, bem como da cena recifense que influenciou tantos músicos e rabequeiros, como veremos no decorrer da pesquisa, pois “além de terem começado suas carreiras na mesma cidade e no mesmo período, isso se relaciona com sua compartilhada vontade de fazer música com as ‘raízes locais’ e a ‘modernidade internacional’ ao mesmo tempo.” (SANDRONI, 2009. p. 68).
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