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8. U TILISATION DE LA MORPHINE EN PÉDIATRIE
Sons rudes vão estabelecendo contatos gentis, festivos, como se um convidasse outro a abrir a carranca e aproveitar a vida (...) As músicas também falam de encontros, amor e amizade. Um desses encontros é o da cultura popular com a improvisação livre: duas formas de resistir à homogeneização da música pela indústria cultural. (Thiago Mesquita. Texto de apresentação do álbum Tradição Improvisada).
O Tradição Improvisada é um projeto antigo, que teve suas origens ainda no tempo em que Thomas fazia seus primeiros shows com Zé Gomes e acabara de conhecer Nelson da Rabeca. A inspiração veio através das primeiras vivências de improvisação incorporadas às músicas de heranças tradicionais experienciadas através da parceria com Zé.
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Thomas conta que Zé Gomes trocava gravações por correio com um baterista americano de free jazz chamado Warren Smith, uma figura importante na história do estilo. Então nesta época, escreveu um projeto para a Petrobras com a ideia de juntar Zé Gomes, Warren Smith, Nelson da Rabeca e ele para um show, porém a proposta não foi aprovada, em seguida Zé Gomes faleceu, e a ideia ficou adormecida.
Conforme apresentado, em 2004 o contato entre Thomas e Nelson se tornou mais estreito, os dois fizeram as primeiras gravações e experimentações juntos. A partir daí, os encontros foram acontecendo com maior frequência, e revisitando a ideia de anos atrás, Thomas enviou o projeto Tradição Improvisada para o edital Rumos, do Itaú Cultural.
“Eu era mais forrozeiro, mas através dele eu já tô tocando muita música diferente sem ser o forró” (NELSON DA RABECA, 2018)
Eu ia lá e ficava tocando junto as músicas dele, e ele desde o começo era bem curioso, tinha até mais vontade de escutar coisas não tinham supostamente a ver com o mundo dele, então eu mostrava gravações com as rabecas dele e ele achava interessante. E o que ele se empolgava mais mesmo eram as coisas que soavam totalmente diferentes. Então ele logo entendeu isso, que eu faço som assim e ele faz o som dele, que são coisas diferentes que podem dialogar também (ROHRER, 2019).
Figura 25: Nelson e Thomas - Show Tradição Improvisada
Fonte: Centro de Pesquisa e formação: Nelson da Rabeca e Thomas Rohrer - Tradição
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Disponível em: <https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/nelson-da- rabeca-e-thomas-rohrer-tradicao-improvisada> Acesso em: 16 mai. 2019.
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Em 2014, o projeto foi contemplado com o prêmio, que proporcionou shows, oficinas e a gravação de um minidocumentário da Série +7041. Neste primeiro momento, o show circulou por Fortaleza (CE), Itapipoca (CE), Maceió, Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).
Com aproximadamente duas horas de duração, a proposta de apresentação original se divide em três partes: na primeira, seu Nelson toca seu repertório de xotes, forrós e marchas acompanhado pela voz de Benedita; na segunda, Thomas improvisa ao lado do percussionista Antonio Panda Gianfratti42; e no final o encontro dos quatro de fato acontece, com a tradição de Sr. Nelson visitando o improviso de Thomas, e vice-versa.
Além da rabeca de Nelson tocada por ele e por Thomas, Antonio Panda Gianfratti toca instrumentos de percussão convencionais e objetos adaptados por ele, Benedita canta diversos temas e em alguns shows Célio Barros toca uma rabeca-baixo (rabecão).
O repertório do show é composto por forrós, composições de Nelson da Rabeca e Benedita, e improvisações conjuntas.
Através da transcrição da primeira frase da música “Segredo das árvores”, baseada na gravação do show ao vivo realizado no SESC Pinheiros em 2016, pode- se notar que a dupla de rabequeiros tem um estilo muito livre de tocar, aonde um vai acompanhando o outro conforme a performance do momento, neste caso foi notória uma diferença de tempo para a execução da mesma nota, que tradicionalmente seria em uníssono.
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Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Kiw6Z9chPUc>. Acesso em: 15 mai. 2019.
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Antonio Eugenio Taranto Gianfratti, percussionista contemporâneo que se dedica a improvisação livre musical. Fundador do Coletivo Abaetuba, seu trabalho consiste no desenvolvimento timbrístico através do uso de arco em pratos em cima de tambores, vibrafone preparado e violoncelo assim como nos instrumentos que projeta ou transforma (COLETIVO ABAETUBA, 2019).
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Figura 26: Transcrição do tema principal de O segredo das árvores
Thomas conta que o show acontece de forma muito fluída e constantemente os momentos programados para solos se misturam, pois cada vez mais Nelson se dispõe a improvisar desde o início do show.
Ele ficou observando essa coisa com preparações, com o tempo ele começou a ficar instigado e como tem uma mente altamente criativa, decidiu ir também… Desde o começo quando o encontrei, queria sair disso de eu tocar junto com as músicas dele, o que é legal, mas eu queria puxar ele pra vir pro meu lado também, claro que sem forçar isso, queria que isso acontecesse naturalmente e foi assim. Uma hora ele começou a querer improvisar, foi muito natural e hoje em dia ele pode terminar um forró e no próximo momento ele começa a puxar uma coisa de texturas bem solta, as vezes ele usa até preparações entre as cordas (ROHRER, 2019).
É nítido no show que tudo é muito verdadeiro e espontâneo, desde a vertente contemporânea de Nelson, onde ele utiliza elementos de técnica estendida, como produção de sons no corpo do instrumento, atrás do cavalete, ou através de preparações criadas por ele mesmo, até a performance de Benedita, que num timbre rasgado canta suas canções com potência e presença.
Então é muito delicado as vezes de tocar junto com isso de uma forma que faça sentido, mas ao mesmo tempo é bonito duas rabecas tocando juntas por si só, e acho que no decorrer dos anos, fomos tocando muito juntos e conseguimos criar uma coisa que não é própria também, não sou eu imitando ele ou o contrário. Mas é um desafio sempre, é um desafio fazer esse shows que são muito improvisados mesmo, tem uma estrutura muito solta, e não da pra influenciar muito (ROHRER, 2019).
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Durante a temporada de shows, mais precisamente em 30 de Abril de 2015, o grupo dedicou-se a realização gravações no Estúdio El Rocha (SP), incentivando Thomas a buscar recursos para o álbum Tradição Improvisada43. Este dia resultou em dezessete, das vinte e três faixas do CD, lançado em junho de 2018 pelo Selo SESC.
Além dos integrantes do grupo, Nelson da Rabeca, Benedita, Thomas Rohrer e Panda Gianfratti, o disco conta com a participação de Célio Barros, Cícero Alves, Alcino Alves, Rosa Quadros e Rossi Meridional.
As outras gravações para além das feitas no estúdio foram realizadas em diferentes momentos ao longo dos anos, há dois registros ao vivo de um show no SESC Paraty em 2015 e cinco faixas gravadas na casa de Nelson (a mais antiga data 2008) através de gravadores convencionais.
Isso é uma coisa que eu acho ótima no disco, as gravações dele tocando em casa com os aparelhos dele, que nos outros CDs dele, não tem. (...) e esse som dele ligando a rabeca naquele amplificador antigo é bem interessante. É meio como essas bandas africanas que tem uma estética em volta, que o som combina com isso e não tem como polir, então as sujeiras todas fazem parte desse universo sonoro dele assim. Por isso é legal ele tocando com o Cícero lá na casa deles do jeito que eles tocam, a dona Benedita junto, que já tem uma voz bem distorcida... é meio rock'n roll (ROHRER, 2019).
A primeira faixa do CD Tradição Improvisada é uma fala de Nelson gravada no ano de 2012 por Thomas através do gravador Zoom H4. Com vozes de crianças e músicas ao fundo, Nelson diz:
As músicas novas é assim: o gravador; a gente precisa ter um gravador em casa, porque aí a gente faz aquela música… a gente repete e ela não sai boa, né… gravou, escutou, não sai boa… então, toca de novo e segue acertando. Quando acerta pode tocar desafobado por onde tiver. O gravador é que nem um professor, ele ensina a gente a fazer a tocada (NELSON DA RABECA, 2012). A segunda faixa reúne as músicas Rabequiê e Pense meu filho.
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Junto à introdução monofônica da rabeca de Nelson, Benedita fala: “Essa música é da autoria da Benedita, esposa de Nelson da Rabeca”. Em seguida, Nelson toca uma nova introdução e Benedita passa a cantar. Ambas as músicas possuem as mesmas características estruturais, pois começam com uma introdução de rabeca em quatro compassos repetidos e seguem com a voz, que têm a melodia dobrada pela rabeca, onde se sobressaem os baixos em cordas duplas ritmados com semicolcheias quando há notas longas na melodia principal. Por conta dos acentos predominantes no acompanhamento, o ritmo nos remete as vertentes do forró.
Figura 27: Transcrição - Rabequiê (faixa 2 - Tradição Improvisada)
Como num salto estilístico, a música Saudade da Rabeca (faixa 3), gravada no ano de 2015, é caracterizada por uma sonoridade áspera, resultante da junção entre um pedal de distorção, um gravador de celular que captou o som e a intensidade do arco de Nelson ao friccionar as cordas. Com rítmica cíclica guiada por semínimas, colcheias e rápidos ornamentos, os elementos do forró característicos da música de Nelson se misturam a ideias que remetem uma sonoridade provinda das guitarras de rock. Sobre esta música, Thomas conta que em uma de suas viagens a Marechal Deodoro (AL), levou o pedal de distorção para que Nelson conhecesse, no mesmo instante ele passou a experimentar temas e se propôs a gravar.
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Caranguejo Danado é a quarta faixa do disco e a primeira em que as rabecas de Nelson e Thomas se encontram. Gravada no SESC Paraty ao vivo em 2016, o forró instrumental é caracterizado pelo timbre grave da primeira rabeca, que carregada de harmônicos provenientes das trocas de direção do arco, apresenta o tema acompanhada por um instrumento de percussão (não especificado no álbum) e pela segunda rabeca (de Thomas), que surge discretamente com acentos percussivos no contratempo e aos poucos passa a permear a melodia com comentários melódicos, denotados pelo som metálico consequente da fricção do arco próximo ao cavalete do instrumento. A sonoridade desta versão de Caranguejo Danado é distinta da mesma gravada para o CD Música de Rabequeiros (produzido por LIMA, 2005), que é uma das músicas mais conhecidas do repertório de Nelson. Nesta gravação mais antiga, a rabeca de Nelson destaca-se por apresentar sonoridade aguda e “limpa”, acompanhada apenas por zabumba e triângulo.
Ainda seguindo o estilo rítmico e harmônico similar as primeiras faixas do disco, Dança Pé Maneiro é um duo de rabecas com participação vocal de uma criança ao fundo. Esta é a gravação mais antiga, realizada na casa de Nelson em 2008 por meio de um gravador Zoom H4. O forró apresentado por Nelson é acompanhado por Thomas em pizzicato, que a partir do primeiro minuto, passa a brincar com melodias monofônicas, remetendo uma dança. O primeiro tema apresentado por Nelson se repete em forma cíclica e naturalmente torna-se acompanhamento para os temas improvisados por Thomas, que explora tessituras mais agudas da rabeca e sons menos ruidosos.
Após uma fala de Nelson sobre a beleza de duas rabecas tocando juntas, o álbum chega a um novo momento sonoro, dado pela música O segredo das Árvores. O tema que também é antigo na história de Nelson, ganha tratamento sonoro de estúdio, que proporciona maior descrição dos ruídos escutados até então em outras faixas. Um grave rabecão e outra rabeca com sonoridade aguda permeiam a melodia trazendo potência e movimento. Ainda na mesma faixa, a música Vanessa reafirma este novo momento, o tema curto é tocado pelas duas rabecas em oitavas, que delimitado por pausas nos contratempos impares, apresenta com precisão rítmica uma escala maior descendente em anacruse. Na sequência a mesma escala desenvolve-se em tremolos e cita elementos rítmicos de forró por quatro compassos consecutivos. Esta forma se repete quatro vezes, com a
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rabeca de Nelson mantendo a melodia, enquanto Thomas altera os intervalos da mesma e improvisa em alguns momentos.
O Segundo silêncio (faixa 8), segue a mesma linha tonal de O segredo das árvores, iniciado em uníssono, o primeiro tema se desenvolve com características que remetem a contrapontos barrocos e tons solenes.
As improvisações livres são evidentes nas músicas Briga das Rabecas (faixa 9), Improviso (faixa 11) e Deodoro (faixa 19). Embora apresentem estilo similar, cada faixa tem características específicas e abordagens diferentes em relação à harmonia, timbre e performance. Briga das Rabecas é um registro ao vivo da improvisação realizada no SESC Paraty em 2016. Ecos, harmônicos e texturas agudas compõem a música junto a um pedal grave, presente na maior parte dos dois minutos e onze segundos de gravação. Também é evidente a manipulação de sons feita por Thomas, que provoca pausas abruptas e altera o timbre de sua rabeca. Em Improviso, não há definição de harmonia, apenas texturas geradas por Thomas no saxofone, Nelson na rabeca e Antonio Panda na percussão, apresentando células rítmicas rápidas. Opostamente a Improviso, Deodoro possui andamento lento e harmonia aparentemente estática, as notas longas sobrepostas em texturas, vão compondo camadas ao longo da música, o timbre “limpo” do saxofone se opõe aos ruídos provenientes da rabeca e da percussão, que se desenvolve através da fricção do arco em um prato suspenso.
Além destes momentos, o disco conta com cinco faixas (Penerado, Pra você, Xaxa do Forró/Fulô da Palmeira, Peleja do Forró e Saudade de viajar) que possuem estrutura similar, forrós tocados apenas por Nelson. Caracterizadas por linhas melódicas que se misturam a harmonias dadas pelas colcheias ininterruptas provenientes das cordas graves, cada música é composta por três a quatro temas de quatro compassos com repetição, esta forma se repete também de três a quatro vezes em cada música.
O encontro destes dois últimos estilos de performance citados, se dá nas faixas Andorinhas, Cajueiro Pequenino e Obrigado Seu Nelson encerrando o álbum. A primeira, que ficou famosa na voz do Trio Parada Dura em 1985, retrata as influências de cada via através da voz de Benedita e da harmonia em notas longas sustentada pelas rabecas, fugindo ao padrão rítmico esperado. E agora com o grupo completo, o forró improvisado das músicas Cajueiro Pequenino e Obrigado Seu
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Nelson, se faz presente com a potência timbrística de cada instrumento. Unidos por meio das tradicionais semicolcheias de Nelson, da especifica voz rasgada de Benedita, dos improvisos de Thomas e do timbre percussivo de Antonio Panda, retratam genuinamente a Tradição Improvisada.
Obrigado seu Nelson pela sua rabequinha Essa rabeca é sua mas depois pode ser minha Esta rabeca ela alegra muita gente
Foi Deus que deu de presente E que botou em nosso caminho
É fabricada pelo Nelson da Rabeca Todo mundo dá valor
Que ele sempre merece
(Obrigado Seu Nelson - Benedita dos Santos e Nelson da Rabeca).44
Figura 28: Encarte do CD Tradição Improvisada
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3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conceito de tradição é testemunho vivo do fato de que as funções, do inovar e do conservar, só podem ser exercidas conjuntamente, já que continuar sem inovar significa apenas copiar e repetir, e inovar sem continuar significa fantasiar no vazio, sem fundamento. (PAREYSON, 2001, p. 137).
Histórias como as que vimos aqui puderam demonstrar o panorama de uma das diversas vertentes que a rabeca seguiu em sua história no Brasil. Um instrumento que por muitos anos viveu no ostracismo, finalmente ganhou reconhecimento para além de seus lugares de origem dentro das manifestações que integrou no passado. E atualmente, vem ganhando os palcos e integrando bandas compostas por instrumentos elétricos que exploram os mais variados estilos, contemplando desde linguagens tradicionais a experimentações sonoras, o que acaba por integrar as raízes da linguagem da rabeca ao contexto musical dos centros urbanos.
Este hibridismo cultural é cada vez mais presente e valorizado no cenário atual, onde estilos variados se fundem e sons novos aparecem em diversos ambientes, como defende Fiammenghi:
A rabeca brasileira viveu à margem do mundo musical oficial por muito tempo. Os últimos anos testemunharam, no entanto, um forte impulso no interesse pela rabeca, que juntamente com seus pares instrumentais que formam o depositário das tradições musicais mais profundas ainda existentes no Brasil – como a viola caipira, os pífanos, e toda família dos instrumentos de percussão – ganhou os palcos e espaços urbanos, revelando a integridade de personalidades musicais como Nelson da Rabeca, Mestre Salustiano, Luís Paixão, Siba Veloso, Cláudio Rabeca, Gramani, e muitos outros. Esses músicos colocaram em evidência o ofício do rabequeiro, anteriormente associada à imagem de incompletude e atraso, tendo como parâmetro o violino e a cultura erudita. Desafiando esses parâmetros, esses músicos mostraram que a rabeca tinha muito a falar, na sua própria língua, e que o seu dialeto poderia acrescentar novas faces para a imensa variedade já existente na música brasileira. (FIAMMENGHI apud SANTOS, 2011, p.32).
A cena de rabeca nos centros urbanos encontra-se em crescente desenvolvimento, despertando o interesse de músicos e pesquisadores pela prática do instrumento. São recorrentes os casos em que essa prática se dê a partir de sua
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linguagem tradicional em direção à expansão de horizontes, por meio de diferentes detalhes sonoros que podem estar relacionados aos instrumentos acompanhadores, à utilização de harmonias não convencionais, aos locais de performance ou à inserção de estilos musicais modernos, onde o uso de recursos tecnológicos se faz presente.
Não obstante, o cenário em que esse processo se dá é muito mais amplo, transcendendo os grandes centros urbanos, em locais distantes das práticas tradicionais da rabeca, movido por um crescente interesse no instrumento que circula na mídia, e como que numa rede alternativa, influenciando músicos e leigos por todo o país. Exemplo vivo disso é o comentário recorrente que escuto ao mencionar essa pesquisa: “ah na minha cidade também tem rabequeiro”, o que nos permite vislumbrar a dimensão desse universo.
Outro aspecto que merece atenção é o fato de que mesmo nos centros urbanos esse processo é muito abrangente, passando pelas mãos de profissionais da música até amadores e entusiastas, todos a seu modo utilizando a rabeca como ferramenta sonora em diferentes contextos musicais.
Não é por acaso que um dos aspectos que mais chamou a atenção de J. E. Gramani em relação às rabecas foi a não padronização destes instrumentos. Cada rabequeiro, uma rabeca. Cada rabeca, uma música. Cada música, uma interpretação. O “Inesperado som da rabeca” é uma ode à não padronização, o que estava perfeitamente de acordo com a sua percepção do mundo. A rabeca como desvio, violino violado que não violenta a tradição, e tampouco busca a permanência de alguma tradição. Apenas expressa o protesto de um artista cuja voz retoma o canto perdido de um Orfeu ancestral e para isso, tanto mais efetivo é o seu canto, quanto mais longe do verniz está a porosidade de sua arte. Técnica sim, mas não como congelamento de algum procedimento mecânico (FIAMMENGHI, 2008. p. 51).
Como exemplo da intensa cena pernambucana, citamos o autor Neto:
O surgimento de novos rabequeiros no contexto da música pop, entendida assim como a música veiculada em CD's, sites da rede de computadores e programações específicas em rádios e casas de forró no Pernambuco tais como a Casa da Rabeca é bastante significativo, a ponto de justificar a gravação de mais um álbum, intitulado "Rabequeiros do Pernambuco" do ano de 2011, produzido por Cláudio Rabeca (Cláudio Sérgio R. Correia), onde se encontram mestres da tradição como Luiz Paixão, Antônio Teles, Zé de Bibi, mestre Araújo, Biu de Dóia, Pedro Côra e Manoel Pereira,
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juntamente com novos representantes dessa música como Alberone, Renata Rosa, Murilo Silva, Zé Cafofinho, Nylber da Silva, Aglaia Costa, Gustavo Azevedo, Maciel Salú, Rafa da Rabeca, Adriano Salhab, Dinda Salú, Claudio Rabeca, Siba, Sônia Guimarães, Antulio Madureira, Márcio Viana e Salatiel da Rabeca, dentre os quais, alguns egressos da escola erudita e quase todos com carreira estabelecida. (os nomes foram grafados conforme o encarte do CD) (NETO, 2016. p. 46).
Desde esses oito anos do lançamento do CD Rabequeiros de Pernambuco até o presente momento, a cena se expandiu ainda mais, e além dos rabequeiros citados acima, podemos encontrar muitos outros com trabalhos relevantes, como:
Beto Lemos, Bruno Menegatti, Carla Raiza, Carolina Umbelino, Catarina Rossi, Daniel Carvalho, Daniel Souto, Esdras Rodrigues, Fabiano de Cristo, Fabiano Formiga, Felipe Gomide, Felipe Miyake, Filpo Ribeiro, Guilherme Bedran, Gutcha Ramil, Hans Santos, Isildinha Oliveira, Jeferson Leite, João Lobo, Jorge Linemburg, Kika Brandão, Léo Terra, Letícia Corrêa, Lineu Gabriel Guaraldo, Maísa Arantes, Marcelo Portela, Marcos Moletta, Maria Carolina Fernandes, Marlon Cardozo,