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Dans le document Systems GC35-0011-2 File No. S370-30 (Page 64-68)

Iniciamos com uma reportagem publicada no dia 13 de janeiro de 2016, sob o título “O jogo da sobrevivência”, que aborda como representantes do Irã e da Arábia Saudita disputam a atenção do Ocidente, porém, a contextualização dos conteúdos sugere uma relação que vai além da diplomacia entre países:

Além dos milhares de mortes que eles provocam todos os anos, seu impacto pode ser sentido no Ocidente por meio da crise de refugiados, da variação no preço do petróleo e da proliferação do terrorismo. A rivalidade entre sunitas e xiitas é a principal fonte de instabilidade na região (WATKINS, 2016, p. 48).

Neste trecho, o periódico associa vários problemas graves e gerais que o Ocidente enfrenta e que mexem não só com a economia, mas também com o estado emocional de milhões de ocidentais, como a crise de refugiados, variação do preço do petróleo e da proliferação do terrorismo à rivalidade entre dois importantes Estados da região.

Identifica que a origem dos problemas é o conflito religioso interno dos muçulmanos, representados por sunitas e xiitas, ao invés de estabelecer que diversos outros elementos, como a falta de estrutura dos países originários dos refugiados; ou a questão dos lobos solitários, que não necessariamente são muçulmanos e realizam atentados terroristas em diversas partes do mundo, influenciam tanto no número de refugiados quanto nas mortes que ocorrem no Ocidente.

A revista associa o conflito religioso islâmico, no Oriente Médio, à morte de milhares de pessoas todos os anos. A publicação cita a fala de um cientista político iraniano para apoiar sua afirmação de que a situação é realmente caótica na região, pois o Ocidente está deixando de atuar e de tomar as rédeas, insinuando que a presença dos países ocidentais é mais do que necessária, pois aqueles estados não conseguem se governar.

Figura 3 - O jogo da Sobrevivência

Fonte: Acervo Digital Revista Veja

Desde o fim do Império Otomano, há quase um século, não se registravam tantos conflitos simultâneos, Estados falidos e atos de terrorismo no Oriente Médio.” Abbas Milani, cientista político iraniano, em entrevista à revista Veja (WATKINS, 2016, p. 49).

Já na reportagem, “Até onde vai o terror”, publicada em 20 de julho, destaque da edição 2487, a palavra “Terror” aparece tanto na capa quanto no título do conteúdo, logo após a utilização da palavra “Terrorismo” no subtítulo, fazendo uma ponte entre o atentado na França e os Jogos Olímpicos que aconteceriam no país.

Figura 4 - Até onde vai o terror

Fonte: Acervo Digital Revista Veja

Uma fotografia é colocada em destaque na publicação, em seu conteúdo, apesar de não ter nenhuma ligação com os atentados franceses, um grupo de homens é retratado com barbas longas, trajando túnicas características da religião islâmica, com dedos indicadores levantados, demonstrando uma espécie de comemoração, e segurando uma bandeira preta, na qual está escrito “não há divindade além de Deus”, enquanto, no círculo branco, dentro da bandeira, está escrito “Mohamad, o mensageiro de Deus”.

Podemos afirmar que por estarem ligados aos estereótipos relacionados ao Oriente Médio, a representação buscada nessa imagem é aquela atrelada aos muçulmanos e ao ISIS. Apesar de a legenda da fotografia trazer a contextualização de que se trata de brasileiros que juraram fidelidade ao grupo terrorista, os elementos

acabam denotando uma rápida associação à cultura islâmica e ao muçulmano de maneira geral.

Além do mais, a escolha do termo “praga mais nefasta”, na linha fina da matéria, oferece uma conotação negativa ao terrorismo em si, porém, acaba afetando indiretamente os muçulmanos, já que a imagem atrelada a esse adjetivo está sendo a do tradicional religioso oriental.

No conteúdo, esta matéria está justificando que o Brasil aumente a segurança nos jogos com receio de haver atentados terroristas durante o evento, já que há 32 brasileiros que juraram fidelidade ao grupo ISIS, pela plataforma digital, Facebook.

Pelo fato de haver uma apropriação dos elementos islâmicos e a ideais de intolerância, é necessário contextualizar os elementos que são dispostos na cena em questão.

A escrita contida na bandeira é simbólica a todos os islâmicos, já que se trata da frase que é a primeira a ser pronunciada quando alguém entra no Islam, assim como é citada dezenas de vezes ao dia, pelo muçulmanos em suas orações, súplicas e meditações, “Não há divindade além de Deus, Mohamad é o mensageiro d’Ele”, além disso, a frase “Mohamad é mensageiro de Deus”, que está escrita no círculo branco, é uma réplica do anel do profeta do Islam Mohamad, que servia como carimbo e que o usava para assinar cartas e documentos, já que ele não dominava a escrita e a leitura.

O fato de as frases fazerem referência aos hábitos islâmicos não faz com que necessariamente esses indivíduos façam parte da tradição religiosa. Como já abordamos anteriormente, a descontextualização dos preceitos básicos do Islam é uma das ferramentas dos grupos violentos para a prática de seus atos. Tática essa difundida pelo mundo e que serve de discurso para o encontro de pessoas com potenciais violentos.

O conteúdo da reportagem não traz nenhum elemento de contextualização da religião islâmica ou da cultura do muçulmano, ou seja, apesar de se utilizar de elementos tradicionais, a reportagem não contextualiza que o grupo de brasileiros não possui ligação direta ou indireta com a comunidade islâmica brasileira, ou autoridades religiosas estrangeiras.

Em um momento de comoção geral pós atentado em novembro de 2016, em Paris, a religião islâmica é ligada aos fanáticos que promoveram as mortes em território europeu. O título da matéria, “As trevas contra a luz”, que não cita

explicitamente nenhuma religião, mas coloca em polos opostos dois atores que, mais tarde, descobriremos estar ligados ao Islam, também acaba trazendo uma conotação negativa aos praticantes da religião.

A prática islâmica é apresentada como se fosse contra a liberdade, o prazer, o Ocidente, os valores ocidentais e as demais religiões, trazendo ao leitor uma “visão apocalíptica do Islamismo”, demonstrando desta forma o plano de oposição entre luz e trevas descrito no título de sua reportagem.

Ao invés de distanciar e apresentar as diferenciações entre os atos de violência e a religião islâmica, os valores islâmicos e a conduta positiva da maioria dos muçulmanos, principalmente os que vivem na França, com o intuito de conscientizar os leitores sobre essas diferenças e evitar discriminação e preconceito contra essas pessoas, seguiu-se um caminho narrativo que acabou dando uma má imagem à religião e aos seus seguidores.

Para a construção do texto invoca-se outros atentados anteriores, como o atentado à revista Charlie Hebdo e ao mercado judaico, em Paris, como também o conflito na Síria, sempre buscando uma ligação permanente do Islam e de seus seguidores a esses conflitos, podendo criar no imaginário do leitor um sentimento de ódio contra aqueles que supostamente querem o mal aos valores ocidentais.

Como afirma Said, a criação da oposição entre ocidente e oriente é mais uma ficção que diz respeito aos valores ocidentais que os orientais. A unidade entre os mais variados povos que povoam a Península Arábica acaba se tornando um elemento de identificação e refutação de hábitos culturais rejeitados pelo ocidente.

O final de 2016 foi marcado pelo atentado em Orlando, na boate gay Pulse, que teve como resultado trágico a morte de 49 pessoas e o ferimento de mais 53. Nesta manchete, a revista Veja chama o atentado como sendo “Contra a Liberdade”, no texto, logo abaixo, chama esses assassinatos de “ataque terrorista” e que esse ataque é contra “um dos valores primordiais do Ocidente”.

Figura 5 - As trevas contra a luz

Fonte: Acervo Digital Revista Veja

No conteúdo da matéria, o autor de todos esses assassinatos é descrito por suas características, porém, chama a atenção o fato de realçar o pertencimento religioso do algoz, além disso, destaca-se a divergência de opiniões sobre a classificação do crime, se é um crime de ódio contra a comunidade LGBT ou “um atentado terrorista islâmico”. Ainda há uma recordação de outros atentados, em outras partes do mundo “em nome de Alá”.

Apesar de toda conotação ligada à religião e aos ideais islâmicos, destacando traduções literais e descontextualizadas do Alcorão, a própria reportagem acaba mostrando que o autor dos crimes tinha uma difícil convivência com sua própria sexualidade.

Matten era gay, mas infelizmente não convivia bem com a própria sexualidade – talvez porque percebesse como incompatível com sua religião, talvez pela pressão familiar que sofria. Ele frequentou dezenas de vezes a boate Pulse, onde costumava beber e ficar violento (WATKINS, 2016b, p. 68).

Apesar dos elementos religiosos que envolveram a cena do atentado, caberia, neste caso, uma reflexão sobre a própria homofobia internalizada a que muitos indivíduos acabam sendo vítimas pelo preconceito existente no mundo e não apenas na cultura islâmica.

Nesta reportagem, a representação da homofobia é ligada apenas ao “atraso” das culturas muçulmanas, como se faz entender a declaração do psicólogo americano Jerry Piven: “Dada a rigorosa homofobia em muitas culturas muçulmanas, podemos entender quanta vergonha e raiva decorrem de desejos homoeróticos” (WATKINS, 2016b, p. 68).

Para contrapor essa afirmação, basta utilizarmos o levantamento de dados do Grupo Gay Bahia de 2018, que demonstra que o Brasil, apesar de não ter maioria muçulmana e estar localizado no Ocidente, é o país que mais assassina homossexuais no mundo, muitos desses crimes caracterizados como crimes de ódio. Este tipo de narrativa, sem a devida contextualização e que liga elementos por meio de generalizações e simplificações dos fatos, acentua a discriminação e o preconceito contra o Islam e os muçulmanos, pois fixa uma imagem negativa sobre a comunidade, apresentando elementos que não necessariamente são exclusivos do contexto oriental.

Figura 6 - Contra a liberdade

Fonte: Acervo Digital Revista Veja

Na continuação desta matéria, a revista Veja descreve que o assassino queria que o seu crime fosse creditado como sendo do Estado Islâmico.

Queria ser reconhecido como mártir de uma ideologia que prega morte a todos os que não se converterem ao Islamismo e não aceitarem a submissão a um modo de vida em que todos os aspectos do cotidiano são controlados por uma interpretação literal do Corão, o livro dos muçulmanos (WATKINS, 2016b, p.68).

Em todo o conteúdo, existem várias contradições, associando o Islam ao terrorismo e ao grupo “Estado Islâmico”. Podemos perceber que o autor do crime por vezes acaba sendo caracterizado como controlado pelo “ISIS”, porém, era um “lobo solitário”. Outra contradição que vemos explicitada na matéria é que, ao mesmo

tempo, o responsável pelo atentado é apresentado como declaradamente homossexual, mas integrante do grupo que é contra sua sexualidade.

Além disso, em diversos outros casos, publicados inclusive na revista Veja, atiradores solitários foram representados apenas como atiradores ou assassinos, ao invés do terrorista muçulmano e membro do Estado Islâmico. Percebemos que a abordagem destaca a religião apenas quando se trata de assassinos tidos como muçulmanos, já que o atirador que entrou numa sinagoga nos EUA matando 11 pessoas e deixando 6 feridos, em 27 de outubro de 2018, não teve nenhuma citação de sua religião, ou que sua conduta religiosa fosse razão de suas ações. Mesmo esse atirador cometendo uma chacina dentro de um templo religioso, ele foi classificado como atirador e não terrorista, como aponta o título da reportagem “Atirador abre fogo em sinagoga e mata 11 pessoas nos EUA” (REVISTA VEJA, 2018, on-line).

A operação “Hashtag” também foi assunto abordado em 2016 nas edições de Veja. Esta operação tinha como objetivo combater o que foi denominado “terrorismo à brasileira”. Como resultado das operações, foram presos vários muçulmanos, a maioria convertidos e suspeitos de ligação com o terrorismo.

A foto destacada pela publicação diz respeito a um treinamento policial, realizado como prevenção aos jogos olímpicos. Deve-se notar que não haveria fotos de um atentado para ilustrar a chamada para a matéria, já que nunca ocorreram. Logo abaixo do título há um texto introdutório que diz:

A prisão dos suspeitos de preparar atentados na Olimpíada é correta e necessária, mas o barulho excessivo em torno da captura de um grupo “absolutamente amador” amplia de maneira exagerada o medo e a insegurança - e escancara a disputa entre a Polícia Federal e a Abin pelo protagonismo no combate ao terror (BONIN; GONÇALVES, 2016, p. 79).

Podemos perceber que a cena apresentada confirma a existência do terrorismo e do planejamento do atentado, porém, quando se analisa, tanto o texto introdutório da matéria quanto seu conteúdo e os dados e informações presentes verifica-se um contraste: apesar das prisões e apreensões não se desenhou em nenhum momento a real possibilidade de um atentado terrorista.

Figura 7 - Terrorismo à brasileira

Fonte: Acervo Digital Revista Veja

Não houve um dado concreto diretamente ligado a algum grupo terrorista, e as pessoas que foram detidas não tinham as mínimas condições para a realização de um atentado, inclusive, percebe-se que as autoridades estavam desinformadas e desorganizadas, o que provocou um grande mal-estar no país. A Veja, apesar de relatar essas questões, não deixou de citar a religião dos presos, mesmo alegando que não conheciam bem o Islam, mesmo podendo mostrar que os verdadeiros praticantes da religião não tinham relação direta com esses fatos.

Ao citar o Islam várias vezes, inclusive, em todas as variantes da palavra, como “Islam”, “Islamismo” e “Islã”, associou-se esses termos ao “Terrorismo” e aos presos. A narrativa construída nesses termos promoveu no entendimento da Comunidade Islâmica uma imagem negativa do Islam e dos muçulmanos.

Por fim, em nosso último destaque de conteúdo da categoria “abordagem violenta” está a matéria “A Máfia de Turbante”, publicada na edição 2464, em fevereiro de 2016. O título em si já traz elementos pejorativos, pois basta imaginar um turbante para associá-lo ao Islam e aos muçulmanos, mesmo que a matéria não esteja falando sobre a religião islâmica, mas de tráfico de drogas, praticado pelo grupo xiita Hezbollah, a marca do turbante é associada ao Islam e aos seus adeptos, o que acaba

novamente de maneira indireta relacionando práticas violentas e criminosas aos religiosos, resgatando e fixando no imaginário do leitor uma associação ao fanatismo e terrorismo, como podemos verificar no trecho selecionado:

Na semana passada, a DEA (a agência antidrogas dos Estados Unidos) divulgou os resultados de operação que comprova que o Hezbollah, um grupo fundamentalista da vertente xiita do Islã, não está preocupado com essa questão religiosa (COUTINHO, 2016, p. 60).

Figura 8 - A máfia do turbante

Este trecho da matéria é claro em relação ao crime de tráfico de drogas praticado pelo grupo Hezbollah, além disso, no trecho anterior a este, há uma introdução sobre a posição da religião islâmica e a unanimidade dos clérigos muçulmanos sobre a proibição do contato de todas as formas com substâncias entorpecentes.

Porém, quando se explica quem é esse grupo, ele é associado ao Islam, citando-o como “um grupo fundamentalista da vertente xiita do Islã”. Talvez, para alguns, isso não tenha nenhuma conotação pejorativa, somente explicativa, pois seria mesmo uma forma inocente de explicar as características dele, se não fosse o título e toda uma trajetória de associação da religião islâmica a situações e temas negativos. Podemos concluir, portanto, que a falta de contextualização e a vinculação de elementos tradicionais da cultura islâmica permeiam o universo de matérias relacionadas à abordagem da Veja. Diversas associações são feitas de maneira genérica – e por vezes implícitas - favorecendo assim as associações da religião islâmica e do muçulmano com a violência e especialmente aos atos de terrorismo.

O destaque ao caráter religioso, mesmo em situações que não configuram o elemento essencial da ação dos criminosos, acaba por criar um estereótipo de violência a todo e qualquer muçulmano, independentemente de suas condutas e opiniões particulares, assim como a oposição entre Ocidente e Oriente, sendo o segundo sempre o que necessita transforma-se e adequar-se, o que oferece uma visão de atraso e inadequação com as demandas sociais, humanas e modernas da vida cotidiana no século XXI.

Dans le document Systems GC35-0011-2 File No. S370-30 (Page 64-68)