Não há como negar que a nossa vida está influenciada pela mídia e, de forma particular, pelo cinema e internet, mudando paradigmas, criando padrões, modas, além de moldar culturas e influenciar politicamente países e sistemas econômicos, servindo, muitas vezes, como suporte para países dominantes e belicistas, como é o caso dos Estados Unidos, que tem uma das indústrias cinematográficas mais influentes do mundo, e que está, muitas vezes, em sintonia com a política de governo de vários estadistas norte-americanos, como foi o caso de Reagan, Bush pai e Bush filho, entre outros, que aproveitaram a seu favor essa influência e conseguiram mudar a opinião pública e a visão de grande parte da população, tanto norte americana quanto mundial, menos a população local que é o alvo da guerra e da propaganda divulgada por meio dos diversos tipos de veículos.
Entendendo estes aspectos, muitos líderes políticos, em diversos países, principalmente nos EUA, viram uma oportunidade de utilizar esse meio como arma poderosa para alcançar seus objetivos, elevando a autoestima dos aliados e envolvidos de seu lado e diminuindo e minando a autoestima do suposto inimigo que
se deseja atacar, como, também, angariar apoio da opinião pública mundial, na tentativa de evitar as críticas contra as ações que se pretende realizar.
Essa prática vem de longa data, desde o início do surgimento da indústria cinematográfica, como também de outros meios de comunicação, como foi o caso da Primeira Guerra Mundial, que foi utilizada para apoiar cada um dos exércitos envolvidos. Patrícia Mariuzzo (2014) nos ajuda a compreender esse movimento retratando como funcionava o cinema do início do século XX:
O cinema ainda é uma arte jovem em 1914, quando começa a Primeira Guerra Mundial. Rapidamente, no entanto, a sétima arte torna-se uma ferramenta como noticiário, para fazer propaganda da guerra e recrutar soldados (MARIUZZO, 2014, p. 64).
Todos viram, nesses meios de comunicação, uma arma muito potente, mais ainda no cinema, pois era possível fazer a edição como forma de atender às expectativas e anseios dos interessados, além de atingir um grande número de pessoas manipulando e influenciando seus pensamentos e opiniões.
Portanto, não era somente uma questão de armas de fogo, mas de guerra de manipulação:
A Primeira Guerra Mundial não foi apenas uma guerra sem precedentes em relação ao número de nações e da quantidade de novos equipamentos utilizados, foi também uma guerra de imagens, onde o cinema, uma mídia relativamente nova, foi utilizado pela primeira vez na história para documentar o conflito em larga escala, explica Anette Groschke, da Cinemateca Alemã - Museu de Cinema e Televisão, em Berlim (MARIUZZO, 2014, p. 64).
Podemos perceber que o cinema não era totalmente isento, mas estava sendo utilizado e se colocava à disposição, pois muitos viram neste meio uma possibilidade de angariar fundos e investimentos, além de aumentar sua influência dentro do meio político, portanto, os dois lados tinham grande interesse na ação, mas para isso um devia saber detalhes e segredos do outro, para que fossem atendidas todas as expectativas. Dessa forma, a intimidade aumentou cada vez mais entre os interessados e a presença dos diretores da indústria do cinema passou a ser mais comum na sede do poder, aumentando o investimento público para esse setor.
Havia também um tipo de filme especialmente produzido para persuadir as pessoas a financiar privadamente o esforço de guerra e ainda para recrutar
pessoal tanto para o front de batalha como para a indústria que surgiu em torno da guerra, como a de munição, por exemplo (MARIUZZO, 2014, p. 65).
Essa parceria continua, pois a estratégia é essencial, especialmente nos dias de hoje, em que a guerra se tornou mais de informação do que física, basta ver o interesse dos governos e serviços secretos na internet e os dados pessoais que estão armazenados nos bancos de dados das empresas que atuam no mundo virtual. Sem dúvida, o cinema não deixou de lado essa oportunidade, por isso, adaptou-se rapidamente a este novo meio, criando conteúdo apropriado para ele, porém, como sempre, trabalhando em sintonia com a política, promovendo seus interesses e vice- versa.
Na década de 1930, quando o cinema surgia como ferramenta poderosa para a difusão de valores políticos e culturais, os Estados Unidos logo tiveram a percepção de que não seria possível permitir que este “instrumento” atuasse a partir de uma perspectiva de liberdade absoluta. Era necessário estabelecer delimitações e um norteamento para suas produções. Na mesma medida em que a população se maravilhava com as possibilidades de ver representadas em uma tela as narrativas (ficcionais e documentais) que até então somente constavam nos livros e nas rádios, os estadistas iniciaram um processo de apropriação da “sétima arte” para que ela fosse utilizada como instrumento de poder ideológico (COSTA, 2013, on- line).
O cinema ajudou a propagar o conceito de civilizado e bárbaro, ocidental e oriental e a disputa entre essas duas culturas e civilizações. Conceito que vem sendo construído desde a Grécia Antiga e que criou uma disputa desde aquela época, acirrando cada vez mais essa divisão. O que ocorre hoje no mundo nada mais é do que a herança deixada pelas antigas civilizações e as disputas entre elas, no passado, pois queiramos ou não, nossa leitura, pensamento e formação intelectual é embasada em literaturas deixadas por essas culturas, tanto de um lado quanto de outro.
Na visão ocidental, o oriental é o bárbaro, o atrasado, aquele que não sabe viver em sociedade, que não sabe se organizar, portanto, o Ocidente precisa ensiná- lo, levar até ele a sua cultura, seus costumes, sua religião, seu padrão de vida e seus modelos democráticos e comportamentais, pois esses são melhores e superiores, portanto, se esta é uma verdade absoluta, então, qualquer meio para impor essa verdade ao outro passa a ser justificada, como aponta Gracilda Alves (2015): “Pensar em Ocidente e Oriente é darmos continuidade a uma ideia de divisão da Terra em
blocos antagônicos e unitários, já que ao pensarmos em Ocidente, estamos lendo como se fosse a Europa, e o Oriente, a Ásia (ALVES, 2015, p. 24).
Esses mesmos padrões de mensagens são passados nos filmes, depois do surgimento da indústria cinematográfica, com o intuito de preparar as pessoas para uma guerra, como também para que a opinião pública apoie as decisões tomadas contra o outro como sendo legítimas e necessárias. Isso, de fato, ocorre com muita frequência, basta prestarmos atenção ao outro nas películas e como ele é representado, não somente em sua atitude e fala agressivas e hostis, mas em sua imagem, sempre passando uma sensação desagradável, sem sentimentos e desumana:
Entendemos que o cinema traz para a tela os valores da cultura ocidental e cria a imagem de que o Ocidente carrega um conjunto de valores construídos historicamente e nos quais uma das suas funções seria a de levar a história, os valores ocidentais e a civilização para aquela outra sociedade (ALVES, 2015, p. 38).
Levar esse padrão Ocidental para o outro e fazê-lo adotar esses novos hábitos somente seria possível através de uma propaganda massiva utilizando os meios de comunicação mais importantes e influentes, para isso, seria necessário monopolizar esses meios, ou, no mínimo, controlá-los de forma efetiva.
De acordo com Edward Said (2006), essa etapa foi cumprida já que: “uma meia dúzia de enormes multinacionais presididas por um punhado de homens controlam a maior parte do suprimento mundial de imagens e notícias” (SAID, 2006, p. 33).
Hoje temos a internet, que está à disposição da maior parte das pessoas para reagirem e tentarem mudar esse padrão, mas ainda não é suficiente para tal.
Quando uma notícia sobre a Palestina é passada por um jornalista da CNN ou outra agência de notícias, por exemplo, muitas vezes, esse jornalista tem características físicas que denotam ser ele da região noticiada, para dar a ideia de que ele está inserido no contexto e que domina o tema, porém, o conteúdo atende sempre a visão ideológica daquele meio de comunicação, manipulando a notícia e transmitindo-a para todo o mundo, por meio de seus canais, ou vendendo para outros meios de comunicação, disseminando, dessa forma, sua ideia e ideologia.
Hoje em dia, quase universalmente, expressões como “livre comércio”, “privatização”, “menos governo” e outras semelhantes, tornaram-se a ortodoxia da globalização. São seus falsificados valores universais, a base do discurso dominante,
idealizado para criar um consenso e uma aprovação tácitos. Deste nexo, emanam confecções ideológicas, tais como “o Ocidente”, “o confronto de civilizações”, “valores tradicionais” e “identidade” (talvez as mais abusadas expressões do léxico global, hoje). Todas elas são lançadas não como parecem ser – como instigações ao debate -, mas, ao contrário, para sufocar, excluir e esmagar a dissensão, sempre que os falsos valores encontrarem resistência ou questionamento (SAID, 2006, p. 33).
Se abordarmos os filmes produzidos pela indústria cinematográfica americana e estudá-los com um olhar detalhista e analítico, perceberemos o quanto essa indústria atendeu e continua atendendo às ordens dos presidentes norte-americanos, colocando-se de forma submissa aos anseios e desejos deles.
Esta passou a ser uma parceria duradoura, por isso, para justificar a Guerra do Golfo, que não foi autorizada pela ONU, ainda assim os Estados Unidos, sob comando do presidente Bush, na época, decidiram invadir o Iraque, apoiados por uma coalizão internacional, os meios de comunicação foram utilizados de forma intensa, para ganhar o apoio da opinião pública. Kellner (2001) explica essa relação entre o governo Bush e a mídia:
A guerra contra o Iraque pode ser lida como um texto produzido pelo governo Bush, pelo Pentágono e pela mídia, texto que utilizou as imagens e os discursos da crise e, posteriormente, da guerra para obter consentimento e apoio à intervenção militar norte-americana (KELLNER, 2001, p. 255).
A análise do texto da “crise do Golfo” indica que, desde o início, as grandes agências noticiosas seguiram as linhas do governo Bush e do Pentágono. Essa relação entre a mídia e o governo Bush não é um fato isolado, pelo contrário, ela vem de longa data, por isso, os grandes meios de comunicação norte-americanos serviram a muitos governos, principalmente, em épocas de crise, de acordo com Kellner (2001, p. 256): “O governo Bush controlou o discurso da mídia em parte por meio da desinformação e da propaganda e em parte pelo controle da imprensa graças ao sistema de pool”.
Para deixar mais clara essa relação de controle do governo Bush sobre a mídia, ele nos dá alguns exemplos de fatos que ocorreram e como foram noticiados a pedido desse governo.
Nos primeiros dias da “crise do Golfo”, por exemplo, o governo levou a cabo uma campanha de desinformação muito bem-sucedida graças ao controle e
à manipulação das fontes que legitimavam a mobilização militar americana na Arábia Saudita em 8 de agosto de 1990. Durante os primeiros dias da crise, o governo americano afirmava constantemente que os iraquianos estavam mobilizando tropas nas fronteiras da Arábia saudita, dispostos a invadir este reino rico em petróleo. Era pura desinformação, e os estudos feitos posteriormente revelaram que o Iraque não tinha intenção de invadir a Arábia Saudita e não tinha grande contingente nas fronteiras em posição de ataque. A campanha de desinformação que legitimava o envio de tropas americanas à Arábia Saudita começou pelo Washington Post em 7 de agosto de 1990, o mesmo dia em que Bush anunciou que estava mandando tropas americanas à Arábia saudita. Em reportagem de primeira página, feita por Patrick Tyler, afirma-se que, numa reunião ocorrida no dia anterior entre o encarregado de negócios norte-americano, Joseph Wilson, e o presidente iraquiano Saddam Hussein, este se mostrara extremamente beligerante, afirmando que o Kuwait fazia parte do Iraque, que não era possível nenhuma negociação, que ele invadiria a Arábia Saudita se fossem interrompidos os oleodutos que transportam petróleo iraquiano para o Golfo através do território saudita, e que as areias do deserto se tingiriam de sangue norte- americano caso os Estados Unidos mandassem tropas para a região. Uma transcrição posterior do encontro Wilson-Hussein, porém, revelou que Hussein foi cordial, deu indícios de pretender negociar, afirmou reiteradamente que não tinha intenção de invadir a Arábia Saudita e abriu as portas para uma solução diplomática da crise. A reportagem do Washington Post, porém, foi usada pelas redes de televisão, pelo serviço de telex e pela imprensa em geral, criando a ideia de que era impossível qualquer solução diplomática e de que seria necessário tomar medidas decisivas para proteger a Arábia Saudita da agressão iraquiana. Foi esse o roteiro que legitimou o envio de tropas norte-americanas ao Golfo e forneceu justificativa perfeita para a intervenção de Bush na região (KELLNER, 2001, p. 256-258).
Nos filmes, encontramos uma propaganda ainda maior contra o outro que não seja ocidental, principalmente, árabes e muçulmanos, sempre expostos como terroristas, perigosos, violentos, frios e cruéis.