De acordo com o “Relatório de Outono 2019” do OPCP, o número de equipas responsáveis pelos cuidados paliativos é em 75% inferior ao aconselhável. A ficha de dados devolvida pela equipa/serviço ao OPCP (2019) conta com 816 profissionais de cuidados paliativos. Quanto à caracterização destes profissionais, a idade média é de 40 anos (varia entre 22-76). O tempo de serviço em cuidados paliativos é em média de 4 anos (varia entre 0-35). No que respeita ao tempo de experiência profissional, regista-se a média de 15 anos (varia entre 2-50 anos). Quanto ao tempo de alocação, destacam-se os enfermeiros com uma média de 35 horas semanais, os médicos com uma média de 12 horas e os assistentes espirituais com a menor alocação de tempo - 2 horas semanais. Ainda de acordo com este relatório (2019), na cobertura total/global destes cuidados verificam-se assimetrias a nível regional/distrital.
A amostra do presente estudo é constituída por 61 profissionais de saúde, dos quais 34 são profissionais de CP; quanto à faixa etária, 39,3% (n=24) dos participantes têm entre 30-40 anos, e são sobretudo do sexo feminino 85,2% (n=52); em relação às habilitações literárias, predominam os profissionais de saúde com mestrado 58% (n=36); relativamente à ocupação, prevalecem os médicos 42,6% (n=26) e os enfermeiros 34,4% (n=21); quanto ao tempo de atividade, a amostra caracteriza-se por trabalhadores que estão no mercado de trabalho há bastante tempo, maioritariamente entre 6-15 anos 34,4 % (n=21) e entre 16-25 anos 27,9 % (n= 17); o tempo de atividade profissional na ocupação atual situa-se entre 37,7% (n=23) -há mais de 10 anos - e 34,4% (n=21), há menos de 5 anos; quanto à unidade/ serviço/ equipa, a maioria 55,7% (n=34) integra os cuidados paliativos; 65,6% (n=40) não trabalham por turnos; no que diz respeito ao tipo de contrato de trabalho, a maioria 83,6% (n=51) é “sem termo”; por fim, 63,9% (n=39) mencionam que tiveram/ vivenciaram acontecimentos extra-laborais causadores de stress no último ano de vida, dos quais 41,0% (n=25) referiram o (s) acontecimento (s), que se prendem com questões de saúde; morte; questões familiares; questões pessoais; questões organizacionais e extras.
A morte, o luto, as questões de saúde mexem com qualquer ser humano. E não é por serem profissionais de saúde, nomeadamente profissionais que lidam constantemente com estas questões, expostos ao sofrimento, que estes acontecimentos deixam de ser
sentidos como stressantes por parte dos profissionais de saúde. Contudo, 49,2% (n=30) dos profissionais que responderam a estes formulários dizem que, geralmente, são capazes de lidar com sentimentos desagradáveis e dolorosos, como: a tristeza, o medo e a raiva. Sendo que 27,9% (n=17) dizem que, às vezes, lidar com o stress os torna mais fortes; já 13,1% (n=8) dizem que, raramente, essa afirmação é verdade. Na sequência da concretização dos objetivos formulados, enuncio os respectivos objetivos aos quais procuro responder.
Com o objetivo número 1, pretendo: conhecer os níveis das dimensões de burnout, de resiliência e de perceção sobre o ambiente ético hospitalar.
No que respeita às dimensões de burnout (MBI-GS), os resultados apurados revelam uma mediana de 1,60 na dimensão “exaustão”; uma mediana de 1,00 na dimensão “cinismo”; uma mediana de 5,17 na “eficácia profissional”.
Verifica-se que os profissionais desta amostra demonstram sentimentos de sobrecarga e de fadiga num nível de exaustão baixo (1,60; baixo: < 2) (Maslach, Jackson, & Leiter, 1996); atitudes de distanciamento e de indiferença (cinismo) face ao trabalho num nível baixo a médio (1,00; baixo: < 1) (Maslach, Jackson, & Leiter, 1996); satisfação e desejo de continuar a trabalhar, assumindo um nível alto de eficácia profissional (5,17; alto: = > 5,00) (Maslach, Jackson, & Leiter, 1996).
Segundo Tecedeiro (2004), a dimensão exaustão emocional desempenha uma função central no burnout mediando o acesso à dimensão cinismo. Porém, não podemos reduzir o burnout à dimensão exaustão emocional.
Ora, também no nosso estudo, a exaustão emocional correlaciona-se forte e positivamente com o cinismo e negativamente com a eficácia profissional. Ou seja, à medida que a exaustão/ fadiga aumenta, as atitudes de cinismo e indiferença para com o trabalho também aumentam. Já a eficácia profissional tende a diminuir, assim como a sua capacidade de resiliência.
Ainda através deste instrumento (MBI-GS), pretendemos perceber se os valores das dimensões de burnout variam consoante a especialidade, ou seja, se os profissionais de cuidados paliativos apresentam maiores níveis de burnout quando comparados com os restantes profissionais da amostra.
Alguma literatura aponta que os profissionais de cuidados paliativos são vulneráveis ao burnout como resultado do stress crónico relacionado com o facto de trabalharem com pacientes muito doentes (Mehta et al., 2016). Todavia, na nossa amostra, não foram encontradas diferenças significativas entre os profissionais de cuidados paliativos (n=34) e os restantes profissionais (n=27) em nenhuma das 3 dimensões de
burnout: exaustão emocional; cinismo; eficácia profissional. Tal facto pode estar
relacionado com: o tamanho da amostra; a preparação e formação dos profissionais de CP; o maior tempo de atividade profissional, entre outros fatores.
Como já foi referido, os resultados obtidos na nossa amostra através do instrumento MBI-GS revelam baixos níveis de exaustão emocional e de cinismo e altos níveis de eficácia profissional. No que respeita às correlações, a exaustão emocional correlaciona-se forte e positivamente com o cinismo e negativamente com a eficácia profissional.
Face aos resultados obtidos, conclui-se que os profissionais de saúde da amostra manifestam ausência de burnout e que não há diferenças significativas entre os profissionais de CP e os restantes profissionais.
No estudo de Marques F (2011), com uma amostra constituída por 41 prestadores de cuidados formais das unidades de internamento de cuidados continuados integrados – Portugal, os resultados constatam, também aqui, um baixo nível de burnout, declarado em elevados níveis de eficácia profissional e baixos níveis de exaustão emocional e física e de cinismo. A elevada perceção de eficácia profissional poderá ajudar a entender a ausência de burnout significativo (Demarchi dos Santos, 2015; Marques, 2011; Ribas, 2010; Silva, Queirós, Cameira, Vara e Galvão, 2015; Silva et al., 2016), aproximando-se do nosso estudo.
A maioria dos profissionais da nossa amostra 55,7% (n=34) integra os cuidados paliativos. De acordo com o ponto 3 do Artigo 6.º “Cuidados paliativos”, lei n.º 31/ 2018, p. 3238, “Os cuidados paliativos são prestados por equipa multidisciplinar de profissionais devidamente credenciados e em ambiente hospitalar, domiciliário ou em instituições residenciais”. A equipa multidisciplinar permite promover a partilha interdisciplinar as relações interprofissionais e o empoderamento dos profissionais nas equipas (Hernández- Marrero, Pereira, & Carvalho, 2016).
A APCP (s/d) corrobora: Os cuidados paliativos devem ser integrados no sistema de saúde, que requerem obrigatoriamente por parte dos profissionais que os prestam, formação e treino específico. Em relação às habilitações literárias, na nossa amostra predominam os profissionais de saúde com mestrado 58% (n=36). Já para Martins Pereira, Teixeira, Carvalho e Hernández-Marrero (2016) ter pós-graduação em cuidados intensivos / paliativos constitui um fator protetor relevante na diminuição do risco de burnout.
De salientar que a variável sociodemográfica relacionada com o burnout é a formação pós-graduada em cuidados paliativos. Surgem como fatores protetores contra o
burnout a reflexão interprofissional (colaboração/ discussões interdisciplinares nos
processos de deliberação e tomada de decisão nas equipas, o papel do líder) (Hernández- Marrero, Pereira, & Carvalho, 2016).
A correlação entre as 3 dimensões: exaustão emocional, cinismo e eficácia profissional demonstra que a exaustão emocional se correlaciona positivamente com o cinismo e negativamente com a eficácia profissional (Bakker, Demerouti, & Schaufeli, 2002; Choi et al., 2019; Schuster, Dias, Battistella, & Grohmann, 2015; Vicente, Oliveira, & Marôco, 2013), conforme observado neste estudo.
O estudo de Marôco J et al. (2016) a profissionais de saúde portugueses (262 enfermeiros e 466 médicos) contraria, por um lado, os resultados relativos aos níveis das dimensões de burnout acima descritos, na medida em que revela que ambas as categorias profissionais apresentam níveis moderados a elevados de burnout, constatando que a ocorrência da síndrome de burnout em profissionais de saúde portugueses é constante, e que está associada à perceçãode más condições de trabalho e à menor duração do tempo de serviço dos profissionais (os profissionais mais jovens apresentaram maiores níveis de burnout quando comparados com colegas com mais tempo de profissão). Por outro lado, conclui que não há diferenças significativas entre as duas profissões, nem entre hospitais, unidades de cuidados de saúde personalizados e unidades de saúde familiares.
Saliente-se que, no nosso estudo, os resultados a nível estatístico indicam que a correlação entre a variável “tempo de atividade profissional” e a escala MBI-GS não
tem significância, ou seja, não há uma tendência crescente/decrescente. Contudo, os profissionais que exercem a sua atividade profissional entre 0-5 anos, quando comparados com os profissionais que exercem há mais de 30 anos, apresentam: maior cinismo; maior exaustão; menor eficácia profissional.
O estudo de Alves (2012), realizado em Portugal a 117 enfermeiros especialistas em enfermagem de reabilitação revela que existe influência da variável “tempo de exercício profissional na especialidade”, pois os sujeitos com 10 ou menos anos de tempo de exercício profissional na especialidade apresentam níveis mais elevados nas dimensões “exaustão emocional e física” e “cinismo”, e níveis baixos na dimensão “eficácia profissional”. Isto é, os sujeitos que exercem funções há 10 ou menos anos manifestam uma maior tendência para o burnout em relação aos que já exercem a especialidade há 11 ou mais anos.
No que respeita a estudos realizados noutros países, verificam-se resultados similares neste âmbito (Kawamura, Takayashiki, Ito, Maeno, Seo, & Maenoa, 2018; Purbis & Saylor, 2019;) O estudo de Kawamura, Takayashiki, Ito, Maeno, Seo e Maenoa (2018), realizado no Japão a 1061 médicos, revela que os médicos com burnout tinham significativamente menos anos de experiência do que os médicos sem
burnout.
O 2.º objetivo a alcançar com o presente trabalho passa por conhecer os níveis de resiliência dos profissionais da amostra.
Neste sentido, para medir a resiliência, utilizamos o instrumento CD-RISC, composto por 10 itens, variando entre 0 e 40 pontos. Os níveis de resiliência correspondem a: resiliência baixa (< 30); média (30-34); alta (≥35) [CDRISC- The Connor- Davidson
Resilience Scale].
Relativamente à amostra em estudo, este instrumento apresenta-se com uma mediana de 29,00, quecorresponde a um nível de resiliência baixo (< 30).
Em contexto de trabalho, identificam-se poucos estudos de validação psicométrica do instrumento CD-RISC10. O nível de resiliência obtido no nosso estudo assemelha- se ao de outros estudos, como por exemplo: o estudo de Lopes e Martins (2011), no Brasil. Fizeram parte da amostra 463 inquiridos (estudantes, militares e professores),
tendo obtidoa média de 29,07 na CD-RISC10. A média de resiliência neste estudo ficou um pouco acima do estudo original (Campbell- Sills& Stein, 2007), que obteve a média de 27,21.
Valores mais elevados apresentaram outros estudos, tais como:o estudo de Turner (2015), em Tuscaloosa (cidade localizada no estado americano) e o de Kermott, Johnson, Sood, Jenkins e Sood (2019), nos EUA. De referir que, no estudo de Turner (2015) a 10 enfermeiras, os níveis variaram entre 33 - 40, com pontuação média de 36,7 (alto nível de resiliência).
Em relação às correlações deste instrumento, o estudo de Almeida, Dias, Xavier e Torgal (2020) refere que estas são: “fortes” acima de 0,5; “moderadas” entre 0,3 e 0,5; “fracas” inferiores a 0,3.37.
Seguindo esta mesma lógica, no nosso estudo, na resiliência (CD-RISC10), os dados mostram uma evidência de correlação positiva fraca com a ética hospitalar. Esta (CD- RISC10) correlaciona-se de forma positiva forte com a eficácia profissional e negativamente com o cinismo e com a exaustão, isto é, à medida que a resiliência aumenta, a eficácia profissional também aumenta, e o cinismo e a exaustão diminuem. Também os resultados do estudo de Yang et al. (2018) a 536 enfermeiros de 22 hospitais da China, mostram que a resiliência estava negativamente relacionada com a exaustão emocional e com o cinismo, e positivamente relacionada com a eficácia profissional. O mesmo se verifica no estudo de Silva et al. (2016), realizado a 200 enfermeiros de hospitais públicos da área metropolitana do Porto (Portugal).
Kermott, Johnson, Sood, Jenkins e Sood (2019), no seu estudo, nos EUA, aplicaram a CD-RISC10 a 1954 sujeitos, seguidos numa clínica de saúde (Mayo, Rochester, Minnesota). Neste estudo, 41,7% dos sujeitos relataram alta resiliência, 34,3% resiliência média e 24,0% resiliência baixa. Este estudo sugere intervenções ao nível individual e organizacional para aumentar a resiliência, contribuindo para aliviar as consequências negativas do stress relacionadas com o trabalho.
Da mesma forma, Ben-Arye e Samuels (2015), na sua revisão, chamam a atenção para a necessidade de se abordar os efeitos psico- espirituais nos profissionais de saúde com o intuito de aumentar a resiliência e diminuir o burnout.
Os resultados do estudo de Silva et al. (2016) concluem que a resiliência pode reduzir a vulnerabilidade dos profissionais de saúde (enfermeiros) ao burnout e que, para promover a resiliência, é necessário um conjunto de intervenções sobre o ambiente de trabalho e sobre o trabalhador; é também fundamental que as instituições promovam a saúde dos profissionais, pois este estudo revela que quanto maior é o grau de resiliência, menor é a possibilidade de desenvolver burnout.
No 3.º objetivo pretende-se conhecer o nível de perceção dos profissionais da amostra em relação ao ambiente ético hospitalar.
O instrumento utilizado foi o HECS composto por 26 itens, traduzido e adaptado para a população portuguesa. Os resultados constataram que este instrumento apresenta uma consistência muito boa, sendo o valor α de Cronbach de 0,95 para os 26 itens (estudo original de Linda Olson – α Cronbach: 0,91). Com pontuação de 1 a 5, o resultado global obtido no nosso estudo foi de 3,96.
À semelhança do nosso estudo, na Finlândia, o estudo deSuhonen, Stolt, Katajisto, Charalambous e Olson (2015), a 874 enfermeiros, registou uma pontuação média global do HECS de 3,85.Com pontuação média global de HECS inferior (3,22), surge o estudo de Lemmenes, Valentine, Gwizdalski, Vincent e Liao (2018), realizado nos EUA a 475 enfermeiros.
Por sua vez, no nosso estudo, o fator que apresentou uma mediana mais elevada foi o fator “pares” (4,25); contrariamente, os fatores “hospital” e “médicos” foram os que apresentaram uma mediana mais baixa (3,67).
Em termos gerais, através dos resultados da aplicação deste instrumento, as relações entre profissionais (pares), pacientes, superiores (excetuando o papel do superior - questão 3) e médicos (exceto o respeito e apoio a todos os profissionais por parte do hospital -questão 26) mostram-se positivas; já menos positivo se mostra o fator organizacional (hospital), no que concerne às questões: 4 (políticas hospitalares), 8 (missão do hospital: transparência e partilha por todos os profissionais) e 16 (a não abordagem de conflitos).
Tal como menciona Maslach e Leiter (1997) “(...) compete a ela (organização) criar condições para que os seus trabalhadores possam ter um desempenho eficaz sem
sofrimento psíquico” (Maslach & Leiter, 1997, como citado em Tecedeiro, 2004, p. 92).
Em relação às correlações deste instrumento (HECS), os resultados do nosso estudo indicam que não há evidências de associação significativa entre o ambiente ético hospitalar percepcionado pelos participantes e a exaustão emocional. A correlação positiva mais forte do ambiente ético é com a eficácia profissional, ou seja, níveis mais elevados de perceção do ambiente ético hospitalar estão associados a níveis mais elevados de eficácia profissional. Por seu turno, verifica-se uma correlação negativa, embora fraca, com o cinismo (Duma, Maingi, Tap, Weekes, & Thomas, 2019; Lukas, 2017; Shanafelt et al., 2019).
Também em relação ao ambiente ético hospitalar, Backes, Lunardi Filho WD e Lunardi VL (2006) defendem que, independentemente do hospital ou mesmo da empresa, um programa de humanização requer que se reconheça e valorize a individualidade e singularidade de cada um dos trabalhadores porque, para que haja um bom clima organizacional favorável à humanização, é preciso, mais do que respeitar as leis / normas, estabelecer-se relações horizontais, em que os superiores mostram interesse pela equipa de trabalho e conhecem o seu grau de satisfação e de insatisfação pessoal e profissional, em que as atitudes sejam de diálogo, de reflexão, com possibilidade de mudança nos superiores e nos profissionais.
Por último, no que se refere às correlações entre os instrumentos: MBI-GS (3 dimensões), CD- RISC10 e HECS, os resultados obtidos no nosso estudo mostram que as análises correlacionais positivas mais fortes são:
- no MBI-GS, a exaustão emocional encontra-se forte e positivamente correlacionada com o cinismo [também outros estudos mostram a existência desta correlação (positiva) como: Bakker, Demerouti, & Schaufeli, 2002; Choi et al., 2019; Klein, Riggenbach-Hays, Sollenberger, Harney, & McGarvey, 2018; Martins, Laport, Menezes, Medeiros, & Ronzani, 2014; Schuster, Dias, Battistella, & Grohmann, 2015; Silva et al., 2016; Vicente, Oliveira, & Marôco, 2013], enquanto a eficácia profissional se correlaciona positivamente com a resiliência (Ercolani et al., 2019; Silva et al., 2016; Yang et al., 2018);
- no CD-RISC10, a análise correlacional positiva mais forte refere-se à eficácia profissional (também outros estudos mostram a existência de correlação positiva entre a resiliência e a eficácia profissional, tais como: Lee et al., 2015; Yang et al., 2018); - no HECS, a correlação positiva mais forte diz respeito também à eficácia profissional (também outros estudos/ revisões de literatura mostram a existência da correlação positiva entre o ambiente ético hospitalar e a eficácia profissional, tais como: Duma, Maingi, Tap, Weekes, & Thomas, 2019; Lukas, 2017; Shanafelt et al., 2019).
Quando se executa uma investigação desta natureza -estudo no âmbito de mestrado - existem sempre limitações. Por um lado, o fator tempo para obtenção/ recolha da amostra, por outro, o facto de se tratar de um estudo composto por muitas escalas, o que o torna muito longo e dificulta a adesão dos profissionais para o seu preenchimento. Além disso, a situação de saúde pública relacionada com o COVID- 19 veio dificultar a recolha, justificando naturalmente o tamanho da amostra. No entanto, a amostra deste estudo está de acordo com muitos outros estudos da mesma natureza (Marques, 2011, Ribas, 2010; Turner, 2015).
Apesar das limitações, o estudo trouxe dados novos, sobretudo no seio do ambiente ético hospitalar, mais especificamente a nível organizacional, uma vez que podemos afirmar que “todos”os profissionais de saúde sentir-se-ão mais satisfeitos quanto melhor for a perceção de cada um deles sobre o ambiente ético hospitalar.
Como refere Tavares (2010), os profissionais de saúde correm 1,5x mais risco de contraírem doenças relacionadas com o trabalho do que os restantes trabalhadores. E estar em segurança não significa não correr riscos. Nos serviços de saúde, a segurança é uma responsabilidade conjunta, sendo crucial que os profissionais tenham noção dos riscos existentes e que apelem a melhorias organizacionais e estruturais. Cada vez mais os profissionais se preocupam com a sua segurança e saúde porque são por todos conhecidos os riscos associados à prestação de cuidados a doentes. Riscos que se agravam com a pressão do diaa dia para que as tarefas sejam realizadas demorando menos tempo. O excesso de trabalho e o confronto diário com situações difíceis por vezes conduzem a uma exaustão emocional que se reflete numa fadiga física e emocional. Tudo isto constitui fatores de stress contribuindo para o desenvolvimento
de burnout. Desta forma, cabe à administração a responsabilidade de criar ambientes saudáveis e seguros, garantindo condições materiais e organizacionais, bem como informação e formação dos profissionais de saúde para que estes possam assumir as suas responsabilidades - responsabilidade partilhada (Tavares, 2010).
Espero com este estudo contribuir para enriquecer o conhecimento sobre as diferentes variáveis e apelar para a importância de promover e manter os nossos profissionais de saúde saudáveis.
Em pesquisas futuras, seria interessante aumentar o tamanho da amostra deste mesmo estudo, assim como validar a HECS (uma vez que foi traduzida no presente estudo). Creio que também seria curioso investigar qual o papel que o Ambiente Ético Hospitalar desempenha perante estados de calamidade/ emergência. Outro assunto que julgo merecer ser aprofundado diz respeito aos fatores que influenciam a Resiliência, em especial o Humor e o Riso.
VI - CONCLUSÃO
Como vimos, o burnout resultado stress laboral crónico que não foi resolvido com sucesso, sendo incluído recentemente na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS) no capítulo: “problemas associados” ao emprego ou ao desemprego (CID, 2019).
Através dos diversos estudos, conclui-se que a Síndrome de burnout apresenta, de um modo geral, as seguintes características: ao nível de sintomas/consequências, na dimensão física (cansaço cognitivo; distúrbios do sono; fadiga crónica; dores de cabeça; angústia gastrointestinal; oscilações de peso); na dimensão emocional (incapacidade de lidar com o stress no trabalho/questionar a natureza das lutas do paciente e da família; luto pelas mortes de pacientes com quem o profissional teve uma forte “ligação” emocional; sofrimento moral; angústia moral e dor; raiva; frustração; cinismo; depressão; culpa; fadiga por compaixão; uso de álcool; tentativa/ pensamento de suicídio); na dimensão social (desapego, evitamento); na dimensão profissional (diminuição da realização ou indiferença; alienação interpessoal; diminuição das interações para com o paciente; sentimento invasivo que diminui a empatia, a superação com pacientes e familiares, a qualidade do atendimento; implicações na comunicação interpessoal com os colegas; menor probabilidade de discutir o diagnóstico com os seus doentes; saída antecipada da carreira; redução na produtividade; aumento do risco de erro; alteração da inibição de resposta, da memória no trabalho e na tomada de decisão).
Conclui-se também que há uma variedade de fatores protetores contra o burnout, quer a nível individual, quer a nível grupal, bem como a nível organizacional.
Relativamente aos primeiros, destaca-se a Resiliência - fonte de conforto (Haug, Danbolt, Kvigne, & Demarinis, 2015) - que, como vimos, diz respeito à capacidade de um sujeito progredir apesar das adversidades, de se adaptar perante situações de
stress/ trauma; capacidade de se adaptar e interpretar as mudanças; processo de