Acompanhei uma jovem mãe chamada à escola por causa do comportamento inadequado de sua filha. Esta, que cursava o 8º ano, tinha se envolvido em uma briga com uma colega de turma na sala de aula. A professora as encaminhou para a pedagoga, que por sua vez chamou os responsáveis, a fim de comunicar a situação e a sanção que caberia a cada uma das alunas.
A pedagoga responsável por esse atendimento era a mesma incumbida de acompanhar minha pesquisa nessa escola. Por isso permitiu que eu ficasse na sala e participasse como ouvinte do atendimento de um dos casos. Chamou-me a atenção a atitude da mãe. Esta dizia: “Levante a cabeça, menina, no meio dessa gente; se a gente se abaixa, eles montam”. A jovem, por sua vez, insistia em manter uma postura de contrição, pois, segundo ela, ela tinha só se defendido das agressões que a outra lhe impusera.
A pedagoga, com a habilidade que convém à sua função, conduziu a conversa de maneira a fazer com que mãe e filha refletissem sobre a importância da educação, que a escola não é lugar de brigas e nem de violências. Explicou ainda que, se a aluna se sentiu ameaçada, deveria tê-la procurado para pedir ajuda. A garota tentou argumentar que já havia feito isso e não tinha resolvido. Seu argumento ecoou no vazio, pois a pedagoga continuou o discurso formativo com a mãe e a filha. Por fim, a mãe silenciosa, aceitou a suspensão de um dia para a filha, assinou os devidos documentos de atendimento e saiu com cara de poucos amigos.
24 Afecto para Deleuze é diferente de afeto. Os afectos são os registros imateriais, estão relacionados à potência. O autor explica o termo em um curso sobre Spinosa, de 12 de dezembro de 1980: “Ustedes recuerdan que la potencia está siempre en acto, está siempre efectuada. Los afectos son los que la efectúan. Los afectos son las efectuaciones de la potencia, lo que experimento en acción o en pasión, es lo que efectúa mi potencia a cada instante. Si el hombre razonable y el loco se distinguen, no es por la potencia, cada uno realiza su potencia, es por los afectos. Los afectos del hombre razonable no son los mismos que los del loco. De ahí que el problema de la razón, Espinoza lo convertirá en un caso especial del problema más general de los afectos. La razón designa un cierto tipo de afectos. Eso, es muy nuevo” (DELEUZE, 1980).
Eu a acompanhei até a saída e tentei entabular alguma conversa. Pouco a pouco a mãe foi se abrindo e aproveitou para contar seus problemas com os cinco filhos: dois garotos envolvidos com drogas, duas crianças pequeninas com necessidade de cuidados constantes e a filha em questão, que não queria saber de estudar e só se metia em confusão. Fui caminhando com ela até as proximidades de sua casa, numa favela nos arredores da escola. Nesse lugar, concentra-se um alto número de traficantes da região. A polícia está sempre ali e todas as semanas há notícias de assassinatos. Embora aconselhada a não me aproximar desse lugar, me senti segura estando com uma moradora. Perguntei à jovem mãe se a filha sempre agia dessa maneira. Ela respondeu que não, que tinha mudado depois de ter entrado para aquela escola e começado a andar com certas pessoas. Ela afirmou que a filha sempre fora preguiçosa, mas não briguenta: “Depois que começou conviver com esses tipinhos que têm nessa escola, ela mudou muito, ficou mais agitada”. Indaguei o que seria isso que ela estava chamando de ‘tipinhos’. Ela me explicou que eram os vagabundos que viviam envolvidos em drogas e brigas e que não queriam saber de estudar. Vinha para a escola só para ‘tocar bagunça’. O problema, afirmou a mãe, é que minha filha não me obedece mais. Em suas palavras: “Desde o dia em que deram uns tapas nela na hora do recreio, ela mudou muito”.
Decidi, então, procurar a jovem para tentar saber alguma coisa dela. Encontrei-a na hora do recreio, dois dias depois da referida suspensão. Aproximei-me: “Ana, tudo bem? Que bom ter você de volta!”. Ela não me deu muita confiança, mas foi educada em responder que estava tudo bem e estranhou que eu soubesse seu nome. Perguntei se podia conversar com ela um pouquinho sobre meu trabalho de pesquisa. Expliquei do que se tratava, mas lhe pedi que ficasse bem à vontade para falar o que quisesse. Como não tinha muito tempo, apenas vinte minutos, ela me prometeu que poderíamos conversar em outro momento. A professora do quarto horário faltou, e assim pudemos continuar nossa conversa.
Eu lhe perguntei por que havia se envolvido na briga na sala de aula. Respondeu que não gostava de brigar, mas que não aguentava mais os insultos, ameaças e brincadeiras chatas da adversária e seu grupinho. Acrescentou que ali, mesmo que não goste de brigar, você
tem que fingir que gosta, para que os colegas “fiquem com medo e não venham encher o seu saco”. “Desde o dia em que entrei nessa escola (3º ano), cada dia acontece uma coisa, um dia é briga no bosque, outro é briga no banheiro, na sala de aula, na frente do colégio. Briga com professor. Brigas muito agressivas, entende? Dá medo na gente. Não dá nem vontade de vir para a escola. Daí, a gente tem de reagir”.
Tivemos de interromper a conversa, pois o sinal indicava o início da aula do último horário. Ana me pareceu uma jovem inteligente, bem articulada e certa do que estava fazendo, tendo em conta os limites da idade.
As experiências vividas por Ana são afecções e estão interferindo em sua vida, em seus modos de subjetivação. Ela é exemplo do que acontece com tantos outros jovens dentro da escola, que de alguma forma tentam resistir a essas formas de violência, reagindo, muitas vezes, de forma não aceitável pelos códigos da escola. Tais experiências, ainda que sem planejamento, interferem na educação, na vida e nos corpos dos jovens e das jovens escolares.
Pude observar que o conjunto das experiências de violência dentro da escola leva a um sofrimento constante por parte não só dos que as sofrem, mas também dos seus agentes. No caso da Ana, com seus atos violentos ela queria passar uma imagem de força e de resistência, para que não a atormentassem mais. Todos deveriam saber que com ela não valia a pena se meter, pois iria reagir.
O ponto de partida dessa análise é o destaque dos atravessamentos sofridos pelo corpo, pois “uma experiência é sempre corporal”, como afirma Vaz (2010, p. 37). É o corpo que sofre, cansa, adoece, reage e, muitas vezes, se adapta ou se transforma para não ser excluído e alijado dos processos. O corpo, que sofreu as consequências das tecnologias disciplinares do século XVIII, continua a suportar as transformações infligidas a ele pelas tecnologias contemporâneas de controle e colonização como a da beleza, a estetização das formas corporais, a exigência de “boa aparência” para se conseguir um emprego, entre outras.
Ana relatou ainda que durante o recreio é comum ver alunos brigando no espaço da escola. Certo dia ela mesma sofreu uma agressão física que a fez repensar se voltaria à escola: “Eu fiquei muito
triste com tudo aqui, pensei em não voltar à escola, mas minha mãe não me deixou desistir”. Jena, outra aluna, disse que duas de suas colegas desistiram de ir à escola por que tinham medo de apanhar: “As brigas são muito frequentes aqui na escola, todo dia tem alguém apanhando”; “[...] tem um colega nosso (não citou nome) que toma remédio para depressão, a mãe dele obriga ele a vir para a escola. Um dia ele tomou um soco na cara dado por dois meninos do Ensino Médio”. “Aqui, você tem de saber escolher as pessoas com quem você anda, do contrário tá ferrado”, argumentou Lucio. Continuou Jena: "Outro dia jogaram um menino para fora do muro da escola e ele se machucou bastante". O lugar é muito alto. O diretor foi chamado e passou a demanda para o pedagogo, que por sua vez chamou a Patrulha Escolar (PE). "Ninguém quer saber de problemas", finalizou Jena (grupo focal).
Conversei sobre isso com uma das pedagogas. Argumentou que, se for dar atenção a tudo que acontece, não fará mais nada dentro da escola. Por isso, em casos mais sérios, chama sempre a PE.
Apesar dos alunos desse grupo focal conhecerem muitos grupos de alunos que incitam brigas a partir de nada, só para bagunçar ou azucrinar alguém, eles afirmam não participar de nenhum grupo dessa natureza, apesar de já terem sofrido e revidado alguma agressão.
Quando conversei com a mãe da Ana, perguntei a razão de ela dizer para a filha para não ficar com a cabeça baixa, pois do contrário as pessoas montam. Ela ficou um pouco sem graça e me disse que falou na hora da raiva, pois já não aguenta mais ser chamada na escola, que parece que os professores estão cansados dos alunos e por qualquer motivo chamam os pais para irem à escola resolver problemas de disciplina. Observei que se tratava de uma briga com contato físico, e ela respondeu: “Mas só por causa disso? [...] Aqui acontece briga toda hora ... e na escola não é diferente”. Além disso, continuou ela, "há muito preconceito com a gente aqui desse lugar" (ela se referia à favela próxima da escola).
As brigas, de fato, são a forma mais comum de violência nas escolas, como afirmam Abramovay e Rua, em pesquisa realizada com alunos de escolas de Brasília: “As brigas representam uma das modalidades de violência mais frequentes nas escolas, com ampla
multiplicidade de sentidos, abrangendo desde formas de sociabilidade juvenil até condutas brutais” (2002a, p. 236).
Pode-se dizer que há aqui uma ‘experiência desencantada’, para usar a expressão de Dubet (1994), que impede de se chegar a qualquer tipo de significação. A não significação faz com que a experiência se transforme em uma não-experiência, são experiências negadas, destruídas ou pobres. Desse modo, os acontecimentos podem não se transformar em experiências, como ilustra Agamben no contexto da vida cotidiana: “O homem moderno volta para casa à noitinha extenuado por uma mixórdia de eventos – divertidos ou maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes –, entretanto nenhum deles se tornou experiência" (2008c, p. 22).
Os acontecimentos da vida da Ana e de seus colegas estão entrelaçados numa rede que os envolve, gerando discursos e narrativas que novamente se singularizam, mas nessa intrincada teia de acontecimentos eles podem não ter realizado a experiência. Essa incapacidade de se traduzir em experiência o que se vive torna a existência cotidiana insuportável (AGAMBEN, 2008).
4.2 Experiência é o que acontece ou o sentimento que fica