Exploratory Statistical Techniques
2.8 Three Dimensional Plots
O subcapítulo anterior apresentou a política patrimonial de cultura imaterial sobre a qual se baseia esta investigação. Este subcapítulo volta-se agora para a apresentação dos principais conceitos desta tese e propõe uma reflexão sobre os usos do património.
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A nova economia cultural global desenvolve-se em fluxos cada vez maiores e mais rápidos de capital, produtos, pessoas, imagens e ideologias que circulam através das fronteiras nacionais (Inda e Rosaldo, 2002). Estes fluxos causaram um deslocamento nos antigos modelos utilizados para perceber um contorno cultural (Appadurai, 1996). Com a intensificação da globalização, as dinâmicas de circulação e as trocas culturais provocaram um impacto direto sobre as identidades nacionais. A identidade nacional, como forma particular de identidade cultural, foi a maior fonte de identificação individual durante a modernidade, através das grandes narrativas das culturas nacionais. Segundo Stuart Hall (2002: 51), “as culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre a nação, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades”.
Como resposta às grandes transformações da modernidade, tais como a urbanização, a industrialização, a racionalização e a mecanização da vida, o processo de patrimonialização procura compensar a distância que se instaura entre as sociedades modernas e as anteriores sociedades rurais/tradicionais. Diante deste cenário, as atuais políticas patrimoniais procuram operar de forma a fornecer certezas de um porto seguro em que se torne possível atracar uma identidade. Diante da pluralidade cultural global, a patrimonialização permite a revindicação dos particularismos, em que cada localidade pretende afirmar-se ao elaborar um discurso de ligação às raízes e de valorização de uma herança cultural única. A patrimonialização e as reafirmações particularistas funcionam como meios de personalização, de ser autêntico e de se sentir orgulho nelas.
De acordo com Anico e Peralta (2006: 3), patrimónios são “símbolos sacralizados que um coletivo decide preservar, não pela sua autenticidade, não pela sua ancestralidade, não pela sua genialidade, mas antes pelo fato de pertencerem a uma externalidade cultural que se radica, não no passado, mas no presente e que se projecta para o futuro”. O património representa sobretudo um valor simbólico, que não se encontra no próprio objeto, pois nele são projetados valores identitários. O foco desta projeção pode ocorrer sobre um espaço geográfico, uma construção arquitetónica, um objeto concreto, ou práticas culturais locais (Kirshenblatt-Gimblett, 1995). Neste sentido, para uma análise e compreensão da prática cultural da patrimonialização é mais produtivo investigar quais
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são os significados e objetivos que estão a ser projetados. A partir destas premissas, interpreto a política de património como uma das diferentes políticas de identidade, isto é, as políticas do património colaboram na consolidação de uma identidade cultural.
Zygmunt Baumam (1999) propõe a imagem de um redemoinho como a metáfora mais capaz de representar o conceito de identidade cultural. Para o sociólogo, o único fator que assegura a continuidade de uma identidade cultural é o movimento e a capacidade de mudança. Tal acontece porque as identidades não se apoiam na singularidade de suas características, mas consistem em formas distintas de selecionar, reciclar e rearranjar material cultural raras vezes produzido por elas próprias. De acordo com Bauman (1999: 69), “as identidades culturais mantêm a sua forma distinta enquanto continuamente ingerem e vomitam material cultural”.
O conteúdo do património situa-se entre a memória e a história, sendo uma forma específica de recurso do passado que é utilizado para elaborar a identidade cultural de cada grupo, e assim servir como fator de coesão social e de construção de uma história edificante. Na seleção do património oficial podemos constatar a maneira como se tenta solucionar as tensões entre as diferentes perceções da memória e da história, para que no final se afirme como identidade local.
Nos dias de hoje, a seleção de patrimónios, ou a denominada “criação de patrimónios”, está associada primeiramente a um fator de ordem económico. O potencial económico da indústria do património tem-se mostrado cada vez mais rentável ao adicionar valor aos produtos, num mercado progressivamente mais competitivo. Assim, o selo de atribuição de valor patrimonial concedido pela UNESCO distingue os bens culturais por acrescentar um potencial diferenciador e, por conseguinte, dinamizar as economias locais e promover o desenvolvimento regional. A procura do crescimento económico converteu o património num recurso crescentemente utilizado pela indústria do turismo. Segundo Tim Winter (2010), a indústria do turismo representa uma extensa parcela da economia em muitas localidades. O autor chama a atenção para a ascensão de um público turista não-ocidental, principalmente de asiáticos, que deveriam fazer parte das preocupações dos gestores de património na interação entre património e turismo.
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Em Inglaterra, país com uma antiga tradição de práticas patrimoniais e com uma ampla produção de estudos sobre património, o historiador inglês Robert Hewison (1987: 139, citado por Hamer, 2005: 146) pretendeu provocar a crescente indústria do património, ao considerar que “começamos a construir um passado que é uma série de muralhas que nos aprisionam sobre as quais projetamos uma imagem superficial de um falso passado, ao mesmo tempo em que damos as costas para a realidade histórica e somos incapazes de seguir adiante devido à fascinação que esta fantasia nos apresenta”. É importante constatar que embora faça uso do discurso histórico, a indústria do património realiza novos usos da história. A indústria do património transforma a história num depósito sincrónico de enredos culturais com potencial para uso no presente, mas muitas vezes como símbolos totalmente desatracados de seu significado social.
Elaboro agora uma análise baseada no estudo de Skounti (2009) que separa quatro campos que influenciam a criação de patrimónios: económico, político, social e cultural. No que concerne ao fator económico, destaca-se a forte pressão por parte do setor do turismo, enquanto fenómeno global, para transformar um local em destino turístico. Ou seja, de acordo com Kirshenblatt-Gimblett (1998), as elaborações de destinos desejados exigem uma especificidade que os tornem distintos diante dos demais locais, dentro de uma perspetiva global. Desta forma, o património produz o local para exportação, invertendo a lógica industrial-mercantil de levar produtos aos consumidores, e instituindo políticas patrimoniais que visam importar visitantes e turistas para consumir bens e serviços locais.
Como segundo fator para a criação de patrimónios estão intrínsecas as questões políticas. Skounti (2009) reforça a ideia da imposição política na escolha do património, considerando este fator um dos mais influentes. É preciso ter em conta que a instrumentalização da cultura esteve sempre no horizonte das políticas públicas modernas3.
3 No caso do presente estudo, aponto para o político associado ao processo de candidatura do fado a
Património da Humanidade da UNESCO. António Costa, então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tornou-se o Primeiro-Ministro de Portugal nas eleições legislativas de 2015.
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O fator social é o terceiro campo de análise. De acordo com Skounti (2009), os diversos atores sociais que interagem na construção do património estão envolvidos numa dinâmica de adquirir prestígio social, notabilidade e capital simbólico. Desde os presidentes de câmara, diretores de museu, investigadores, às figuras-chave das práticas sociais envolvidas, todos possuem um desmedido interesse em capitalizar as suas posições sociais.
Por fim, a dimensão cultural do património evidencia que o património é um discurso importante para a construção de diálogos e debates sobre as identidades contemporâneas.
Compreendo, portanto, a patrimonialização como um palco. Nele aparece em primeiro plano somente a última etapa de um processo permanente de negociações e reivindicações identitárias de uma determinada sociedade. Nesse palco, os diferentes atores sociais estão em posições assimétricas de poder, fator este que influência a operacionalização das políticas patrimoniais culturais do Estado-nação. Diante deste cenário, torna-se importante que as políticas patrimoniais contemplem, incorporem e debatam as problemáticas da sociedade atual. É, por isso, fundamental desenvolver políticas patrimoniais que pluralizarem os atores envolvidos na criação dos patrimónios a partir da herança cultural local. Deste modo, poderia se propiciar a liberdade de adaptação necessária para que se continue a enriquecer a identidade local em constante transformação, mantendo-a assim viva. No entanto, sem a ampliação dos sujeitos envolvidos, o património pode tornar-se refém das dimensões políticas e económicas ao ser instrumentalizado para a mobilização e reafirmação da identidade nacional, assim como a mercadorização excessiva em contexto de globalização.