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5.1 For Graphical Objects
Os apelos das estéticas da recepção, que despontaram no pós-estruturalismo, advogando a importância do leitor na construção do sentido do texto, determinariam, em pouco tempo, a ressurgência do autor, no seio de um paradigma comunicacional de que se reconheceu garante. Se a sua morte, decretada em 1968 por Roland Barthes, a par dos trabalhos da Escola de Constança (Jauss, Iser), contribuiu para a atenção que seria dada à instância do leitor, este acabaria por reintroduzir, mais tarde, a questão da entidade autoral. Para Helena Carvalhão Buescu, apenas uma perspectiva textual ontológica o excluiria do circuito literário, fazendo ruir a sua dimensão pragmática e a transitividade que lhe é inerente:
A integração do texto, através da noção de autor, num sistema de troca de informações, num sistema de interacção social, torna-se possível apenas na medida em que o receptor/leitor é reconhecido como fazendo parte de uma cadeia de relações da qual fazem também parte quer o texto quer o autor/emissor (Buescu, 1998: 35).
Como atrás brevemente apontámos7, no final de Oitocentos, os estudos literários eram dominados por uma visão positivista e biografista, em vigor até às primeiras décadas do século XX, que situava o autor como elemento polarizador das reflexões produzidas. Este autor seria, mais precisamente, a figura empírica, com responsabilidade directa pela obra e detentora de uma inscrição identitária extratextualmente comprovável. Dele seria relevada uma existência psicológica esmiuçada nos factos de vida, organizados por uma sequência linear de causalidades e influências. A implementação posterior de uma análise da obra literária de orientação textológica, inaugurada pelos formalistas russos, subjacente ao New Criticism e exacerbada pelos estruturalismos, motivou que, tal como o estudo dos autores, fosse desvalorizado o das influências exercidas e recebidas. A dimensão retórica e estrutural dos textos, desligada das intenções autorais, bem como a rejeição de perspectivas intencionalistas, psicologistas e expressivas, propiciaria uma nova atenção ao conceito de leitor.
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Antes disso, porém, num momento em que os estudos literários se ocupavam ainda dos nexos intertextuais, seria polémica a publicação, nos anos 70, da obra A
Angústia da Influência, de Harold Bloom, pela aparente retoma de elementos extrínsecos
à obra literária, que, à altura, se desejavam ultrapassados pelas relações entre textos. Bloom, no entanto, clarifica a sua proposta desde o início, desvinculando-a das práticas passadistas, centradas no percurso biográfico dos autores e numa linearidade das influências sofridas: “As profundezas da influência poética não podem ser reduzidas ao estudo de fontes, à história das ideias, à feitura de imagens. A influência poética, ou, como lhe chamarei mais frequentemente, o encobrimento poético, é necessariamente o estudo do ciclo vital do poeta-enquanto-poeta” (Bloom, 1991: 19), querendo este significar o estudo das relações intra-poéticas com figuras precursoras, marcadas pela ambiguidade e pela ansiedade. Bloom argumenta que a histñria poética “[…] é indiscernível da influência poética, visto que os poetas fortes fazem a história lendo-se mal uns aos outros, de modo a desobstruir um espaço de imaginação para si prñprios” (idem: 17) e a potenciar a criação de uma visão original.
O crítico norte-americano, assumidamente influenciado pela psicanálise de Freud, apresenta, assim, uma proposta dissidente do conceito de intertextualidade dos anos 60, que rasurava a figura do autor, tanto na sua personalidade empírica quanto literária e textual. A sua reconsideração da intervenção do inconsciente, na prática artística, restauraria a atenção sobre o processo de criação, com foco no autor e nos modelos literários que a sua escrita enfrentaria e a que reagiria. Não obstante, e embora tenha cabido a Bloom o mérito de reintroduzir a questão do autor (nomeadamente, a tão polémica questão dos autores fortes), a problemática da inspiração, enquanto mistério das origens, acabaria subsumida numa categorização da luta agónica entre os titãs da escrita.
Ensaiando uma busca do autor perdido, na sua adesão e descrição de um paradigma comunicacional do fenómeno literário, a já citada Helena Buescu sublinha que é mais propício considerar o autor, primacialmente, enquanto instância textual, operativa na obra, sem uma rasura da sua ñbvia ligação ao empírico: “Pode dizer-se, então, que o autor textual não coincide, nem necessária nem totalmente, com o autor empírico – embora mantenha com ele relações cuja pertinência e funcionalidade importa não desdenhar. Trata-se de uma representação funcional de uma série de traços que
operam a inserção do texto no conjunto mais lato das práticas sociais e simbñlicas” (Buescu, 1998: 25). Buescu defende, por conseguinte, que o posicionamento do autor não se radica num fora nem num dentro do texto, sendo antes produto de uma interacção entre este e o leitor, que se reconhecem mutuamente, como integrando um acto de comunicação.
Visível, sobretudo, a partir das últimas décadas do século XX, através de um incremento da escrita biográfica e da atenção científica e sócio-cultural dada a paratextos autorais (entrevistas, depoimentos, artigos), este já célebre regresso ao Autor traz consigo um renovado interesse pelo que acontece com o indivíduo enquanto artista. Que o mesmo é dizer: um interesse pelo que dita ou contribui para a passagem da
normalidade da pessoa ao estado de excepcionalidade enquanto sujeito criador. É ele
que está na origem da obra, já antes referida, O Anjo Literário, onde Eduardo Halfon nos convida a acompanhar a sua demanda de um primeiro momento da inspiração literária:
Como escritor, suspeito de que todas as pessoas que decidem fazer uma incursão no mundo das letras, sem dúvida, sem dúvida alguma, têm um momento específico de génese literária. Situá-lo é diferente. Dito de outra forma: em que momento é que alguém se torna escritor? Dito ainda de outra forma: em que momento é que alguém é engravidado por esse estranho anseio de narrar, de contar, de escrever, de adoptar as palavras como sua forma de expressão e, em certos casos, seu modus vivendi? Encontrar esse instante e narrá-lo. Encontrar o momento preciso em que uma pessoa qualquer deixa de ser uma virgem literária e começa a fazer amor com as palavras; ou, como me disse um amigo: encontrar o momento da vida de pessoas com tão poucas circunstâncias propícias em que um anjo as sobrevoa e as faz cair na literatura (Halfon, 2008: 32).