• Aucun résultat trouvé

Existing Computational Environments

Dans le document Contributions Statistics (Page 192-200)

5.2'4 Hierarchical Objects

5.4 Existing Computational Environments

No quadro da criação literária que a Modernidade estética inaugurou, o novo estatuto do escritor fez-se acompanhar do reconhecimento de um domínio do género biográfico, migrante da Histñria para um “middle space” progressivamente tendente a uma ficção consciente de si e exploradora dos seus limites. A nova faceta da biografia tem atraído a atenção de quantos se debruçam sobre as especificidades mais recentes do fenñmeno literário, entre os quais Fátima Marinho, que comenta: “À medida que o século XX se aproxima do fim, a biografia assume características próprias, passando por uma interpretação criativa da vida das personagens ou, até, recriando aspectos mais obscuros ou mais convencionalmente escamoteados” (Marinho, 2005: 19).

Relatividade da verdade histórica, das noções de objectividade; consciência da “impossibilidade de produzir um discurso único e definitivo sobre acontecimentos reais” (idem: 17); reconhecimento de que a realidade é social e culturalmente construída; emergência de novas concepções de género, firmadas primacialmente sobre semelhanças entre tipos de discurso e sobre uma compreensão sócio-cultural da linguagem em uso – são alguns dos factores que influenciam hoje a permeabilidade entre Histñria e Ficção, aceite a um grau que permite dizer: “Sñ porque a narrativa, frequentemente, se esquece da sua qualidade inevitavelmente ficcional é que se pode pretender histórica […]” (idem: 36).

Cumpre-nos, neste contexto, questionar o motivo que nos nossos dias impulsiona particularmente a ascensão do género biográfico, quer enquanto propondo ao leitor um pacto de veracidade, quer na sua identificação como construção ficcional. A verdade é que nem esta ancoragem contratual oferece uma fiabilidade sustentada, uma vez que os limites entre (auto)biografia e romance (auto)biográfico se fazem cada vez mais imprecisos: nas palavras de Clara Rocha, “Nem sempre a afirmação da identidade é um indicador seguro da autenticidade do narrado, nem sempre a subtitulação […] é fiável, nem sempre a narrativa autobiográfica é a reconstituição verídica duma vida” (Rocha, 1992: 37).

Em As Máscaras de Narciso, a ensaísta portuguesa remete para o Romantismo a emergência da escrita autobiográfica, atribuindo-a à conjugação entre cristianismo,

individualismo e capitalismo. Gilles Lipovetsky, por seu lado, submetendo a análise, na obra A Era do Vazio (1989), aquilo que designa por “segunda revolução individualista”, faz remontar as suas raízes ao movimento modernista, resultado de uma apoteose dos seus valores, que se associa ao desenvolvimento do consumo. É à “paixão da revelação íntima do Eu” que o autor imputa a “inflação actual das biografias e das autobiografias” (Lipovetsky, 1989: 61). Esta verdadeira “sociedade do narcisismo”, como a designa, crescentemente reconhecida pela Sociologia, impulsionará a escrita do Eu como reduto de segurança e de salvação, pois “[…] para muitos a vivência da intimidade é uma garantia de autenticidade num tempo em que a vida pública se tornou uma espécie de „teatro do mundo‟ ” (Rocha, 1992: 19).

Nas últimas décadas, tem sido inegável o interesse a que assistimos, da parte do público fruidor, pela pessoa dos artistas, cujo espaço de vida se tenta transpor e conhecer. Sua manifestação é a procura intensa de testemunhos, autobiografias, entrevistas, sessões de autógrafos e fotografias, encorajada pelos mecanismos do sistema do estrelato, que divulga e apresenta como modelares as vidas privadas de figuras públicas. Efectivamente, “O star system activa um imaginário que substitui (ou entra em concorrência com) a tradicional figura do herñi” (idem: 22), fazendo do consumo da notoriedade “[…] uma moda que vai ao encontro de uma natural curiosidade fetichista” (ibidem) e condicionando igualmente por si a recepção da literatura (auto)biográfica.

Lipovetsky radica o narcisismo colectivo actual numa predominância social hedonista, impulsionada por “[…] uma lógica terapêutica e psicológica elaborada a partir do século XIX com base na abordagem psicopatolñgica” (Lipovetsky, 1989: 51) – que, contudo, não terá impedido o deflagrar de um sentimento comunalizado de solidão. A atenção prioritária que se cede às esferas privadas repercute-se também na literatura biográfica, em que a vertente pública da vida das personalidades biografadas é desvalorizada. Na tese Biografias Romanceadas: a História contada como delírio (2002), dizendo ser já conhecida a história pública daquelas notabilidades, Adriana Nascimento prossegue: “E a biografia tem ainda esta função de informar, de dar a conhecer ao público em geral o que lhe é ocultado, e o que entendemos tem o direito de saber. O direito à informação é um dos imperativos do nosso tempo, e à biografia cabe a função de desocultar de segredos” (Nascimento, 2002: 141). No fim de contas, é neste exercício

que o leitor procurará desocultar os seus próprios, já que, para quem escreve, como para quem lê, a biografia redunda numa busca da autobiografia9, tanto mais flagrante quanto a nova vulnerabilidade do homem e a vivência sem ideais e sem transcendência se tornam opressivas.

No seio do ressurgir deste interesse pela História e pela biografia, marcado pelos contornos específicos de uma procura de sentido talvez nunca tão intensamente sentida, encontramos Gémeos e Tous les Matins du Monde, que, repetindo o protagonismo de personagens históricas, enquadramos, a partir da categorização de Fátima Marinho, na obra O Romance Histórico em Portugal (1999), sob a designação “biografia de personagens referenciais”, definida pela autora do seguinte modo:

[…] romances que relatam a vida de personagens de cuja referencialidade não podemos duvidar e que tiveram papel de relevo no tempo histórico de que fizeram parte. […] é a narração da sua vida que se pretende romancear, ao ponto de, por vezes, se fugir da relatividade histórica para se atingir uma dimensão quase mítica. […] A biografia das várias figuras aparece, assim, filtrada pela ideologia dos seus criadores que, frequentemente, pretendem demonstrar uma teoria através do relato da vida de uma personagem, servindo esta mais como pretexto do que como um fim em si mesma (Marinho, 1999: 173).

Ressalvamos que, nestas obras, a narração se circunscreve a um período determinado da vida das personagens – em ambos os casos, a velhice. Que, de igual modo, a relatividade histórica não será aí procurada nem especialmente evitada, dado que, pela via da ficção, os autores assumem uma possibilidade, ou uma verosimilhança, desde os seus olhares subjectivos. A(s) visão(ões) que lhes subjaz(em) será(ão) alvo da análise subsequente, tal como a incidência sobre este momento concreto da vida dos nossos protagonistas, sempre avaliados na perspectiva da inspiração artística.

9 “Daí que seja um pouco a nossa prñpria autobiografia que buscamos na inviabilidade deste tipo

PARTE II

Dans le document Contributions Statistics (Page 192-200)