4.5 Évaluation de l’approche
5.1.1 Les threads, briques de base du parallélisme de bas niveau
A Constituição Federal de 1988, e o ECA tomando por base a Declaração dos Direitos Humanos que definiu a família como o núcleo central e fundamental da sociedade, instituíram o direito a convivência familiar e comunitária a todas as
crianças, adolescentes e jovens brasileiros, sendo dever da família, do Estado e da sociedade proverem os meios ideais para assegurar esse direito, tendo por base a Doutrina da Proteção Integral.
A família passa a ser entendida como “um conjunto de pessoas que se acham unidas por laços consangüíneos, afetivos e, ou, de solidariedade” (POLÍTICA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL, p.35). Foi nesse sentido com a ampliação das legislações e o reconhecimento das pressões econômicas e do aprofundamento da desigualdade social brasileira que geram e acentuam as fragilidades e contradições no âmbito familiar, que a família enquanto sujeito de direitos ganhou centralidade nas ações da Política de Assistência Social.
Entretanto é sabido que apesar dos avanços alcançados no campo da legislação, há ainda, muito que lutar para modificar determinadas situações de violação de direitos, sobretudo no âmbito familiar onde tem sido recorrente o desrespeito e o uso da violência contra esse segmento infanto-juvenil.
Na comunidade de Arez essa realidade de violação não difere da realidade nacional. Durante as entrevistas este fato tornou-se evidente, nas diversas situações relatadas na convivência das famílias, vejamos alguns fragmentos:
O entrevistado Luiz, expressa-se dizendo:
Minha família é bem alegre. De vez em quando tem coisas ruim - as brigas [...] Eu me dou mais ou menos com meu padrasto. Ele tem que parar um pouquinho de ser chato. Ele é chato de todo jeito [...]. Não, no começo quando ele chegou lá em casa, ele não era chato [...]. Até a semana “re-trasada” eu tive uma discussão com ele. Foi por causa da TV [...]. Em casa eu não converso com ninguém. Eu vivo isolado. Queria conversar mais em casa. (Luiz, 16 anos, informação verbal)
Na mesma direção, temos a fala de João:
Lá em casa não tem muita confusão não. Só quando painho bebe. Mas ele não bebe todo dia não, porque ele trabalha [...]. Tem discussão dos meus pais, por causa da minha irmã que chega tarde em casa. Eu não converso muito em casa. Eu saio muito [...] pra andar de bicicleta. (João, 16 anos, informação verbal)
Para Carlos,
A convivência é boa dentro de casa. Mas sabe como é: pai é pai! Já padrasto é diferente. As vezes ele é “abusadinho”. A gente nunca se conforma de verdade de não ter o pai dentro de casa [...]. Agora eu sou bagunceiro dentro de casa viu! Brigo muito com minha irmã que é mais nova do que eu. Aí, minha mãe reclama comigo. Ah! as vezes, eu faço só de brincadeira. Meu padrasto bebe e as vezes ele é abusado [...] chega bagunçando a casa. Ele fica rindo. Geralmente, ele bebe no final de semana. Assim, ele tira o sábado ou o domingo pra beber. Lá em casa eu tenho mais abertura com minha mãe. (Carlos, 16 anos, informação verbal)
A clareza dos depoimentos acima manifestam as contradições gerais vivenciados no interior das famílias, configurando a chamada “família moderna ou contemporânea”. Essas contradições revelam elementos que afetam a dinâmica das famílias, causando algumas vezes, o rompimento das relações. O desemprego, os novos padrões de consumo, a violência, o alcoolismo entre outros, são muitos dos determinantes que contribuem para as novas configurações de famílias da atualidade.
As falas dos entrevistados apresentam famílias recompostas com a presença da figura do padrasto, a convivência difícil entre os membros, traduzidas em brigas cotidianas, desrespeito e dificuldades de relacionamento com a imposição de limites e aceitação das normas familiares. O alcoolismo que permeia e afeta diretamente as relações provocando o rompimento de liames nas relações internas e externas, promovendo o isolamento interno de alguns desses jovens e gerando momentos de “fuga” da moradia.
Lopes (1994, p.05) ao estudar a família na sociedade brasileira, destaca que:
O desemprego, a imposição de padrões comportamentais difundidos nas novas relações de consumo de massa, a proliferação das condições sociais que caracterizam o (des)envolvimento (de) vícios os mais variados, a violência, o alcoolismo, e outras tantas questões que se acumulam em torno às crises vividas pela sociedade, têm sido pesquisadas e interpretados como problemas que afetam as relações de parentesco caracterizadoras da imagem da família >...@
A figura materna recebeu atenção especial nos depoimentos dos entrevistados, ao revelarem um maior entendimento e cumplicidade entre ambos. O que confirma, ainda hoje, a prevalência da centralidade materna e a importância da mulher na educação e no cuidado dos filhos, sem diminuir a responsabilidade paterna.
As carências afetivas perpassam as relações familiares e são sentidas pelos adolescentes quando referem-se aos pais e irmãos:
No dizer de Rosa e Vilma:
É bom viver lá em casa. Porque é bom está com a mãe da pessoa. Lá em casa eu converso mais com minha mãe, sabe. Eu não falo muito com meu pai. Ele é muito calado [...] não fala muito com a gente, não. Ele não deixa eu fazer muita coisa não, sabe. Ele gosta mesmo é da filha mais nova. Só dar atenção mais a ela. Ele mesmo já disse, lá em casa, que gosta mesmo mais dela. Mas eu num ligo não! Ele é muito sério dentro de casa. Mas é o jeito dele, né!. Ele fica querendo que a gente vá pra igreja forçado [...] aí papai fica com raiva, passa bem uma semana sem falar dentro de casa. Por isso, que tem acontecido algumas discussões lá em casa. (Rosa, 16 anos, informação verbal)
Minha família tem vezes que é boa, tem vezes que é ruim. Tem muito desrespeito na minha família. Tem irmão rebelde que ‘esculhamba’ pai e mãe. Assim, do jeito que eu estou falando. Na minha família tem desse tipo de pessoa: rebelde. Eu convivo bem com meus pais. Eu converso mais com eles sobre a escola. (Vilma, 16 anos, informação verbal)
No depoimento de Antônio, observa-se que há relativo entendimento do contexto familiar no qual está inserido, conforme mostramos a seguir:
Meus pais agora se separaram de novo. Já se separaram uma ruma de vez por causa de ciúmes. Por causa de meu pai que arruma outras mulheres. Agora a minha mãe saiu de casa e foi trabalhar fora. Quando começava as brigas lá em casa, eu não me metia saia de casa. Já minha irmã ficava lá no meio da briga e se metia pra defender a minha mãe. Meu pai pega muito no meu pé, mais até que minha mãe. Eu converso mais com minha mãe, converso sobre namorada, sobre escola, sou mais apegado a minha mãe, converso mais com ela. Meu pai é mais calado. (Antônio, 16 anos, informação verbal)
Nas falas, explicita-se com transparência a separação conjugal, os episódios de violência doméstica, o sentimento de rejeição, a ausência de afetividade e de diálogo no interior de algumas famílias revelando a fragilização dos vínculos familiares.
O depoimento abaixo manifesta a importância da família e a presença marcante da figura materna, em momentos de dificuldade e crise interior vivenciado por Jorge, um dos entrevistado que conta parte da vivência com os jogos de azar. Evidencia também, o desrespeito à legislação nacional através da exploração de jogos de azar por meio de máquinas caça-níqueis, a história do inicio do vício e da recuperação do jovem, revelando o peso da crença religiosa, no entendimento e sentido da libertação do vício.
Eu converso abertamente com minha mãe e ela acredita na minha sinceridade. Lá em casa um ajuda o outro. Tem muita união. Quando um cai o outro chega pra levantar. Eu mesmo me envolvi no vicio de caça níquel. Foi uma fase difícil. Meu pai entregou o comercio dele nas minhas mãos e todo o dinheiro que eu pegava, eu perdia tudo no caça níquel. Teve uma vez, o ultimo dinheiro que eu peguei das senhas do evento evangélico que eu tava ajudando a organizar... eu fui lá e joguei todo. Aí, eu conseguir recuperar todo dinheiro do evento que eu tinha perdido jogando antes. Foi Deus, que me deu esse livramento. Mas antes disso, eu já tinha tentado me matar pra vê se me livrava dessa angustia, desse vicio. Um dia fui na igreja Deus é Amor [...] aí o irmão leu o Salmo 46 [...] Deus usou um irmão que falou lá, que tinha um irmão que tava com problemas sérios e que já tinha tentado o suicídio 02 vezes e aquilo era comigo. Ninguém sabia daquilo...só eu. Eu cheguei até me despedir dos meus amigos da cidade. Só revelei as tentativas do suicídio depois da minha libertação. Quando eu cheguei em casa eu revelei pra minha mãe. Eu comecei jogando vídeo game e aí, chegou uma máquina de caça níquel lá. Aí, eu ganhei e todo mundo ficou me chamando de fera do caça níquel...aí, todo dinheiro que eu pegava eu gastava na maquina. Dinheiro do comercio do meu pai, dinheiro dos eventos que eu ajudava a organizar. Não conseguia parar de jogar. Foi uma fase muito difícil. Mas, graças a Deus eu consegui me libertar. (Jorge, 17 anos, informação verbal)
Esse depoimento expressa o que muitos estudos das ciências sociais e aplicadas, em especial o Serviço Social destacam: a família como núcleo central de proteção e socialização primária de todo ser humano e que diante das vicissitudes da vida e da crescente desigualdade social necessita de proteção social. Daí, o novo enfoque da Política Nacional de Assistência Social de 2004, na matricialidade familiar.
O exemplo destacado pelo depoimento traduz o quanto as famílias estão dialeticamente condicionadas as transformações sócio-econômicas da sociedade, com a introdução das novas tecnologias, as mudanças nos hábitos e à introdução de novos costumes contemporâneos.
O vicio no caça níquel, no caso em tela, torna-se um exemplo vivo do quanto é nefasto para a vida de jovens cidadãos brasileiros; levando a compulsão e conseqüentemente a interferência direta na vida diária, sobretudo ao demonstrar a perda do autocontrole do jovem sobre suas próprias ações, perdendo ou mesmo furtando dinheiro da família para jogar.
Isso demonstra o poder devastador da compulsão na vida de uma mente em desenvolvimento; a fragilidade de nossas leis e principalmente a falha na fiscalização de ambientes propícios a esse tipo de jogos de azar.
Nesse caso, o jogo se tornou uma atividade altamente lucrativa para seus proprietários, mas que tem como os únicos prejudicados os dependentes desse vício e seus familiares.
As máquinas caça-níqueis até recentemente, antes do combate intenso pelo Ministério Público, eram freqüentemente utilizadas por pessoas de todas as condições financeiras e idades variadas, inclusive crianças que faziam uso como atividade de lazer.
Foi somente no século XX quando a ciência constatou o poder devastador do jogo tido como patológico, que esse deixou de ser entendido como um fracasso pessoal do individuo para ser considerado um problema de Saúde Pública, “sendo incluído em 1980, como categoria de distúrbio impulsivo pelos Critérios Diagnósticos do DSM-III”. (Disponível em: <http://www.parana-online.com.br/canal/direito-e-justica/news/84595/>.
Acesso:19 ago. 2008 )
Sobre a tentativa de suicídio, sabemos que essa é prática comum entre jogadores compulsivos, se constituindo apenas em um dos efeitos nocivos na vida pessoal dessas vítimas do jogo. Por tudo isso, pelo poder devastador que esse tipo de compulsão pode provocar no ser humano e pela severa dificuldade de tratamento dos jogadores compulsivos é imprescindível maior rigor na fiscalização desse tipo de jogo de azar.