Guy Standing and Ian Orton
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O legado que Julieta Gadelha deixa para o município de Sousa não está presente apenas na escrita, através das obras publicadas, Crônicas para mamãe ler e Antes que ninguém conte e nas crônicas da Revista Letras do Sertão. Ele ultrapassa os textos escritos e fica registrado nos símbolos do município, como o hino e a bandeira.
Em 1975, Julieta Gadelha escreve o hino da cidade de Sousa, cravando, mais uma vez, as marcas de sua prática educativa, uma vez que, o hino “hoje é cantando nas escolas e solenidades locais e obrigatório na abertura das sessões da câmara de vereadores” (BLOG DE EDILBERTO ABRANTES, 2009).
No hino de sua autoria, fez questão de destacar aspectos que fazem parte da trajetória histórica da cidade de Sousa, marcada pela “moralidade, romantismo, religiosidade e patriarcalismo” (SANTOS & BURITI, 2015, p. 1). As estrofes “do progresso nasceu a riqueza em plena evolução” e “De sorriso a cidade pólo” dizem respeito a uma cidade que despontou, entre outras do Sertão, na economia algodoeira, posteriormente, nas indústrias, fazendo com que tivesse evolução. Sendo intitulada, por isso, de “Cidade Sorriso”. São as indústrias, características do desenvolvimento econômico de Sousa até hoje, com destaque, atualmente, para os produtos laticínios da marca Ísis e dos sorvetes Mareni, distribuídos na Paraíba e em outros estados:
De repente uma gleba de terra amanheceu florindo Refletiu-se a beleza
e surgiu a Cidade sorrindo
Do progresso nasceu a riqueza em plena evolução Era Sousa florindo o Sertão.
Oh gentil colorida cidade
Nós te amamos em teu florescer Centenária de olhar sem idade Tua face é o alvorecer.
De sorriso a cidade pólo Foi um passe tua construção Uma fada regou o teu solo No albor da tua criação.
Nas estrofes do hino a cidade de Sousa aparece sempre com destaque a beleza, as flores, o colorido, o sorriso intensificando o amor demonstrado na escrita, o apego à Sousa, as pessoas de sua história, seus costumes, seus fundadores, como Bento Freire de Sousa:
Bento Freire olhando de cima da verde planície Contemplando a sua obra prima
Escutou a alegria dos gisos Que seu povo fazia brilhar. Na canção da Cidade Sorriso Para sua história exaltar. Oh gentil colorida cidade
Nós te amamos em teu florescer Centenária de olhar sem idade.
Como autora do hino, acreditamos que sua prática educativa se torna mais evidente, pois mesmo que nem todos os sousenses tenham tido acesso as leituras de suas obras, o hino é mais conhecido por ser tocado em locais públicos, inclusive nas escolas.
A letra do hino de Sousa deixa indícios sobre a sua história local, contada nas obras de Julieta Pordeus Gadelha. Por isso, acreditamos que conhecimento e estudo do mesmo nos ambientes educacionais, entre eles, o escolar, reforça a noção de valorização de um lugar, de pertencimento a um grupo identitário, a uma determinada cultura que não deve ser proporcionada somente a uma camada esclarecida da população, mas também, às classes populares no sentido de tornar mais forte a identidade social e a memória coletiva das pessoas, sobretudo, dos estudantes.
Ao adotar uma prática referenciada na história local, o professor contribui no fortalecimento de uma identidade social coletiva e, consequentemente, no sentido de pertencimento aos locais de vivências dos alunos, superando a dicotomia existente entre a produção e a transmissão dos conhecimentos [...] (SOUSA, 2015, p. 139).
Imagem LVI: Hino do município de Sousa - Paraíba. Fonte: Prefeitura Municipal de Sousa - PB.
Imagem LVII: Hino do município de Sousa com a escrita original de Julieta Pordeus Gadelha.
Em 1976, junto a outro sousense Marcílio Mariz, Julieta Gadelha projeta a bandeira do município de Sousa. Nela, mais uma vez, deixa estampados os traços marcantes do município, trazendo aspectos que remontam e recria a história, o passado tantas vezes falado em nas publicações.
Imagem LVIII: Bandeira do município de Sousa-Paraíba Fonte: Prefeitura Municipal de Sousa-PB
A bandeira tem as cores que representam a história do município de Sousa, desde a fundação por Bento Freire de Sousa. Segundo Raudilene Silveira, professora de Geografia do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, o verde representa as matas nativas; o vermelho, as lutas para desbravar essas terras sertanejas; o branco, a paz alcançada; o círculo, a hóstia do milagre eucarístico (já mencionado anteriormente); a espiral azul, os caminhos percorridos por Bento Freire para conseguir a doação das terras de D. Inácia Dias D‟Avila e o S central, homenageia o fundador, o qual deu nome à cidade - Sousa.
Estudamos a história de Sousa no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e nos lembramos da valorização que as professoras davam à bandeira daquele
município, sobretudo, pela construção ter sido pelas mãos de Julieta Pordeus Gadelha, que no passado, também fora estudante daquela instituição. Nesse sentido, o estudo dos símbolos do município, vivenciados “a partir da História local, potencializava o entendimento mais crítico da realidade pelos alunos, nos seus aspectos políticos, sociais e culturais” (SOUSA, 2015, p. 140).
Reiteramos que a prática educativa desta escritora se configura como um legado que vai sendo transmitido de geração a geração, pelos sousenses.
E como se não bastasse todas as marcas de sua prática educativa através das crônicas publicadas na Revista Letras do Sertão, dos livros e dos aspectos simbólicos do município de Sousa, como a bandeira e o hino, no ano de 2000 Julieta Pordeus Gadelha inaugura o Centro Cultural e Memorial de Sousa Tozinho Gadelha. Com este centro, a autora homenageia seu pai, Felinto da Costa Gadelha, além de fazer os visitantes viajarem no tempo ao apresentar relíquias de família e imagens do município de Sousa, no passado.
Imagem LIX: Centro Cultural e Memorial de Sousa Tozinho Gadelha Fonte: arquivo pessoal de Ana Paula Mendes Silva
Em conversa com familiares, fomos informadas que a própria Julieta Gadelha ficava no Centro Cultural para receber os visitantes.
O Centro Cultural tem um valor material e memorialístico para o município de Sousa, pois se trata de um mergulho na história através das imagens, móveis e objetos que configuram a cidade, numa outra época. Nesse sentido, “a autora lega à posteridade detalhes de vida e hábitos passados, numa exteriorização do seu pensar e do seu agir. Um verdadeiro tratado sociológico” (MORAIS, 2011, p. 240).
Imagem LX: oratório da família de Julieta Pordeus Gadelha. Fonte: acervo da escritora Julieta Pordeus Gadelha.
Imagem LXI: objetos que foram de seus pais, entre eles, o paletó e o chapeu. Fonte: acervo da escritora Julieta Pordeus Gadelha.
Imagem LXII: Fotos que trazem aspectos da trajetória histórica de Sousa expostas no Centro Cultural e Memorial Tozinho Gadelha.
Nas imagens acima, além de tantas outras que tivemos acesso durante as conversas com familiares de Julieta Gadelha, vislumbramos um passado em que as insígnias o representam. É o caso do oratório de família, uma parte da religiosidade num canto da casa que as famílias utilizavam para fazer orações. Além disso, a segunda imagem traz uma série de fotos de igrejas, padres e pessoas que compõem a construção de Sousa.
Contudo, as imagens trazem uma forte religiosidade presente em Julieta Pordeus Gadelha, característica que já foi demonstrada através de publicações de sua autoria. Mas acima de tudo, contam uma história, cheia de significados e linearidade, pois, a partir do momento em que conhecemos sobre a trajetória sousense, compreendemos o papel de cada um dos personagens apresentados no mural do memorial fundado por Julieta Gadelha.
Talvez sua intenção, com a fundação do memorial, fosse de fazer com que esta história/trajetória não se perdesse ou que não ficasse somente nos papeis, já que nem todos têm acesso aos livros, mas que se expandisse para o concreto, o palpável, através dos móveis, dos objetos de decoração, das relíquias de família, das imagens e mensagens imbricadas nas fotos antigas...
Com o Centro Cultural e Memorial de Sousa Tozinho Gadelha, Julieta Gadelha demonstra, mais uma vez, sua valorização ao passado, a memória de tudo o que foi construído, pois, ao expor as peças e imagens no museu, reforça a escrita sobre o legado histórico sousense. Com o memorial, Julieta Gadelha divide o que sabe estabelecendo.
No ano da fundação do Centro Cultural, a vereadora Maria do Socorro Pinto Gadelha toma a iniciativa de registrar, na Câmara municipal de Sousa, os votos de parabéns a escritora Julieta Pordeus Gadelha em face da instalação do Centro Cultural Tozinho Gadelha caracterizando - o, nas suas palavras, de “constituinte de canal entre o pretérito e o hoje, extraindo elementos de nossas raízes, até então adormecidos, por demais necessários à formação de um amanhã compromissado com o resgate de nossas memórias.” Conforme mostra o documento abaixo:
Imagem LXIII: Documento da Câmara Legislativa de Sousa em que Julieta Gadelha é parabenizada pela criação do Centro Cultural e Memorial Tozinho Gadelha
Fonte: acervo da escritora Julieta Pordeus Gadelha
A trajetória percorrida pela escritora sousense Julieta Pordeus Gadelha nos dá base de sustentação para afirmar a relevância do nosso trabalho de tese, sobretudo, por mostrar a sociedade sousense e paraibana quem é Julieta
Pordeus Gadelha, nosso objeto de estudo. Tentamos, de maneira científica e acadêmica traçar o seu perfil de mulher e a relevância de sua escrita, bem como, dos símbolos do município de Sousa, a bandeira e o hino caracterizados por nós, como uma prática educativa, já que deixa um legado cultural e educacional para Sousa.
Salientamos o ineditismo deste trabalho em virtude da não existência, antes deste, de outro que escrevesse sobre Julieta Pordeus Gadelha através de suas memórias, suas reminiscências extraindo a forma como pensava, como escrevia, como vivenciava, o cotidiano desde a infância. Talvez por falta de oportunidade, outras pessoas não tenham escrito sobre ela. Segundo sua irmã, Julieta não gostava de ser homenageada, embora tenha sido mencionada e elogiada em jornais e revistas, conforme mostramos ao longo deste trabalho.
Não podemos deixar de destacar que em agosto de 2016, o evento Literarte - Mostra de Literatura do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, homenageou a escritora Julieta Pordeus Gadelha. O evento, que está em sua terceira edição, trabalha com as obras da Literatura Brasileira e de outros países fazendo com que os estudantes do Ensino Médio as representem através de peças de teatro.
Em nota informativa sobre o Literarte, o site do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora diz que o evento:
Envolve todo o contexto artístico despertando a criatividade e a curiosidades dos alunos sobre literatura, e todas as expressões artísticas como dança, teatro, pintura e tudo mais que fluir diante da criatividade dos participantes. (Disponível em: http://cnsaweb.com.br/event/literarte/)
O fato da edição do Literarte 2016 homenagear Julieta Pordeus Gadelha foi muito importante, pois, levar aos jovens o conhecimento sobre esta escritora e todo o legado cultural deixado por ela para a história do município de Sousa é, também, uma prática educativa. Além disso, sabemos o quanto a História reservou o esquecimento às mulheres, fazendo com que muitas delas, nem sejam lembradas mesmo tendo várias atitudes que marcaram o passado e a composição de um lugar...
Imagem LXIV: Cartaz do Literarte 2016
Fonte: site do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora
É importante deixar para os sousenses a prática educativa desta mulher que, certamente, ficará entre os nomes dos escritores daquele município, para que não seja lembrada somente pelo hino que escreveu ou pela bandeira que projetou, mas pela escrita dos aspectos históricos e memorialísticos sobre a construção e o passado sousenses, além do apego, tão visível, àquele lugar.
Os livros, os artigos em jornais, a criação do hino e da bandeira, além do memorial são elementos que compõem a prática educativa, deixada por Julieta Pordeus Gadelha, que partiu em 2016. Em 07 (sete) de setembro, quando concluíamos este trabalho de tese, fomos surpreendidas com a notícia de seu falecimento.
Imagem LXV: Corpo de Julieta Pordeus Gadelha sendo conduzido ao cemitério São João Batista após a missa na Matriz de Nossa Senhora dos Remédios em Sousa – PB.
Fonte: Jornal on line Diário do Sertão.
Faleceu nesta quarta-feira (07) na cidade de Sousa, a escritora Julieta Pordeus Gadelha. A missa de corpo presente foi realizada na manhã desta quinta-feira (08) na Igreja Matriz e o sepultamento aconteceu no cemitério São João Batista.
Julieta compôs o hino do município de Sousa, e também escreveu o livro resgate “Antes que Ninguém Conte”, que relata a história da cidade sorriso da Paraíba. (ABRANTES, JORNAL DIÁRIO DO SERTÃO).
Talvez por ironia ou coincidência do destino, ela veio falecer, justamente, no dia 07 de setembro, dia em que comemoramos a independência do Brasil. Como escritora, que contribuiu para a história local sousense e paraibana, partiu também, num dia histórico deixando para Sousa, todo um legado cultural que tentamos elencar neste trabalho de tese, como uma prática educativa.