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No livro A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, Hall (2006) desdobra uma série de argumentos acerca da identidade, os quais foram instigados principalmente devido a uma percepção entre os teóricos da época (o livro foi lançado pela primeira vez em 1992) de que as identidades modernas estavam entrando em ruínas, dando lugar a novas e variadas identidades que os sujeitos passavam a assumir simultaneamente, tornando-se indivíduos fragmentados, sem uma identidade única que pudesse ser fixada ou ancorada de forma permanente.

A linha de raciocínio principal que permeava os pensamentos desses estudiosos era a de que na segunda metade do século XX, as sociedades modernas haviam experimentado várias transformações nas estruturas sociais sobre as quais estavam construídas. Essas mudanças acabaram por fragmentar “as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, forneciam sólidas localizações como indivíduos sociais” (HALL, 2006, p. 9). Tais alterações atingiram o próprio modo como as pessoas se enxergam, de maneira que não se percebem mais como indivíduos unificados e coerentes, o que gerou um deslocamento do sujeito. “Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma ‘crise de identidade’” (HALL, 2006, p. 9).

Foi ao entrar em crise que a identidade se tornou um assunto mais questionado dentro da academia. Hall (2006) discute essa “crise de identidade” ao fazer uma reconstrução teórica de três diferentes tipos de concepções acerca da identidade, a saber, o sujeito do Iluminismo, o sujeito sociológico e o sujeito pós-moderno; e, além

disso, ao mostrar qual é a transformação que houve na passagem para o sujeito pós- moderno. (HALL, 2006). Vamos agora ver essas ideias do autor supracitado.

Antes da modernidade, as explicações dadas à constituição do ser-humano eram baseadas em afirmações de caráter religioso que concebiam o sujeito como fruto da vontade divina. O sujeito era e deveria continuar sendo o que seus iguais do passado sempre foram. Dessa forma, as sociedades pré-modernas eram tradicionais; nelas, a estabilidade e permanência eram valorizadas e serviam para definir o comportamento das pessoas. A modernidade rompe com essa ideia, ao conceber, entre o Humanismo e o Iluminismo, a ideia do indivíduo soberano. (HALL, 2006).

Nesse período, o indivíduo passou a ser visto como um ser singular, na medida em que não era nenhum outro, era único no mundo; assim como um ser indivisível em si mesmo, pois sua identidade era vista como integrada e unificada. Essa era uma ideia bastante individualista do Homem. Entendia-se que sua identidade era intrínseca ao ser, era a essência de seu ser, dada no momento do seu nascimento e sem possibilidade de alteração no decorrer do tempo. (HALL, 2006).

Essa concepção teve influência de vários acontecimentos, como pontua Hall (2006, p. 26):

A Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus; o Humanismo Renascentista, que colocou o Homem (sic) no centro do universo; as revoluções científicas, que conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza; e o Iluminismo, centrado na imagem do Homem racional, científico, libertado do dogma e da intolerância, e diante do qual se estendia a totalidade da história humana, para ser compreendida e dominada.

Descartes foi um dos pensadores que ajudou na concepção dessa ideia do sujeito individual do Iluminismo. Seu ponto de vista acerca do Homem era fundamentado em seu modo de ver as ciências exatas e da natureza. Ele modificou um pouco o pensamento filosófico acerca da mente e da matéria, ao falar, ao invés disso, de substância pensante e substância espacial. Para ele, para se estudar um fenômeno, dever-se-ia primeiramente reduzi-lo ao mínimo de partes principais que o compõem e determinam sua ocorrência, podendo-se chegar até aos elementos impossíveis de serem reduzidos. A partir dessa lógica, o Homem foi considerado por ele como o elemento central e essencial do pensamento e da mente; o ser centrado, racional, essencial do Iluminismo. (HALL, 2006).

Esses conhecimentos construídos acerca da identidade contribuíram para a ideia do indivíduo como ser soberano, um conceito que entendia o Homem como

senhor e condutor de seu próprio destino através da execução de práticas pensadas racionalmente, e como produto e consequência dessas mesmas práticas efetuadas por si mesmo. (HALL, 2006).

No século XVII, a maior complexidade das sociedades modernas, que sofriam um rápido processo de urbanização, industrialização e divisão do trabalho, fez com que elas “adquirissem uma forma mais coletiva e social” (HALL, 2006, p. 29), e o sujeito passasse a ser pensado não apenas como um centro que cria sua própria história e sofre as consequências dela, mas na sua interação com o todo, com o exterior a ele. (HALL, 2006).

Esse novo pensamento acerca do indivíduo teve forte influência dos novos estudos sociológicos, inclusive de Marx, que versavam sobre a estrutura social e a formação de classes, fenômenos que não condiziam com a ideia de um Homem centrado, mas sim com uma ideia de coletividade. A partir disso, “emergiu, então, uma concepção mais social do sujeito [o sujeito sociológico]. O indivíduo passou a ser visto como mais localizado e ‘definido’ no interior dessas grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna” (HALL, 2006, p. 30).

As novas ciências sociais concebiam, assim, o sujeito como ser social, cujas ações eram um reflexo das estruturas sociais que fundamentam o comportamento de forma generalizada. E seu comportamento, por outro lado, era visto como sustentáculo dessa estrutura. Os processos de internalização da estrutura e externalização dela em práticas sociais são conceitos-chave sobre isso, e a reciprocidade entre ambas era vista como a garantidora da estabilidade das estruturas sociais. (HALL, 2006).

De acordo com Hall (2006), os teóricos que enxergam um movimento de fragmentação do sujeito na pós-modernidade dizem que a concepção acerca do sujeito moderno sofreu uma série de deslocamentos. O primeiro deslocamento refere- se à mudança no entendimento que a filosofia moderna tinha de que cada homem possuiria uma essência que definiria quem ele é na realidade. Marx rompe com esse pensamento, mostrando que os sujeitos são históricos, e só fazem história a partir das condições que lhe são dadas no mundo material, o qual é influenciado pelas pessoas que viveram antes deles. (HALL, 2006).

O segundo deslocamento foi conseguido a partir dos estudos e pensamentos de Freud e Laclan. Freud via que a constituição e construção da identidade se dava de forma inconsciente, onde a lógica de funcionamento difere da Razão do Homem

soberano do Iluminismo. Laclan, por sua vez, mostrou que a criança demora para se ver como um sujeito inteiro e unificado, isso não é dado no nascimento, mas é construído inconscientemente através da chamada "fase do espelho”, por meio da qual a criança se vê como um sujeito inteiro ao olhar os outros ou se olhar no espelho. É nessa fase do espelho que a criança vai iniciar a sua relação com os diversos sistemas representacionais da sociedade. Sua identidade, assim, é elaborada de forma inconsciente e no decorrer do tempo, não é dada completa e unificadamente, mas é construída num processo perene de identificações. O sentimento que podemos ter de que a nossa identidade é unificada, coerente e imutável é nada mais que um desejo pela prazerosa sensação de sentir que somos plenos. (HALL, 2006).

O terceiro descentramento ocorreu por meio das contribuições de Saussure que, como visto anteriormente, concebeu a linguagem não como um meio de representar coisas já existentes na realidade, mas como uma forma de conceder uma existência com sentido às coisas, ao inseri-las em relações de diferença entre si. Dessa forma, ele mostrou que o significado das coisas não é fixo, inalterável e nem definido pelo falante, mas arbitrário e socialmente construído. (HALL, 2006).

O quarto descentramento se deu através do pensamento de Foucault, que discute sobre o poder disciplinar, no qual a vigilância é a forma usada para regulação “da espécie humana ou de população inteiras e [...] do indivíduo e do corpo” (HALL, 2006, 42). Isso demonstra uma das contradições da modernidade, que é o fato de ela individualizar e vigiar o sujeito cada vez mais à medida que se torna mais organizada coletivamente. (HALL, 2006).

O quinto descentramento, por fim, é causado pelo feminismo, o qual politizou a subjetividade, desafiou divisões binárias como público e privado, e contestou a ideia de uma essência generificadora ligada ao sexo, mostrando que o gênero é uma construção cultural, assim como as identidades sexuais. (HALL, 2006).

Ao mostrar esses descentramentos que colocaram as concepções modernas de identidade em colapso, Hall (2006) diz que a identidade deve ser vista em termos culturais, como uma identidade cultural, pois a cultura é central em todos os fenômenos sociais, e participa inclusive da constituição da subjetividade e das identidades dos sujeitos. Antes, a subjetividade estava ligada apenas ao campo da psicologia, entretanto, com as novas concepções acerca da linguagem, é possível pensar um caráter social da esfera psíquica, na medida em que nossas ideias e conceitos mentais acerca das coisas e a maneira como enxergamos a nós mesmos e

o mundo passam pela cultura e pelas condições históricas em que vivemos. (HALL, 1997).

Por essa perspectiva, afirma-se que a identidade, nosso eu, não brota de dentro de nós de forma espontânea, como se houvesse sido embutido nos nossos genes ou definido pela vontade divina. Porém, como afirma Hall (1997, p. 26-27):

A identidade emerge [...] do diálogo entre os conceitos e definições que são representados para nós pelos discursos de uma cultura e pelo nosso desejo (consciente ou inconsciente) de responder aos apelos feitos por estes significados, de sermos interpelados por eles, de assumirmos as posições de sujeitos construídas para nós por alguns discursos sobre inglesidade [ou qualquer outra identidade cultural] - em resumo, de investirmos nossas emoções em uma ou outra daquelas imagens, para nos identificarmos. O que denominamos “nossas identidades” poderia provavelmente ser melhor conceituado como as sedimentações através do tempo daquelas diferentes identificações ou posições que adotamos e procuramos “viver”, como se viessem de dentro, mas que, sem dúvida, são ocasionadas por um conjunto especial de circunstâncias, sentimentos, histórias, experiências únicas e particularmente nossas, como sujeitos individuais. Nossas identidades são, em resumo, formadas culturalmente.

A partir disso, podemos perceber que a construção das identidades das pessoas ocorre na representação. Na sociedade, existem diversas representações que criam identidades com sentido. Nós nos posicionamos dentro de determinadas identidades, a partir do momento em que nos identificamos com elas e as vivenciamos na nossa própria vida cotidiana, por meio das representações que fazemos de nós mesmos diante do olhar dos outros e do nosso próprio. (HALL, 1997).

Hall (1997, 2016) afirma que esse ponto de vista acerca da representação e da identidade tem influência, dentre muitíssimas outras disciplinas, do interacionismo simbólico, que tem Goffman (1922–1982) como um dos principais expoentes. Desse modo, acreditamos ser possível fazer uma ligação entre a teoria da identidade na representação de Hall (1997, 2016) e a teoria da representação do eu na vida cotidiana de Goffman (1985), pois ambos tratam a identidade como uma construção cultural que se dá na representação.

Goffman (1985) propõe a elaboração do eu no cotidiano como uma representação performática, na qual o indivíduo é como um ator, constantemente representando papeis diante de uma plateia que o observa, deixando-se ser conhecido pelos demais e se conhecendo a si mesmo através da representação. Goffman (1985) aborda a realidade a partir de uma metáfora por meio da qual faz uma relação entre as coisas da vida cotidiana com diversos elementos do teatro, como palco, atores, máscaras e plateia.

Para o autor, a plateia está sempre ansiosa por saber quem é o ator, e este precisa agir de modo a dar a entender quem ele é a esse público, conscientemente ou não. Por um lado, a plateia vê o ator a partir de inferências acerca do que ele transmite e do que ele emite; enquanto o ator se põe sob o olhar dos outros sempre com uma intenção, que em geral está ligada ao “interesse dele de regular a conduta dos outros, principalmente a maneira como o tratam” (GOFFMAN, 1985, p. 13-14). O sujeito tenta se expressar da maneira que sabe que vai causar o efeito desejado na plateia, fazendo com que ela aja como planejado. (GOFFMAN, 1985).

Por saber que o sujeito faz as coisas com determinada intenção, a plateia divide os atos do ator entre aqueles que ele manipula facilmente, ou seja, sua fala verbalizada, o que ele transmite; e aqueles que ele não governa com facilidade, que seriam as expressões que ele emite. Assim, os outros “procurarão avaliar os aspectos mais controláveis do comportamento por meio dos menos controláveis” (GOFFMAN, 1985, p. 15-16), e partir disso tirar as conclusões de quem o ator é.

Esses elementos menos fáceis de controlar constituem a fachada, que “é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante a representação” (GOFFMAN, 1985, p. 29). A fachada é dividida entre cenário e fachada pessoal. O cenário é constituído por todos os elementos presentes no ambiente em que o ator está e pelo próprio ambiente em si, chamado de palco. Determinadas atuações necessitam de um cenário específico para serem realizadas e comumente este é imóvel. Pensemos, por exemplo, numa sala de aula com todos os seus móveis e estrutura, esse pode ser o cenário ideal para um momento de aula na qual um ator pode se posicionar como professor, por exemplo. A fachada pessoal, por outro lado, é composta por todos os demais itens que não sejam cênicos, e que estejam mais estreitamente ligados ao ator.

Entre as partes da fachada pessoal, podemos incluir os distintivos da função da categoria, vestuário, sexo, idade e características raciais, altura e aparência, atitude, padrões de linguagem, expressões faciais, gestos corporais e coisas semelhantes. Alguns desses veículos de transmissão de sinais, como as características raciais, são relativamente fixos e, dentro de um certo espaço de tempo, não variam para o indivíduo de uma situação para outra. Em contraposição, alguns desses veículos de sinais são relativamente móveis ou transitórios, como a expressão facial, e podem variar, numa representação, de um momento a outro. (GOFFMAN, 1985, p. 31).

Para Goffman (1985), a interação entre ator e plateia tem uma grande importância na definição das situações. Mesmo embora o ator possa implementar a definição de uma situação de forma inicial, o público não permanece de modo passivo,

mas contribui substancialmente para determinação da situação, na medida em que dá uma resposta às atividades que o ator realiza diante dele e executa ações que o coloca em relação a esse sujeito.

Desse modo, a definição da situação se dá através de um consenso operacional, onde “os participantes, em conjunto, contribuem para uma única definição da situação, que implica não tanto num acordo real sobre o que existe, mas, antes, num acordo real sobre qual pessoa, referentes a quais assuntos, serão acatadas” (GOFFMAN, 1985, p. 18).

Quando uma pessoa projeta uma definição da situação, ela deseja ser reconhecida como sendo um determinado tipo de pessoa, e exige ser tratada como supõe que as pessoas do seu tipo deveriam ser tratadas. Toda vez que algum fator ameaça a definição inicialmente projetada da situação, são praticados alguns atos pelo ator para se defender das ameaças que podem prejudicar sua imagem diante dos outros; ou então, os outros podem tentar salvar a face dele, ao empreender práticas protetoras que servem “para salvaguardar a impressão acalentada por um indivíduo durante o período em que está diante de outros” (GOFFMAN, 1985, p. 22).

Os conceitos apresentados nessa subseção foram importantes para que durante a fase da análise de dados da nossa pesquisa estivéssemos preocupados com o modo como a identidade cultural negra das pessoas do movimento da negritude é construída, não a tomando como algo inerente ou essencial aos negros e negras, mesmo embora ela seja assim pensada no senso comum ou até mesmo por alguns pesquisadores. A partir do que foi discutido, temos base para conjcturar que uma vez que os sentidos são construídos por meio de elementos perceptíveis aos nossos sentidos, podemos chegar aos sentidos das práticas de representação do eu ao empreendermos uma análise da materialidade pela qual elas são construídas; materialidade essa constituída também pelos itens de vestuário usados pelas pessoas negras, mas não restrito a eles.

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