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Por muito tempo o fenômeno da moda foi deixado de lado na academia. Comparado com temas como política e economia, a moda parecia fútil, não aparentava ser digna o suficiente para tomar a mente e o tempo dos grandes pensadores sociais, homens (liter.) que preferiam atentar para outros objetos de estudo que na visão deles eram bem mais importantes do que a frivolidade e caprichos da moda. Apesar dos vários trabalhos acerca de aspectos específicos da moda, como estéticas em voga ao longo do tempo, modos de produção do vestuário, dentre outros, faltava ainda uma visão mais global do fenômeno da moda que chegasse à essência de sua ocorrência. (LIPOVETSKY, 2009).

A primeira tentativa de compreender o sentido da moda num aspecto mais amplo e estrutural foi feita por George Simmel (1957), ao lançar, em fins dos anos 1950, um artigo intitulado Fashion. Nele, Simmel (1957) elucida a constituição de inovações constantes no vestuário através da relação entre classes sociais e o consumo por emulação. Nesse artigo, ele dá o nome de trickle-down ao processo de adoção de moda onde uma novidade surge numa classe superior e se dissemina até classes sociais mais baixas. Nessa abordagem, haveria duas forças conflituosas que iriam guiar as transformações constantes na moda. Inicialmente, as classes mais baixas, numa tentativa de ascensão social, imitariam a aparência das classes mais altas, adotando os objetos e comportamentos que são usados e praticados por elas como uma forma de demarcar seu prestígio e status social. O conflito ocorre na medida em que as classes mais altas observam as práticas de consumo das classes mais baixas, procurando saber o que está sendo imitado, para assim arranjar novos hábitos de consumo que as diferenciem dos grupos subordinados. Dessa forma, seria gerado um ciclo de mudanças devido ao desejo constante por novas modas que expressassem a distinção de seus adotantes.

Diante disso, Simmel (1957) diz que a mudança na moda seria definida pela simultaneidade de uma ação baseada na imitação, a qual seria exercida pelos grupos inferiores; e de outra força de diferenciação e segregação, promovida pelos grupos superiores que tentam preservar sua posição na estrutura de classes.

Desde então, as explicações com relação à moda ficaram predominantemente relacionadas ao desejo por diferenciação social entre as classes. Entretanto, apesar de ser relevante na explicação de um processo específico de disseminação de moda, o trickle-down não consegue abarcar o fenômeno da moda em sua essência. A distinção social é uma função social da moda e não sua origem ou determinação. (LIPOVETSKY, 2009).

Uma nova perspectiva acerca do fenômeno moda foi apresentada por Lipovetsky (1989, 2009) no livro O Império do Efêmero, publicado pela primeira vez em 1987. Nessa obra, ele situa temporal e espacialmente o nascimento da moda como sistema de mudanças rápidas, generalizadas e ditadas pelo amor à fantasia, às novidades e à individualidade.

Até o fim da Idade Média, o fenômeno moda não ocorreu, pois, até então, as sociedades eram tradicionais. Nelas, o costume direcionava o comportamento das pessoas. Isso não quer dizer que as sociedades tradicionais estavam imunes às mudanças, porém qualquer mínima inovação deveria “parecer compatível ou idêntica ao costume precedente” (HOBSBAWN, 1984, p. 11), e quando ocorria logo se cristalizava e se tornava permanente (LIPOVETSKY, 2009). Nas sociedades tradicionais, a função do costume “é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção do precedente, continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história” (HOBSBAWN, 1984, p. 11).

Mesmo embora sociedades tradicionais se importassem com questões estéticas, criando adornos corporais e muitos outros objetos artísticos deslumbrantes, a valorização da permanência, do passado ancestral, a crença de que a vontade divina definia o comportamento dos homens, e não que esses poderiam dirigir suas vidas e o curso da história, impediam que houvesse um interesse pelas transformações na aparência e na cultura. Dessa maneira, o surgimento da moda não fazia sentido, “por ser essa inseparável de uma relativa desqualificação do passado: nada de moda sem prestígio e superioridade concedidos aos modelos novos e, ao mesmo tempo, sem uma certa depreciação da ordem antiga” (LIPOVETSKY, 1989, p. 27).

A moda só vai surgir em fins do século XIV, quando a Idade Média vai chegando ao fim (LIPOVETSKY, 1989). É no Ocidente moderno que ela vai aparecer, instalar- se e passar a estruturar mudanças ligeiras no mundo conceitual e material, isso porque o culto ao efêmero e ao novo é um dos atributos da modernidade, como mostra Anthony Giddens (2002, p. 22):

Em vários aspectos fundamentais, as instituições modernas apresentam certas descontinuidades com as culturas e modos de vida pré-modernos. Uma das características mais óbvias que separa a era moderna de qualquer período anterior é seu extremo dinamismo. O mundo moderno é um “mundo em disparada”: não só o ritmo da mudança social é muito mais rápido que em qualquer sistema anterior; também a amplitude e a profundidade com que ela afeta práticas sociais e modos de comportamento preexistentes são maiores.

No sistema de moda, entretanto, as mudanças se configuram em um dever e querer fazer que participam da construção de discursos totalizantes que regulam os sujeitos de um meio social específico, visando servir de motivação para as suas atitudes cotidianas. Dessa forma, a moda acaba impondo e atiçando a necessidade de adoção geral, por uma sociedade, das inovações criadas. (CERTEAU, 1998; LIPOVETSKY, 1989, 2009).

A possibilidade de disseminação da moda por uma sociedade quebrou com a exclusividade da manifestação do fenômeno apenas entre os aristocratas. Foi incialmente entre eles que o amor pelo efêmero e pela fantasia estética teve início. Baseados numa ideia de direito divino que lhes garantia a nobreza, eles tentavam impedir que os outros tivessem o mesmo patamar de vida que eles, pois sua condição social reivindicava o privilégio, que é baseado na desigualdade. Porém, a ascensão da burguesia que acumulava fortunas cada vez maiores, devido às grandes navegações, desenvolvimento do comércio e criação de bancos, fez com que os burgueses se igualassem e mesmo superassem a aristocracia em relação ao poder pecuniário. Dessa forma, os burgueses começaram a adotar o estilo de vida dos nobres, pois esse era visto como um padrão de vida que transmitia alto status e prestígio social. (LIPOVETSKY, 1989, 2009).

“A ascensão econômica da burguesia, por um lado, e o crescimento do Estado moderno, por outro, juntos, puderam dar uma realidade e uma legitimidade aos desejos de promoção social das classes sujeitas ao trabalho” (LIPOVETSKY, 1989, p. 42). Portanto, a disseminação e a generalização das novidades manifestam o caráter de igualação da moda, que na época de desmoronamento das barreiras instransponíveis entre as classes, que existiam no sistema feudal, espraiou o desejo e o sentimento de direito de usufruir das novidades e do prazer estético (BARNARD, 2003; LIPOVETSKY, 1989, 2009).

Entretanto, o mimetismo que a moda permite ser efetuado não se dá como uma cópia por todos de algo institucionalizado como novo, mas oferece aos indivíduos um espaço de ação que lhes garante possibilidades de liberdade concernentes à escolha

e ao modo de usar os artefatos de vestuário. A adoção de moda se dá, então, de maneira seletiva: certas coisas são aceitas, outras rejeitadas; determinados elementos são substituídos, modificados, ganham novas funções ou significados, enquanto outros permanecem inalterados. Isso acontece, pois o individualismo também está na base do fenômeno da moda. Como afirma Lipovetsky (1989, p. 43): “a moda como sistema é inseparável do ‘individualismo’ - em outras palavras, de uma relativa liberdade deixada às pessoas para rejeitar, modular ou aceitar as novidades do dia -, do princípio que permite aderir ou não aos cânones do momento”.

O individualismo, de filiação iluminista, entendia o sujeito como um ser singular, valorizando, assim, a identidade pessoal e a autonomia na direção da própria vida (HALL, 2006; LIPOVETSKY, 1989, 2009). Isso constitui um dos fundamentos da mudança na moda, na medida em que as pessoas não querem apenas estar juntas e se sentir parte de um todo, pertencentes a uma sociedade, mas também se sentir únicas e se diferenciar. Essa nova percepção de si mesmo como alguém único é o que gera a necessidade de novas formas de se representar que comuniquem a individualidade dos sujeitos. Dessa forma, a moda que se generaliza é também a moda que apresenta diversos “signos da diferença pessoal” (LIPOVETSKY, 2009, p. 67) que se manifestam nas disparidades presentes no modo como uma novidade é adotada por uma ou outra pessoa.

Outros fatores contribuíram para a ocorrência do fenômeno moda além da valorização do novo e da autonomia, fatores ligados à sedução e ao prazer que muitas vezes se materializam em um espetáculo estético que se imprime no vestuário, mas que se alastra até outras esferas da vida cotidiana.

O gosto pelos prazeres mundanos e alegrias passageiras presente na cultura cavalheiresca e na sociedade de corte vai legitimar o desejo pelas frivolidades da moda. Como afirma Lipovetsky (1989, p. 62):

Essa moral do prazer aristocrático foi incontestavelmente um gatilho essencial no aparecimento do homo frivolus: a moda é uma prática dos prazeres, é prazer de agradar, de surpreender, de ofuscar. Prazer ocasionado pelo estímulo da mudança, a metamorfose das formas, de si e dos outros. A moda não é apenas marca de distinção social, é também atrativo, prazer dos olhos e da diferença.

Essa busca pelo prazer “como se não houvesse amanhã” foi causada em parte devido a uma nova sensibilidade que foi se instalando acerca da brevidade da vida. A percepção da vida na terra como passageira levou a essa necessidade de aproveitar toda a felicidade terrena. Essa busca pelo prazer vai se manifestar também no

teatralismo faustoso e deslumbrante do estilo das coisas, devido à passagem dos aristocratas pelo processo de curialização, indo viver na corte, onde as novas relações sociais acabavam por constranger o comportamento dos nobres e exigir deles uma grande preocupação com as regras de etiqueta, com os modos de falar, se portar e vestir, enfim, com cada detalhe das coisas que faziam, o que também aguçava o olhar deles para as atitudes dos outros. Os objetos, a arquitetura, os gestos, as poesias, e, claro, o vestuário, tudo era minuciosamente elaborado para ser um espetáculo que causasse prazer estético. (LIPOVETSKY, 1989, 2009).

O próprio amor, criação cortesã, é moldado nesse sistema. Inicialmente, o amor da mulher era conquistado através de proezas guerreiras realizadas pelos homens. Porém, quando a nobreza cavalheiresca passa a ser nobreza de corte, fator primordial para o processo civilizador que ocorreu na Europa, o duelo corporal que antes era bastante comum na nobreza cavalheiresca dá lugar ao duelo verbal, devido à pacificação das nações, ao monopólio da violência pelo Estado e, também, à internalização das coerções que desembocam num autocontrole consciente (ELIAS, 2001). A partir disso, a sedução da amada passa a se dar através de poemas e cantorias, por meio dos quais sua beleza e perfeição são louvadas e admiradas, e nos quais são deixadas de lado as palavras torpes e de impulso estritamente sexual, e é exaltado o sentimento. Os versos e estrofes deveriam ser sofisticados e refinados até atingir uma perfeição que deslumbrasse a moça e garantisse a reciprocidade de seu amor (LIPOVETSKY, 1989, 2009).

A moda é uma continuação desse amor cortês, pois tem como uma de suas bases essa sedução, o espetáculo amaneirado do prazer que faz atrair. Entretanto, não é só o amor dos cortesãos que tem crédito nessas novas relações de sedução. Para Lipovetsky (1989, 2009), já no século XIII surgia, nas artes, um deleite na aparência sensível do mundo, onde o realismo medieval vai unindo os seres terrestres e as coisas que fazem parte de seu cotidiano às representações de seres sobrenaturais, numa busca crescente de representar com o máximo de fidelidade o mundo.

Esse senso do concreto, esse interesse pela experiência visual e pelas aparências na arte são de grande importância; traduzem a glorificação do mundo criado, a valorização das belezas do mundo humano e terrestre. É esse novo investimento mundano que se vai reencontrar na moda e que contribuirá para o seu estabelecimento. A moda, com efeito, representa a face frívola desse novo amor das aparências e do espetáculo do homem que toma corpo no Ocidente. Para além das diferenças evidentes e aliás altamente significativas, o culto da fantasia que se manifesta na moda e no “realismo”

que não deixará, num sentido, de comandar a evolução da arte fazem parte de um mesmo conjunto: nos dois casos produzem-se a mesma exaltação das coisas visíveis, a mesma paixão dos detalhes sensíveis, a mesma curiosidade pelos traços individuais, o mesmo deleite imediato das superfícies, o mesmo alvo do prazer estético. (LIPOVETSKY, 1989, p. 66-67).

Essa valorização da vida profana e terrena, por mais paradoxal que possa parecer, é resultado de um enquadramento da existência nos preceitos do cristianismo. A imagem de um deus que é divino e humano ao mesmo tempo; a fé na ideia de que toda a criação é direcionada para glória desse deus, é o meio pelo qual se conhece a existência dele; e, inclusive, a crença de que o homem, criação mais perfeita, é a imagem e semelhança do Deus soberano, são fatores que contribuem para a ocorrência do fenômeno moda, ao permitirem uma valorização do homem e dos deleites terrenos, apesar de apregoar a salvação e o céu de glória para os santos. (LIPOVETSKY, 1989, 2009).

A partir do exposto, podemos resumir que a moda é um fenômeno de mudanças rápidas1 das coisas materiais e imateriais que conduzem de forma generalizada o comportamento de determinado grupo social, realizando-se de forma individual, de modo a permitir diferenciações em relação ao padrão estabelecido, o qual é aceito devido à capacidade de atrair e deleitar as pessoas por ter uma estética prazerosa e aprazível.

Onde está o vestuário nessa definição? Não está! Apesar de serem usados muitas vezes como sinônimos, a moda e o vestuário são coisas diferentes. A moda, como visto, nasce no Ocidente, no fim da Idade Média, é um fenômeno moderno e sem antecedente na história. Enquanto o vestuário está presente há mais tempo, desde o dia em que o homem decidiu cobrir o corpo em seus rituais sagrados ou para se proteger do frio ou do calor. A moda não tem uma aparência, uma forma, uma textura. Ela não é um vestido, uma revista especializada, nem um desfile, nem pertence ao estilista. Ela é esse dispositivo composto de sedução, de culto pelo novo, de generalização e de pequenas diferenças individualizantes que, por não ter um corpo próprio, se manifesta em diversas instâncias da sociedade. (LIPOVETSKY, 1989, 2009).

O vestuário é apenas uma das esferas na qual a moda põe suas engrenagens para funcionar. Entretanto, é considerada por muitos a mais representativa de todas,

1 A velocidade das mudanças é percebida de maneira subjetiva, enquanto as mudanças

institucionalizadas no vestuário do século XIX ocorriam aproximadamente a cada seis meses, hoje, com o fast fashion, por exemplo, a roupa da moda pode ser transformada de um dia para o outro.

pois é nela que observamos a moda de maneira mais vívida, talvez por ele estar constantemente sobre o nosso corpo, quase se confundindo com nós mesmos; se colocando sempre sob o olhar dos outros e do nosso. Quiçá por isso, percebemos mais evidentemente no vestuário as mudanças, os maneirismos sedutores e os detalhes que fazem toda a diferença.

Para fins de conceituação, o vestuário pode ser definido como o conjunto de roupas e acessórios a serem usados sobre o corpo (BARNARD, 2003; NACIF, 2007; PEREIRA, 2015; ROCHA, 2010). Quando o vestuário faz parte das sociedades tradicionais, ele é chamado de indumentária; porém, o vestuário das pessoas ocidentais e modernas é nomeado vestuário de moda (LIPOVETSKY, 1989, 2009), moda-vestuário (ROCHA, 2010) ou simplesmente moda (BARNARD, 2003), dependendo do autor consultado. Entretanto, iremos nos referir a esse último tipo de vestuário como vestuário de moda ou moda-vestuário, para que fique clara a diferenciação entre o fenômeno da moda de maneira geral e espraiada em diversas esferas da vida e o vestuário que nasce dentro da lógica da moda.

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