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Chapitre 9 Expérience n°2 : Apprenabilité et interfaces multicouches

10.2 Composantes du cadre de conception

10.2.3 Théories des Interfaces Humain-Machine et d’apprentissage

Para entender o processo de luta pela terra e a conquista do castanhal Cabaceiras pelos integrantes do MST, também é necessário resgatar a caminhada desse movimento social no Pará, iniciada justamente a partir do sudeste do estado. Até sua chegada a essa conturbada região da Amazônia, o enfrentamento ao latifúndio e as ocupações de terra eram comandados principalmente pelos sindicatos de trabalhadores rurais, com destaque para a entidade localizada no município de Conceição do Araguaia. Como já explicado no primeiro capítulo, durante todo o regime militar e até o início da década de 1990, o protagonista da luta pela reforma agrária era o camponês chamado de posseiro, cuja organização política havia sido gestada nas Comunidades Eclesiais de Base articuladas pelos setores progressistas da Igreja Católica que fundariam a CPT, em 1975. A princípio, as ocupações feitas pelos posseiros constituíam ações esparsas. Paralelamente ao considerável aumento do fluxo de migrantes para a Amazônia e ao acirramento dos conflitos por terra, foi se fortalecendo então a organização político-sindical dos posseiros que, em 1987, assumem o controle da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri) e a filiam à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Porém, no final dos anos 1980 e no começo da década seguinte, quando Fernando Collor de Melo assume a presidência, verifica-se um refluxo das lutas pela reforma agrária, motivada principalmente pela resistência do governo federal em criar assentamentos e fazer uma efetiva redistribuição de terras (ONDETTI, WAMBERGUE, AFONSO, 2010: 264). Só a partir da chegada do MST ao sudeste do Pará é que se alteraria profundamente esse quadro de estagnação.

A gênese do movimento na segunda maior unidade da federação remete à segunda metade da década de 1980, após a realização do primeiro congresso do MST, em 1985, quando a coordenação nacional decide enviar alguns militantes para articular apoios institucionais, iniciar trabalhos de base e identificar áreas passíveis de ocupação a fim de

estruturar o movimento no Pará. Essa medida fazia parte da estratégia de expansão do MST, que atingiu 18 estados da federação entre 1985 e 1990. Segundo Fernandes (2000), esse é o período de “institucionalização” do movimento. Porém, de acordo a pesquisa feita por Assis (2007), já havia articulações tocadas pelos militantes do STR de Conceição do Araguaia para a formação do MST antes mesmo do primeiro congresso. Também é fundamental a inserção política da CPT entre os camponeses do sudeste do Pará para a escolha dessa região como ponto de partida para o desenvolvimento das atividades do movimento no estado:

“Os dirigentes sindicais de Conceição do Araguaia eram mais próximos do MST. A história de luta dos posseiros, a estreita relação dos posseiros e dirigentes sindicais com a CPT talvez tenham sido fatores motivadores da escolha dessa região para as primeiras ações do MST. Outros aspectos que certamente influenciaram essa decisão foram: a constatação de um grande número de latifúndios na região e o fato de, nas décadas de setenta e oitenta, Conceição do Araguaia ter sido palco de muita violência e de resistência dos posseiros” (ASSIS, 2007: 121)

Em 1989, uma ocupação de terra em Xinguara esboça a primeira ação concreta do MST no Pará. Naquele ano, sempre com o apoio dos sindicalistas de Conceição do Araguaia, o movimento começa o trabalho de base em outros dois municípios, além de Conceição: Floresta do Araguaia e Santa Maria das Barreiras. Ainda em 1989, acontece o primeiro encontro estadual, que elege uma coordenação composta por sindicalistas e por militantes vindos de outros estados. Porém, nos primeiros meses de 1991, o MST transfere sua secretaria estadual para Marabá em virtude de divergências com o STR de Conceição de Araguaia, para quem

“a conquista da terra já era um grande passo e, portanto, definido o direito à posse do lote, o próximo passo era começar a roçar imediatamente. Para os militantes do MST, a conquista da terra era o primeiro passo, no entanto, outros teriam que ser dados imediatamente, como por exemplo: a definição da forma de apropriação da terra (o MST propunha a posse coletiva da terra), a luta pelo crédito agrícola, a definição de como e o quê produzir (o MST propunha a produção coletiva), a luta por infra-estrutura, pelo preço mínimo dos produtos,

eram exemplos dos passos imediatos após a conquista da terra” (ASSIS, 2007: 122)

Apesar de o MST e o movimento sindical defenderem a mesma bandeira da reforma agrária, a relação entre essas duas organizações ao longo da história não é absolutamente pacífica. As diferenças dizem respeito às formas de tomar posse da terra, à organização do trabalho no campo e, de maneira mais ampla, aos projetos políticos de representação da classe trabalhadora e camponesa. Divergências que se manifestam até mesmo no tocante à questão partidária. No começo da década de 1990, tanto os sindicatos como o MST se identificavam com o Partido dos Trabalhadores (PT). Porém, apoiavam tendências distintas. Os primeiros flertavam com a ala majoritária moderada, enquanto o movimento social dialogava intimamente com os pensadores mais combativos.

Uma vez instalado em Marabá, tem início a fase de consolidação do movimento, que passa a entrar em choque com as elites agrárias do sudeste paraense. A região vivia um preocupante processo de ebulição social e de aprofundamento da miséria, com o esgotamento da mina de ouro de Serra Pelada e o desemprego crescente de muitos migrantes atraídos pelas promessas de progresso que rondavam a instalação do Projeto Grande Carajás. Desde sempre, os planos dos coordenadores do movimento eram de concentrar esforços na conquista de áreas próximas aos centros urbanos164. Já em 1991 havia intenção de entrar em propriedades da família Mutran, mas a ideia precisou ser abortada quando sete de seus militantes foram presos pela PF165. Apesar dos percalços iniciais, ao longo dessas duas décadas de atuação, o movimento se transforma no principal ator da reforma agrária no sudeste do Pará. Mas não se pode creditar unicamente a ele as conquistas de terra obtidas nos últimos vinte anos:

164 Essa é a mesma avaliação do professor Fernando Michelotti, agrônomo e professor da Faculdade de

Ciências Agrárias da Universidade Federal do Pará (Campus de Marabá): “o MST não ocupa qualquer área. Eles priorizam as que têm potencial de estruturar mais autonomia na produção e na comercialização. Você não vai encontrar o MST ocupando áreas muito distantes, isoladas. Você vai encontrar o MST sempre na beira do asfalto. O lado ruim dessa estratégia é que eles pegam áreas que já foram muito devastadas. Então, eles têm muito problema depois para materializar sistemas de produção porque normalmente encontra área que já foi transformada em pasto. Aí depende de mecanização, depende de um sistema de produção um pouco mais complexo do que o padrão daqui, que é a agricultura de corte e queima”.

165 “Os militantes só foram liberados meses depois em conseqüência de uma campanha coordenada por

“Até meados da década de 2000, 20 anos após as tentativas iniciais do MST em estabelecer uma presença do estado do Pará, as conquistas do Movimento continuam relativamente modestas se mensuradas com os indicadores quantitativos mais simples. Desde que começou a organizar ocupações de terras no estado, no final da década de 1980, o MST respondeu por menos de 15% de todas as ações realizadas no Pará. Os assentamentos da reforma agrária vinculados ao MST representam uma proporção ainda menor do total. Essas medidas são eclipsadas em ampla medida pelas realizações dos STRs associados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri) do Pará, uma das associações mais combativas do sindicalismo rural do Brasil (ONDETTI, WAMBERGUE, AFONSO, 2010: 257-258).”

Por outro lado, também não se pode desdenhar a importância que a chegada do MST ao Pará trouxe para o movimento da reforma agrária como um todo, e nem se pode contestar o papel de liderança que vem exercendo nos últimos anos. Isso pode ser verificado pelos próprios números de ocupações no estado. De acordo com dados da CPT, mais de 80% das ações, ocorridas entre 1988 e 2004, aconteceram justamente depois de 1995 (Idem: 282). Se o MST não comandou a maior parte delas, não há dúvidas de que todo o seu acúmulo de experiência e todo seu conhecimento de estratégias de mobilização e de comunicação deram novo fôlego a um considerável número de entidades, organizações e outros movimentos sociais populares, revigorando de forma substancial a luta pela terra166. Essa intensificação da pressão social acabou forçando o governo federal a acelerar o ritmo da reforma agrária, o que na prática se concretizou com a criação da Superintendência Regional do Incra de Marabá, no ano de 1994. A medida acabou criando um fenômeno de retroalimentação: ao mesmo tempo em que aumentou consideravelmente a capacidade do poder público de atender à grande demanda por terra no sudeste do Pará, a abertura da SR 27 acabou estimulando que trabalhadores se envolvessem em novas ocupações. Com o MST, o sujeito social protagonista da

166 “O que diferenciava o MST da tradição dos posseiros eram suas táticas e métodos organizacionais que

provinham em grande parte das experiências desenvolvidas pelo MST do Sul do Brasil. As ocupações tendiam a envolver um número maior de pessoas que as ações dos posseiros. Elas também se caracterizavam por impor uma ordem mais estrita e um ethos coletivista. Enquanto os posseiros entravam em uma propriedade e imediatamente se espalhavam, repartindo os lotes, o MST formava um único e compacto acampamento. Esse método facilitava a organização coletiva (ONDETTI, WAMBERGUE, AFONSO, 2010: 269)”.

reforma agrária muda de nome: o termo “posseiro” cai em desuso e passa a se referir principalmente aos camponeses que formam ocupações pequenas e pouco organizadas, tradicionalmente ligadas aos sindicatos de trabalhadores rurais. “Cada vez mais, as pessoas pobres que lutam pela terra no Pará são chamadas de sem-terra, mesmo que não sejam filiadas ao MST” (Idem: 282).