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O advento da República, entendida como res publica, dentro da lógica evo- lutiva brunina, corporizava, no mundo político, mais um momento conflitual do processo para a «Unidade na Liberdade» – regalismo, liberalismo, republica- nismo e socialismo –, abrindo caminho, através de uma metafísica da redenção humana, à «reintegração no absoluto» e à erradicação do mal6. Essencialmente,

propagava um ideal de evolução humana da libertação moral, onde a Liberdade exigia a Responsabilidade pessoal, sendo a evolução política republicana um instrumento necessário e imprescindível à aprendizagem generalizada do senti- mento democrático, pautado pelo lema da Liberdade – Igualdade – Fraternidade, que era, segundo ele, o «desdobramento analítico de uma mesma e única síntese suprema – Justiça», assim tinha escrito no jornal portuense A Voz Pública, em 1 de Maio de 19017.

O triunfo da República não seria, para Bruno, nem um «idílio» nem um «juízo final», mas sim uma «suprema tentativa de salvação» da profunda crise nacional, envolvendo toda a nação – daí dever ser uma república nacional e não uma república de sectários –, para a regeneração dos seus costumes políticos, reintegrando Portugal na «coparticipação do espírito da civilização europeia», do qual estávamos afastados «desde que as fogueiras inquisitoriais, crepitantes, 5 BRUNO, «A República Portuguesa [III]», A Pátria, Porto, ano II, n.º 319, 12 de Outubro de 1910, p. 1. 6 Joel Serrão, Sampaio Bruno. O homem e o seu pensamento, Lisboa, Editorial Inquérito, 1959 (2.ª ed., Lisboa, Livros

Horizonte, 1986); José Pereira de Sampaio, Sampaio (Bruno). Sua vida e sua obra. Prefácio de Joel Serrão (Outubro de 1957), Lisboa, Editorial Inquérito, s. d. [1959?]; António Braz Teixeira, «BRUNO (Sampaio)», Logos. Enciclo-

pédia Luso-Brasileira de Filosofia, vol. 1, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1989, cols. 775-777; Manuel Gama, O Pensamento de Sampaio Bruno. Contribuição para a história da filosofia em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa

da Moeda, 1994; José Esteves Pereira, «A Liberdade em Sampaio Bruno», Nova Renascença, n.º 59, Porto, 1995, pp. 585-592; Pedro Calafate, «A Filosofia da História em Sampaio Bruno», ibid., pp. 677-686; Ricardo Vélez Rodríguez, «José Pereira de Sampaio Bruno (1857-1915)» – http://www. ensayistas. org/filosofos/portugal/sampaio/; Afonso Rocha, O Mal no Pensamento de Sampaio (Bruno). Uma filosofia da razão e do mistério, 2 vols., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2006.

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se opuseram ao espírito de livre discussão» que circulava no século XVI – lê-se no Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro

de 1891 de sua autoria8.

Em 1910, o Partido Republicano Português era verdadeiramente um partido-

frente, como o classificou o historiador Fernando Piteira Santos9, conformando

um discurso republicano de diversas matizes e distribuindo o poder interno numa precária unidade, mais por um processo táctico do que por um princípio de doutrina. Reunia várias gerações com múltiplas carreiras, distintas correntes políticas e sensibilidades culturais e filosóficas e notabilidades em forte concorrên- cia pela liderança republicana. Foi rememorado por Manuel de Brito Camacho, em 1932, dois anos antes da sua morte, com assinalável rigor, não obstante ter pertencido a um dos partidos políticos republicanos fundadores da I República Portuguesa (a União Republicana):

«Havia republicanos federalistas e unitários; parlamentaristas e presidencialistas; conservadores e liberais; descentralizadores na ordem administrativa e centralizadores até à tutela do município. Com respeito às relações do Estado com a Igreja, havia os partidários do regime concordatório, mantendo a Igreja, senão sob tutela, no menos sob a imediata e directa fiscalização do Estado, e havia os que reclamavam um regime de separação como veio a decretá-lo, mais tarde a França, sem renunciar à supremacia do poder civil»10.

Moderada e conservadora será a posição política de Sampaio (Bruno) nos primórdios da I República Portuguesa, o que já estava anunciado no referido

Manifesto dos Emigrados, através da ideia de construir, após o triunfo revolucioná-

rio, um «campo franco e aberto a todas as actividades e a todas as dedicações»11,

ideia que repetiu num artigo político de 12 de Outubro de 1910, com a ligeira reformulação de «campo aberto para a actividade leal de todos os portugueses»12.

Os tópicos da tolerância cívica e da tradição nacional constituíram referentes no seu último combate moral e político, entre Outubro de 1910 e Maio de 1911, 8 Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891. Prefácio de José Augusto

Seabra, Porto, Governo Civil do Porto, 1991, p. 24. No Prefácio, intitulado «Um Manifesto Patriótico e Cívico» (pp. VII-XVIII), o Autor dá a sua leitura interpretativa sobre o ideário geral do manifesto – cf., também, José Augusto Seabra, O Porto e o Republicanismo. (A Geração do 31 de Janeiro), Porto, Associação Cívica e Cultural «31 de Janeiro»/ Centro de Estudos Republicanos «Sampaio Bruno», 2004.

9 Fernando Piteira Santos, «Na transição do “constitucionalismo monárquico” para o “constitucionalismo republicano”: a

crise do Partido Socialista e a crise do Partido Republicano», Análise Social, n.os 72-73-74, Lisboa, 1982, pp. 683-685. 10 A Lucta, Lisboa, 27.º ano, n.º 5498, 2 de Outubro de 1932, p. 1.

11 Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891, p. 23.

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altura em que desmobilizou a sua vocação política, mergulhando exclusivamente na igual vocação filosófica e literária.

A campanha política de Bruno desenvolveu-se primeiro no jornal A Pátria (8 de Outubro a 27 de Novembro de 1910), depois no jornal Diário da Tarde (2 de Janeiro a 16 de Fevereiro de 1911), ambos editados na cidade do Porto13,

e dirigiu-se, fundamentalmente, à consagração das seguintes ideias políticas: (i) construir uma república democrática nacional;

(ii) articular a revolução republicana com a tradição nacional, onde se inseriu o debate sobre a bandeira nacional;

(iii) defender um período revolucionário muito curto, seguido de eleições constituintes e de um governo constitucional;

(iv) extinguir o Partido Republicano Português, dando origem a um partido republicano conservador e a um partido republicano radical, assegurando também a existência de diversas opiniões políticas, incluindo a monár- quica.

De entre o grupo intelectual da revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 – Augusto Alves da Veiga, José Pereira de Sampaio (Bruno), Basílio Teles, António Claro e João Chagas –, Bruno teve nesta época a companhia publicista e solidária de António Claro, que em Outubro de 1912 emigrou novamente para o Brasil, agora desgostoso com o rumo da política republicana portuguesa. Já antes, em Fevereiro de 1911, o seu companheiro de luta política Sampaio (Bruno) tinha distribuído aos jornais a seguinte declaração: «Rogo-lhes o obséquio de darem publicidade no seu jornal a esta declaração que entendo dever fazer, e é de que, desta data em diante, me retiro, completa e absolutamente enojado, da vida política portuguesa. Porto, 17 de Fevereiro de 1911. José Pereira de Sampaio»14. Mais à frente se esclarecerá esta atitude radical.

Três dias depois da revolução de 5 de Outubro de 1910, iniciou-se a cam- panha política de Bruno, num artigo que terminava com este imperativo cate- górico: «A República hoje é a Pátria. Quem nesta hora soleníssima for contra a República é contra a Pátria. Porque a República e Portugal é agora, em duas 13 O jornal A Pátria, «diário republicano do Norte», foi dirigido por Alfredo de Magalhães até 21 de Novembro de

1910, altura em que é empossado Governador Civil de Viana do Castelo, sendo substituído por Carlos de Lemos, redactor do jornal A Beira, de Viseu, nomeado nesse mês reitor e professor do Liceu de Alexandre Herculano, do Porto. O jornal Diário da Tarde, «folha republicana», ressurgiu, em nova série, no dia 2 de Janeiro de 1911, sob a direcção de Eduardo Reis, mas o director político era José Pereira de Sampaio (Bruno).

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palavras diferentes, a só e mesma ideia, única e idêntica. A República não é como a Monarquia, um governo de excepção. É a causa pública, é o bem comum, a causa e o bem de todos os portugueses»15.

Em suma, a República devia ser virtuosa e nacional, com um regresso rápido à normalidade constitucional, visto o espírito republicano ser científico e positivo, recordando, no dia seguinte, que a «bela divisa» da filosofia de Auguste Comte seja «a divisa da nossa nacionalidade: progresso e ordem» (em rigor, ordem e progresso, pois a ordem constituía a condição fundamental do progresso)16. A

exclusão de qualquer carácter faccioso ou fanático, por parte dos republicanos, elevaria a dimensão da consciência moral da República no processo da sua con- solidação, não distinguindo os republicanos históricos face aos republicanos de hoje – caso contrário ressoaria a divisão entre cristãos-velhos e cristãos-novos – e não favorecendo os republicanos perante os monárquicos que aceitassem trabalhar sob o novo regime político.

Repúdio do jacobinismo, «espécie de Inquisição republicana» – como lhe chamou – e nacionalização da República, eram, para Bruno, condições necessárias da estabilidade política e social, do reconhecimento internacional e do alargamento da adesão pública ao campo republicano17, olhando à direita,

para não se ser surpreendido pelo restauracionismo monárquico, e à esquerda, para não se perder as classes médias18. Compreende-se, assim, que, para uma

confraternização patriótica, se exigisse a liberdade na legalidade e o progresso na ordem, a partir de um lugar político republicano moderado expresso neste grito cívico: «A paz! A paz!»19. Um dos riscos graves da falta de manutenção da

ordem seria o desenvolvimento de uma guerra civil nacional, provocando uma possível intervenção estrangeira (perigo espanhol), que poderia pôr em causa o domínio colonial português20.

Dois anos antes, em 1909, o seu livro A Ditadura terminava já com essa intenção política fundamental: «[…] a República não é o governo de um partido 15 BRUNO, «A República Portuguesa [I]», A Pátria, Porto, ano II, n.º 316, 8 de Outubro de 1910, p. 1.

16 BRUNO, «A República Portuguesa [II]», A Pátria, Porto, ano II, n.º 317, 9 de Outubro de 1910, p. 1. 17 José Pereira de Sampaio (BRUNO), «Principiando», Diário da Tarde, Porto, ano XIV, n.º 1 (nova série), 2 de Janeiro

de 1911, p. 1; BRUNO, «Conjuração e Restauração», ibid., n.º 6 (nova série), 7 de Janeiro de 1911, p. 1.

18 BRUNO, «Para a Direita – Para a Esquerda», Diário da Tarde, Porto, ano XIV, n.º 2 (nova série), 3 de Janeiro de

1911, p. 1.

19 BRUNO, «Utopia – Realidade», Diário da Tarde, Porto, ano XIV, n.º 5 (nova série), 6 de Janeiro de 1911, p. 1. 20 BRUNO, «O patriotismo português», Diário da Tarde, Porto, ano XIV, n.º 9 (nova série), 11 de Janeiro de 1911,

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nem o monopólio de tal ou tal casta de gente. A República é, pelo contrário, o governo de todos, por todos e para todos. A causa da República compreende todo o país e, no fim e ao cabo, a República é a Nação […]. Consequentemente, ontem como hoje, hoje como ontem, ainda e sempre uma só palavra havia, uma só palavra há: República!»21.

A perspectiva evolucionista heterodoxa de Bruno manifestou-se quando insistia que o «fio da tradição» tinha de ligar-se à «trama da renovação», de modo a que «não se produzam hiatos nem se rasguem lacunas», e, desse modo, uma «pátria nova quer simplesmente dizer a pátria antiga depurada, melhorada, aperfeiçoada, civilizada, progressiva», firmada «nos conceitos da razão pura» e «nas admoestações da tradição histórica»22.

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