• Aucun résultat trouvé

José Pereira de Sampaio (Bruno), após forte condicionamento exercido sobre si e sobre o jornal Diário da Tarde, será chamado a depor num interroga- tório feito pelo Governador Civil do Porto, Paulo Falcão, na sede do Governo Civil, em 17 de Fevereiro de 191143, tendo sido a causa imediata a declaração

publicada no Diário da Tarde, no dia 16 de Fevereiro de 191144. Nesse texto,

mostrava indignação pelos «deploráveis acontecimentos» ocorridos na cidade do Porto na noite anterior, denunciava ameaças recebidas de assalto às instalações do jornal e chamava a atenção pública para a «situação intolerável» na cidade, o que era uma crítica evidente à falta de capacidade das autoridades policiais para manterem a ordem pública.

A origem dos tumultos radicou-se no ambiente anticlerical, que tinha sido despertado pelo anúncio de uma série de conferências a ter lugar na Associa- ção Católica do Porto sobre o tema «Jesus, existe?», em particular a que estava anunciada para a noite de 15 de Fevereiro de 1911, onde falaria Mem Verdial, expondo a posição anti-religiosa. O orador chegou acompanhado de um grupo, que encheu rapidamente todo o salão, ficando de fora apoiantes, visto terem sido fechadas as portas, para se iniciar a sessão em razoáveis condições acústicas. Esta atitude foi mal recebida e iniciaram-se acções violentas no local, alargadas à baixa portuense, com graves incidentes, incluindo tiros de revólver e vários feridos. 42 BRUNO, «Partido e Partidos», Diário da Tarde, Porto, ano XIV, n.º 19 (nova série), 23 de Janeiro de 1911, p. 1. 43 José Pereira de Sampaio, Sampaio (Bruno), pp. 46-48.

44 BRUNO, «Declaração. Ao Povo e ao Governo», Diário da Tarde, Porto, ano XIV, n.º 39 (nova série), 16 de Fevereiro

94 rEPubLiCanismo, soCiaLismo, dEmoCraCia samPaio bruno E o rEPubLiCanismo modErado 95

A ira dos populares, instrumentalizada por radicais, dirigiu-se particularmente contra as instalações da Associação Católica do Porto, do Círculo Católico de Operários do Porto e do jornal católico A Palavra, obtendo uma contra-resposta, de igual modo violenta45.

Paulo Falcão não comunicou o auto do interrogatório ao Juízo de Investigação Criminal, «pelo respeito que devia à memória dos vencidos de 31 de Janeiro», mas o jornal suspendeu edição, desde 17 de Fevereiro de 1911, de forma definitiva, e nesse dia, como já se escreveu, Bruno enviou a vários jornais outra declaração, onde dizia retirar-se da vida política, «completa e absolutamente enojado». Rea- gindo a essa decisão, ser-lhe-á entregue uma mensagem, promovida por António Machado Santos, datada do Porto, em 28 de Abril de 1911, para o demover da atitude tomada – «uma sorte de suicídio moral, de que nos caberia uma parte de responsabilidade» –, sendo subscrita por destacados republicanos históricos. A lista era iniciada por Júlio de Matos e concluída por António Machado Santos, assinando-a Basílio Teles, Guerra Junqueiro, António Magalhães Lemos, Manuel de Arriaga, António Claro, Anselmo Braamcamp Freire, Sebastião de Magalhães Lima, Eduardo de Abreu, José de Castro, Eusébio Leão, Artur Luz de Almeida, Ângelo da Fonseca, António Maria da Silva, Agostinho Fortes, Celes- tino de Almeida, João de Meneses, Henrique Weiss de Oliveira, José Eugénio Ferreira, Alexandre de Vasconcelos e Sá, Tito de Morais, José Carlos da Maia, Augusto Malheiro e Aníbal Cunha, entre muitos outros46.

Em resposta, José Pereira de Sampaio (Bruno) escreveu uma carta a António Machado Santos, com data de 10 de Maio de 1911, agradecendo a mensagem, que lhe tinha provocado um «golpe de emoção». Porém, afirmava que, dado o seu estado de saúde, não podia corresponder integralmente, no momento, ao que lhe era pedido – retomar, sem perda de tempo, o «lugar proeminente de pensador e de jornalista» –, consignando, no entanto, a solidariedade com todos os subscritores nas «iniciativas que hajam de intentar, tendentes todas à consolidação da República e à felicidade da Pátria […]»; comentou Machado Santos: «Parece-nos que não foi inutilmente que há poucos dias visitámos a cidade do Porto»47.

45 O Primeiro de Janeiro, Porto, 43.º ano, n.º 39, 16 de Fevereiro de 1911, pp. 2-3; n.º 40, 17 de Fevereiro de 1911,

p. 3; n.º 41, 18 de Fevereiro de 1911, p. 2.

46 O Intransigente, Lisboa, ano I, n.º 175, 9 de Maio de 1911, p. 1; José Pereira de Sampaio, Sampaio (Bruno), pp.

49-52

47 O Intransigente, Lisboa, ano I, n.º 178, 12 de Maio de 1911, p. 1; reproduz-se a carta de Bruno, na totalidade,

devido a não ter sido publicada por Joel Serrão, na obra anteriormente citada – José Pereira de Sampaio, Sampaio

96 rEPubLiCanismo, soCiaLismo, dEmoCraCia

Assim se explica o aparecimento da sua assinatura (em primeiro lugar) no manifesto da Aliança Nacional, divulgado em 15 de Maio de 1911, e a aceitação para presidir ao comité do Norte dessa Aliança Nacional, noticiada em 21 de Maio de 1911. Contudo, o debate polarizado na Assembleia Nacional Cons- tituinte sobre os vários projectos constitucionais e o desenvolvimento da vida político-partidária inviabilizariam este projecto político embrionário, recolocando muitos entusiastas iniciais da Aliança Nacional nas várias propostas partidárias que se organizaram entre Outubro de 1911 e Fevereiro de 1912.

No seu depoimento memorialístico, o escritor Raul Brandão escreveu, deste modo, sobre os últimos anos da vida de Sampaio (Bruno): «Só se detinha um momento a olhar a gente por cima das lunetas e tinha pena de não poder, como antigamente, correr as ruas do Porto, até de madrugada, com os seus amigos. – Nem ao café vou. Chamam-me talassa!»48.

Ironia do destino para José Pereira de Sampaio (Bruno), defensor da Repú- blica para todos – uma República democrática e nacional – e que representava, para uma significativa área do pensamento e da acção portuguesa, na opinião do jornalista e militante republicano Joaquim Madureira (Braz Burity), este destino moral e político: «[…] o Bruno […] encheu com a sua mentalidade todo o vazio romântico do 31 de Janeiro», ocupando um «lugar primacial de orientador e de combatente […]»49.

«Ex.mo Sr. Machado Santos e meu muito ilustre amigo:

Cumpre-me exarar o público protesto da minha profunda e indelével gratidão para com os signatários do, no seu exagero cavalheiresco, para mim honroríssimo documento que o meu ilustre amigo estampou ontem no seu jornal. Mas, sob o golpe da emoção que ele me suscitou, agravada ainda pelo precário estado de minha saúde actual, não me é possível fazê-lo agora nos termos a que me é força buscar corresponder, no meu acanhado limite, é claro, para que de todo não derrogue do compromisso em que me põe esse singular e raro diploma, tão nobre e alto no conceito como apurado e primoroso na forma, tão sincero, leal, obrigante e recto.

Assim, nesta ocasião urgente, limito-me a consignar a minha solidariedade com o meu prezado amigo e os seus ilustres consignatários nas iniciativas que hajam de intentar, tendentes todas à consolidação da República e à felicidade da Pátria, coisas hoje consubstanciadas, pois que se vise a uma República governativamente perfectível em uma Pátria civilizatoriamente progressiva.

Aperta-lhe a mão o seu Am.º e adm.ºr José Pereira de Sampaio

Porto, 10 de Maio de 1911» (actualização ortográfica).

48 Raul Brandão, Memórias, vol. II, p. 174.

49 Joaquim Madureira (Braz Burity), Na «Fermosa Estrivaria». (Notas de um diário subversivo). 1911, Lisboa, Livraria

96 rEPubLiCanismo, soCiaLismo, dEmoCraCia

bEnoÎt maLon E o soCiaLismo

Norberto Ferreira da Cunha*

Documents relatifs