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Dans le document 2004 /2005 - La contraception - (Page 34-38)

Conforme já descrito na apresentação dos brasões de nossas colaboraras Convencionalmente, o parto se divide em três fases: a primeira fase é a de abertura do colo do útero até a dilatação total. A segunda fase diz respeito ao período expulsivo que vai até o nascimento do bebê e a terceira fase se estende do primeiro contato com o bebê até a saída da placenta (Balaskas, 2012).

O parto sendo um fenômeno natural desperta nas parturientes dores físicas. Essa dor faz parte de uma experiência subjetiva e complexa, vivenciada de forma única por cada mulher, envolvendo assim fatores culturais, fisiológicos e psicossociais (Mafetoni & Shimo, 2016).

Desse modo, para cada uma das colaboradoras do nosso estudo, a dor foi sentida de maneira singular. Uma dor forte e intensa foi relatada pelas colaboradoras, de modo que apenas Girassol não destacou essa intensidade, como podemos observar nos relatos:

Eu achava que o negócio ia me partir ao meio assim, uma coisa muito forte. (Gardênia)

Vivi e cada vez foi ficando mais intenso, cada vez foi ficando mais intenso (...) Aí fiquei muito tempo sozinha no banheiro, aí fiquei angustiada, por conta de você tá sozinha né, e aquelas contrações vindo com muita força. Eu já tava muito, com muita

dor, achando que aquilo ia me consumir, assim, que era uma dor muito forte (...) Aí eu me lembro que eu já não tava raciocinando direito. (Dália)

Na verdade, a gente acha que vai dá conta, não vai. Pelo menos eu não estava preparada pro que foi. Quem sabe no segundo, como eu já sei, já tenho noção do que

é de verdade, talvez eu me prepare melhor pra enfrentar. Porque não é dorzinha, eu

acho que eu subjuguei a dor, eu não dei a importância que deveria ter dado.

Então eu preparei tudo, mas não me preparei pra aguentar a dor. Então quando começou mesmo a pegar, eu pedi arrego. (Flor de Lótus)

A maioria das mulheres em trabalho de parto relata sentir dor no ápice das contrações. As dores são de caráter agudo e não persistentes. Frequentemente não há dor no intervalo entre as contrações (Balaskas, 2012).

Além de relatar a intensidade da dor, Flor de Lótus considerou importante se preparar para sentir aquela dor, algo que ela acredita não ter feito. Como já foi dito anteriormente, o modo como a parturiente sente e interpreta essa dor está ligada a fatores socioculturais.

Mas como de fato se preparar para a dor de um evento imprevisível? Não sabemos se essa preparação é possível de ser realizada, já que não há previsibilidade de como a mulher irá se sentir. Não é possível tornar a mulher plenamente capaz e pronta para lidar com qualquer situação que surja durante o trabalho de parto e parto, muito menos premeditar o que irá acontecer (Tostes, 2012).

A preparação possível está baseada em fornecer informações, apoiar emocionalmente e psicologicamente, empoderar, descobrir saberes e amparar. Ou seja, favorecer a construção de posturas mais críticas em relação ao que será vivenciado, possibilitando que essa mulher vivencie todo esse processo com mais confiança, autonomia e poder de decisão (Tostes, 2012).

Talvez o fato de Flor de Lótus ser enfermeira e trabalhar diretamente na assistência ao parto contribuiu para que ela se achasse preparada para a vivência do parto, inclusive no que diz respeito a lidar com a dor. Por já ter presenciado muitas mulheres parindo e considerar

isso natural, possivelmente internamente ela sentia estar preparada, o que se tornou frustrante quando chegou a sua hora.

Margarida foi nossa colaboradora que vivenciou o maior número de horas em trabalho de parto. Seu processo iniciou na sexta-feira finalizando no domingo pela manhã, sendo também intensa a dor sentida por ela:

Aí de sexta pra sábado de noite eu não dormi. Eu não dormi de dor. Não dormi mesmo, não conseguia dormir porque juntava ansiedade com um pouco de dor, desconforto. Então eu não consegui dormir por causa da dor. (...) No sábado é que eu não dormi mesmo, eu não consegui fechar o olho porque não tinha posição confortável pra eu poder sentir menos dor. Domingo de manhã eu já tava assim num processo intenso, eu já começava a sentir que tava abrindo aqui dentro de mim. Aí fiquei uivando durante 5 horas seguidas, 5 horas gritando de dor. Não era um grito, era um som que eu liberava durante 5 horas. (Margarida)

As cenas também evidenciaram o lugar central da dor no parto. Nelas elas projetavam o parto idealizado. É revelado o desejo de que a dor fosse menor, que o parto fosse rápido e que a mulher, apesar da dor, pudesse lidar com isso de maneira tranquila:

Ela não parece estar sentindo dor ou contração naquele momento, ela parece bem

serena e ansiosa com a chegada do seu filho ou filha, ela ainda não sabe se é menino

ou menina. (Girassol)

E foram oito horas tentando relaxar entre as contrações (....) no momento da expulsão do bebê estava na banheira e ela saia tranquilamente de mim, foi rápido. (Margarida)

Eu estava com muita dor, uma dor enlouquecedora e desesperadora, mas conseguia

me concentrar e não desesperar (...) E assim não demorou muito, pude sentir a

cabecinha massageando o assoalho pélvico e novamente passando sem muito esforço, após outra contração o corpinho saiu por inteiro e no escuro do quarto pude segurar meu bebê e amamentá-lo. (Flor de Lótus)

Para Flor de Lótus, a vivência da dor foi muito difícil. Na cena idealizada ela retrata a dor desesperadora, mas ela consegue não se desesperar e realiza seu parto conforme desejava. No entanto, em seu parto ela precisou ser removida. E mais uma vez o fato dela ser enfermeira, trabalhar em maternidade e ter conhecimento a respeito do processo de evolução

do parto contribuiu para que ela racionalizasse durante o seu trabalho de parto, conforme observamos no relato:

Quando deu seis horas da noite que eu vi que já tinha passado 12 horas e eu não

tinha visto muita evolução, só muita dor, muita dor, aí eu comecei a pensar demais, sabe? Minha cabeça começou a racionalizar a situação, eu pensei que já

tava com 12 horas e que o tampão não tinha saído, não tinha aparecido líquido, nada, eu não sentia ela descendo, só dor. Aí eu liguei a cabeça, aí regredi, não deixei. Daí em diante, quando deu seis horas da noite eu não permiti mais, entrei num estado de

negação que eu só dizia “não”. Não, não, não, não quero mais. Foi tudo assim por

água abaixo quando eu comecei a pensar que as coisas não estavam andando. Aí as meninas tentaram, conversaram comigo, meu marido, porque eu disse a ele que não deixasse eu ir pro hospital, pra ele não deixar. Só que aí eu insisti tanto que acabei

indo pro hospital, mas a minha ida pro hospital foi só por exaustão mesmo, e dor, alívio de dor, eu só queria aliviar com anestesia.(Flor de Lótus)

A possibilidade de a mulher solicitar remoção para o hospital deve ser considerada desde o planejamento do parto domiciliar. Apesar de todos os cuidados prestados pela equipe, algumas mulheres podem vir a desistir durante o trabalho de parto de seguir com o parto em casa, desejando assim finalizar o processo no hospital, na expectativa de ter um desfecho final mais rápido e com menos dor. Em algumas situações, a equipe continua fazendo o acompanhamento da gestante no hospital, mas isso depende da autorização do serviço para o qual a mulher é transferida (Colacioppo et al., 2010).

No caso de Flor de Lótus, uma das enfermeiras da equipe trabalhava no hospital para onde ela foi transferida, o que facilitou o acesso da enfermeira que pôde continuar acompanhando-a. Porém, a decisão pela cesárea partiu da médica de plantão, o que demonstra que ao adentrar na instituição, a equipe do parto domiciliar perde um pouco de sua autonomia. A transferência de Flor de Lótus para o hospital se deu por exaustão materna, com necessidade de medicação para aliviar a dor. Essa indicação de transferência também é encontrada em outros estudos sobre parto domiciliar e acontece em maior quantidade com mulheres primigestas (Koettker et al., 2013).

Como se trata da primeira gestação da mulher e por ser uma experiência inteiramente nova, o medo da dor, a ansiedade e tensões presentes durante o trabalho de parto podem ser muito assustadores, aumentando significativamente a dor sentida, tornando essa vivência muito difícil, levando então essas mulheres a desejarem finalizar o parto no hospital.

Quanto mais a gestante se sente confiante, segura, livre, escuta o próprio corpo e age instintivamente, maiores são as chances dela ter um trabalho de parto mais rápido. Entretanto, se a mulher se sente ansiosa e com medo da dor, esse processo pode ser mais demorado, ou pode parecer mais demorado para ela, mesmo que de fato esteja tudo dentro da normalidade (Balaskas, 2012).

No caso de Flor de Lótus seu trabalho de parto estava evoluindo bem, dentro da normalidade, mas a dor intensa e o medo não permitiram que ela desse prosseguimento ao processo em casa. Ao sair para o hospital a dilatação do colo do útero já estava completa, com 10 cm. Porém, ela só soube disso no hospital:

Não deixei a enfermeira fazer o toque em mim pra saber como tava, eu sabia que tava adiantado mas foi só no hospital que eu soube que tava com 10. Porque se eu soubesse em casa talvez eu tivesse esperado. Mas foi porque eu não quis, porque ela disse “vamos fazer antes de ir” e eu disse “não”. Então, eu neguei tudo. (Flor de Lótus)

Apenas Girassol relatou que esperava sentir uma dor maior, ela já estava adiantada no trabalho de parto e não sabia, então ficava com a sensação de que viriam dores ainda maiores. Porém, apesar de achar que sentiria mais dor, para ela todo o processo também foi bastante intenso:

Eu não sei explicar muito bem os sentimentos, eu só consigo explicar que eu sempre

pensei que ia doer mais, eu criei uma expectativa, eu não criei uma expectativa na

verdade, né? “Ah meu Deus do céu, essa contração..” Eu pensava assim: “Essa contração veio, ah meu Deus, ah meu Deus, pronto passou. Meu Deus do céu, ainda

vai vir uma contração maior”. Basicamente isso que passava na minha cabeça.

Para Girassol, após sua experiência, a dor do parto foi ressignificada. Ela não enxergava a dor como algo ruim, mas sim como algo necessário para o processo. Isso contribuiu para que ela se sentisse tranquila durante todo o trabalho de parto e não vivenciasse sentimentos de medo ou insegurança.

A dor pra mim, depois de ter passado por essa experiência, ressignificou toda a questão da dor do trabalho de parto... Pra mim a dor do trabalho de parto nada mais é do que uma forma de trazer concentração, porque você não consegue pensar, fazer mais nada, só aquilo... E assim, claro que a segurança vai te permitir relaxar e fazer e compreender aquela dor. Eu acho que se eu interpretasse aquilo como dor mesmo, como uma coisa ruim, aquilo ia travar todo meu processo. Mas não, tá doendo, claro que não é agradável, mas eu sei que isso é necessário e que não é uma dor, é uma contração. Eu sei exatamente como é que meu útero tá trabalhando, eu sabia exatamente todo o mecanismo porque eu estudei isso. Então isso me tranquilizou. Aliás, nem precisou me tranquilizar, aí que tá. Eu em momento algum senti medo.

(Girassol)

A percepção da dor como algo necessário também foi encontrada na pesquisa de Salim e colaboradores, no qual algumas mulheres conceituaram a dor como algo inerente e necessário ao processo. Embora a dor seja uma resposta fisiológica, a forma como cada mulher lida com isso acontece de forma complexa. A natureza da dor tem características tanto fisiológicas como psicológicas (Salim, Soares, Brigagão, & Gualda, 2012).

Quanto mais a mulher recebe informações a respeito do parto, mais ela pode se sentir autoconfiante para lidar com o desconhecido, diminuindo assim a ansiedade e a sensação de dor (Salim et al., 2012).

Escutar a dor das parturientes, respeitar, acolher e oferecer mecanismos de alívio e conforto são pontos importantes de uma assistência considerada humanizada e de qualidade, que precisam ser priorizadas na formação e atuação dos profissionais que prestam cuidado (Nagahama& Santiago, 2005; Tornquis, 2003).

Desse modo, a parturiente não pode ser censurada pelo modo como se comporta durante o trabalho de parto e parto, o que deve conduzir os profissionais a respeitar a

individualidade de cada uma e oferecer uma assistência que vise oferecer cuidados da melhor forma possível (Mafetoni & Shimo, 2014).

É necessário a compreensão de que cada mulher possui uma história de vida única, e com isso, vai lidar de maneira singular com o que sente durante o trabalho de parto. Sendo assim, precisam buscar recursos para cuidar de todas as possíveis dores.

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