As entrevistadas trouxeram o conhecimento adquirido sobre gestação, parto e temas relacionados como um fator essencial para que elas optassem pelo parto domiciliar planejado. Em seus relatos podemos observar a importância de várias fontes de informação nos quais elas buscaram fortalecimento para decidirem pelo PDP. Entre essas fontes, as mais citadas foram as rodas de gestante, o filme “o renascimento do parto” e as pesquisas na internet.
Quando eu engravidei de novo, assim que eu soube da gravidez eu pensei assim
“não vou cair nessa (cesárea) de novo”. Eu conversei até com meu marido, nós já tínhamos assistido o renascimento do parto(...) e daí fui pras rodas de gestantes e
foi muito bom conhecer outras pessoas que tenham o mesmo pensamento que eu. Eu na verdade busquei, me aproximei de pessoas que pensam como eu. Me associei na associação de doulas, e tudo isso através das rodas. E pronto, quanto mais perto chegava do dia, mais segura eu me sentia. E inclusive com relação aos estudos. Eu
estudei mesmo, sobre parto domiciliar, sobre os tipos de partos, os mitos, os riscos de fato, os riscos de uma cesárea, os riscos de um parto normal. Todos os
termos, inclusive todas as intervenções. (Girassol)
A decisão foi assim... eu comecei a participar de um grupo de grávidas que tava se formando aqui em Natal (...) Aí teve esse primeiro encontro, aí teve o segundo que só foi eu e outra grávida. Nesse primeiro encontro a parteira comentou a respeito do
parto humanizado e comentou a respeito do parto domiciliar. Aí eu tive esse
primeiro contato e minha cabeça se abriu pra essa possibilidade. Eu pensando que poderia seguir por aí, foi nesse primeiro encontro. (Margarida)
O acesso a informações sobre os tipos de partos e a realidade obstétrica brasileira tem sido destacado em pesquisas como algo relevante para que a mulher decida vivenciar o parto domiciliar. Ao se informar e escolher essa opção, ela desenvolve sua autonomia e protagonismo, promovendo assim um autocuidado (Castro, 2015; Menezes et al., 2012; Sanfelice & Shimo, 2015).
De fato, a mudança está vindo das próprias mulheres, que não estão mais aceitando sem questionamentos o que é imposto por alguns profissionais e instituições de saúde. Essas mulheres buscam seus direitos e desejam vivenciar uma assistência que englobe seus anseios e desejos.
A literatura tem apontado, assim como ficou evidenciado em nossa pesquisa, no qual todas as nossas colaboradoras possuem nível superior, que as mulheres que buscam o PDP possuem, em sua maioria, um nível de escolaridade mais elevado, possuindo assim um acesso mais fácil à informação. Isso permite então a obtenção de mais conhecimentos à respeito do tema, influenciando diretamente na opção pelo parto em casa. Através da pesquisa e do contato com as informações, as mulheres apropriam-se do conhecimento e podem assim questionar o que é oferecido na assistência obstétrica, decidindo o que é melhor para si, tomando uma decisão mais consciente e informada (Sanfelice & Shimo, 2015).
O estudo e a busca pelo conhecimento na maioria das vezes influenciam também os companheiros, fortalecendo a decisão do casal, trazendo assim mais segurança com a opção pelo PDP, conforme observou-se na fala de Girassol.
E meu marido, por mais que ele não lesse, não estudasse tanto quanto eu, ele absorvia porque de certa forma eu contaminava um pouco com as informações que eu tinha. E
tudo que ele vinha trazer de dúvida, ele perguntava pra mim. E tudo que eu
respondia pra ele, eu respondia com conviccção, eu sabia o que eu tava falando. E ele se sentia seguro. E dessa forma ele se empoderou também. (Girassol)
A internet tem sido um meio de comunicação bastante eficaz para difundir esses conhecimentos, já que há uma grande quantidade de sites, blogs, artigos científicos, vídeos no youtube, listas de discussão e grupos de gestantes online que discutem esse tema (Castro, 2015; Menezes et al., 2012).
As rodas de gestantes, citadas por duas participantes, foram apontadas como um apoio importante para as mulheres que estão na busca de um parir humanizado, sendo também um local de forte influência para a decisão do PDP.
Nessas rodas, as gestantes têm contato com diversos temas relacionados à gestação e parto, expõem suas dúvidas, ouvem diversos relatos de mulheres que já passaram pela experiência de partos hospitalares e partos nos domicílios e passam a ter contato com profissionais que buscam seguir o que propõe a humanização do parto. Dessa forma, alguns mitos podem ser quebrados, alguns medos podem ser extintos, a confiança na decisão de ter o parto em casa pode aumentar, assim como a sensação de se sentir compreendida e apoiada por outras pessoas que estão vivenciando ou vivenciaram situações semelhantes. Esses grupos podem então, se tornarem fontes de construção de maior autonomia e segurança entre o casal.
Sendo assim, os grupos e rodas de gestantes precisam ser incentivados devido ao seu caráter educativo e informativo, e não apenas para as gestantes, mas para a sociedade como um todo, tanto na rede pública quanto privada (Sanfelice & Shimo, 2015).
Para as pessoas que desejam ser pais, é importante que o acesso à informação ocorra o mais cedo possível, para que as famílias possam planejar da melhor forma possível a chegada desses filhos.
A constatação de que parto não é doença e da possibilidade segura de um PDP também foi bem ilustrada nas vivências de Gardênia e Dália. Além do conhecimento de Gardênia adquirido no filme “O renascimento do parto”, do curso de doula e da proximidade com sua irmã, também doula, o fato de possuir uma gestação saudável contribuiu para a opção pelo parto domiciliar planejado.
Assim, antes de engravidar eu já tinha feito um curso de doula, um curso de doula comunitária em janeiro de 2014, minha irmã é doula, então essa discussão já estava próxima de mim... eu já tinha assistido o filme “o renascimento do parto” e eu já estava bastante próxima dessa discussão(..) O que pra mim foi importante também,
foi entender desde o princípio que o parto ele não é um procedimento de doença...
porque a gente costuma né, a gente procura hospital, a gente procura um médico quando? Quando a gente tá doente, quando a gente tem alguma queixa, algo assim. Quando eu estou grávida, se a minha gravidez é tranquila, se tudo sai dentro do esperado, tá tudo saudável, não há motivo pra eu procurar um hospital.” (Gardênia) “O parto em casa era o melhor para nossa família, pro que a gente acha que é mais coerente com o que a gente acredita. Sabendo que a gravidez todinha foi uma gravidez de baixo risco né, uma gravidez saudável. Então não tinha lugar melhor para parir que não fosse aqui. (Dália)
A visão de Gardênia e Dália é que o parto não precisava acontecer em um hospital já que a gestação era saudável e tranquila. Durante os 9 meses de gravidez não houve nenhuma intercorrência que justificasse a necessidade de um parto hospitalar. As gestações eram de baixo risco, sendo essa uma das condições exigidas para um parto domiciliar.
Na revisão mais recente da Biblioteca Cochrane, os autores evidenciaram que não existem motivos para desencorajar o parto domiciliar planejado para mulheres com gestação de baixo risco, não há necessidade de um parto hospitalar para esse grupo de mulheres, já que os estudos não demonstraram uma maior segurança (Sanfelice & Shimo, 2015).
Flor de Lótus é enfermeira, doula e trabalha diretamente na assistência obstétrica, tendo sido seu conhecimento e prática profissional fatores primordiais para a sua tomada de decisão, conforme sua fala:
A minha decisão foi quando eu planejei, antes de eu engravidar eu já pretendia porque
eu sou enfermeira né, tenho essa vivência em maternidade, eu trabalho em
maternidade e antes de trabalhar em maternidade quando eu tinha os estágios, eu adorava ficar em maternidade nos estágios e eu gostava muito, eu achava o parto
uma coisa muito natural e normal. (Flor de Lótus)
Acompanhando diversos nascimentos em sua profissão, Flor de Lótus passou a enxergar o parto como um acontecimento natural e que poderia ser tranquilamente vivenciado em sua casa.