Complexidade ecoepidemiológica no semiárido do Ceará, Nordeste do Brasil.
Objetivo:
Descrever os padrões de reinfestação por triatomíneos após controle químico residual em ambiente domiciliar no município de Tauá (CE), semiárido do Nordeste do Brasil.
Título Resumido: Reinfestação por triatomíneos
Título: Reinfestação domiciliar por triatomíneos após controle químico residual:
Complexidade ecoepidemiológica no semiárido do Ceará, Nordeste do Brasil.
Autores:
Claudia Mendonça Bezerra¹,3+([email protected]) Silvia Ermelinda Barbosa² ([email protected]) Rita de Cássia Moreira de Souza² ([email protected]) Levi Ximenes Feijão³ ([email protected])
Ricardo Esteban Gürtler4 ([email protected]) Alberto Novaes Ramos Júnior¹ ([email protected]) Liléia Diotaiuti² ([email protected])
¹ - Departamento de Saúde Comunitária, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, Brasil
² - Grupo Triatomíneos, Instituto René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
³ - Secretaria da Saúde do Estado do Ceará, Fortaleza-CE, Brasil
4 - Instituto de Ecologia, Genética y Evolucion, Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina
+ - Autor correspondente: Claudia Mendonça Bezerra. Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Medicina - Departamento de Saúde Comunitária. Rua Professor Costa Mendes
1608 - Bloco Didático 5º andar - Rodolfo Teófilo, Fortaleza - Ceará, Brasil. CEP: 60430- 140. E-mail: [email protected].
Resumo
O nordeste brasileiro destaca-se no contexto nacional da epidemiologia da doença de Chagas, onde o Triatoma brasiliensis brasiliensis Neiva, 1911 é o principal vetor do
Trypanosoma cruzi na região do semiárido. O monitoramento dos indicadores
entomológicos e o desenvolvimento de estudos em longo prazo podem auxiliar na compreensão dos aspectos bioecológicos dos triatomíneos autóctones e nos mecanismos responsáveis pela persistente infestação domiciliar. O objetivo deste trabalho foi descrever os padrões de reinfestação por triatomíneos após controle químico residual em ambiente domiciliar no município de Tauá (CE). Estudo transversal baseado em pesquisa triatomínica manual em ambiente silvestre e domiciliar conforme normas do Programa de Controle da Doença de Chagas (PCDCh) no período de 2009 a 2015. Descreveram-se os indicadores entomológicos do PCDCh: infestação, colonização, densidade e infecção natural, correlacionando-os com análise espacial. O T. b. brasiliensis é a espécie responsável pelos elevados índices de dispersão, infestação, colonização e infecção por tripanosomatídeos em todas as capturas e ambientes pesquisados. Telhas, tijolos e pedras foram os ecótopos peridomiciliares mais infestados ao longo das capturas. O intradomicílio foi o ecótopo que mais reinfestou 47,4% (18/38). No ambiente peridomiciliar, galinheiros com 21% (8/38) e telhas, pedras e tijolos com 15,8% (6/38) foram os mais importantes. Os índices de infecção natural foram de 10,3% (18/175) no intradomicílio, 3,3% (32/979) no ambiente silvestre e 3,1% (51/1.629) no peridomicílio. Resultados sugerem que o processo de reinfestação é disperso e multicausal, onde os índices de infestação se reestabelecem no ambiente intra e peridomiciliar de forma precoce, com intercâmbio de insetos entre os ecótopos domiciliares e naturais. A ampla distribuição, adaptabilidade aos diversos ecótopos e infectividade ao T.
cruzi mostram a importância epidemiológica do T. b. brasiliensis na região. E somente com
uma vigilância entomológica permanente, íntegra e sistematizada, com participação popular será viável a redução do risco real de transmissão do T. cruzi no ambiente domiciliar.
Palavras-Chave: Doença de Chagas; Triatoma brasiliensis; Reinfestação; Caatinga e
Ceará.
Introdução
O nordeste brasileiro destaca-se no contexto nacional da epidemiologia da doença de Chagas, desde a realização dos primeiros inquéritos sorológicos e entomológicos na década de 1970 (1). O Triatoma brasiliensis brasiliensis Neiva, 1911 é a mais importante espécie transmissora do Trypanosoma cruzi (Chagas, 1909) (2) (Protozoa, Sarcomastigophora, Kinetoplastida, Trypanosomatidae) na região do semiárido brasileiro, com ampla distribuição geográfica, altas taxas de infecção natural, potencial invasivo e ecletismo alimentar. Seu centro de dispersão é o bioma da caatinga. Triatomíneo rupestre
associa-se às diversas espécies de quirópteros, marsupiais e roedores no ambiente silvestre (3-8). Recentemente foi descrito em planícies sedimentares associados ao cacto xique-xique (Pilosocereus gounellei (A. Weber ex K. Schum.) Bly. ex Rowl) (9).
Para o controle das populações domésticas de triatomíneos é recomendado borrifações sistemáticas utilizando inseticidas piretróides residuais (10). Embora este mecanismo tenha alcançado sucesso satisfatório, principalmente com espécies introduzidas como o Triatoma infestans Klug, 1834 (11). As espécies autóctones exigem constante vigilância contra a instalação de novos focos, pois a recolonização dos domicílios é precoce, onde a complexidade do peridomicílio é determinante nesse processo (6, 11-15).
A contiguidade entre ecótopos naturais e artificiais, com a sobreposição de habitats e interação de triatomíneos, animais sinantrópicos e humanos, facilita a invasão e colonização dos domicílios (6-8, 12, 16, 17). O peridomicílio é constituído de inúmeras estruturas que possibilitam abrigo aos triatomíneos, relativa estabilidade microclimática e fontes alimentares diversas (18-21). A quantidade de esconderijos nesses anexos nos quais o inseticida não penetra, as elevadas temperaturas, ventos, chuvas e alta luminosidade determinam a residualidade transitória dos piretróides (12, 17, 22, 23). Nesse contexto, a capacidade de invadir e se adaptar a diferentes ambientes faz com que o T. b. brasiliensis se destaque, tornando-se prioritário para o Programa de Controle Vetorial da Doença de Chagas (PCDCh) (22, 24).
O acompanhamento dos indicadores entomológicos e o desenvolvimento de estudos em longo prazo podem auxiliar na compreensão dos aspectos bioecológicos dos triatomíneos autóctones e nos mecanismos responsáveis pela persistente infestação domiciliar. A vigilância entomológica como o monitoramento sistemático da distribuição espacial de populações de vetores, relacionando sazonalidade e abundância é essencial para predizer os riscos potenciais de um agravo, conforme época e região, fornecendo informações que possam subsidiar o controle dessas espécies (25). O objetivo deste trabalho foi descrever os padrões de reinfestação por triatomíneos após controle químico residual em ambiente domiciliar no município de Tauá (CE), semiárido do Nordeste do Brasil.
Materiais e Métodos Desenho e área de estudo
Esse é um estudo ecológico transversal com cortes temporais realizados no município de Tauá, Estado do Ceará (Figura 1), área endêmica da doença de Chagas, cujo
bioma principal é a caatinga. Possui localidades rurais com elevada dispersão e infestação triatomínica, com predominância de T. b. brasiliensis.
Tauá localiza-se no sertão dos Inhamuns (6º00‟11”S e 40º17‟34”W) a uma altitude de 402,7 metros, distando 320 Km de Fortaleza. A temperatura média anual varia entre 26ºC e 28ºC e pluviometria média de 597,2mm3, o período chuvoso é de fevereiro a abril.
A cobertura vegetal da caatinga encontra-se fortemente degradada, apresentando sucessão secundária em seus padrões fisionômicos, onde predomina a caatinga arbustiva- arbórea. A vegetação caducifólia e garranchenta, inserida em solos rasos e quase sempre pedregosos possui elevada deficiência hídrica na maioria dos meses do ano (26). Afloramentos graníticos com expressivas fraturas fazem parte da fase pedregosa e rochosa do município, regiões habitadas por répteis, pequenos mamíferos e insetos, dentre os quais o
T. b. brasiliensis, que possui nesse ambiente o seu ecótopo primário (3).
A pesquisa triatomínica foi realizada em unidades domiciliares (UD) de 18 localidades rurais (Figura 1). O critério de inclusão dessas localidades no estudo foi o tempo mínimo de 24 meses sem controle químico residual para triatomíneos e possuíssem continuidade entre si. As UDs foram pesquisadas em cinco períodos: fevereiro/2009 (Pré- borrifação), agosto/2009 (1ª avaliação-6meses), abril/2010 (2ª avaliação-14meses), outubro/2010 (3ª avaliação-20meses) e agosto/2015 (4ª avaliação-78meses).
A “UD” é a unidade epidemiológica de referência para o Programa de Controle da Doença de Chagas (PCDCh) é o conjunto formado pela habitação humana e tudo o que a rodeia, edificações permanentes, temporárias, materiais acumulados, cercas, abrigos de animais, etc (27). O intradomicílio foi considerado como um único ambiente, e o peridomicílio dividido por tipos de anexos: 1) galinheiro; 2) chiqueiro; 3) paiol; 4) lenha; 5) pedra, telha e tijolo, e 6) outros.
A pesquisa foi realizada de forma manual, de acordo com o Manual de Normas
Técnicas (1980) (27), pela equipe municipal de agentes de controle de endemias,
supervisionada pela Secretaria Estadual de Saúde. Foi realizada de forma exaustiva, percorreu todos os cômodos das casas e ecótopos peridomiciliares, empenhando-se à capturar todos os triatomíneos encontrados. O instrumento de coleta de dados utilizado foi o formulário próprio dessa atividade (arquivo adicional 1).
Após a pesquisa inicial em fevereiro/2009 (pré-borrifação) todas as UDs trabalhadas foram borrifadas, independente da positividade, utilizando inseticida piretróide residual Alfacipermetina SC 20%, conforme rotina do PCDCh. Nas pesquisas subsequentes
somente as unidades domiciliares positivas para triatomíneos no momento da pesquisa foram borrifadas, com o mesmo produto e técnica (10).
As capturas silvestres ocorreram na ocasião da captura domiciliar em (fevereiro/2009, agosto/2009, abril/2010 e agosto/2015), com quatro noites cada, realizadas de forma manual, com auxílio de lanterna. As três áreas escolhidas possuem formações rochosas características dos ecótopos naturais de T. b. brasiliensis. Essas áreas apresentam suscetibilidade variável a intervenções humanas relacionadas à sua distância das habitações, MPC (94m) com fortes intervenções antrópicas, ME (211m) com intervenção humana regular e CJ (370m) com baixa intervenção (Figura 1).
Exames de laboratório
Os triatomíneos capturados foram separados por época e local de captura conforme descrito anteriormente, para identificação quanto à espécie, estádio de desenvolvimento e infecção natural por tripanosomatídeos. As espécies de triatomíneos foram identificadas utilizando chave dicotômica descrita por Lent & Wygodzinsky (28). Para o diagnóstico parasitológico foram usadas duas técnicas: 1) exame a fresco (2 ou 3
lâminas por inseto), onde as fezes eram diluídas em solução salina (NaCl 0,9%), sobre
lâmina e lamínula, com leitura de no mínimo 100 campos a um aumento de 400x em microscopia óptica; 2) lâminas coradas por Giemsa, dez porcento das lâminas negativas, duvidosas e as positivas para tripanosomatídeos foram pré-coradas com azul de metileno e coradas com Giemsa (técnica de Walker) para uma nova leitura, também de no mínimo de 100 campos para cada lâmina, com aumento de 1.000x em microscopia óptica (29).
Os procedimentos laboratoriais foram realizados em parceria com os Laboratórios de Entomologia Dr. Tomaz Aragão da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESA-CE) e o Laboratório de Referência em Triatomíneos e Epidemiologia da Doença de Chagas do Instituto René Rachou (IRR)/Fiocruz Minas.
Indicadores Entomológicos do PCDCh
O PCDCh define alguns indicadores entomológicos essenciais para o monitoramento do risco de transmissão vetorial da doença de Chagas no ambiente domiciliar, são eles: infestação (número de unidades domiciliares com presença de triatomíneos dividido pelo número de unidades domiciliares pesquisadas x 100);
colonização (número de unidades domiciliares com presença de ninfas de triatomíneos
ninfas) x 100); densidade (número de triatomíneos capturados dividido pelo número de unidades domiciliares com presença de triatomíneos) e infecção natural (número de triatomíneos infectados pelo T. cruzi dividido pelo número de triatomíneos examinados). Os índices foram calculados para o intradomicílio, peridomicílio e ecótopos peridomiciliares.
Análise Geo-espacial
As coordenadas geográficas das UDs pesquisadas e dos ecótopos positivos para a presença de triatomíneos foram registradas ao longo das atividades com o auxílio de um GPS eTrex® (Garmin) com 12 canais, com projeção WGS1984 – Zone 24S. Posteriormente, a geocodificação dos pontos foi iniciada de acordo com a base do terreno em alta resolução por meio do software Google Earth Pro® versão 7.1 (Google Inc.), gerando um mapa incorporado em ambiente de Sistema de Informação Geográfica. Os dados entomológicos foram associados ao histórico de cada UD em planilhas, que permitiu a associação entre os dados de cada ecótopo, através da geração de mapas no software QGis versão 2.14, Open Source Geographic Information System (GIS) (https://qgis.org/en/site/about/index.html). A Figura 1 mostra a localização das UDS trabalhadas ao longo do período de estudo por localidade. O limite de 120,5km² determinado pelo polígono da Figura 1 determina a área utilizada para as análises de infestação e reinfestação por triatomíneos.
A análise exploratória do comportamento espacial dos eventos foi baseada na estimativa de graduação por tamanho para criar mapas raster de densidade com base no número de pontos infestados na região de estudo e quantidade de triatomíneos capturados. Desta forma, buscou-se verificar se os eventos ocorriam de forma aleatória ou se apresentavam agregações entre si (hotspots) indicando a ocorrência de aglomerados (clusters) (30).
Análise estatística
A verificação da associação entre infestação, período e espécie foi realizada por meio do teste exato de Fisher e de Pearson, com significância de 0,05%. As análises foram realizadas no software Stata 11.2. (StataCorp LP, College Station, TX, USA).
Resultados
O número de unidades domiciliares trabalhadas e o padrão de construção das casas ao longo das cinco capturas do estudo estão descritos na Tabela 1. No total 1.211 UDs
foram pesquisadas, variando de 251 (fevereiro/09) a 237 (agosto/15), a diferença deve-se a unidades domiciliares fechadas ou demolidas na ocasião da pesquisa. Não há variação no padrão de construção ao longo do período. Casas cujas paredes predominam alvenaria com reboco representam 66,1% (801/1211) da amostra, seguida por alvenaria sem reboco com 27,1% (328/1211) do total. Telhas são utilizadas como teto em todas as casas da área de estudo.
A Tabela 2 mostra os índices de infestação das cinco capturas realizadas no período do estudo. A única redução de infestação significante foi da pesquisa inicial (pré- borrifação) para a 1ª avaliação (6 meses), em ambientes intradomiciliares de 12% para 2,1% (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 16.4121, df = 1, P = 0.00; Fisher's exact test = 0.00), no peridomicílio de 30,3% para 13% (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 13.9036, df = 1, P = 0.00; Fisher's exact test = 0.00) e nas UDs de 39,8% a 14,6% (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 22.4444, df = 1, P = 0.00; Fisher's exact test = 0.00). O contrário ocorreu da 1ª avaliação (6 meses) para a 2ª (14 meses) onde o aumento da infestação foi estatisticamente significante em todos os ambientes: intradomicílio de 2,1% a 7,4% (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 6.8165, df = 1, P = 0.009; Fisher's exact test = 0.10); no peridomicílio de 13% a 28% (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 11.0231, df = 1, P = 0.001; Fisher's exact test = 0.001) e na UD de 14,6% para 34,2% (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 15.1659, df = 1, P = 0.00; Fisher's exact test = 0.00). Ao compararmos as infestações da 1ª captura com as das 3ª, 4ª e 5ª não houve variação estatística em nenhum dos ambientes: intradomicílio (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 5.5903, df = 3, P = 0.133; Fisher's exact test = 0.133); peridomicílio (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 0.6068, df = 3, P = 0.895; Fisher's exact test = 0.897) e UD (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 1.8124, df = 3, P = 0.612; Fisher's exact test = 0.614). Foram pesquisados 2007 ecótopos peridomiciliares nas cinco capturas, 355 (17,7%) foram positivos.
T. b. brasiliensis foi a espécie com o maior número de exemplares capturados na
unidade domiciliar com 66,4% (1.928/2.906), o T. pseudomaculata correspondeu a 33,4% (971/2.906). Além destes, seis exemplares adultos de Panstrongylus lutzi e um de Rhodnius
nasutus foram capturados. No ambiente silvestre foram capturados 1.077 T. b. brasiliensis.
O intradomicílio foi o ambiente com o maior índice de infecção para tripanosomatídeos 10,3% (18/175), seguido pelo ambiente silvestre 3,3% (32/979) e peridomicílio 3,1% (51/1.629). Dentre os insetos infectados, 97% (98/101) eram T. b. brasiliensis, cujos índices variaram de 3,3% (32/979) no ambiente silvestre a 11,1% (18/162) no intradomicílio (Tabela 3 e Figura 2A). Na Figura 2B e 2C observa-se a variação da quantidade de triatomíneos
capturados e infecção natural por espécie e local de captura. O T. b. brasiliensis destaca-se amplamente, sendo encontrado no intra e peridomicílio em todas as ocasiões, e só não apresentou infecção natural na 1ª avaliação (6 meses). O número de T. b. brasiliensis capturados no ambiente silvestre (Figura 2D) segue a mesma tendência dos capturados na UD. O incremento nos insetos capturados em 2015 no ambiente silvestre deve-se a inclusão de novos locais de captura.
A Figura 3 descreve os índices de infestação e colonização de T. b. brasiliensis e
T. pseudomaculata por local de captura. Os padrões observados para esses indicadores
(Figura 3A e 3B) são fortemente influenciados pelos valores de T. b. brasiliensis (Figura 3C e 3D), cuja reinfestação se reestabelece aos níveis da pré-borrifação com apenas 14 meses após a intervenção química, independente do ambiente. Para o T. pseudomaculata a infestação intradomiciliar (Figura 3E e 3F) só reaparece aos 20 meses após a borrifação inicial, em níveis significantes quando comparados aos da pré-borrifação 2% e 0,4%, respectivamente (Pearson‟s Chi-square test: χ2 = 4.8130, df = 1, P = 0.028; Fisher's exact test = 0.062). Embora a redução da infestação peridomiciliar na 1ª avaliação (6 meses) seja significante para as duas espécies, de 23,6% - 6,7% para T. b. brasilienses e 18,4% - 9,2% para T. pseudomaculata (Figura 3C e 3E), a população do T. b. brasilienses respondeu com maior intensidade ao controle químico do que o T. pseudomaculata. Ao observar a tendência dos índices de infestação (Figura 3C e 3E), as duas espécies se comportam de maneira contrária, enquanto os índices do T. b. brasiliensis sobem, os do T. pseudomaculata desce.
A estrutura populacional dos triatomíneos capturados é mostrada na Figura 4. A superioridade numérica de T. b. brasiliensis no intra e peridomicílio são evidentes em ninfas e adultos. A flutuação populacional de T. b. brasiliensis no intradomicílio mostra predominância de ninfas no primeiro semestre, enquanto nas capturas ocorridas no segundo semestre a maior parte da população é de adultos (Figura 4E). No peridomicílio para as duas espécies o comportamento é semelhante, com predominância de ninfas em todas as capturas (Figura 4H e 4I). O impacto da borrifação foi sentido por adultos e ninfas de ambas as espécies no ambiente intradomiciliar e peridomiciliar, mas o tempo de recolonização foi diferente, T. b. brasiliensis retornou aos índices de infestação iniciais após 14 meses da aplicação do inseticida em ambos os ambientes, enquanto as infestações por T.
pseudomaculata se restabeleceram apenas no peridomicílio, como mostrado anteriormente.
A contribuição relativa de cada tipo de ecótopo para o total de áreas infestadas da captura pré-borrifação para a 4ª avaliação aumentou em telhas, tijolos e pedras, madeira e outros, mas reduziu em galinheiros e chiqueiro (de 6,1% a 3,8%) (Tabelas 2 e 4). A Tabela 5
mostra que a densidade média de triatomíneos por local de captura aumentou em telhas, tijolos e pedras, madeira e outros. E diminuiu no intradomicílio, nos galinheiros e chiqueiros. Para T. b. brasiliensis a densidade média aumentou em todos os ecótopos com exceção do intradomicílio e telhas, tijolos e pedras. Para T. pseudomaculata aumentou em galinheiros e madeira, reduzindo para os restantes dos ecótopos. T. b. brasiliensis e T.
pseudomaculata compartilharam telhas, tijolos e pedras, galinheiros e madeira em três das
cinco capturas. A densidade média de triatomíneos para esses compartilhamentos de ecótopos foi bastante variável de 2 a 44 (12,2±13,7) em outros e telhas, tijolos e pedras, respectivamente.
As figuras 5 a 7 mostram a distribuição espacial da abundância de triatomíneos,
T.b. brasiliensis e T. pseudomaculata, respectivamente, por época de captura. O processo de
reinfestação é disperso e embora discreto já é perceptível nos primeiros 6 meses após a borrifação inicial. Aos 14 meses, atinge todas as localidades trabalhadas, e assim permanece nas capturas subsequentes. Apesar da realização da borrifação residual nas UDs positivas conforme preconiza o PCDCh. Para T. b. brasiliensis esse processo é demonstrado de forma mais acentuada.
Entre a primeira e a quarta avaliação há uma oscilação na quantidade de ecótopos reinfestados, 4 (6 meses), 14 (14 meses), 9 (20 meses) e 11 (78 meses). O intradomicílio foi o único ecótopo que reinfestou em todas as ocasiões, respondendo por 47,4% (18/38) destas. Em 61% (11/18) dos intradomicílios reinfestados, esse processo ocorreu apenas uma vez, em dois domicílios ocorreu duas vezes e um domicílio reinfestou em três das quatro avaliações realizadas. No ambiente peridomiciliar, galinheiros (21%) e telhas, pedras e tijolos (15,8%) foram os mais importantes. Assim como no intradomicílio, a maioria dos ecótopos peridomiciliares reinfestaram uma única vez, mas em dois galinheiros e uma “telhas, pedras e tijolos” esse processo aconteceu em duas das quatro avaliações. O T. b. brasiliensis foi a espécie presente em 71% (27/38) das reinfestações, o T. pseudomaculata em 26,3% e em apenas 2,6% ocorreu reinfestação de forma simultânea para essas espécies (Tabela 6). Embora o T. b. brasiliensis esteja mais disperso nos ecótopos reinfestados, a quantidade de espécimes de T. pseudomaculata por ecótopo reinfestado foi maior. A mediana das distâncias dos ecótopos peridomiciliares positivos em relação a casa variou para T.b.
brasiliensis de 9m (78 meses) a 13m (14meses), para T. pseudomaculata essa variação foi
de 9,5m (pré-avaliação) a 14 m (6 meses). Ao considerar todos os períodos de captura a mediana foi de 11m para as duas espécies.
Discussão
No presente estudo, descrevemos os principais indicadores da vigilância entomológica da doença de Chagas e correlacionamos a abundância de triatomíneos com análise espacial, a fim identificar a existência de padrões de infestações e reinfestações por triatomíneos em Tauá (CE), semiárido do Nordeste do Brasil. O PCDCh preconiza ciclos de pesquisa ativa de triatomíneos em áreas de alto risco de transmissão domiciliar da doença de Chagas (31). Devido a limitações operacionais e estruturais, nem sempre as programações pactuadas são executadas, prática que favorece a reconstituição das populações de triatomíneos autóctones (12, 17, 24).
É reconhecido e esperado que as taxas de infestação, colonização e infecção por tripanosomatídeos em ambiente domiciliar reduzam ao longo do tempo se as áreas de risco forem submetidas a tratamentos repetidos por inseticidas residuais (32, 33). Os índices aqui descritos mostram que o T. b. brasiliensis reinfesta aos níveis da pré-borrifação com apenas 14 meses após a intervenção química, independente do ambiente. O ambiente peridomiciliar, embora tenha reduzido significativamente sua infestação após seis meses da borrifação inicial, esta permanece acima de 6%, e semelhante para T. b. brasiliensis e T.
pseudomaculata. A existência de ecótopos peridomiciliares em condições complexas pode
ser um fator determinante na permanência de colonização por triatomíneos, que se refugiam em locais inacessíveis na busca de focos e na borrifação realizada pelos agentes de endemias. Além disso, é necessário reconhecer e enfrentar o desafio relativo à técnica utilizada na rotina para detectar o triatomíneo quando ele está presente, reconhecidamente limitada, podendo falsear dados de ausência de infestação (34).