3.3 Les fonctions
3.3.2 Les
semiárido do Nordeste do Brasil utilizando microssatélite.
Objetivo:
Caracterizar a dinâmica de infestação e reinfestação de Triatoma brasiliensis no município de Tauá (CE), semiárido nordestino, nos anos de 2009, 2010 e 2015 utilizando marcadores microssatélites.
Revista Proposta: Infection, Genetics and Evolution Título Resumido: Microssatélite T. brasiliensis
Título: Variabilidade genética de Triatoma brasiliensis brasiliensis Neiva, 1911 do
semiárido do Nordeste do Brasil utilizando microssatélite.
Autores:
Claudia Mendonça Bezerra¹,3§([email protected]) Carlota Josefovicz Belisário²§ ([email protected]) Grasielle Caldas D‟avilla Pessoa4 ([email protected]) Aline Cristine Luiz Rosa² ([email protected])
Carla Patrícia Barezani² ([email protected]) Flávio Campos Ferreira² ([email protected]) Alberto Novaes Ramos Júnior¹ ([email protected])
Ricardo Esteban Gürtler5 ([email protected]) Liléia Doitaiuti³/+ ([email protected])
¹ - Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, Brasil
² - Laboratório de Triatomíneos e Epidemiologia da Doença de Chagas, Instituto René Rachou / FIOCRUZ – MG, Belo Horizonte-MG, Brasil
³ - Secretaria da Saúde do Estado do Ceará, Fortaleza-CE, Brasil 4– Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte-MG, Brasil 5 - Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina
§ Igual contribuição
+ - Endereço do autor correspondente: Laboratório de Triatomíneos e Epidemiologia da Doença de Chagas, Centro de Pesquisas René Rachou-Fiocruz, Av. Augusto de Lima
1715, 30190-009 Belo Horizonte, MG, Brasil. Email: [email protected].
Resumo
Na região de caatinga do Nordeste brasileiro o Triatoma brasiliensis brasiliensis Neiva, 1911 é a principal espécie transmissora do Trypanosoma cruzi e apesar de sua comprovada importância epidemiológica poucos são os estudos que tratam da variabilidade genética nesta espécie. Utilizando marcadores microssatélites este trabalho se propôs a caracterizar a dinâmica de infestação e reinfestação de T. b. brasiliensis. 649 insetos foram genotipados. O valor de Fst global foi 0.01 (p=0.98), indicando existir fluxo gênico entre os insetos domiciliares e silvestres. Considerada uma única população, o número de alelos por locus variou de 7 a 25. Todas as populações apresentaram desequilíbrio de Hardy-Weingerg por déficit de heterozigozidade. Os índices de fixação gerais estimados por AMOVA foram: Fit= 0.19 (p= 0.00); Fst= 0.00 (p= 0.64) e Fis= 0.19 (p= 0.00). O pairwise Fst variou de zero a 0.01. A maior variabilidade intragrupo (Fis) foi observada em agosto/2015 (0.82), a menor em outubro/2010 (0.43). Os grupos referentes à primeira, quarta e quinta captura apresentaram uma estrutura de endogamia e desvio do equilíbrio de Hardy-Weinberg (p<0.05). Resultados para a reinfestação mostraram que os índices de fixação globais foram: Fst= 0.02 (p= 0.82); Fis= 0.15 (p= 0.00); e Fit= 0.17 (p= 0.00), comparações pairwise de Fst, evidenciaram diferenciação entre o grupo da UD13/2010, UD14/2015 e dos indivíduos provenientes do ambiente silvestre. As populações capturadas nas UDs 13 e 14/2015 demonstraram não haver fluxo gênico entre si. O grupo oriundo do ambiente silvestre foi o único a apresentar estrutura populacional. Focos residuais de triatomíneos após borrifação e a frequente invasão de insetos silvestres nas unidades domiciliares são os responsáveis pela reinfestação desses locais, evidenciando a importância de T. b. brasiliensis no contexto epidemiológico da infecção pelo
T. cruzi no semiárido nordestino. Assim como a necessidade de um sistema de contínua
vigilância vetorial, estruturados para identificar e eliminar os focos existentes e prevenir o ingresso de triatomíneos silvestres nos domicílios.
Patrocínio: Ao apoio financeiro do TDR/WHO (ID A70596), CNPQ, IRR/Fiocruz Minas,
SVS/MS, CAPES (23038.001614/2016-52), SES-CE.
Introdução
A doença de Chagas é uma infecção de curso crônico que tem como agente etiológico o protozoário Trypanosoma cruzi (Chagas, 1909) (Protozoa, Sarcomastigophora, Kinetoplastida, Trypanosomatidae). Considerada uma doença negligenciada pela Organização Mundial de Saúde possui na pobreza a sua sustentabilidade (Schmunis and Yadon, 2010; WHO, 2015). Estima-se a existência de 5,7 milhões de pessoas infectadas no mundo e outras 70 milhões sob risco de adquirir a infecção (WHO, 2015). No Brasil, sugere-se 1,1 milhões de infectados predominando casos crônicos (Dias, 2007; WHO, 2015).
Atualmente são descritas 65 espécies de triatomíneos no Brasil, 28 (43%) estão no Nordeste, com 20 (71%) encontradas no ambiente intradomiciliar, demonstrando capacidade de invasão e muitas vezes de domiciliação por parte desses vetores (Galvão, 2014; Justi and Galvao, 2017; Schofield and Galvao, 2009). Na região de caatinga do Nordeste brasileiro o
Triatoma brasiliensis brasiliensis Neiva, 1911 é a principal espécie transmissora do T. cruzi
com ampla distribuição geográfica, altos percentuais de infecção natural, potencial invasivo e ocupando lugar de destaque no ciclo doméstico, peridomiciliar e silvestre de T. cruzi (Costa et al., 2003; Dias et al., 2000; Forattini et al., 1981; Lilioso et al., 2017; Sarquis et al., 2006). No ambiente silvestre, T. b. brasiliensis é encontrado normalmente em afloramentos rochosos cristalino, associado principalmente a roedores, marsupiais e quirópteros (Alencar, 1987; Bezerra et al., 2014; Borges et al., 2005; Carcavallo et al., 1997). É uma espécie voraz, com elevado ecletismo alimentar e oportunista, possibilitando colonizar uma série de ecótopos nos mais diversos ambientes (Bezerra et al., 2014; Catala et al., 2015; Schofield et al., 1999).
Apesar da comprovada importância epidemiológica do T. b. brasiliensis, poucos são os estudos investigando a variabilidade genética nesta espécie (Almeida et al., 2016; Almeida et al., 2008; Borges et al., 2000; Costa et al., 1997; Oliveira et al., 2017). Dentre as ferramentas disponíveis, os marcadores microssatélites revelam-se de elevada importância, considerando seu alto polimorfismo genético (Harry et al., 2009). Os microssatélites ou Short
Tandem Repeats (STR) são pequenas sequências de DNA (2 a 6 pares de base) repetidas
em tandem, que são amplamente encontradas em regiões codificantes e não codificantes do genoma (Ferreira and Grattapaglia, 1998). Os marcadores STR apresentam padrão de herança codominante, são altamente polimórficos e facilmente amplificáveis por PCR, sendo
utilizados para resolver questões relacionadas à estrutura, diversidade e conservação gênica em populações de animais (Balloux and Lugon-Moulin, 2002; Martins et al., 2006). Para triatomíneos, os microssatélites têm sido úteis para entender a genética populacional de diversas espécies como Rhodnius pallescens Barber, 1932 (Harry et al., 1998), Triatoma
dimidiata Latreille, 1811 (Anderson et al., 2002), Triatoma infestans Klug, 1834 (Garcia et
al., 2004; Marcet et al., 2006), Triatoma pseudomaculata Correa and Espinola, 1964 (Harry et al., 2008a), Rhodnius prolixus Stål, 1859 (Fitzpatrick et al., 2008; Harry et al., 2008b),
Rhodnius robustus Larrousse, 1927 (Harry et al., 2008b), T. brasiliensis (Almeida et al., 2016;
Harry et al., 2009) e Triatoma sordida Stål, 1859 (Belisario et al., 2015). Além dos estudos populacionais, essa ferramenta tem colaborado com o entendimento nos processos de infestação e reinfestação de ambientes domiciliares após a aplicação de inseticidas residuais (Foley et al., 2013; Garcia et al., 2004; Harry et al., 2008a; Harry et al., 2008b; Marcet et al., 2008; Piccinali and Gurtler, 2015).
Este trabalho se propôs a caracterizar a dinâmica de infestação e reinfestação de
Triatoma brasiliensis no município de Tauá (CE), semiárido nordestino, nos anos de 2009,
2010 e 2015 utilizando marcadores microssatélites.
Material e Método
Desenho e área de estudo
Estudo transversal descritivo desenvolvido no município de Tauá (CE), localizado no sertão dos Inhamuns (24M 356918, 9336320), distando 320 km de Fortaleza, a uma altitude de 402,7. A temperatura média varia entre 26ºC e 28ºC e pluviometria média de 597,2mm3, com período chuvoso de fevereiro a abril (Ceará, 2017) (Figura 1). Está inserido em uma região de caatinga arbustiva-arbórea, onde predomina árvores e arbustos espinhosos, densos, baixos, retorcidos, de aspecto seco, de folhas pequenas, xerófilas e raízes muito desenvolvidas, refletindo os fatores climáticos marcantes dessa região (Figura 2). A presença de solos rasos, pedregosos e com deficiência hídrica na maior parte do ano são características predominantes (Fernandes, 2008; Leal et al., 2005; Oliveira, 2006). Nesse contexto, vivem pequenos mamíferos, répteis e insetos, incluindo T. brasiliensis, que possui na caatinga seu ecótopo natural (Forattini, 1980).
A pesquisa triatomínica domiciliar foi realizada de forma manual de acordo com Manual Técnico (BRASIL, 1980) pela equipe municipal de agentes de controle de endemias de forma exaustiva em 252 unidades domiciliares (UDs) de 18 localidades rurais, cujo último controle químico residual para triatomíneos havia ocorrido há 24 meses do início do estudo.
As UDs foram pesquisadas em cinco períodos: fevereiro de 2009; agosto de 2009; abril de 2010; outubro de 2010 e agosto/2015, representados por 2009a, 2009b, 2010a, 2010b e 2015, respectivamente. A UD representa a unidade epidemiológica no controle vetorial da doença de Chagas, constituída da habitação humana (intradomicílio) e o seu entorno (peridomicílio), com todas as edificações permanentes, temporárias, cercas, acúmulos de matérias, abrigos de animais, etc (BRASIL, 1980).
Para a pesquisa triatomínica silvestre foram escolhidos nove locais que apresentavam conglomerados rochosos típicos do ecótopo natural do T. brasiliensis. Dentre estes, três foram amostrados nos cinco períodos de captura citados acima e seis deles contribuíram com insetos da última captura. As distâncias dos ecótopos silvestres em relação aos domicílios variaram de 94m em MPC a 1.331m em JUA, com valor médio de 394,6m. Os insetos foram capturados de forma manual, ao anoitecer, com auxílio de lanterna (Figura 1).
Microssatélites
Com o objetivo de verificar a existência de clusterização na área estudada os
insetos capturados em 2009 e 2010, foram agrupados de acordo com a localidade de captura. Para essa análise a amostra foi constituída de insetos provenientes de dez das dezoito localidades com pesquisa domiciliar (BHA, BI, Can, CJ, M, MNP, MNT, SBI, SC e VT) e três locais com pesquisa silvestre (CJ, ME e MPC) (Arquivos adicionais: Suplemento 1). Em um segundo momento foram formadas cinco amostras com triatomíneos provenientes de 27 locais de captura agrupadas de acordo com o período de captura, independente da localidade e ecótopo. A amostra 2009a está representada por 12 locais, a 2009b por nove, a 2010a por 15, a 2010b por dez e a captura de 2015 por 25 locais (Arquivos adicionais: Suplemento 2). Por fim, foi possível observar com maior detalhe o processo de reinfestação do peridomicílio de duas UDs (13 e 14) da localidade de Cachoeira do Júlio (CJ). Para esta última análise foram constituídos os seguintes agrupamentos de acordo com o local e data de captura: I) oito triatomíneos capturados em outubro de 2010 na UD 13; II) cinco em agosto de 2015 na UD 13; III) oito em outubro de 2010 na UD 14; IV) oito em agosto de 2015 na UD 14; e V) 15 em agosto de 2015 no ambiente silvestre (Arquivos adicionais: Suplemento 3). Para todas as observações foi considerado um número mínimo de cinco indivíduos para cada grupo, requisito para a análise de Variância Molecular (AMOVA) (Excoffier et al., 2005; Excoffier et al., 1992).
A extração do DNA genômico foi realizada a partir de duas patas de cada espécime com o Wizard® Genomic DNA Purification Kit (Promega), seguindo as
recomendações do fabricante. O DNA foi quantificado individualmente em NanoDrop 1000 Spectrophotometer (Thermo Scientific) e armazenado a -20oC.
Foram testados iniciadores para nove loci de microsatellites previamente descritos para T. brasiliensis: Tb728, Tb830, Tb860, Tb7180, Tb8112, Tb8124 (Harry et al., 2009), Tb2146, Tb8102 e Tb8150 (Almeida et al., 2016; Harry et al., 2009). Para as Reações em Cadeia da Polimerase (PCR) foi realizada em um volume final de 10 μL contendo: 1 unidade de Platinum® Taq DNA Polymerase (Invitrogen), 1x tampão, 1.5 mM de MgCl2, 1 mM de dNTP, 5 pmoles para cada iniciador, 2 ng de DNA e água ultrapura. Os iniciadores diretos foram marcados com uma sonda bioluminescente. As reações foram realizadas num termociclador Veriti® 96-Well (Thermo Fisher Scientific) com o seguinte ciclo: desnaturação inicial a 95°C durante cinco minutos, 28 ciclos a 94°C durante 30s, temperatura de recozimento dependente do iniciador durante 30s, extensão de 72°C por 45s, seguido por extensão final a 72°C durante cinco minutos. As temperaturas de recozimento foram de 48°C para Tb860; 54°C para Tb8112; 52°C para Tb 2146; 56°C para Tb8102; TD (touchdown: redução de temperatura de recozimento incremental): 60→50°C, e 58°C para Tb728, Tb830, Tb7180, Tb8124.
Para determinar o tamanho dos loci, os produtos de PCR foram diluídos a 1:10 em água ultrapura com um padrão de tamanho GeneScan® 500 LIZ® (Thermo Fisher
Scientific) e genotipados no sequenciador ABI 3730 (Applied Biosystem®). Os
cromatogramas foram visualizados e analisados usando o software Geneious 10.1.2© software (Biomatters Limited).
Para cada locus foi calculado o número e o tamanho dos alelos, bem como a heterozigosidade observada (Ho), heterozigosidade esperada (He) e equilíbrio de Hardy- Weinberg (HW) (Arlequin versão 3.1; (Excoffier et al., 2005)). A possibilidade de ocorrência de alelos nulos foi verificada usando o programa (Micro-Cheker 2.2.3 Software) e essas frequências para cada locus por população foram calculadas por (GENEPOP) (Raymond and Rousset, 1995; Rousset, 2008).
A partir da AMOVA foram obtidas as proporções da variabilidade global, entre as populações e intrapopulacional na variação total. Além disso, foram calculados, respectivamente, os índices de fixação: Fit, Fst e Fis; a variação genotípica entre os pares de população (pairwise Fst) e intrapopulacional (Fis). Para os testes foi considerada significância de 5% e perda máxima de 5% de alelos amplificados. Todas essas análises foram realizadas utilizando o programa Arlequin versão 3.1 (Excoffier et al., 2005). Para a
análise de reinfestação na localidade de Cachoeira do Júlio, foi construída uma árvore UPGMA a partir da distância genética Fst (POPTREEW) (Takezaki et al., 2014).
Resultados
Para a amostra estudada, seis dos nove pares de iniciadores testados amplificaram loci de microssatélites. Os descritos por Almeida et al. (2016) não amplificaram. O locus Tb8112 apresentou-se monomórfico e foi excluído das análises.
Variabilidade populacional
A diferenciação entre os 12 locais amostradas nos períodos de 2009 e 2010 representou apenas 0.76% da variabilidade total indicada pela AMOVA. Entre os indivíduos de uma mesma localidade a proporção foi 19.80% e entre todos os indivíduos amostrados foi de 79.43%. O valor de Fst global foi 0.01 (p=0.98), indicando existir fluxo gênico entre os T.
brasiliensis da área estudada. Os valores de pairwise Fst corroboram com a ausência de
clusters (Tabela 2). Frente a estes resultados, a amostra foi tratada como uma população única e realizada a análise considerando-se os períodos de captura para avaliar a dinâmica de reinfestação.
Dinâmica de reinfestação
Foram genotipados 649 triatomíneos, 98 destes capturados em fevereiro de 2009, 53 em agosto de 2009, 103 em março de 2010, 75 em outubro de 2010 e 320 do ano de 2015. O número de alelos por locus variou de sete (Tb860) a 25 (Tb8124), e a média por população foi de 10.60 (2010a) a 13.40 (2015) (Tabela 3).
Todas as populações apresentaram desequilíbrio de Hardy-Weingerg por déficit de heterozigozidade. O mesmo foi observado quando avaliados os loci, exceto para Tb860 (Tabela 4). A probabilidade de alelos nulos esteve em todos os loci, as menores frequências foram observadas em Tb860 (Tabela 5). Os valores de Ho e He estão detalhados na Tabela 5.
Quanto à variação calculada pela AMOVA, grande parte está entre os indivíduos (81.26%), seguida da variação intragrupo (18,51%), e entre os grupos, onde a variabilidade foi de apenas 0.23%. Os índices de fixação gerais foram: Fit= 0.19 (p= 0.00); Fst= 0.00 (p= 0.64) e Fis= 0.19 (p= 0.00). O pairwise Fst variou de zero a 0.01. O grupo da terceira captura (outubro de 2010) apresentou-se diferenciado da primeira. A amostra representativa de 2015 foi diferente da de fevereiro de 2009, e das duas de 2010 (p<0.05) (Tabela 6). A maior variabilidade intragrupo (Fis) foi observada na captura de 2015 (0.82), a
menor na quarta captura, em outubro de 2010 (0.43). Os grupos referentes à primeira, quarta e quinta captura apresentam uma estrutura de endogamia e desvio do equilíbrio de Hardy- Weinberg (p<0.05) (Tabela 6).
Dinâmica de reinfestação na localidade de Cachoeira do Júlio
O número de alelos por loci variou de cinco (Tb860) a 13 (Tb7180). O grupo que apresentou maior média de número de alelos por locus foi o proveniente do ambiente silvestre (6.40), e o com menor variabilidade foi o oriundo da captura na UD 13 em 2015 (Tabela 7).
Poucos eventos de desequilíbrio de Hardy-Weinberg foram observados quando consideradas as heterozigozidade observada e esperada (Tabela 8). 83.41% da variabilidade total da amostra estão entre os todos os indivíduos, 14.18% intragrupo e 2.41% entre os grupos. Os índices de fixação globais foram: Fst= 0.02 (p= 0.82); Fis= 0.15 (p= 0.00); e Fit= 0.17 (p= 0.00). Quanto às comparações par a par de Fst, o grupo da UD13 capturado em 2010 diferenciou-se dos da UD14 capturado em 2015 e também dos indivíduos provenientes do ambiente silvestre; outras duas populações que demonstram não haver fluxo gênico, são as capturadas em 2015 nas UDs 13 e 14. O único grupo que apresentou estrutura populacional foi o oriundo do ambiente silvestre (Tabela 9). Na Figura 3, a relação genética entre os grupos pode ser melhor observada. A reinfestação observada na UD 13 encontra-se em um braço independente dos demais, sendo os grupos mais próximos o proveniente do ambiente silvestre e o da reinfestação da UD14, ambos capturados em 2015.
Discussão
Os marcadores de microssatélites têm se mostrado uma ferramenta adequada para estudos de dinâmica populacional de triatomíneos. Tais resultados podem auxiliar na definição de estratégias efetivas de controle vetorial (Almeida et al., 2016; Breniere et al., 2013; Dias et al., 2011; Fitzpatrick et al., 2008; Foley et al., 2013; Garcia et al., 2013; Harry et al., 2000; Marcet et al., 2008; Perez de Rosas et al., 2008; Perez de Rosas et al., 2007; Piccinali and Gurtler, 2015; Pizarro et al., 2008). Estudos de fluxo gênico podem contribuir para a compreensão do processo de domiciliação de vetores autóctones como o T. brasiliensis que possui grau de adaptabilidade a ecótopos artificiais de forma semelhante a que ocorre no ambiente natural, característica que determina a sua condição de vetor de importância epidemiológica do T. cruzi no semiárido nordestino (Dias et al., 2000; Forattini et al., 1981; Harry et al., 2000; Lorenzo et al., 2000). Na caatinga, a vida dos habitantes e a produção
agropecuária são dependentes dos recursos naturais da região. Os sertanejos dela retiram produtos e serviços que possibilitam a vida no semiárido. Processo de ocupação que degrada e transforma o ambiente estreitando as relações do ser humano com diversos organismos (Meunier and Ferraz, 2005), dentre eles os hospedeiros e vetores de T. cruzi (Alencar, 1987; Forattini, 1980).
Os loci de microssatélites utilizados neste trabalho (Harry et al., 2009) foram previamente utilizados para estudos populacionais de T. brasiliensis provenientes do estado do Rio Grande do Norte, nordeste brasileiro (Almeida et al., 2016). Almeida et al. (2016) ainda descrevem e utilizam outros três marcadores microssatélites para T. brasiliensis, o que dificulta a comparação direta dos resultados.
O tamanho dos alelos do presente estudo condiz com os anteriores (Almeida et al., 2016; Harry et al., 2009). O locus Tb8112 também foi monomórfico para T. brasiliensis do Rio Grande do Norte. Apesar do menor número de loci utilizados, as amostras provenientes do Ceará apresentaram maior média de número de alelos se comparadas com as do Piauí, Bahia e Rio Grande do Norte (Almeida et al., 2016).
Nas três análises realizadas, a AMOVA indicou que a variação total é principalmente representada pelas diferenças individuais. A variação entre os grupos teve uma representação bastante baixa, indicando que são iguais, sem estrutura genética. Os valores de Fst menores que 0.05 indicam pouca variação genética (Weir and Cockerham, 1984; Wright, 1951) e corroboram com os resultados acima mencionados.
A ausência de clusterização observada nas localidades de Tauá indica que se trata de uma população pan-mítica, com livre fluxo gênico. Desta forma, tornou-se importante investigar se os triatomíneos achados após a borrifação com inseticida também apresentavam a mesma estrutura genética. A grande quantidade de alelos com déficit de heterozigozidade provavelmente não seja devido à existência de alelos nulos, uma vez que a probabilidade de sua ocorrência é baixa. É possível que o desequilíbrio de Hardy-Weinberg seja devido à persistência da infestação por indivíduos sobreviventes à borrifação e o consequente aumento de endocruzamentos. A existência de endocruzamentos foi evidenciada pelos valores de Fis com p ≤ 0.05 referentes aos grupos 2009a, 2010b e 2015.
Apesar do Fst global indicar falta de estruturação populacional, a comparação deste índice par a par permitiu o aprofundar no entendimento da dinâmica populacional. Não foi observada diferenciação genotípica quando comparados par a par (Fst) os quatro primeiros períodos, exceto o primeiro (fevereiro de 2009) em relação ao último (outubro de 2010). Essa homogeneidade pode ser entendida devido ao grande fluxo gênico de T.
brasiliensis nesta região. Esta espécie é conhecida pela sua ampla capacidade de dispersão e
colonização de ecótopos domiciliares (Catala et al., 2015; Diotaiuti et al., 2000; Lorenzo et al., 2000; Oliveira-Lima et al., 2000; Rabinovich et al., 2011). A diferença entre a primeira e a última captura, considerando o período entre 2009 e 2010, pode ser explicada pela supressão de indivíduos pelas três borrifações anteriores e ingresso de novos exemplares T.
brasiliensis durante os 20 meses que separam essas duas amostragens. Entretanto, fica
marcada a diferenciação entre a captura ocorrida em agosto de 2015 com as demais. Diferenciação esta esperada, visto que nestes quase quatro anos de intervalo o controle químico não ocorreu de forma sistematizada, possibilitando uma reestruturação populacional. Microssatélites se mostram mais uma vez como um marcador altamente sensível para análises profundas de dinâmica populacional. O dendograma representativo de Fst das amostras da localidade Cachoeira do Júlio deixa claro que, apesar de geograficamente próximas (45m) e interligadas por diversas estruturas peridomiciliares, as duas UDs possuem fontes de infestação distintas. A UD 13 provavelmente sofreu um processo de reinfestação após outubro de 2010, considerando a clara separação dos dois grupos. As duas capturas da UD 14 se associam fortemente à amostra do ambiente silvestre, sobretudo a segunda, distantes entre si aproximadamente 1.300m. Pode-se concluir que a infestação desta UD foi persistente, para a qual concorreram os focos residuais e invasões contínuas de triatomíneos a partir do foco silvestre. Ainda nesta análise, vale ressaltar a significância (p≤0.05) do Fis da amostra silvestre. Este fato demonstra a endogamia deste grupo, revelando a ausência de fluxo de indivíduos do ambiente artificial para o natural.
Comprovadas infestações a partir de focos residuais e de reinfestação por triatomíneos silvestres como aqui mostrado, enfatizam a importância do aprimoramento de métodos para um sistema de contínua vigilância vetorial, estruturados para identificar e eliminar os focos existentes, bem como prevenir o ingresso de triatomíneos silvestres nos domicílios.
Conflito de interesse
Os autores declaram que não há conflito de interesses.
Agradecimentos: Ao município de Tauá, a 14ª Coordenadoria Regional de Saúde – Tauá (CE) em especial a Maria Dulce Feitosa (Coordenadora) e José Silvério do Nascimento
Júnior. Ao Núcleo de Controle de Vetores da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. Agradecemos aos técnicos da Plataforma de Sequenciamento de DNA do IRR/Fiocruz Minas.
Contribuição dos autores