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Nascida na literatura e posteriormente estendendo-se ao cinema e aos quadrinhos, as histórias do gênero de ficção científica são compostas por narrativas extraordinárias e impensáveis pela maioria das pessoas, mas habilidosamente concebidas por escritores criativos. A ficção científica tem na ciência sua grande fonte de inspiração; a maioria das histórias caracteriza-se por narrativas projetadas no futuro, nas quais são criados cenários que propõem invenções e descobertas possíveis ou impensáveis, a vida em uma sociedade tecnológica semelhante ou diferente da contemporânea, novas tecnologias e a interação do ser humano com essas novidades. Cunha (1974, p. 18), brasileiro que escreveu diversas obras sobre a ficção científica no Brasil, afirma que a ficção científica está vinculada a nossa realidade contemporânea e que “é impossível pensar na ficção científica unicamente como uma diversão ou algo desligado da nossa realidade presente. Ela é a ficção do ‘choque do futuro’”.

Surgida no século XIX, principalmente devido às condições propícias proporcionadas pela Revolução Industrial e pelos avanços tecnológicos da época, as histórias de ficção científica ganharam impulso principalmente devido às invenções tecnológicas e aos desenvolvimentos científicos que ocorreram durante a Revolução Industrial. Como afirma Fátima Régis de Oliveira (2005, p. 116), alguns elementos propiciaram o desenvolvimento bem-sucedido do gênero e são eles “o desenvolvimento tecnocientífico como desencadeador de mudanças, o sujeito como modo de ser do homem e a mudança como possibilidade de sonhar com o futuro”, que “forneceram o terreno fértil para a narrativa de ficção científica”. De acordo com Alice Fátima Martins (2004, p. 34), as revistas de ficção científica e o próprio gênero literário e cinematográfico ganharam projeção maior no século XX principalmente devido a dois fatores:

Em primeiro lugar, o avanço científico e tecnológico ocorrido desde o início do século XX, impulsionado pela disputa entre as nações industriais, levou à deflagração das duas Guerras Mundiais, cujas terríveis fisionomias superaram em muito a maioria de fantasias imagináveis nos séculos anteriores, servindo de fonte inspiradora para toda uma nova geração de escritores do gênero científico-ficcional. A segunda razão está relacionada à instalação, à época, da indústria cultural, da literatura de massa que, posteriormente, encontrou, na indústria cinematográfica, um veículo imbatível para veicular e vender a públicos de todo o mundo suas metáforas e fantasias. Ou seja, é no contexto de pleno desenvolvimento da ciência moderna na sociedade industrial- capitalista que floresce a literatura e o cinema classificados como ficção científica.

Apesar da divergência de fontes, a referência inicial ao termo “ficção científica” foi feita pela primeira vez em abril de 1926 pelo editor da Amazing Stories, o americano Hugo Gernsback, utilizando-se do termo scientifiction, que logo popularizou-se como science fiction posteriormente com a revista Science Wonder Stories, que teve sua primeira edição publicada em 1929. Gernsback denominou science fiction a literatura com histórias que continham elementos científicos e visão profética em sua narrativa. Em seu livro O que é ficção científica, Bráulio Tavares (1986, p. 11) ainda acrescenta que o autor americano Robert Heinlein propôs o uso do termo “ficção especulativa” (speculative ficction), uma vez que science fiction envolve “ciência” no termo, o que gera cobrança mútua entre cientistas e literatos. De acordo com André Carneiro (1967, p. 05), o termo “ficção científica” recebe diferentes nomenclaturas em outros países, como “ciencia-fiction” na Argentina, “fantascienza” na Itália e literatura de “antecipation” ou “fiction scientifique” na França.

Dentro do gênero de ficção científica foram concebidas inúmeras obras literárias e cinematográficas. Considerando que muitos filmes se apropriaram da literatura, torna-se fundamental abordar narrativas literárias que deram origem ao gênero. Concebida antes mesmo do surgimento do próprio termo science fiction, a famosa história de Frankenstein, escrita por Mary Godwin Shelley em 1818, é classificada como a primeira obra literária de ficção científica. Resumidamente, a narrativa gira em torno de um cientista que se utiliza de pedaços de cadáveres para gerar um novo ser humano, o qual foge do domínio do cientista e passa a ser perseguido pelas pessoas, tornando-se um criminoso.

Porém, muito antes de Shelley, como afirma Carneiro (1967, p. 29), o historiador e filósofo Plutarco (46 a 120 D.C.) escreveu De Facie in Orbe Lunare (Na superfície do disco lunar) pelo ano 100 d.C., uma história sobre um voo espacial, envolvendo a descrição da lua, de seus habitantes e de demônios que viajavam de lá até a terra. Ainda segundo Carneiro (1967, p. 29), outro escritor de destaque foi o francês Cyrano de Bergerac (1620-1655), que escreveu,

em 1650, a obra Voyager aux Etats et Empires de la Lune et du Soleil (Viajando para os estados e impérios da lua e do sol), na qual descreve máquinas falantes e o primeiro pára-quedas. Bergerac vai além, concebe foguetes que viajam até a lua e cria mundos semelhantes ao contemporâneo.

Outros dois autores de grande destaque na ficção científica são Júlio Verne e H. G. Wells. Júlio Verne (1828-1905) recebe a designação de “pai da ficção científica” por Carneiro (1967, p. 39), o qual afirma que as antecipações propostas por Verne foram quase todas atingidas e ultrapassadas. Verne foi o escritor que primeiro caracterizou o gênero ficção científica. H. G. Wells (1866-1946) que, ainda segundo Carneiro (1967, p. 41), é considerado literariamente superior a Júlio Verne, é o escritor de ficção científica responsável por ter desenvolvido alguns dos temas mais explorados pelo gênero literário, como a viagem no tempo, antecipação do futuro, exploração de outros planetas, invasão interplanetária da Terra, universos paralelos, entre outros. Algumas das obras mais conhecidas de Wells são A guerra

dos mundos e O homem invisível. A comparação entre a literatura de Wells e de Verne acontece

principalmente devido ao uso que cada um faz da ciência. Segundo depoimento de Júlio Verne referindo-se a Wells, “eu faço uso da física. Ele, a inventa. Eu chego à lua com uma bala de canhão. Não existe nenhuma fraude nisso. Ele viaja até Marte numa astronave que construiu com um metal que anula a lei da gravidade” (CARNEIRO, 1967, p. 41-42).

Dentre os escritores de ficção científica com produção literária recente está Philip Kindred Dick, conhecido pelas siglas PKD, que escreveu histórias tão inspiradoras a ponto de se tornarem filmes cinematográficos. Seu livro Do androids dream of electric sheep? (Androides sonham com carneiros elétricos?), de 1968, inspirou o filme de projeção internacional Blade Runner (Blade Runner: Perigo iminente, versão brasileira), de 1983, dirigido por Ridley Scott.

Como classificam Tavares (1986) e Oliveira (2006), a ficção científica pode ser dividida em duas fases: The Golden Age e New Wave. De 1939 a 1950, A Idade de Ouro, ou The Golden

Age, teve como grande incentivador dessa geração o editor da revista Astounding stories, John

W. Campbell. Ele revelou alguns dos principais nomes da literatura de ficção científica da época por meio de publicações na revista, como Isaac Asimov, Alfred Elton van Vogt, Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, entre outros. Durante o The Golden Age, os principais temas abordados voltaram-se para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, ou seja, demonstrava-se entusiasmo com relação ao progresso científico e à sociedade do futuro. Como Tavares (1986, p. 58) afirma, de 1960 a 1970, no período da New Wave, a literatura de ficção científica explorou formas do universo da mente humana, caracterizando-se por ser mais engajada a questões

sociais e políticas; os autores buscam uma compreensão aprofundada de questões relacionadas à ciência, à tecnologia e à própria sociedade. Além disso, muitas das obras desse período incluem androides e sua relação com os seres humanos nas narrativas.

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