Francisco Pedro Vinagre, filho de lavradores, exímio lutador nos frontes da Cabanagem, foi aclamado como 2º Presidente cabano em 21 de fevereiro de 1835. Em sua posse, diferente de Malcher que não aceitaria intromissões até a maioridade de D. Pedro II, afirmou que ficaria no cargo até a nomeação de um novo Presidente pela Regência.
Francisco Pedro Vinagre, como Presidente da Província do Grão-Pará, reintegrou os funcionários demitidos por Félix Antônio Clemente Malcher; nomeou o seu irmão, Antônio Vinagre como comandante do grupo Nacional das Forças do Castelo; fortaleceu o arsenal de guerra com soldados da Guarda Nacional; reorganizou o Corpo de Municipais e, nomeou como comandante da Primeira Companhia Geraldo Francisco Nogueira (irmão de Eduardo Angelim), para a Segunda Companhia Raimundo de Oliveira Vinagre e, para a Terceira Companhia, Manoel José da Silva Paraense; mandou pagar o soldo dos militares; ordenou segundo RAIOL (1970, p. 614):
“... que todos os cidadões, guardas nacionais, permanêntes e militares de
primeira linha depusessem as armas com que tinham combatido, a fim de desaparecer o susto e o temor derramado entre as famílias e o povo da capital, devendo êles andar armados sòmente em ocasião de serviço, ou quando a pátria se achasse em perigo”.
Francisco Vinagre garantiu aos comerciantes que reabrissem seus negócios, todo o direito de propriedade e segurança individual; para resolver o problema de finanças da Província, ordenou a circulação de moedas de cobre serrilhada que se encontravam recolhidas e em desuso.
Para CHIAVENATO (1984, p. 77):
“O desempenho de Vinagre, agora, será muito mais de organizar as formas
de poder do que buscar uma nova estrutura para retribuir às massas seus anceios - que por sinal são vagos politicamente, mas denso socialmente: um conflito difícil de ser resolvido. Naturalmente, esse comportamento também foi o de todos os presidentes da província do Pará que chegaram ao governo conduzidos por rebeliões populares . Agora, porém, tudo é mais grave, porque agudizou-se o sentimento popular. Se a massa não tém um projeto político latente, possuem uma força potencial muito grande de influir nos destinos do Pará”.
Naturalmente que, no interior da Província o clima não era de calmaria, havia cabanos e favoráveis em toda a região; e, nesta situação, amigos de Félix Clemente Malcher se armariam com receio de represálias.
Na capital, as coisas também não estavam muito favoráveis ao governo, pois surtos de cólera, o escorbuto e a varíola, começavam a proliferar entre a população, causando muitas vítimas; além de que, Francisco Vinagre encontrava o problema das desordens causadas por seus seguidores cabanos que não estavam querendo parar as perseguições aos portugueses e maçons e, de certa forma, era condescendente com estes fatos com receio de ser deposto ou perder o apoio político se contrariasse os guerrilheiros. Muitas vezes, Vinagre tentou aplacar a ira da população revoltosa, pedindo tranquilidade e dando promessas de paz e liberdade, garantindo que os portugueses e outras tropas seriam expulsos, todavia, nem sempre a população o atendia
O ato que Félix Clemente Malcher causou com a invasão da residência do Vice- Cônsul da França na Província teve repercussão no governo de Antônio Vinagre. Navios de guerra franceses exigiam retratações e compensações a danos morais sofridos pelo Vice-Cônsul francês, neste caso, queriam que a bandeira da França fosse içada acima da do Brasil e recebesse uma salva de 21 tiros de canhão, mas depois que Antônio Vinagre explicou que Félix Clemente Malcher tinha sido deposto, o comandante francês aceitou a explicação e partiu. Questiona-se: qual seria a verdadeira intenção dos franceses?
Em 17 de abril de 1835, chega à cidade de Belém, mandado pelo Presidente da Província do Maranhão Pedro da Costa Ferreira, Pedro da Cunha, com o intuito de restabelecer a “paz” e manter a Província do Pará subordinada ao Império Brasileiro,
interessante é, que, até aquele momento, nenhum ato cabano indicava separatismo do Brasil, e, sim, um nacionalismo antilusitano causado por anos de exploração sem trégua. A ajuda oferecida a Francisco Vinagre não foi aceita, pois este era um líder carismático e acreditava poder resolver os problemas da Província por si só.
Quanto à chegada de Pedro da Cunha à Província do Pará SILVEIRA (1994, p. 82) diz que:
“Pedro da Cunha se dizia representante da Regência, mas na realidade
nenhuma delegação recebera do Governo Regencial para agir no Pará. Fora enviado pelo Governador do Maranhão e viera intervir na Província, sem que estivesse autorizado para tal ação. Não era apenas ilegítima sua interferência, Era, também, ilegal”.
Isto leva a questionar: o que levaria o Presidente da Província do Maranhão, sem ordens da Regência, a querer interferir nos problemas do Pará? E, por que a ajuda de Pedro da Cunha não foi oferecida e, sim, imposta? Fato é que, quando Francisco Vinagre não aceitou a proposta de Pedro da Cunha, este se prepara para guerra contra as
tropas do Presidente cabano da Província do Pará. “Enquanto isso chegava a Belém um brigue francês, trazendo a notícia que Pedro da Cunha ali estava para depor Vinagre e colocar no governo o conselheiro mais votado, segundo as notícias que corriam no Maranhão”. (CHIAVENATO: 1984, p. 82)
Esta informação prestada pelos franceses, que pela história observa-se que era verdadeira, leva à reflexão: Qual seriam os interesses dos franceses de prestar tão importante informação a Francisco Vinagre? Pode-se conjecturar o levante da população contra o absolutismo português levou algumas nações européias a aumentarem seus interesses pela região. Estes intentos, entretanto, a história mostra não serem bem sucedidos em virtude da causa cabanagem ser de cunho, nacionalista e não separatista como a República Juliana, em Santa Catarina, dentre outras.
O fato é que, Francisco Vinagre atende a Pedro da Cunha e convoca a eleição, nela os cabanos, em grande maioria, ficariam sem direito a voto, pois, na época, esta prerrogativa não se estendia a analfabetos, sem terras, pobres, negros e tapuios e, logicamente, esta era a característica de grande contingente de cabanos; ficando, assim, o voto para grande parte da burguesia. O resultado foi à eleição de Angelo Custódio, que não foi aceito por um dos líderes cabanos, Eduardo Angelim. Sendo assim, recomeça o movimento cabano. Além de que, se Pedro da Cunha não possuía autorização da Corte para quaisquer atos na Província do Pará, sua solicitação de eleição era ilegal, portanto sem validade reconhecida pelo governo central do Brasil, tanto é que a Corte nomearia, em 1º de abril de 1835, o marechal-de-campo Manuel Jorge Rodrigues para este cargo.
Angelo Custódio, no navio de Pedro da Cunha, toma posse do governo da Província e solicita que o povo deponha as armas, o que, logicamente, não foi feito
pelos cabanos. Enquanto isto, Francisco Vinagre tenta dar posse a Tomas Nogueira Picanço, contudo, os cabanos estavam novamente a postos e, comandados por Antônio Vinagre e Eduardo Angelim, eclode uma batalha em 12 de maio de 1835, que tem como resultado a expulsão dos derrotados, junto com Francisco Vinagre, Pedro da Cunha e as tropas legalistas de apoio a Angelo Custódio vindas de Cametá.
Angelo Custódio não desistiu de querer governar o Pará, guardando os rios que davam acesso a Belém para que os cabanos não recebessem alimentos de cidades paraenses ou de outra região, ou país. A insistência de Angelo Custódio se deu até o momento da chegada do marechal Manuel Jorge Rodrigues.