• Aucun résultat trouvé

Com a fuga do marechal Manuel Jorge Rodrigues, em 23 de agosto de 1835, Eduardo Angelim, com apenas 21 anos de idade, foi proclamado como 3º Presidente cabano da Província do Pará. Seus principais atos como Presidente foram: Nomeou seus assessores, Geraldo Francisco Vinagre ficou como um dos comandantes da guerrilha. Criou uma força armada que teve como um dos comandantes seu irmão Geraldo Gavião. Formou uma cavalaria. Estabeleceu um grupo de artilharia, um pelotão de caçadores, um batalhão de guardas nacionais. Aumentou a vigilância nas estradas que davam acesso a Belém. Estabeleceu uma espécie de polícia para tentar manter a ordem. Organizou uma força naval com o que possuía para navegação, ou seja, pequenos barcos e canoas. Fundou uma fábrica de pólvora. Estabeleceu uma nova função do governo que consistia que um encarregado fosse a outras cidades, distritos, vilas, dentre

outras, tentando convencer líderes e populares a apoiarem seu governo, estes funcionários seriam espécie de porta voz. Recorreu aos padres Francisco de Pinho de Castilho, Raimundo Antônio Fernandes e Jerônimo Pimentel para ajudar a conter a violência que se alastrava na cidade. Criou uma padaria, um açougue, dentre outros. Notasse que Eduardo Angelim, preparava-se para enfrentar as tropas legalistas, não abrindo a guarda e reforçando toda segurança possível.

Um dos problemas que Eduardo Angelim enfrentou foi a falta de alimentos, e, por isso, criou, em seu governo, uma padaria e um açougue. Muitos gêneros alimentícios chegavam à capital através de pequenas canoas, pois as forças legalistas cercaram Belém dificultando a entrada de navios e barcos grandes. A capital ficou sem produzir nada, com a economia de todos os setores paralisada. Outro grave problema foi a varíola que assolou a cidade.

Os cabanos dominavam a capital e muitas cidades do interior, mas Manuel Jorge Rodrigues não desistiu e ordenou de Tatuoca, constantes ataques aos cabanos, principalmente à fazenda Itacuã, uma espécie de quartel general cabano.

A busca contra maçons e portugueses, principalmente membros do antigo Partido Caramuru, era intensa. Por mais que Angelim quisesse acalmar os ânimos dos cabanos, a euforia da vitória e o ódio acumulado contra os portugueses eram grandes, e como se disse antes: dificilmente os cabanos se submetiam totalmente a um líder, pois o sentimento antilusitano era muito maior que quaisquer tentativas de manter a ordem e a paz para aqueles maçons e portugueses que ficassem em Belém. Segundo RAIOL (1970, p. 923):

“Conta-se que até alguns eram obrigados a carregar, por zombaria, sôbre os

ombros, pesados troços de madeira, ou a subir, nus descalços, em palmeiras e àrvores cobertas de espinho os quais lhes cravavam o corpo como lâminas

de afiados punhais! E quando pareciam desanimar diante de tantoa aguilhões que aos centos lhes rasgavam as carnes, eram brutalmente ameaçados com armas engatilhadas, e muitas vêzes impelidos para cima com pontas de baionetas e varas aguçadas! E não obstante êste doloroso martírio por que passavam, nem sempre conseguiam salvar a vida! Os mesmos que eram poupados até a descida dessas árvores espinhosas, recebiam morte cruenta ao pisar em terra, ou momentos depois no meio de mofas e assuadas!”.

Se isto realmente aconteceu desta forma3, só pode ser explicado pelo ódio exagerado devido tantas humilhações que aquele povo recebera dos lusitanos que viviam na Província do Pará.

Negros e escravos aproveitaram para fugir em busca de liberdade, e muitos se alistaram na luta da Cabanagem, engrossando, assim, as reivindicações dos oprimidos.

Os conflitos foram muitos, inclusive entre cabanos com cabanos, pois como estes, geralmente, não aceitavam líderes, em muitos casos demonstravam insubordinação às ordens do Presidente, levando-o a agir com rigidez. O resultado não poderia ser outro, alguns grupos cabanos insubordinados acabavam agindo por conta própria, em ataques não autorizados, que somado aos ciúmes de muitos que desejavam cargos no governo, causaram receio em Eduardo Angelim, que passava a agir com cautela e reforçar sua segurança pessoal. Diante desta situação, somada à fome, muitos cabanos desertaram.

No governo de Angelim, o navio Clio de bandeira inglesa foi saqueado quando trazia armas, munições e outras mercadorias encomendadas na época de Bernardo Lôbo de Souza. Como consequência, no dia 17 de março de 1836, chegou a Belém uma frota naval inglesa reclamando sobre o assalto e morte de parte da tripulação do Clio. Exigia que os culpados fossem punidos pela Inglaterra e que o Presidente da Província do

Grão-Pará indenizasse a carga perdida e fizesse um desagravo à Inglaterra alteando a bandeira daquele país acima da brasileira do Brasil em todos os mastros das fortalezas da cidade com uma salva de 21 tiros de canhão. Eduardo Angelim se recusou, pois era nacionalista e não aceitaria tal humilhação; quanto aos criminosos realizou investigações, porém, somente os entregou quando recebeu ordens do governo imperial, contudo, garantiu que as punições fossem realizadas conforme leis brasileiras. Quanto à indenização, Angelim determinou que fosse ser cobrada ao governo imperial. Isto reforça a tese de nacionalismo.

Fato estranho é que os ingleses aceitaram, com certa passividade, a resposta de Eduardo Angelim, isto faz levantar um questionamento: Qual seria a verdadeira intenção do capitão inglês B. Strong ao vir a Belém com tantas exigências e aceitar as recusas de Eduardo Angelim tão passivamente, será que não haveria mais intenções além destas? Fato é que, B. Strong visita Belém e almoça com o Presidente cabano, ocasião em que as duas bandeiras, inglesa e brasileira, são alteadas ao mesmo nível e saudadas, com igualdade, pelos cabanos e ingleses, atitude típica de amizade que faria os legalistas em conjecturar um rompimento da neutralidade dos ingleses.

Conta RAIOL (1970, p. 945) que:

“Disse-nos Eduardo Angelim - que durante o almôço aludido houve quem o

aconselhasse a proclamar a separação política do Pará, como nação livre e independente, com a promessa de proteção estrangeira, respondendo êle que não trairia nunca a sua pátria para trocar o nome de cidadão brasileiro com o qual se julgava enobrecido! O que há de verdade nessa asseveração, não o sabemos: a não ser a palavra do próprio informante, confirmada na carta que o mesmo dirigira ao general Andréia em 30 de abril de 1836...”.

Na realidade, a Província do Pará seria um ponto estratégico tanto para os franceses ampliarem suas influências além das Guianas, como para os ingleses escoarem sua produção industrial para a região norte do Brasil e toda América Latina, e

isto faria com que toda desculpa e demonstração de amizade fosse dada aos cabanos. Ao que parece, o nacionalismo cabano foi mais forte, caso contrário o Pará não seria do Brasil, pois as duas nações que tentaram se aproximar dos cabanos tinham força bastante para ajudá-los em quaisquer tentativas de separatismo.

No dia 9 de abril de 1836, chega à ilha de Tatuoca o brigadeiro Francisco José de Souza de Andréia, português de nascimento e velho conhecido dos paraenses quando foi comandante das armas naquela Província. Era tido como intransigente e costumava abusar do poder, o que, mais uma vez, demonstra a falta de tato da Corte com os problemas levantados pelos cabanos, sempre mandando portugueses para governar a Província, nunca cedendo ao pedido dos cabanos de que um brasileiro fosse nomeado. Junto com Andréia veio João Mariath para assumir o comando no lugar do inglês John Taylor.

Com a chegada de Andréia à Província, iniciam-se os combates em alguns pontos estratégicos no interior. Pela personalidade austera de Francisco José Soares de Andréia, pela fome que assolava Belém resultado do cerco legalista, pelas deserções e, para evitar mais derramamento de sangue, Eduardo Angelim é aconselhado pelo bispo a pedir anistia e autorização para sair da capital à Francisco José Soares de Andréia, que nega este pedido. Por outro lado, Eduardo Angelim não conseguiu convencer os cabanos a deporem armas, pois os mesmos não confiavam em Andréia, além de conhecerem os tipos de julgamentos que os portugueses e brasileiros davam aos revoltosos, a tragédia do Brigue Palhaço era um exemplo, ainda vivo, na memória daquele povo. Muitos cabanos preferiam se suicidar que se entregar às forças legalistas, é o caso do cabano João Antônio que, ao levar um tiro dos legalistas, enterrou uma faca no estômago, preferindo a morte que a ser preso. Na carta de Francisco Manuel Barroso para o padre Prudêncio José das Mercez Tavares, em 22 de novembro de 1837, que diz:

“João Antonio huma balla o pegou, e vendo que era agarrado, teve a amimozidade de

enterrar huma faca no estômago, e alsim veveo athé ao outro dia em que espirou e: deste monstro e de mais dois que com elle morrerão, já se vê esta Provincia livre.”

Fato é que se iniciam correspondências entre Eduardo Angelim e Francisco José Soares de Andréia. O Presidente cabano tenta várias formas de convencer o brigadeiro de deixá-lo escapar. Tenta um acordo de sair para o Amazonas, o que não foi aceito e Andréia indicava que Angelim ficasse em Carnapijó.

No dia 8 de maio de 1836, Angelim faz um Proclama aos rebeldes, pedindo que diminuíssem a resistência e marchassem para o interior da província, alegando que o estado de sítio em que estavam submetidos os levava à fome e, propunha que, se assim o fizessem, poderiam reorganizar as tropas e tomar novamente a cidade de Belém, como outrora fizeram. Assim, os cabanos começavam a preparar suas saídas da capital para o campo em vários grupos, sendo eles: o de Eduardo Angelim, o de Geraldo Gavião e outros comandantes cabanos.

Mesmo Eduardo Angelim tendo solicitado a Andréia autorização para ir ao Amazonas, o que conseguiu foi que lhe fosse permitido ir à Fazenda Carnapijó, aguardar uma possível anistia e, ainda recebeu ameaça de Francisco José Soares de Andréia de que, se assim não fizesse, os navios de guerra bombardeariam Belém.

No dia 13 de maio de 1836, houve tiros de canhão na Pedreira, os cabanos fugiram e espalhou-se uma falácia que tinha desembarcado tropas legalistas naquele local. Isto fez com que se precipitasse a decisão de Eduardo Angelim em acatar a proposta de Francisco José Soares de Andréia. Assim, os cabanos se retiraram de Belém em pequenos barcos e canoas; destruíram as armas que não podiam carregar para não munir os legalistas. Ao perceberem isto, os navios de guerra começaram a atirar contra

o comboio, que, por estratégia, espalhara-se. Eduardo Angelim prosseguiu sua viagem até a cidade de Acará, e as tropas de Francisco José Soares de Andréia, por sua vez, tomam Belém.

Documents relatifs