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Fazemos agora um breve resumo do que vamos apresentar ao longo deste trabalho: - No Capítulo 2 é feito um enquadramento do apoio multicritério à decisão, onde são

apresentados alguns métodos e sistemas de apoio multicritério à decisão, os interve- nientes no processo de decisão, a distinção entre valores e alternativas, o conjunto de alternativas e as problemáticas de apoio à decisão, os pontos de vista e os critérios, e os desempenhos e as escalas. Vamos referir a utilização da função de valor aditiva, falando da distinção entre teoria de utilidade e teoria de valor, das características e axiomas da teoria de valor, e da eliciação dos valores dos parâmetros da função de valor aditiva. Vamos ainda falar do uso de informação incompleta no contexto da decisão individual, referindo em particular a análise de sensibilidade e fazendo uma breve revisão da literatura sobre o uso de informação incompleta.

- Alguns autores sugerem o uso de regras de decisão simples baseadas em informação incompleta, mas fácil de eliciar, para sugerir uma alternativa ou um pequeno subcon- junto de alternativas. Apesar de nenhuma destas regras garantir que a alternativa indicada como sendo a melhor é a mesma que resultaria se fossem eliciados valores precisos para os parâmetros, estudos de simulação mostram que em geral a alternativa seleccionada é uma das melhores. O trabalho apresentado no Capítulo 3 pertence a este grupo de aproximações que usam regras baseadas em informação fácil de eliciar. O nosso objectivo é ordenar as alternativas, ou seleccionar uma alternativa ou um subconjunto de alternativas, sem requerer informação completa do decisor. Iremos propor duas novas regras, baseadas na regra pesos ROC (“Rank Order Centroid”, Barron e Barrett, 1996), para lidar com informação incompleta relativamente ao valor de cada alternativa em cada critério. Em vez de assumir que o decisor é capaz de definir precisamente a sua função de valor, assumimos que apenas é eliciada infor- mação ordinal sobre as suas preferências: sobre os pesos, sobre o valor das diferentes

1.4. Breve descrição da estrutura do trabalho 11

alternativas em cada critério e sobre a diferença de valor entre alternativas consecuti- vas em cada critério. Utilizamos simulação Monte Carlo para comparar os resultados que se obteriam se toda a informação estivesse disponível com os resultados obtidos quando as regras propostas são utilizadas. Verificamos se a regra fornece a verdadeira melhor alternativa e, caso contrário, qual é a perda de valor. Apresentamos algumas ideias sobre como usar essas regras num contexto de seleccionar um subconjunto contendo as alternativas mais promissoras, considerando os objectivos contraditórios de reter o menor número possível de alternativas sem no entanto excluir a melhor. - No Capítulo 4 fazemos um breve enquadramento à decisão colectiva e ao uso de

informação incompleta, tanto no caso da negociação como no caso da decisão em grupo. Apresentamos ainda diversos métodos de mediação que serão referidos ao longo do trabalho.

- No caso da decisão colectiva, e considerando que a função de valor aditiva é utilizada, normalmente não é fácil obter valores precisos para os pesos ou para o valor dos diferentes níveis em cada assunto, ou para o valor das diferentes alternativas em cada critério. No Capítulo 5 generalizamos três regras apresentadas no Capítulo 3, para o caso da negociação bilateral e da decisão em grupo com informação incompleta. O nosso objectivo é que com base em informação ordinal, o mediador ou o facilitador possa sugerir uma ou mais alternativas usando as regras de decisão que apresentamos. Comparamos estas regras utilizando diferentes métodos de mediação. A escolha do método a utilizar depende das preferências do mediador ou do facilitador e todos eles apresentam vantagens e desvantagens. No caso da decisão em grupo, utilizar métodos de mediação para sugerir uma alternativa elimina a necessidade de atribuir pesos aos diferentes elementos do grupo.

- No Capítulo 6, que se refere também à negociação bilateral, consideramos que as partes negoceiam com base na dança dos pacotes (“Dance of Packages”, Raiffa et al., 2002). Aqui propomos obter informação relativamente às preferências dos negocia- dores ao longo do processo de negociação, através das afirmações que fazem e das ofertas que trocam. O objectivo é que um mediador seja capaz de propor alterna- tivas próximas da fronteira de Pareto. A informação que usamos é principalmente baseada na comparação de propostas (também chamadas de ofertas) que são feitas implicitamente ou explicitamente pelas partes. Desenvolvemos e comparamos sis- tematicamente três novas aproximações para ajudar um mediador. A primeira é baseada em conclusões robustas, a segunda é baseada em aproximações inferidas, e a terceira usa a análise do domínio. Estas aproximações permitirão que o media- dor avalie como cada proposta que coloque sobre a mesa será recebida pelas partes, nomeadamente se a considerarão melhor do que as que já consideraram, ou mesmo aceitaram como compromisso, e verifique quais são as alternativas mais promissoras

de acordo com os métodos de mediação. Consideramos negociação integrativa sobre múltiplos assuntos, que é a que mais beneficia do esforço de um mediador.

- Alguns métodos enfatizam a exploração do espaço dos pesos, com o objectivo de examinar que tipo de avaliação tornará uma alternativa preferida a outra alternativa. Outros métodos são baseados em relações de dominância para identificar possíveis soluções. A aproximação apresentada no Capítulo 7 adequa-se à decisão em grupo com informação incompleta e combina estas duas ideias. O objectivo é informar os decisores verificando se existem alternativas óptimas, ou quasi-óptimas, e se existem alternativas que podem ser eliminadas devido à dominância. Os pesos dos decisores serão deixados sem restrições, ou apenas restringidos pelas restrições necessárias para prevenir que um elemento se torne um “ditador”. Isto elimina a necessidade de comparar quão importante é cada elemento do grupo, e favorece a obtenção de conclusões que são largamente aceites entre os elementos.

- No Capítulo 8 terminamos o nosso trabalho sumariando algumas conclusões a apre- sentando algumas vias para investigação futura.

Capítulo 2

Apoio Multicritério à Decisão:

Enquadramento

2.1

Introdução

Kersten (1997: 2) refere que:

Decision making is about thinking of new situations and making choices among them. It involves the decision maker and other people. The decision process is about changing the current situation to a new situation. This aspect may be more important than the decision outcome itself. Decision makers need to be able to determine what they can change, why they want to make a change, and how it may be introduced.

A tomada de decisões insere-se num processo que decorre ao longo de certo tempo. Foi apresentado por Simon (1977) um enquadramento geral para os processos de decisão, enquadramento esse que engloba quatro fases: inteligência, concepção (ou estruturação), escolha (ou avaliação) e revisão. A fase de inteligência é aquela na qual se detecta a necessidade de agir. A fase de concepção compreende a modelação da situação de decisão. A fase de escolha corresponde à tomada da decisão propriamente dita, frequentemente com o apoio de técnicas matemáticas, algoritmos, ou regras simples para explorar o modelo construído. Na fase de revisão, coloca-se em prática a decisão tomada e acompanham-se as suas consequências. Dias (2000) refere que nesta sequência, admite-se em qualquer altura um retorno às fases anteriores, bem como o desenvolvimento, em paralelo, de trabalho ligado a fases distintas. Ao longo deste trabalho focamo-nos na fase da escolha.

Um processo de decisão típico pode apresentar duas vertentes distintas: numa primeira vertente é identificado um problema de decisão, o que normalmente acontece quando se está insatisfeito com alguma situação e se deseja fazer algo para a mudar, e à medida que o decisor analisa o problema surgem algumas alternativas óbvias; numa segunda vertente, aparecem alternativas menos óbvias, como a possibilidade de um novo emprego, e existe a necessidade de decidir entre as alternativas existentes anteriormente e as novas alternativas que entretanto surgiram. Como referido por Chen et al. (2009), o estudo de um problema de análise de decisão multicritério envolve três passos fundamentais:

(1) Construção do problema - O processo de definir objectivos, transformar os objectivos em critérios, identificar todas as alternativas possíveis, e medir o desempenho de cada alternativa em cada critério.

(2) Eliciação das preferências e agregação - O processo de modelar as preferências dos decisores relativamente ao desempenho em cada critério e ao peso que os decisores atribuem a cada critério, obtendo uma avaliação global de cada alternativa.

(3) Implementação - O processo de analisar as alternativas com o objectivo de escolher uma, ou mais, de as ordenar ou de as afectar a categorias.

Este capítulo tem como objectivo fazer um enquadramento do apoio multicritério à decisão, nomeadamente da utilização da função de valor aditiva e do uso de informação incompleta no contexto da decisão individual, e é organizado da seguinte forma: na Secção 2.2 revemos de forma breve a área do apoio multicritério à decisão; na Secção 2.3 referimos a utilização de funções de utilidade / valor, em particular do modelo aditivo; terminamos na Secção 2.4 onde falamos da utilização de informação incompleta em processos de análise de decisão multicritério.