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Em alguns países da Europa e da América do Norte, quando é abordado o tema policiamento comunitário, fala-se em uma filosofia de trabalho das instituições policiais, não de forma segmentada, como se fosse um tipo ou uma forma de policiamento. O conteúdo das declarações dos entrevistados, sejam eles em formação ou atuantes em unidades operacionais, revelam que esta não é a filosofia do curso de formação, pois, pelos relatos citados, o que se percebe é uma segmentação desse conceito, ou seja, na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, o policiamento comunitário é visto como um tipo de policiamento que não é desenvolvido por toda corporação. Contudo, a percepção dos policiais entrevistados é bastante otimista em relação a esse tipo de policiamento. Os entrevistados, em sua maioria, revelam que esta é uma da melhores formas da polícia atuar na sociedade, pois há uma interação entre os dois segmentos, já que os cidadãos passam a conhecer e confiar mais no policial.

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“Já tem ai um policiamento comunitário, mas eu não conheço bem ainda esse trabalho não. Mas o que eu ouço falar é um policiamento que ta dando certo, né! Acho que já tem lá naquela área de São Francisco. Como eu sou morador de Niterói eu ouço as pessoas falarem bem desse policiamento. É um policiamento que eu acho que ta dando resultado. Pelo que eu ouço falar, né!” (Soldado PM Sergio, em formação)

“O policiamento comunitário é uma das formas mais politizadas de se exercer o papel da polícia, de se exercer a função da polícia. Comunitário nada mais é do que você botar a polícia em zona sul, em locais em que moram pessoas influentes dentro da sociedade tanto no âmbito militar, no político, como na sociedade civil; prestar esse serviço a elas. Muitas delas se acham até no direito de julgar que você trabalha exclusivamente pra elas por ter vínculo estreito com o comando, com coronéis, com pessoas, todo mundo conhece todo mundo, então, o cara se acha no direito de te cobrar de tudo e de fazer tudo, tudo que você aprende que deve ser igual para todos, não, realmente, não funciona. Então, o policiamento comunitário é isso, ou isso, ou você ser inserido dentro de uma favela. Você é colocado numa cabine que deveriam ter dois; todas as cabines aqui da área do 12º batalhão só tem um policial por serviço quando se deveriam ter dois. Se passar um cara com uma moto, dois caras numa moto suspeitos você não pode abordar. Se o cara realmente tiver errado você vai morrer porque, como é que você vai dar conta de dois? Quem te cobre? Quem te apóia? Pô, ninguém. Então, o policiamento não funciona dessa forma.” (Soldado PM Da Cruz, em formação)

“[...] semana passada mesmo...numa solenidade no Morro do Cavalão [...] a polícia abriu lá no DPO, abriu um movimento social que instalou vários computadores para os moradores, e, botou posto de atendimento odontológico, é, eles fazem, ou seja, não é só o policiamento, não tão só matando, prendendo e matando bandido, não. Tu vê que é um interesse da polícia também, no caso do comandante atual, há um interesse de realmente integrar a sociedade porque eu acho que nenhum policial gostaria de ficar matando, dando tiro na rua, matando ninguém. Acho que seria muito mais interessante prevenir, né?” (Soldado PM Ribeiro, em formação)

“Eu acho bom o policiamento comunitário quando é feito corretamente [...] agora, eu não gosto desse policiamento comunitário que fica aquele DPO lá dentro da favela, do lado da boca de fumo, onde tem 20, 30 traficante passando com fuzil na tua frente e você não pode fazer nada porque você ta num DPO onde tem 3 policiais, cada um com uma pistola e [...] o que tu vai fazer? Nada. [...] eu acho totalmente inoperante esse negócio de DPO dentro de favela, esse tipo de policiamento que existe na comunidade [...] O máximo que acontece é que [...] tu vai fazer o quê? Se sentir o pior cara do mundo porque tu não pode resolver nada, de um modo ou de outro você acaba se corrompendo porque você é obrigado a aceitar aquilo, vai fazer o quê? Vai combater 30 traficantes com fuzil até os dentes na tua frente? Não vai. Não tem condições.” (Soldado PM Ribeiro, em formação)

“Policiamento comunitário? É bom. Muito bom porque fica tipo uma família naquele setor que eles atuam, e os moradores passam a conhecer melhor os policiais, fica tipo uma família, assim, muito bom [...] o policiamento comunitário é feito num local pequeno, né numa área pequena, então, tem como ter uma, um convívio melhor ali [...]” (Soldado PM Renato, em formação)

Os trechos acima revelam a percepção dos policiais em formação inerente ao policiamento comunitário. Há um reconhecimento de que essa forma de policiamento é adequada, pois o policial tem a oportunidade de interagir com a comunidade de uma forma eficiente. Contudo, há uma discrepância em sua implementação. Alguns entrevistados afirmam que quando o policiamento comunitário é empregado em bairros de classe alta, os

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policiais são vistos como serviçais de autoridades residentes nesses locais. Em contrapartida , quando são empregados em comunidades carentes, ficam impotentes e são obrigados pela contingência a conviverem em uma falsa harmonia com o tráfico local, pelo fato de patrulharem em inferioridade numérica e com poder de fogo inferior em analogia aos meliantes. Nesse sentido, percebe-se que o policiamento comunitário não é uma filosofia de trabalho adotada por toda Polícia Militar, bem como, pelas descrições dos entrevistados, não cumpre sua função prioritária.

“Eu não tenho conhecimento [...] sobre o policiamento comunitário..já ouvi falar [...] o que eu acho deve ser [...] um policiamento interado com a comunidade, mas é difícil falar sobre um coisa que você não sabe [...] é difícil.” (Soldado PM Silva, entre um e três anos de serviço)

“Eu gosto muito do policiamento comunitário, é um ótimo policiamento eu acho que um tipo de policiamento que dá certo. O policial trabalha todo dia na comunidade, que passa a conhecer o policial, passa a confiar nele. Perde aquele medo da Polícia, aquele terror da polícia. Eu acho que é um policiamento que funciona só que ele não é valorizado, são pouquíssimos os que, os comandantes, as autoridades que dão valor a este tipo de policiamento. Mas é um policiamento que eu gosto muito, que funciona muito bem.” (Soldado PM Hudson, entre um e três anos de serviço)

O policiamento comunitário aproxima o Estado da sociedade. Dessa forma, pode-se conhecer as reais necessidades da localidade, proporcionado uma ação mais efetiva. Todavia, a transcrição acima revela que o policiamento comunitário não recebe a atenção devida pelos escalões inferiores da Polícia Militar, demonstrando com isso que não há um consenso a respeito do tema.

“Isso aí é importante, é um policiamento que tem tudo pra dar certo. É aquilo que eu falei, é uma pergunta parecida, só que num estilo diferente. Tem que ter um intercâmbio entre policial e cidadão. A sociedade tem que ajudar e Polícia tem que fazer a parte dela, senão não adianta. Só a sociedade fazer ou só a Polícia fazer [...] Tem que a polícia fazer a parte dela e a sociedade fazer a parte dela nesse sentido de somar. Aí sim, senão não dá certo. Tem que haver um intercâmbio.” ( Soldado PM de Souza, entre um e três anos de serviço)

“O policiamento comunitário é muito bom, porque as pessoas já têm o celular, Nextel, sabe. Eles já chamam, já ligam diretamente pro policiamento comunitário [...] e as pessoas estão sempre em contato com aquele policiamento, eles vão sempre lá, vão conversar, explicam, tiram dúvidas, a situação que tá acontecendo [...] Então, ali assim, em São Francisco, as pessoas são mais presentes no policiamento. Eles ligam sempre lá pras cabines, acontece alguma coisa, até de madrugada, eles ligam. As pessoas são mais próximas, são mais amigas dos policiais do que dos outros que ficam andando aí nas viaturas. Fazem assim uma amizade mais não tem tanta proximidade igual o policiamento comunitário, as pessoas são mais próximas, sabe. Eu acho bom, acho tranqüilo.” (Soldado PM Aguiar, entre um e três anos de serviço)

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“É um dos melhores policiamentos dentro da Polícia, né. Porque atua diretamente com a comunidade.” Soldado PM Francisco, entre um e três anos de serviço)

“Policiamento comunitário, na minha opinião, é uma maneira nova, um jeito novo de se trabalhar, entendeu? Que [...] eu não posso afirmar, porque não trabalho, não tenho acesso direto ao policiamento comunitário. Mas que seria uma forma, uma forma de se trabalhar, você trabalha mostrando pra população que [...] a Polícia não é só o que passa na televisão, não é [...] aquilo não é tudo. Existe bons policiais e existe uma maneira diferente de se trabalhar. É uma forma de mostrar pra população que nem tudo é ruim, que nem todos devem pagar pelo erro de outros.”( Soldado PM José, entre um e três anos de serviço)

Os entrevistados entre um e três anos de experiência demonstram ter uma percepção positiva em relação ao policiamento comunitário, compreendendo sua importância para a polícia e para a sociedade. Policiamento comunitário é uma filosofia de trabalho que, além da integração, exige um papel mais pró-ativo por parte do policial. Sua origem está ligada à crítica ao modelo do 911, então vigente nos EUA. O trecho acima revela também que a polícia não tem somente a função repressora. A interação da polícia com a sociedade faz com que as necessidades dos cidadãos que moram, no caso, em comunidades carentes sejam conhecidas e em, alguns casos, resolvidas. Esse papel é importantíssimo em uma sociedade democrática. A ação de repressão é um aspecto dentre o universo no qual a polícia atua em uma sociedade.

“Excelente, né. É isso que eu to falando, né. Esse policiamento comunitário não tem muito tempo, tão surgindo agora. Mas ele é excelente [...] que a própria população em si, os bairros, essa entrada [...] da polícia, vamos botá, na sua casa, na sua residência,, seu próximo, vai criando uma imagem diferente [...] é excelente, com certeza, as pessoas têm mais contato, conversam. Às vezes, criam até um vínculo de amizade, pô é lega1! Pô com certeza é excelente.” (Soldado PM Ubiratan, entre três e cinco anos de serviço)

“Policiamento, ao meu entender, sinceramente, policiamento comunitário é a única coisa que realmente resolve na polícia militar. Temos que ter o GATE? Temos. Temos que ter o GPAE? Temos. Temos que ter o confronto? Temos... em áreas de risco, e ainda assim em comunidades carentes, eu sempre falo isso, a gente tem que trazer a população carente, a população que mora em áreas de risco, a população que mora em favelas pro nosso lado porque, como bem disse o capitão Plínio, o único segmento do Estado que sobe a favela é a polícia militar. Então, a gente tem que parar com essa mania de subir na favela pra dar tiro porque a visão que eles têm nossa é essa. E aí que tá, o policiamento comunitário, ao meu ver, trabalha interagindo com a sociedade, com a comunidade.” (Soldado PM Ângelo, entre três e cinco anos de serviço)

“De certa forma não – a gente trabalha para sociedade, então, a sociedade tem direito de tá participando das ações, das reuniões, é de debates, de formas de se agir na própria sociedade, na, junto com as pessoas. Então, o policiamento comunitário é importante por causa disso, porque ele, além de agir fazendo o policiamento do local, ele vai agir fazendo uma interação com as pessoas, ouvindo o que as pessoas têm a

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dizer e até mesmo a somar com relação à forma de policiamento.” (Soldado PM de Oliveira, entre três e cinco anos de serviço)

“Eu acho que, eu tô falando do policiamento comunitário, porque eu vivo, é minha realidade. Eu acho que é o policiamento comunitário, porque é voltado pra criança de rua que está no seu local de trabalho, o sinal quebrado, o velhinho que vive sozinho. São vários fatores que faz com que o policial se sinta mais necessário, se sinta útil, deixar de ter aquela [...] Eu acho que o policial tá muito voltado pras estatísticas: “vou prender arma...” Eu acho que a ação dele deveria se mais comunitária.” (Soldado PM Dorazil, entre três e cinco anos de serviço)

“O policiamento comunitário funciona, funciona como sempre funcionou. Ele sempre existiu, agora mudou de nome, muda-se o pagamento, mas sempre existiu e ele resolve. Resolve só que tem um, porém: existem comunidades e comunidades. Existe a polícia comunitária numa comunidade que você sabe que ela é inofensiva ao policial militar e à família dele e o policial que vai pra uma comunidade que tem pessoas marginais à lei e que expõem tanto o policial quanto a família. Essa coisa de pegar o policial de dentro da sua comunidade, essa coisa de “polícia é a sociedade e sociedade é a polícia”, pegar o policial que mora naquele lugar pra policiar aquele lugar, eu sou contra. Expõe muito o policial e a família dele, não vale a pena. Ele não vai fazer o serviço dele. Ele vai ser conivente com o erro justamente pra não ser alvo posteriormente. Na Polícia Militar, eu sou contra isso: pegar o policial dali de dentro que já conhece todo mundo pra fazer esse tipo de serviço.” (Soldado PM Castilho, entre três e cinco anos de serviço)

“Pra dar satisfação à imprensa isso aí [...] falar que tá fazendo tudo bonitinho, mas não muda nada. E só fica na Zona Sul mesmo. Vê se tem policiamento comunitário ali na Zona Norte, Complexo da Maré, Complexo do Alemão, a Rocinha? Tem ali: São Conrado, no Leblon, que eu trabalhei lá, Ipanema, nessa área. Nas áreas carentes mesmo não tem. Tem nada de comunitário, isso é mais... é mais uma satisfação à imprensa [...] tem nada de comunitário.” (Soldado PM Corval, entre três e cinco anos de serviço)

A experiência do entrevistado proporciona uma visão privilegiada na qual se percebe que o atendimento da polícia às necessidades da sociedade não ocorre de forma equânime. O policiamento comunitário não é extensivo a todas as comunidades. Muitas comunidades carentes são desprovidas deste tipo de policiamento. Elas ainda somente vêem a polícia em sua faceta repressora, e um dos ideais chaves da democracia é a eqüidade. Se o policiamento não é distribuído de forma equânime, a polícia não estará atuando de forma democrática, mas, sim, da forma como quer quem a maneje.

“Posiciono a favor, só que não tem em todo lugar. Tem em áreas, como eu posso dizer? Área nobre, Icaraí, São Francisco, sempre tem policial, é, policiamento comunitário nessas áreas, agora, nas áreas mais pobres não tem, não existe.” (Soldado PM Manoel, entre três e cinco anos de serviço)

“Pô, porque é mais cobrada essa parte, a parte do, a parte dessa área mais nobre é mais cobrada, inclusive pela sociedade.” (Soldado PM Manoel, entre três e cinco anos de serviço)

“O policiamento tem um relacionamento melhor com o cidadão. A sociedade confia no policial comunitário, tem um maior contato o policial tá ali todo dia com o morador sempre naquele bairro. O policial ali [...] quer dizer, ele é conhecido naquele bairro, o

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morador tem confiança naquele policial. Mas aí o batalhão tira coloca ali, já perde o vínculo [...]” (Soldado PM Elisio, entre três e cinco anos de serviço)

“Se você agir junto à comunidade, fazendo aquela relação com a comunidade. Hoje em dia, como é que você faz? Onde nós temos hoje policiamento comunitário: São Francisco, classe média alta. Outro lugar que eu ainda acho que tenha: Leblon, classe média alta. Por que não existe em outros lugares? Não é, que é pra você interagir junto com a comunidade pra você resolver os problemas do dia-a-dia, do cotidiano. Às vezes, uma poda de árvore, uma lâmpada pode ser um problema futuro de policial [...] um buraco na pista, o carro vem e bate ali devido ao buraco que tem na calçada, na rua. Não é problema de polícia, mas vai vir a ser quando for ocasionado o acidente. Essas coisas assim que pesam muito, não tem divulgação do policiamento comunitário [...]” (Soldado PM Filho, entre três e cinco anos de serviço)

“Eu acho interessante, você liga o policial, você consegue colocar o policial mais próximo da comunidade.” (Soldado PM dos Santos, entre três e cinco anos de serviço)

O conteúdo dessa categoria demonstra que, de uma forma geral, os entrevistados acreditam no policiamento comunitário como sendo uma forma eficiente da polícia interagir com a sociedade. Pois a interação diária nas comunidades faz com que as necessidades delas sejam conhecidas e a polícia possa atuar de forma mais adequada. Contudo, alguns relatos descortinam uma realidade a qual não pode ser negligenciada. O primeiro fato recai sob a forma de implementação. Percebe-se que os bairros mais nobres recebem maior atenção, em detrimento das comunidades carentes. A segunda revelação trata da falta de estrutura na implantação desse tipo de policiamento em locais menos assistidos. A percepção dos policiais é clara na identificação da dicotomia entre os moradores do asfalto e das favelas. Nota-se que o Estado não emprega seus recursos humanos na segurança pública de forma equânime. Os bairros de classe alta recebem uma atenção maior por parte do Estado, em detrimento das classes menos abastadas.