Mais do que constituída por apenas técnicas vocais, esta prosódia singular revela uma natureza evocativa e invocativa de/em Obama. Evocação e invocação de uma sonoridade diferente para confrontar-se a este coro de cínicos; de uma multiplicidade de vozes para, juntas com a/e na sua, entrar em ressonância e derrubar o que for preciso; para que, em sua voz, a voz do outro possa se fazer ouvir; invocação de uma voz que vem de alhures.
Uma invocação que produz, como efeito, uma convocação. Como a voz, é sempre relacional. Esta invocação é, também, necessariamente relacional. A não ser na voz muda da consciência e pensamento, ninguém fala pra si mesmo. A cena política é sempre um grande concerto de bocas e ouvidos. Então e aqui, propõe-se esta natureza invocativa como uma marca desta relação vocálica entre Obama e seus ouvintes. Uma relação que produz uma convocação. Pensando a convocação como a resposta que estes ouvidos captam deste concerto. Resposta que, percebida pelos ouvidos, se transforma, passando pelas gargantas, em grito, em movimento. Lembrando que antes de qualquer efeito – seja de resposta, de convocação, de indiferença – e de qualquer movimento, é preciso que haja algo: a voz. Tudo que vem, ou não vem, depois, só existe por conta dessa voz.
Este movimento de convocação pode ser percebido em um discurso de Obama realizado em uma convenção do Partido Democrata. Emblematicamente, esta não era apenas mais uma fala aos seus correligionários. Era a fala em que Obama anunciava: “With profound gratitude and great humility, I accept your nomination for the presidency of the United States”89
. (OBAMA, 8/2008). Ainda que, e muito dificilmente, algum candidato recusaria a indicação para disputar uma eleição tão importante, é interessante notar que esta nomeação é também uma convocação. O ato de dar validade, de tornar efetiva – através da voz, e a viva voz – a sua candidatura é importante. Mesmo que seja apenas em um caráter ritual, performático, e que já se saiba que Obama
89 (Tradução livre): Com profunda gratidão e grande humildade, eu aceito a sua indicação para
é o escolhido a representar os democratas, é preciso que ele aceite esta convocação, e a viva voz. Esta é uma das determinadas situações onde, como aponta Dolar (2007, p. 131, grifo nosso), “la voz, en su función de exterior interno del logos, aparente prelogos, extra-logos, es convocada y necessaria”90
. Coincidentemente, Dolar (2007) usa como exemplo o presidente dos Estados Unidos da América, e o fato de que nem esta figura política tão importante pode testemunhar em um tribunal sem o fazer oralmente. Por escrito, é insuficiente e impossível. Assim, como é também para Obama crucial performatizar o aceite de sua nominação.
É um momento de convocação, duplamente. Inicialmente, Obama é convocado a falar. A situação o convoca a falar. É preciso falar. Posteriormente, os espectadores/ouvintes são convocados por Obama a trazer as suas vozes para este concerto. Com uma maestria singular, os espectadores/ouvintes são convocados, pela musicalidade de/em Obama, a conclamar frases de mudança, gritos de indignação.
O discurso começa com uma profusão de vozes exclamando o nome de Obama. A situação se assemelha aos gritos quando um astro da música sobre ao palco. A impressão é de uma grande euforia. Estes gritos de Obama!, Obama!, Obama!, se prolongam por quase três minutos. Neste período, a intensidade e altura dos gritos são tantas que Obama sequer tenta começar a falar. Em seguida, ele os interrompe, falando alto ao microfone, para dizer que – e, assim, tornar efetiva – aceita a nominação como candidato democrata a disputar eleição. Então, e mais uma vez, os gritos se tornam muito altos por mais alguns segundos. Embora, estes gritos já se constituam como uma espécie de resposta dos ouvintes, nesta relação com seu candidato, este movimento parece acontecer à revelia de Obama. O caráter de convocação ainda não parece estar ligado à invocação na voz/pela voz de Obama.
Alguns minutos adiante, este registro acústico abriga um momento em que Obama, através de seu grito, convoca a multidão a responder, a participar. A multidão é convocada a manifestar o seu grito de mudança. Convocada a fazer ouvir os seus gritos, que se chocam com a ordem política e discursiva até então vigentes.
Em, “O governo de si e dos outros”, Foucault (2010) faz remissão a um grito que materializa o enfrentamento entre uma ordem dominante e os seus dominados, excluídos. É o grito da personagem Creusa – da tragédia Íon, de Eurípedes – contra o deus Apolo. Um deus que havia lhe seduzido e roubado seu filho, nascido desta violência. É o grito de
90 (Tradução livre): A voz, em sua função de exterior interno do logos, aparente prelogos,
uma mãe que busca desesperadamente seu filho e que, de Apolo, tem apenas o silêncio, a indiferença. Foucault (2010) propõe esta relação agonística a partir das diferentes modulações: a do grito, de Creusa, em oposição/enfrentamento ao canto, de Apolo. Creusa exclama: “Que este grito que dou chegue ao teu ouvido!”. (FOUCAULT, 2010, p. 112).
Focault propõe
(...) o grito contra o oráculo que se recusa dizer a verdade, contra o canto do deus que é indiferença, arrogância, uma voz se eleva, mais uma voz. Vocês estão vendo, é sempre da voz que se trata, mas é a voz da mulher que, contra o canto alegre, vai soltar o grito da dor e da recriminação, e que, contra a reticência do oráculo, vai proceder ao enunciado brutal e público da verdade. (FOUCAULT, 2010, p. 117).
Esta é a natureza do grito de Obama, ao exclamar: “enough”! Não basta propor mudanças, falar sobre o que está errado nos oito anos de mandato de George W. Bush ou expor os problemas e desigualdades vividos pelos americanos. É preciso expor a indignação através da modulação de seu grito. Esta modulação de um ruído que se materializa e se choca com o continuísmo representado por Bush e pelo candidato republicano John McCain.
Esta performatização, modulação, é operada da seguinte maneira: a) │↓We are more compassionate than a government that lets
veterans sleep on our streets and families slide into poverty; that sits on its hands while a major American city drowns before our eyes.↓│91
Neste trecho, Obama apresenta uma voz em tom baixo e a enunciação segue um ritmo de leitura, sem muitas curvas melódicas e/ou diferenças de entonação. Obama fala sobre, e modula em sua voz, os contínuos e muitos problemas que o país de Bush vive.
91
(Tradução livre): Nós somos mais compassivos que um governante que deixa veteranos dormirem nas ruas e famílias em situação de pobreza; que cruza os braços enquanto uma grande cidade Americana se afoga diante de nossos olhos.
b) │↑Tonight, I say to the people of America, ↑to Democrats and ↓Republicans and ↑Independents across this great land:│92
A partir da palavra Tonight, a enunciação volta ao estilo mais comum em Obama: uma voz mais forte e em um tom acima do que estava adotando no trecho anterior; e as ondulações e as curvas tonais voltam ao pronunciar Democrats, Republicans e
Independents.
c) │↑ENOUGH!↑│93
Aqui, Obama não está mais falando – nem em um ritmo próximo da música, nem da descontinuidade da fala: Obama grita. A palavra enough é emitida em um volume muito mais alto do que todas as outras. Além do volume – e isso pode ser resultado das inúmeras tecnologias de manipulação de som – há um efeito de eco ao fim da pronúncia de enough. A impressão é de que este grito, esta palavra, continua presente e ecoando por alguns instantes. Assim, a exemplo do grito da personagem Creusa, este grito pode chegar aos ouvidos de quem detém/representa o poder.
Dessa maneira, Obama expõe o seu grito, a sua voz, contra esta ordem, pretensamente natural, que silencia tantas outras vozes. Assim, começa o movimento de convocação para que a multidão também exponha o seu grito. Depois deste eco da palavra enough, e algumas poucas frases adiante, surge o convite, quase aos gritos: “On November fourth, on November fourth, we must stand up and say: Eight is enough!”94
. Como resposta a esta convocação, começam a se ouvir alguns gritos. De início, não dá para compreender que palavras as pessoas se põem a gritar. Para além do significado, é o início de um coro que começa a se tornar cada vez mais alto. E, Obama? Permanece em silêncio. Só se ouve esta profusão de vozes, cujo volume vai se tornando cada vez mais alto. Em poucos segundos, este coro passa a ser um grito uniforme: “Eight is enough, eight is enough, eight is enough!”95
O grito dado por Obama, que invoca esta ordem dissonante do ruído, convoca a multidão a unir suas vozes contra esta ordem que há tanto tempo a
92 (Tradução livre): Esta noite, eu digo para o povo da América, a Democratas e Republicanos
e Independentes por toda essa grande terra:
93 (Tradução livre): Chega! 94
(Tradução livre): No dia quatro de novembro, no dia quatro de novembro, nós temos que nos levantar e dizer: oito é o suficiente!
silencia. Enfim, uma convocação feita na voz de Obama, é respondida pela voz da multidão.
5.3 UMA VOZ DE ALHURES: A INVOCAÇÃO DE MARTIN