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O progresso das técnicas desumanizantes não pode nos alienar dos aspectos que compõem sua própria estrutura. Na base do processo de degradação do ser humano, encontra- se a construção utilitária da consciência técnico-funcional, a condição existencial de uma consciência massificada e a incidência abstrata da consciência fanatizada. É diante da realidade de uma cultura, cada vez mais tecnicista, que Gabriel Marcel propõe a reflexão sobre os limites da civilização industrial, entre a condição subvertida do homem da “barraca” e a situação agônica do homem problemático.

A discussão proposta por Marcel não pretende servir de uma linha de pensamento objetivo, sobre o modo como devemos analisar a relação entre a condição humana e o saber técnico. Antes, propõe o resgate de uma presença, “uma presença que é um dom, uma luz, e que se exerce como que à revelia daquele que dela é dotado” (MARCEL, 1958, p. 9), a presença do Ser humano.

1.2.1.1 Construção utilitária da consciência técnico-funcional

O mundo técnico-industrial coloca o homem numa condição de dependência de toda relação instrumental. A instrumentalidade reduz a existência do Ser ao campo árido das concepções de função e funcionalização. Nestes termos, o homem fica condicionado, pela noção relativa, ao ciclo empírico da produção, distribuição e consumo.

Exposto aos critérios da burocracia, o homem cede à tentação de se auto-objetivar, de definir-se através do que faz e não pelo que é e representa enquanto Ser histórico. “A burocracia tende a aparecer cada vez mais como parasita, como vermina de uma sociedade em decomposição” (MARCEL, 1951b, p. 160). Na intenção de responder ao apelo empírico da produção, o homem se coisifica, compromete sua identidade pessoal e perde-se no âmbito das noções de função e produtividade. “Ele se confunde com sua própria função” (MARCEL, 1951a, p. 39) à medida que oblitera o caráter e o conteúdo de sua própria presença e condição existencial.

A proliferação da burocracia tende a alterar o âmbito da relação do Ser consigo mesmo. A imposição da burocracia subverte a ordem entre o Ser e o ter (MARCEL, 2003). Nesta subversão, a condição existencial adoece, perde o vigor da seiva espiritual e a energia promotora do processo de desenvolvimento humano e de construção de sentido. O homem se avilta e passa a depender, cada vez mais, da imponência da representação social do papel que exerce, para determinar a sorte que lhe caberá no futuro imediato.

Onde as técnicas de aviltamento são soberanas, o princípio da dignidade humana é substituído pelo critério da ocupação e da empregabilidade. Conquanto estes aspectos pareçam social e mercadologicamente aceitáveis, devemos reconhecer que os mesmos foram usados para decidir a sobrevivência de milhares de pessoas nos campos de concentração nazistas. Nesta perspectiva de pensamento, Gabriel Marcel nos ajuda a recordar:

Basta lembrar o número de folhas que temos de preencher anualmente para o fisco, os seguros, caixas de compensação, etc., para reconhecer que estamos

literalmente alistados como burocratas auxiliares. Fato singularmente significativo. Pensando bem, é talvez a única forma em que se realiza o que espíritos quiméricos consideram progresso na unidade. Vimos, aliás, durante a ocupação alemã a que ponto o processo pode levar-se. Cada indivíduo é redutível a uma ficha escolhida pelo organismo central com elementos determinantes da sorte que lhes caberá. Ficheiro, sanitário, ficheiro judiciário, ficheiro fiscal, completado amanhã talvez por indicações grafológicas ou até antropométricas; tudo isto em sociedade tida por organizada decidirá do destino individual sem se terem em conta laços familiares, ligações profundas, gostos espontâneos, vocações [...] Parece-me muito importante notar que os processos dos nossos inimigos perante os habitantes dos países ocupados devem olhar-se desta perspectiva e não como simplesmente se imagina, vendo neles a expressão por assim dizer teratológica de uma vontade demoníaca; antes parecem expressões prematuras mais rigorosamente lógicas, de uma mentalidade que se generaliza à nossa vista [...] (MARCEL, 1951b, p. 161-162).

Na sociedade industrial o homem é concebido segundo a perspectiva da máquina. “A partir da máquina e tomando-a por modelo é que o homem é cada vez mais pensado” (MARCEL, 1951b, p. 160), treinado, educado, controlado, avaliado, utilizado, classificado, recompensado, determinado, pretendido, descartado e substituído. As ideias da máquina e do mecanismo se impõem à generalização desta tendência e de sua funcionalização e são constatadas por meio do abandono, cada vez maior, das atividades criadoras87, em favor das tarefas burocrático-abstratas e despersonalizadoras da condição existencial do Ser.

No mundo industrializado, o Ser autenticamente criador, que vive no plano da qualidade, se vê, cada vez mais, desfavorecido, desvalorizado e até desacreditado. Na lógica deste sistema, encontra-se a ênfase em torno do princípio da racionalidade utilitário-

produtivista e em torno do processo pelo qual se considera o rendimento como o único

critério de avaliação de desempenho, garantia de permanência do sujeito no mercado de trabalho e meio de afirmação nos ciclos de convivência e espaços sociais.

Se pensarmos o homem como maquina, é normal e acorde com os princípios da boa economia, quando o rendimento for inferior às despesas de conservação e ele já não ‘valer’ a reparação (isto é, o hospital) muito onerosa para o resultado possível, suprimi-lo, como se leva para sucata um aparelho ou um carro fora de uso; quando muito podem recuperar-se certos elementos capazes de servir (como se fez, se não me engano, no II Reich, na guerra, com a gordura dos cadáveres) (MARCEL, 1951b, p. 162).

87 Cf. HCH, p. 160, 164: “Mas o mal é ainda maior e mais profundo. O produtor, mineiro ou metalurgista traz afinal uma contribuição positiva ao mundo humano. O caso é diferente – pelo menos no limite – para o empregado, para o burocrata, em virtude das condições doentias e, de certo modo, cancerosas de proliferação da burocracia [...] O atrativo das cidades e dos cargos de funcionários sobre os camponeses explica-se, infelizmente, em parte, pelo caráter quase totalmente automático desses cargos, dessas existências”.

No ritmo da cultura do automatismo o homem se cansa, adoece e se degrada física e existencialmente. Submetidos a condições, na maioria das vezes, desumanas de trabalho, homens e mulheres se expõem às situações de opressão, exploração, manipulação, humilhação e ignomínia (MARCEL, 1955). Reduzir a vida ao imediatamente vivido é tencionar a existência; é abrir uma lacuna entre o que está implicado na sua condição secular e os hábitos que estão em vias de se contrair; é condicionar o homem mental, volitiva e comportamentalmente.

A condição de um operário e/ou de um empregado na sociedade técnico-industrial consiste, numa pseudo-incidência, sobre a possível mudança na maneira de viver e no modo de conceber as relações consigo e com a vida. Para a maioria da mentalidade proletária “viver pode não ser mais que vegetar na expectativa [...] um modo de existência em que as palavras felicidade e virtude vão perdendo toda significação” (MARCEL, 1951b, p. 166-167).

Na mentalidade industrial, a ideia de serviço88 está ligada às acepções do aparelhamento e funcionamento das repartições públicas e departamentos e privados. Num sentido funcional, servir significa estar empregado. Em tese, por trás das noções de cuidado, dedicação, organização, atenção, habilidade e competência, encontra-se a pressuposição de que tudo se move no plano da funcionalidade89 pura.

O servidor ou o bom servidor distingue-se por certa dedicação, e é justamente esse conceito que deveria aprofundar-se. O que importa reconhecer é que o empregado, no sentido preciso e restritivo da palavra, que julga ser pago para um trabalho especificado, em tempo absolutamente fixo, e não dever coisa alguma além desse trabalho, mostra-se alheio em princípio a essa dedicação, que por definição exclui esta contabilidade estrita. Dá-nos exemplo característico os membros do pessoal hospitalar, quando, findo o serviço do dia, não hesitam em retirar-se, deixando em aberto os cuidados necessários a qualquer doente. Nada devem além do que deram. Quanto ao mais, se não é com o doente resolver a dificuldade, o que não tem sentido,

88 Gabriel Marcel compreende o sentido do verbo servir como algo “[...] que pode significar apenas ser utilizado, como, ao falar de um aparelho ou de uma máquina, dizemos: já me serve, ou já não me sirvo dela. No limite oposto, o verbo carrega-se de harmônicos alheios à ideia de pura utilidade ou pura utilização, por exemplo, quando se diz: o fato de servir é honroso ou nobre. Aplicados a uma máquina, ou a um homem considerado máquina, ou seja, um escravo, estes termos não teriam sentido [...] Assim como dois pontos permitem definir uma reta, também estes dois limites permitem determinar um domínio onde a análise reflexiva poderá exercer- se. A ideia de serviço poderia originar observações que embora não simétricas das anteriores, lhes aumentam e precisam a importância. O serviço pode ser e é essencialmente o ato de servir no segundo sentido que defini; mas por outro lado vemos que a palavra tende a aplicar-se cada vez menos ao ato, e cada vez mais a órgãos de funções sociais determinadas; os serviços são cada vez mais as repartições (MARCEL, 1951b, p. 173-174). 89 Na sociedade técnico-industrial, a compreensão de uma funcionalidade pura é que tem levado velhos e

crianças a serem considerados como material de descarte ou de pouca utilidade. Como estudioso atento às questões do seu tempo, Gabriel Marcel denuncia esta injustiça dizendo que “O velho para nada serve, por isso é vulnerável. A criança também não pode servir ou pelo menos a sua utilização, como se praticou, por exemplo, no começo da era industrial [...]” (MARCEL, 1951b, p. 178).

pelo menos é a administração que cumpre dar providências; eles daí lavam as mãos. Este fato é dos mais significativos de uma mentalidade. Por um lado, o enfermeiro ou enfermeira considera-se como máquina, que deve fornecer um rendimento preciso durante certo tempo. Por outro – e é um paradoxo digno de toda a reflexão – esta assimilação de aparência degradante tem por contrapartida uma certa pretensão, uma certa ideia pretensiosa de base contratual: só devo o trabalho que me pagam; desde que me conformo com as cláusulas do meu contrato, estou livre e ninguém pode reclamar coisa alguma (MARCEL, 1951b, p. 175-176).

O problema das concepções de serviço e função não é de ordem técnica; é de origem metafísica. Sua base assenta-se num mundo onde o sentimento das relações pessoais foi envilecido progressivamente. A influência maléfica deste desenvolvimento acabou por instaurar uma espécie de sublimação existencial que não ultrapassa o nível infra-pessoal e um tratamento, onde o elemento pessoal não desempenha nenhum papel demasiado importante.

O grande desafio para o homem, numa sociedade técnico-industrial, é o de procurar orientar-se em função de um pretendido sentido que possa colocá-lo para além das tendências mecânicas e obliteradoras de sua existência. Outro desafio é procurar compreender “que qualquer atividade funcionalizada se apresenta como o limite de degradação possível de uma atividade criadora” (MARCEL, 1951a, p. 237). Ademais, é preciso reconhecer que Servir, em todos os sentidos, é estar disponível à verdade do Ser; à verdade de uma presença ativa que se exerce como que à revelia daquele que dela é dotado. É preciso, ainda, considerar a postura onde se reconhece que “é evidentemente necessário pensar que essa verdade é espírito, de certo modo em vias de encarnação, ou mais exatamente, que está ao mesmo tempo no exterior e no interior do que nós somos” (MARCEL, 1951b, p. 189).

1.2.1.2 Condição existencial da consciência massificada: diálogo entre Gabriel Marcel e Karl Jaspers90

A revolução industrial institui uma nova consciência sobre a vida humana e seu processo de desenvolvimento. Instaura um sentimento de descobrimentos de novos horizontes

90O motivo que nos levou a elaborar, neste tópico do trabalho de pesquisa, um diálogo entre Gabriel Marcel e Karl Jaspers, sobre a condição existencial da consciência massificada, foi oferecer ao leitor uma visão de correspondência entre estes dois expoentes da posição existencialista. A justificativa deste modo de produção encontra-se, na aproximação dos olhares, a respeito de uma determinada época e situação espiritual de um determinado tempo, de dois dos mais destacados expoentes da atitude existencial. Vê-se, então, que é em virtude da co-substancial significação do pensar destes dois filósofos, que procuramos apresentar suas contribuições. Com efeito, há que referir o valor das considerações feitas em torno de questões tão decisivas, para o modo como o homem apreende sua realidade e o caráter peculiar da concepção, que constrói a respeito de si mesmo e de sua própria existência.

nos campos da ciência, da racionalização da administração pública, da técnica e dos meios de produção. Com a crença no progresso geral da humanidade pensou-se que

[...] se havia estabelecido as condições previas de que pode ser realidade o pensamento de que em virtude da razão humana a vida do homem não necessitava ser aceita como havia sido recebida, tal como era, senão que, obedecendo a um plano, poderia ser organizada como devia ser (JASPERS, 1933, p. 12-13).

Com o domínio técnico do espaço, da matéria e do tempo o homem alcançou a consciência de que tudo lhe é acessível; alcançou, ainda, a compreensão de que o processo histórico da humanidade não está determinado na sua totalidade, mas que o indivíduo é capaz de alterá-lo teórica e substancialmente. Esta evolução está vinculada ao desenvolvimento da racionalidade da técnica.

Através dos processos de mecanização da existência e da influência das técnicas de aviltamento, o homem se desprende de todo Ser e deixa de conceber-se como alguém que é portador da possibilidade de transcender-se. Na intenção de fazer-se, o homem converteu-se numa consciência impessoal e abstrata, reduziu-se e passou a existir na condição de massa. Conforme o entendimento de Gabriel Marcel,

Um indivíduo faz parte da massa quando não só o valor que dá a si próprio – bom ou mau – não assenta em estimativa especial, mas quando, sentindo-se como toda gente, não sente angústia alguma e pelo contrário se sente à vontade achando-se idêntico aos outros (MARCEL, 1951b, p. 124).

Cercado por invenções técnicas, o homem conclui que pode alcançar o limite de sua evolução e desenvolvimento. Submisso ao poder de sua influência desapareceu no âmbito do esvaziamento de sua própria existência. A técnica que lhe proporciona a sensação da permanência é a mesma que lhe afere o signo da transitoriedade. Na opinião de Karl Jaspers;

A massa como público é um produto histórico típico: os seres humanos, em delimitação e gradação indeterminadas, acordes para a receptividade de expressão e de opinião. Porque a massa como a totalidade dos seres humanos articulados no aparato do regime existencial de tal maneira que lhe dão a tônica, à vontade e o caráter da maioria de modo necessário, é a força de nosso mundo realizando-se continuamente e que o público e a massa como cúmulo humano, só transitoriamente se veste de aparência (JASPERS, 1933, p. 36).

Sob a condição do aparato ideológico da técnica, a massa encontra-se exposta às tensões entre vitalidade e vacuidade, afirmação e negação, identidade e efemeralidade91. Na dimensão do grupo o indivíduo se perde, compromete sua subjetividade e torna-se, consciente ou inconsciente, mais um, no meio do grande grupo e/ou multidão. Desse modo, “[...] a massa pode definir-se, como fator psicológico, aquém do ponto onde os indivíduos se constituem em grupo” (MARCEL, 1951b, p. 124). Sob esta condição, as decisões são tomadas segundo a inclinação da maioria; a informação confunde-se com o conhecimento, o fazer laboral funcionaliza-se, as possibilidades cedem lugar às determinações, a criatividade se transforma em ação mimética e repetitiva, as relações se esvaziam e a existência torna-se mecânica e volátil.

Na busca pela produção e aquisição das coisas e dos objetos o homem deixa de fazer- se, reinventar-se e ressignificar a si mesmo. Por viver exposto e de acordo com as influências dos meios de comunicação de massa, “o homem desaparece na ideia da mera pluralidade de sua existência” (JASPERS, 1933, p. 35). Na busca pela unidade social, o homem compromete a identidade de seu enraizamento92 espacial, histórico, social e existencial. Ele sai da esfera da consciência de si para o âmbito da consciência em geral. Na intenção de se autoafirmar o Ser se delimita, degrada-se e passa a existir no vácuo da própria objetivação de si mesmo e da realidade na qual está inserido. A respeito dos efeitos que os meios de comunicação de massa exercem sobre a noção que o sujeito tem de si, Marcel comenta que

91 Para uma visão mais ampla sobre a relação entre sociedade de massa e técno-cultura, consultar a obra ‘A Indústria Cultural’ (MACDONALD, 1971). A polêmica sobre a sociedade de massa e a cultura industrializada encontra neste conjunto de ensaios uma leitura excitante e qualificada sobre os aspectos explícitos e/ou implícitos, dos elementos básicos de sua possível contestação.

92 Falando sobre o predomínio do aparato técnico sobre o processo de desenraizamento Karl Jaspers acrescenta: “Al convertir en función el aparato gigante la solicitud existencial del individuo, la desprende de las raíces sustantivas que antes circundaban al hombre como tradición. Se ha dicho: los hombres serán esparcidos en confusión como arena. El edificio es el aparato donde son colocados a placer, tan pronto aquí allá, no es una sustancia histórica que ellos cumplen con su ser-mismo. Cada vez son más los hombres que llevan esta existencia desarraigada. Arrojados de un lado para otro, sin trabajo luego, solo con la existencia desnuda, carecen de verdadero sitio en la magnitud del conjunto. La profunda verdad de que debe cumplir su misión cada uno en su lugar de la creación, se convierte en engañoso juego de palabras para aplacar al hombre que siente el horror siniestro del abandono. Lo que puede hacer el hombre se sitúa a corto plazo. Se le brindan tareas, pero no una continuidad de su existencia. Su labor es realizada prácticamente y liquidada después. Durante un espacio de tiempo es idénticamente repetida, mas no puede ser reiterada de manera profunda, de modo que llegue a trocarse en algo propio para quien la realiza; en ello no se experimenta acumulación en el si-mismo. Lo sido carece de validez, solo la tiene precisamente lo actual. El olvido es el rasgo fundamental de esta existencia cuyas perspectivas de pasado y futuro se pliegan casi en mero presente. Se llega a un fluir de la vida sin recuerdo y sin previsión, si se exceptúa la fuerza de la práctica mirada abstractiva en la función productora del aparato. Desaparece el amor a las cosas y a los hombres. Es como si lo hecho y terminado desapareciera y solo quedara la maquinaria en que ha de hacerse lo nuevo. Habitualmente vinculado a los fines próximos, no queda espacio al hombre para una visión vital de conjunto. Donde la medida del hombre es la capacidad media de producción, el individuo, como tal, es indiferente. Nadie es insustituible” (JASPERS, 1933, p. 47-48).

A função incrivelmente nefasta da imprensa, do rádio, do cinema, terá consistido precisamente em passar um cilindro compressor sobre essa realidade original, para substituí-la por um conjunto de ideias e imagens justapostas, desprovidas de raízes reais no próprio ser do sujeito (MARCEL, 1951b, p. 125).

“Não pode haver qualidades da massa para a indeterminada vacuidade essencial da mera quantidade” (JASPERS, 1933, p. 36). O que é notável, e do que bem poucas pessoas se apercebem, é que, a partir do momento em que o homem se insere na massa, passa a se mover conforme a impulsividade, a sugestabilidade, a intolerância e a mutabilidade, que envolve o processo de aglomeração. O homem se massifica e passa a compreender, erroneamente, que “quem não é e não pensa como toda a gente corre o risco de ser eliminado” (MARCEL, 1951b, p. 124). O homem que compõe a massa é passivo de se tornar fanático.

O processo de massificação não é estável e único para todas as gentes. O comportamento da massa é diverso, plural e híbrido. Sua natureza e substância variam de fenômeno e historicamente. A voz da massa não é a expressão do Ser; sua opinião não tem nome, não possui rosto, semblante e/ou face. É a opinião pública, anônima, onde todos falam e, ao mesmo tempo, não se ouve a voz de ninguém. “O caráter da massa como público é o fantasma de ser um grande número que opina sem estar presente em nenhum indivíduo” (JASPERS, 1933, p. 36).

Isto não quer dizer que o homem-massa, da era técnica, seja um ser desprovido da capacidade de raciocínio e da aptidão de formular ideias. “Pelo contrário, o homem-massa do nosso tempo é mais lúcido que o de qualquer outra época, tem muito maior capacidade intelectual, mas as suas aptidões de nada lhe servem...” (MARCEL, 1951b, p. 125). Apesar da