São Paulo afirmava que, em nações infiéis, a fé costuma entrar pelo ouvido. Todavia, diz Sepp, nestes bárbaros verificamos que ela entra de preferência pela boca.309
O padre Antônio Sepp trabalhou entre 1691 a 1733 nas missões do Paraguai. De seus escritos retiramos as próximas informações sobre a alimentação dos aldeados.
A distribuição da carne dentro das missões obedecia à seguinte regulamentação: “o Padre Missionário distribui, gratuitamente, duas vezes ao dia, a carne que os índios precisam".310
Na terceira década do século XVII o Pe. Mendonça recomendava aos irmãos de Ordem: "cuidem das minhas vaquinhas como das meninas dos vossos olhos, porque índio sem carne volta para o mato!".311
A catequese tinha na alimentação um alicerce fundamental. O Pe. Sepp testemunha que as preocupações dos padres giravam em torno dos seguintes problemas: moradia, vestuário e alimentação dos indígenas, com a finalidade de mantê-los em redução para cristianizá-los.
Segundo Sepp, os índios "são tão dados ao consumo da carne e a ela acostumados que a comem sem sal – porque os índios não o têm –, sem pão, meio crua e sangrada, e não podemos desacostumá-los desse mau costume, por mais que nos esforcemos".312
Antes da colonização a carne bovina inexistia na dieta Guarani. A propósito, viu-se que o próprio gado foi, nos primeiros tempos, alvo de contestação. Entretanto, para a manutenção das missões, a carne tornou-se imprescindível.
309SEPP, Viagem..., op. cit., p.170. 310SEPP, Viagem..., op. cit., p.142. 311SEPP, Viagem..., op. cit., p.43. 312SEPP, Viagem..., op. cit., p.71.
Sepp inclusive relaciona o consumo de grandes quantidades de carne bovina e a forma de preparo a muitos dos males que afligiam a população aldeada. Para o missionário, o problema residia na ingestão de carne mal cozida. Assim,
sucede, por vezes, que mandasse a um doente, carne bem assada e preparada à maneira alemã com salsa, rosmarinho e mangerona (são estes os nossos condimentos) ele porém, atira-a aos cães. Prefere encher a barriga com sua carne crua e sangrenta, que passou três vezes por cima do fogo e pela fumaça. Apetece-lhe esta muito melhor do que minha porção bem cozinhada.313
A prodigiosa multiplicação dos rebanhos, o desmantelamento do modo de produção Guarani após a chegada dos colonizadores, as determinações da Coroa de assentar em povoados as populações nômades ou seminômades, são fatores constituintes do pano de fundo da transformação pela qual passaram os hábitos alimentares tanto dos índios como dos jesuítas. Nas reduções, a carne constituía a base da dieta pela facilidade de obtenção e pela impossibilidade geográfica em manter a produção alimentar Guarani tradicional.
O Pe. Sepp relata a felicidade sentida com a chegada de provisões vindas da redução de Santa Cruz. Pães, mel, compotas, cana-de-açúcar, laranjas, limões, melancias e outras frutas americanas compunham o valioso presente. "Tudo isso tanto melhor nos apeteceu, porque aos poucos já estavam faltando os nossos víveres, exceto carne."314
Obter remédios, balancear a dieta, obter os temperos europeus, as flores preferidas, as comidas da terra natal, são motivos para que o missionário despenda tempo e energia na construção de hortas, jardins e pomares.
313SEPP, Viagem..., op. cit., p.117-118. 314SEPP, Viagem..., op. cit., p.118.
Sepp convida o leitor para um passeio pela redução a fim de observar a fertilidade da terra e o que cresce na América. Descreve plantações
para hortaliças e saladas, outra para árvores frutíferas, uma com ervas para os doentes, bem como uma vinha particularmente linda. Na horta há saladas o ano todo; salada de endívia bem amarela, uma crespa e outra não; além disso, salada repolhuda, da Bolonha, chicóreas, pastinaga, espinafre, rabão miúdo e graúdo, repolho, couve nabeira e nabo bávaro, que trouxe de Munique, salsa, aniz, funchão, melões, coriandro, pepinos e outras plantas indianas. Na das ervas tenho hortelã, arruda, alecrim, etc. A pimpinela foi devorada pelas formigas. No jardim de flores tenho lírios brancos, lírios indianos, girassol, malmequer, violetas amarelas e azuis, esporeira, chagueira e lindas flores indígenas. No vergel tenho macieiras, pereiras e nogueiras. As pereiras e nogueiras são grandes e bem crescidas, mas não querem deitar frutos, não sei por que. Além disso, tenho pêssegos, romãs, limas doces e azedas, limões doces e azedos, marmelos e mais frutas indígenas muito boas.315
Distribuir o sal para a refeição também é tarefa do missionário. Sepp diz que o faz com a recomendação expressa: "Isto é para a sopa, e isto para a carne! Porque de outro modo o meu bom índio deitará tudo na sopa, sem se preocupar que o Padre coma depois a sopa ou não".316
Ao índio, diz Sepp, maior ou menor quantidade de sal parece não fazer muita diferença, pois se "der de experimentar a sopa ao cozinheiro, para que aprenda para a próxima vez e meça o sal mais direito, o cozinheiro comerá a sopa, como se nada houvesse".317
Os recursos alimentares provenientes da caça eram também admirados por Sepp. Segundo o mesmo relator, "os campos estão cheios de perdizes, que não precisas de pólvora nem chumbo, mas podes matar os bichos com qualquer porrete ou um chicote”.318
315SEPP, Viagem..., op. cit., p.127-128. 316SEPP, Viagem..., op. cit., p.126. 317SEPP, Viagem..., op. cit., p.126. 318SEPP, Viagem..., op. cit., p.142.
Ensinou aos meninos da aldeia o uso de laços de crina de cavalo e a construção de alçapões, o que resultou em uma apreensão muito maior que a costumeira. “Ensinei estes métodos aos meus índios, que, por causa de sua grande ingenuidade, nada sabiam dessas artimanhas européias e não conheciam outra maneira de caçar senão de atirar com arco e flecha para cada pássaro isoladamente.”319
Aos hóspedes missionários vindos de outras reduções, vangloria-se Sepp de poder oferecer "uma pombinha assada ou cozida, juntando-lhe salada da minha horta, preparada com mel, porque não temos vinagre nem óleo, bem como um pedacinho de pão, depois um gole d’água do rio (...), e ele se sentem à vontade".320
A correspondência de Sepp contém relatos muito pitorescos e é insistente quanto à temática da voracidade e da glutonice dos índios. Tais relatos certamente causaram sensação junto a seus leitores europeus e, em muito pouco contribuíram para um pensamento menos preconceituoso a respeito das populações americanas. Apesar disso, suas informações são ricas, principalmente devido ao fato de estar preocupado em descrever o quotidiano das reduções, o que permite ao leitor perceber as transformações ocorridas nesse espaço e as reações decorrentes.