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O segundo mandato de Eisenhower (1957-1960) teve a figura do vice-presidente Nixon como porta voz frequente dos Estados Unidos nas relações internacionais. A bandeira contra o comunismo era hasteada cada vez mais alto. Os ditadores latino-americanos amistosos ao governo de Washington e cumpridores da vigilância na região começavam a cair. Eisenhower incumbiu Nixon com a ação de averiguar os ânimos latino-americanos - cujos resultados de suas análises serviriam de termômetro e alerta para questões de urgência. A conturbada passagem de Nixon pela América do Sul levou os Estados Unidos a repensarem a sua relação com o hemisfério, principalmente em termos de ajuda econômica. Nixon havia sido bem recebido por estudantes no Uruguai e teve “um pouco de publicidade negativa pelo atraso de sua chegada à posse do presidente Arturo Frondizi na Argentina.”245 Em Lima,

houve o prenúncio do que estaria por vir. Em Caracas, Nixon teve de enfrentar uma “multidão raivosa de estudantes.”246 O sentimento antiamericano foi notado em manifestações estudantis

em algumas capitais da América do Sul.247 No caso venezuelano, as manifestações foram radicais, e tiveram uma atenção especial da TIME:

Por cima dos ombros rígidos de uma linha de soldados venezuelanos no Aeroporto de Maiquetía, rios de saliva se espalhavam através da luz do sol e respingavam no delicado paletó cinzento do Vice-Presidente dos EUA e no terno de lã vermelho de sua esposa. Mas o pior ainda estava por vir: menos de uma hora mais tarde, Dick e Pat Nixon estiverem bem próximos de serem fortemente agredidos e possivelmente mortos pela violência das ruas de Caracas, a última parada de uma visita a oito países da América do Sul.248

O trecho acima se propõe a descrever a barbárie latino-americana, de um lado os “mal-educados” venezuelanos, do outro, a elegante e bem vestida “civilização” americana. Nixon, por mais controversa que fosse a sua personalidade, sempre teve o apoio político de Henry Luce, mesmo contra Kennedy (vide capítulo 1).

As hostilidades tiveram início já na chegada ao aeroporto. O incidente narrado acima por TIME ocorreu no momento em que Nixon e a sua comitiva pretendiam se dirigir

245 SCHOULTZ, Lars. Estados Unidos: poder e submissão- uma história da política norte-americana em

relação à América Latina, Bauru, SP, EDUSC, 2000, p. 389.

246 Ibidem.

247 WATERS, Vernon. Missões Silenciosas, Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1986, p. 287.

248 Over the rigid shoulders of a line of Venezuelan soldiers at Maiquetía Airport, streams of spittle arced

through humid sunlight, splattered on the neatly pressed grey suit of the Vice President of the U.S. and on the red wool suit of his wife. But worse was in store: less than an hour later Dick and Pat Nixon brushed close to injury and possibly death in violence-torn streets of Caracas, last stop on their eight-nation visit to South America. Time Magazine. The Americas: The Guests of Venezuela. 26-05-1958.

para o túmulo de Simon Bolívar, local onde seriam realizadas algumas homenagens. Conforme relatórios da embaixada americana em Caracas “uma multidão hostil foi ao encontro do vice-presidente e sua comitiva no aeroporto. Houve vaias e assobios e nenhum aplauso amistoso.”249 A embaixada traçou, ao seu modo, o perfil dos manifestantes. Segundo

seu relatório, tratava-se de um “grupo feito de gente desordeira e de má fama, de péssimo humor.”250

A TIME destacou, no corpo da reportagem, duas fotos da visita de Nixon, ambas foram tiradas por fotógrafos da Life e tiveram o mesmo direcionamento. Acima, estão os agitadores na rota da visita de Nixon (Riotes on Nixon’s route). Os manifestantes foram

fotografados num movimento que parte para o confronto com a comitiva de Nixon que tinha em sua defesa vários soldados armados com baionetas.

Os cartazes destacavam o desconforto da presença de Nixon naquele país que, segundo a legenda da imagem, “metade da população nunca foi à escola” (...half never went

to school). Neste caso fica uma mensagem de duplo significado: de um lado está a possível

249 SCHOULTZ, loc cit.

250 Cf. Memorando sobre a conversa telefônica, Burrowns (Venezuela) e Robottom e Sanders, 13-05-1958,

crítica à falta de investimento em educação (por parte dos americanos?); do outro lado, está o fato de que países com péssimos índices de escolarização são suscetíveis a ações de selvageria e barbárie como as que foram descritas na reportagem.

Todo o protocolo da visita teve que ser suspenso para possibilitar a fuga de Nixon com sua esposa. Segundo Schoultz, foram quatorze minutos de agonia em que Nixon e sua esposa ficaram presos dentro da limusine enquanto a “imprensa registrava uma ocorrência única na história dos EUA – manifestantes enraivecidos cuspindo no vice-presidente dos Estados Unidos.”251

Através da reportagem, a TIME deu um tom cinematográfico à fuga

Nixon e sua esposa seguiram viagem em carros separados numa rodovia de 10 milhas pela faixa costeira até a capital, mesmo assim os manifestantes tentaram cegar os motoristas atirando banners contra os para-brisas. Somente quando a multidão foi deixada para trás, os Nixons puderam tirar os lenços para limpar a saliva de seus rostos e roupas.252

251 SCHOULTZ, loc cit.

252 As the Nixons got into separate cars for the ten-mile superhighway trip up the coastal range to the capital,

demonstrators tried to blind the drivers by draping banners over the windshields. Only when the mob was left behind did the Nixons take out handkerchiefs to wipe the saliva from their faces and clothes. Time Magazine.

Acima, a TIME destacou o ataque às limusines. Os manifestantes foram fotografados chutando os carros escoltados. O carro de Nixon (number one!) ‘está sob violento ataque!’ (Nixon’s car under attack). As marcas das salivas podiam ser notadas no vidro dianteiro e no capô.

Seguindo a análise anterior, a TIME faz outro comentário através do enunciado da foto: “metade [da população] nunca teve o suficiente para comer”, (...half never had enough

to eat). O duplo sentido reaparece: o primeiro aspecto sugere a falta de investimentos na estrutura agrária do país; o segundo aspecto, mais conotativo, leva a entender que a população faminta diante do vice-presidente dos EUA poderia torná-lo presa fácil de um ritual de antropofagia.

Apesar do grau de violência, Nixon se manteve “frio e calmo, o que chamou a atenção da mídia, como ele sempre quis.”253 Nixon ao chegar em Washington foi tratado como herói.254 O presidente Eisenhower e uma multidão de 40 mil pessoas foram recebê-lo.255 Alguns cartazes diziam: “Não deixe esses comunistas desanimarem você, Dick.”256 O alerta

estava dado. Dois anos depois, o próprio Eisenhower faria a sua viagem de inspeção na região.

253 TOTA, Antonio Pedro. Americanos. São Paulo, Contexto, 2010, p. 209. 254 SCHOULTZ, Ibid., Ibidem.

255 Ibid., ibidem. 256 Ibid., ibidem.