Chapitre 5 Sp´ ecification d’un environnement de travail collaboratif 119
5.8 Tableau “espaces fonctionnels - logiciels”
O termo crítica tem, desde logo no seu uso habitual, uma profusão de significados142, sendo que tal
se reflecte ao tentar defini-lo em termos filosóficos também143. Está ligado, neste âmbito ao de
pensamento ou espírito «crítico»144
, advindo etimologicamente da noção de «crise»145
que se refere a um momento decisivo146
e remete para o âmbito médico. Surgindo no século XVII a partir do uso do termo por Goclénio147
relativamente a um tratado sobre o juízo, enquanto classificadora de uma investigação pura sobre o conhecimento humano considerado na sua razão de verdade, feita ao perscrutar a operação essencial do conhecimento humano – o juízo, constituindo-se como caractere da ciência primeira, e antecipando «virtualmente» a ontologia neste sentido148
, a noção, também
142 “arte de julgar uma obra de carácter intelectual, artístico ou literário; apreciação de uma criação intelectual, artística ou literária; julgamento; análise; exame; apreciação, observando o que existe e bom e de mau numa obra; conjunto das pessoas que exercem a actividade de crítico; juízo moral ou intelectual; acto de censurar; julgamento desfavorável.” in AAVV, Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 2005. 143 “A- Exame dum princípio ou dum facto, com vista a produzir sobre ele um juízo de apreciação. Existe especialmente uma crítica de arte (estética) e uma crítica da verdade (lógica). Ela é definida por Kant neste sentido amplo: “um livre e amplo exame”; – Chama-se, neste sentido, espírito crítico àquele que não aceita nenhuma asserção sem se interrogar de início sobre o valor dessa asserção, quer do ponto de vista do seu conteúdo (crítica interna), quer sob o ponto de vista da sua origem (crítica externa). Aplicações particulares:
crítica histórica, crítica verbal.
B- Ao restringir este sentido ao juízo desfavorável, chama-se crítica, quer uma objecção ou uma desaprovação que visem um ponto especial, quer um estudo de conjunto visando refutar ou condenar uma obra.” in LALANDE, Andre, Vocabulário da Filosofia, Porto, Rés Editora.
144 “A- Como o sentido A do substantivo. Espírito crítico (sob um aspecto positivo) : aquele que não aceita nenhuma asserção sem se interrogar de início sobre o valor dessa asserção, quer do ponto de vista do seu conteúdo (crítica interna), quer sob o ponto de vista da sua origem (crítica externa). - Bastante mais raramente (sob um aspecto negativo): aquele que é mais inclinado para revelar os defeitos do que as qualidades ou do que a produzir ele mesmo qualquer coisa de positivo.
B- Que constitui uma crise ou que se relaciona com uma crise. É assim que Saint-Simon e Auguste Comte opuseram o período crítico aos períodos orgânicos entre os quais ele se insere. Por consequência ao falar duma situação material ou intelectual: perigosa ou, pelo menos, instável na qual não nos podemos manter.” in LALANDE, Andre, Vocabulário da Filosofia, Porto, Rés Editora.
145 “Origem grega; vem de terminologia médica para designar fase aguda e decisiva; economicamente: designa parte do ciclo económico; historicamente: fase de instabilidade, perturbação, ruptura, que afecta o sistema; medicamente: crise psicológica – não só mutação dos valores, do conceito de mundo e da atitude pela vida, mas conquista da personalidade e independência do Eu; psicologicamente: desorganização emocional, ex.desenvolvimento.” in AAVV, Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira da Cultura, Tomo 8 – Século
XX, Lisboa, 1999, pg 506.
146 “estrutura de descontinuidade da ordem do acontecimento e do momento, afectando o desenvolvimento progressivo de um processo (ex. momento crítico) onde o sentido se vê alterado e em risco de modo decisivo; sentido grego «kirô»(verbo), «krisis»(substantivo) (momento decisivo, crítico, de balanço), começo de movimento – temporalidade: instante crítico, reviravolta decisiva, quebra de linha, introdução de descontinuidade” in AAVV, Encyclopédie Philosophique Universelle – Les Notions Philosophiques, Paris, PUF, pg 509.
147 R. Goclénio (1547-1628).
ligada, a partir do mesmo século XVII, ao estudo do estabelecimento de textos antigos e sua autenticidade, passou a ser tida em conta como forma de pensamento racional que examina um outro modo de pensamento a fim de julgar e determinar o seu verdadeiro valor (verdadeiro/falso; justo/injusto; belo/feio), designando hoje a actividade intelectual essencial à filosofia, e enuncia o que é direito e instaura o que é de direito, complicando em si signficados como os de distinguir, julgar, decidir, crivar, escolher, estabelecer, pesar prós e contras149
.
É reconhecida a importância do «criticismo» kantiano para a difusão e definição da noção, sendo que, num sentido amplo, chama-se criticismo a toda a doutrina segundo a qual o espírito constitui o conhecimento em virtude de formas ou de categorias que lhe são próprias e que, por consequência, são ao mesmo tempo infalíveis nos limites da experiência e sem valor fora dela, e, após Kant, diz-se de toda a tendência filosófica que consiste em fazer da teoria do conhecimento a base de toda a investigação filosófica, mas sobretudo, em particular, da doutrina do próprio Kant, designando uma disposição metódica do espírito e uma doutrina filosófica caracterizada por teorias que podem ser comuns a diversos sistemas150
.
Deste contributo decisivo ficou, em particular para a tradição continental, a visão de que filosofia é vista como um meio de criticar o presente e de promover uma reflexão esclarecedora do presente como estando em crise, num alargamento da aplicação do conceito, seja considerando diferentes abordagens filosóficas, como: a crise como esquecimento ou fim do ser, crise da episteme das ciências humanas, crise de fé no mundo, crise da sociedade e mundo burguês, crise do niilismo, crise das ciências europeias, crise da hegemonia da racionalidade instrumental, crise da dominação técnica da natureza, filosofia como reflexão aguçada sobre história, cultura e sociedade para levar a um esclarecimento da consciência crítica, crítica da ideologia, a teoria crítica, a crítica de arte e estética, a própria crise da razão, o pensamento crítico, etc.
Assim, quanto ao conceito de crítica, podemos dizer que foi sempre tido em conta como pedra de toque da filosofia na tradição continental desde os gregos, enquanto «produção de crises» emancipadoras do sentido e da verdade, bem como peça fulcral na concepção da filosofia como
149 Cf AAVV, Encyclopédie Philosophique Universelle – Les Notions Philosophiques, Paris, PUF, pg 517.
150 “1º uma disposição metódica do espírito e, por assim dizer, um estado (no sentido comteano da palavra); 2º uma doutrina filosófica caracterizada por teorias que podem ser comuns a diversos sistemas. Em primeiro lugar, o criticismo consiste nessa atitude sistemática: em vez de se considerar directamente os objectos conhecidos, colocar-se primeiro a questão de saber como conhecemos o que podemos conhecer. Em segundo lugar, criticismo designa as doutrinas que dão da questão precedente uma solução idealista ou subjectivista, mas sem que possivelmente o problema criticista comporte exclusivamente tais soluções. (M.
movimento crítico sobre a vida cultural mais de acordo com a tradição analítica151. Podemos
verificar pontos-chave nas perspectivas de um pensamento crítico no criticismo transcendental kantiano, na crítica da economia política marxiana (para não usar o termo marxista), na crítica sintomatológica e genealógica nietzschiana, no uso freudiano da psicanálise para a crítica das sociedades modernas, na teoria crítica advinda da escola de Frankfurt, até à função crítica foucaultiana que permite elucidar uma «ontologia do presente». Para não falar de todos os diagnósticos críticos presentes em filosofias de renome como a de Husserl ou Heidegger.
Claro que, se é tomado como tema explícito de uma meditação filosófica fundamental na modernidade, por exemplo por Kierkegaard152
, ao submeter à ironia da sua crítica as passagens dialécticas e movimentos hegelianos, oponde-lhes a ordem de existência infinitamente ligada a um «temor e tremor» de uma passagem patética que requere uma decisão na instaneidade do instante, por Nietzsche, e o seu pensamento do eterno retorno e transmutação de valores, é possível ver o mesmo espírito em exemplos anteriores, desde a prática socrática da ironia à dialéctica platónica. Também Descartes, ao pôr em exame os saberes escolásticos segundo plano metódico, pela dúvida hiperbólica, Espinosa, pela defesa de uma crítica racional, no debate entre razão e revelação, submetendo a Verdade aos seus próprios critérios de verdade, ou Hume, que no início do Tratado
da Natureza Humana153
menciona o crítico como uma actividade de exame e discernimento próprio ao domínio da sensibilidade pois se matemática, filosofia da natureza e religião natural dependem do conhecimento humano, há uma segunda série de ciências que se debruçam sobre as actividades específicas humanas (moral, política, critica), também produziram importantes assomos críticos.
O emprego do termo «crítico» como género filosófico surge na obra de Pierre Bayle154
, no
Dicionário Histórico e Crítico155 (elogiado por Leibniz, por exemplo), apelando a um crítico
negativo que toma a forma de um verdadeiro interrogatório mas que se debruça às dificuldades / antinomias e aporias do pensamento antigo, que através da reflexão é reapropriado pelos ensaios críticos que examinam e comparam os gostos humanos procurando a natureza humana através da sua diversidade.
151 Importa derimir, neste âmbito, a pouca relevância para a conceptualização que estamos a efectuar que muitas vezes têm os estudos de «critical thinking» tão em voga nos nossos dias, mas que pouco têm que ver com a profundidade e intenção definitivamente filosóficas.
152 Soren Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês.
153 HUME, David, A Treatise of Human Nature: Being an Attempt to introduce Experimental Method of
reasoning into Moral Subjects (1739-1740) – edição portuguesa disponível: HUME, David, Tratado da Natureza Humana, Lisboa, FCG, 2012.
154 Pierre Bayle (1647-1706), escritor e filósofo francês. 155 BAYLE, Pierre, Dictionnaire historique et critique, 1697.
Mas é na figura do Kant e no criticismo kantiano que encontramos a plataforma de entender o passado e o futuro do desenvolvimento do conceito. Muitos questionam-se se há um momento pré- crítico, um momento crítico, e se haverá pós-crítica. A importância de Kant não deriva apenas de se assinalar a crítica enquanto método, momento de filosofia, cujo sistema correspondente em Kant será o criticismo, mas também por se dar em Kant o início mútuo da filosofia continental e da filosofia analítica, bem como as duas formas actuais de compreender o pensamento filosófico críico. A pedra de toque da filosofia na tradição continental pode ser a prática da mesma inserida historica e culturalmente no mundo como seres finitos, sendo esta prática que leva a filosofia a uma crítica das condições presentes como condições de liberdade e segundo a demanda utópica de que as coisas podem ser diferentes – falamos do idealismo alemão, do marxismo, da fenomenologia, da psicanálise, da escola de Frankfurt e neo-kantianos, por exemplo. A responsabilidade do filósofo será a «produção de crise», perturbando (segundo Husserl) a acumulação lenta dos sedimentos moribundos da tradição, em nome de um reactivação crítica histórica, cujo horizonte seja um mundo-vida emancipados (filosofia tem assim este carácter emancipatório). Para o filósofo, a verdadeira crise é a situação onde a crise não é reconhecida pois: a filosofia não teria propósito; seria uma distracção intelectual; seria uma técnica de aguçar o senso comum.
Da definição de filosofia continental como sentido crítico sobre modernidade, como produção de crítica, como consciência crítica do presente, podemos notar uma diferenciação relativamente à filosofia analítica ou de tradição analítica, sendo importante sublinhar a crítica do cientismo (Nietzsche, Bergson, Heidegger, Husserl, hermenêutica), pois (nesta perspectiva) as ciências não permitem aceder ao mundo mais significativo, e corre-se o perigo de naturalização da filosofia – a adopção do cientismo falha neste sentido na função crítica e cultural da filosofia. Isto acrescendo ao que se denomina, por vezes de forma pejorativa, de «profissionalização da filosofia»: é que no mundo anglo-saxónico surge a divisão de temas (no mundo continental há um cruzamento de temas), redefinindo-se a filosofia segundo a relação com uma tradição específica, e com uma forma para alguns diversa da filosofia fazer parte da vida cultural como momento de reflexão crítica156
.
Retomando a tradição «crítica» kantiana, esta poderia ser lançada quer como uma «analítica da verdade», na exploração da legitimidade das «condições de possibilidade do conhecimento possível», bem como das perspectivas morais, quer, e acentuemos este lance, como «ontologia do
156 Cf. CRICHTLEY, Simon, e SCHROEDER, William R., A Companion to Continental Philosophy,
presente», numa análise de toda a actualidade segundo os interesses próprios da razão, nos quais o prático-moral deveria comandar o especulativo-epistemológico e o estético-telelógico, com o objectivo de retirar o homem da sua minoridade, da qual ele seria o próprio culpado, de modo a criar um futuro por vir que conseguisse reparar o que historicamente correu num mau sentido, sem contudo deixar de activar a análise histórica, e que partiria de uma superioridade filosófica que a ela se dedicasse.
Por outro lado, e porque a questão da linguagem e dos discursos pode funcionar como entroncamento crítico, não podemos deixar de notar a importância da análise disposicional dos saberes e poderes que M. Foucault encetou quanto, por exemplo aos referenciais da vida, do trabalho e da linguagem. A noção de uma «crítica» é assim relacionada com um estudo incisivo e inter-disciplinar acerca do sentido, mais do que discursivo epistemicamente, das possibilidades, miríades e contradições por que passa o pensamento, a razão, na sua relação com os desafios éticos e com a sua inserção disposicional e relacional social, cultural, política e economicamente.
Em suma, poderemos, utilizando as linhas de um artigo157
recente sobre a genealogia filosófica da crítica, seguir como desde os gregos até Kant e, principalmente, deste (nas Críticas158
), até aos nossos dias, o conceito se diverisifica em propostas como as de Freud (Mal-Estar na
Civilização159
), Nietzsche (Para a genealogia da moral160), Marx (Para a crítica de economia
politica161), Adorno162 (Dialéctica negativa163), Weber164 (A ética protestante e o espítito do
capitalismo165), Foucault (Ditos e Escritos II166), Rancière (O Desacordo167
), para citar os mais referidos no artigo mencionado.
Se “a crítica […] atravessa campos da filosofia, das ciências sociais, da estética”168, “apesar de a
crítica caracterizar a prática filosófica desde os gregos, é no pensamento kantiano que se torna um
157 CACHOPO, J. Pedro, Para uma Genealogia filosófica da Crítica, in AAVV, Imprópria nº1, Unipop. 2012. 158 Crítica da Razão Pura (Kritik der Reinen Vernunft), de 1781/1787, Crítica da Razão Prática (Kritik der
Praktischen Vernunft) de 1788, e Crítica da Faculdade do Juízo (Kritik der Urteilskraft), de 1790. 159 Das Unbehagen in der Kultur, 1930.
160 Zur Genealogie der Moral: Eine Streitschrift, 1887. 161 Zur Kritik der Politischen Ökonomie,1859.
162 Theodor Adorno (1903-1969), filósofo, sociólogo e musicólogo alemão.
163 Negative Dialektik, 1966.
164 Max Weber (1864-1920), jurista e economista alemão, considerado por muitos o fundador da sociologia.
165 Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus, 1905. 166 Dits et ecrits 2, 1994.
167 La mésentente, 1995. 168 Idem, pg 44.
problema central na filosofia”169. E “uma vez que «crítica» (proveniente do verbo krinô, que
poderíamos traduzir por «destrinçar», por «distinguir», por «julgar», por «examinar», ou ainda por «oassar pelo crivo») remonta genericamente à noção de exame – de um «saber», de uma «obra», de uma «prática» -, em vista da enunciação de um juízo relativo ao valor desse «saber», dessa «obra», dessa «prática», é licito afirmar que a crítica atravessou sublminarmente a história da filosofia. Neste sentido genérico, relevariam efectivamente de uma crítica filosófica, por exemplo, quer a oposição socrática ao relativismo de Protágoras e ao niilismo de Górgias, quer a polémica cartesiana contra o dogmatismo escolástico”170
.
A partir de Kant surgem duas acepções, uma política e outra gnoseológica (ou uma relativa à questão da análise dos limites do conhecimento racional e outra ao exercício autónomo do entendimento próprio do Iluminismo)171
. Para Hegel a relação entre pensamento subjectivo e a realidade objectiva, ou razão e história, promove uma perspectiva teleológica e idealista, como progesso da consciência de si e do mundo até ao autoconhecimento absoluto do espírito, no que, para os opositores que se lhe seguiram (como Feuerbach172
ou Stirner173
), o desafio teórico-prático é o de articular uma crítica teórica da realidade e do seu conhecimento com uma crítca prática visando a transformação da realidade, enfrentando as contradições do real em vez de as iludir numa racionalização absoluta do mesmo174.
Marx ressalta neste panorama ao procurar restituir a verdade material da história, pois cabe à crítica ser a «cabeça da paixão» e não a «paixão da cabeça», ou seja, é preciso conhecer as contradições reais para o exercício teódico crítico que possibilite uma prática revolucionária. Claro que se centrará mais em questões de ordem económica e política – ex o conceito de «alienação», mas o seu objectivo é o de uma crítica da realidade económica objectiva e uma crítica da consciência subjectiva dessa mesma realidade (cuja infra-estrutra será económica). Daí que a uma crítica da economia política se ligue uma crítica da ideologia – por exemplo, nos conceitos de «mais-valia», ou de «fetichismo de mercadoria». E daí que a uma crítica teórica se ligue uma política prática pois há o objectivo de tomada de consciência de fenómenos como a exploração laboral175
. No fundo, “a crítica, no contexto do capitalismo moderno e contemporãneo, visa as condições da realidade e da
169 Idem, pg 45. 170 Idem, pg 55. 171 Cf. Idem, pg 45.
172 Ludwig Feuerbach (1804-1872), filósofo alemão.
173 Max Stirner (pseudónimo de Johann Kaspar Schmidt)(1806-1856), filósofo e escritor alemão. 174 Cf. Idem, pg 46.
consciência da realidade que são, em simultâneo, as do seu próprio exercício”176.
Nietzsche, por seu turno, apresenta uma dimensão crítica na sua pesquisa genealógica ao analisar a origem e proveniência de um valor ou sistema de valores (como os da matriz judaico-cristã) – esta análise dá-se como momento da interpretação, e passa-se desta ao questionamento do valor desse valor/es, não só quanto ao que o possibilitou, mas quanto ao que ele possibilta – momento da avaliação. Esta perspectiva reverberá em Foucault quanto aos «efeitos do poder», por exemplo. Daqui se nota a crítica nietzschiana da moral como sintoma, máscara, doença, equívoco, e também como causa, remédio, estimulante, veneno177
.
Freud surge neste âmbito no sentido de uma crítica radical da sociedade moderna tendo em perspectiva o paradoxo fundamental da civilização – o progresso civilizacional visa a felicidade dos seres humanos, mas a civilização constitui uma das causas do «mal-estar» dos indivíduos nas sociedades modernas – por exemplo, a contradição entre segurança e liberdade, a renúncia dos instintos e conflitos psicológicos, a frustração e má consciência como preço do progresso pela repressão da satisfação – generalizando a «neurose» como condição geral da existência individual na modernidade178
.
Também se poderá mencionar, numa ligação ao pensamento sociológico, a figura de Max Weber e o cruzamento da sua avaliação do sistema de valores com uma análise socioeconómica da modernidade em vista de uma crítica do capitalismo179. Já a Escola de Frankfurt cruza contributos
de Marx, Nietzsche, Freud, quer corrigindo algum pendor do marxismo, quer aprofundando o diagnóstico crítico, quer contemplando os contributos da psicanálise: “Eis a hipótese de fundo: o fracasso da modernidade […] remontaria a uma afinidade primitiva entre razão e dominação”180. A
dominação da natureza exterior e da natureza interior são indissociáveis, como se vê na dominação social do homem pelo homem, explicando a interiorizção subjectiva da lógica objectiva do capitalismo. Daí que a crítica da modernidade seja vista como uma crítica da própria condição crítica racional imanente à crítica das sociedades modernas181
.
Por fim, Foucault perspectiva duas tradições a partir do pensamento crítico ulterior a Kant: uma
176 Idem, pg 48.
177 Cf. CACHOPO, J. Pedro, Para uma Genealogia filosófica da Crítica, in AAVV, Imprópria nº1, Unipop. 2012, pg 49.
178 Cf. Idem, pg 50. 179 Cf. Idem, pg 49. 180 Idem, pg 51. 181 Cf. Idem, pg 52.
mais estritamente gnoseológica da filosofia crítica kantiana (exposta basicamente nas três Críticas), e uma outra (exposta nos textos de Kant sobre o Iluminismo e a revolução) mais ligada ao que designa por «ontologia crítica do presente»182
. Este pensador parece afigurar-se como a grande