O acervo iconográfico do Jardim de Infância Modelo de Natal, parte documental do Instituto Superior Presidente Kennedy, compõe-se em dois tipos de artefatos culturais: os álbuns de fotografias e as fotografias avulsas. As fotografias com motivos escolares são produzidas com o intuito de narrar uma história oficial, elas recuperam a edificação escolar, a sala de aula, os alunos e professores, eventos e festividades solenes. De acordo com Barros (2005, p. 121) elas são:
[...] produzidas para o governo, no caso das escolas federais, estaduais ou municipais [...]. As foto são principalmente construídas por fotógrafos profissionais, associando uma estética apurada no tratamento formal (com planos bem construídos e distribuição da figuração), com um conteúdo fundado em signos que remetem à tradição humanista secular e à disciplina moral e religiosa.
As fotografias presentes nos álbuns fotográficos contam uma história. Os álbuns de fotografias representam uma identidade individual e coletiva da instituição educativa, auxiliando a memória do grupo. De acordo com Abdala (2013, p.2)
[…] o álbum é um tipo de documento que se caracteriza primordialmente pela sua completude, pela sua lógica organizacional e pela unicidade da temática apresentada. Compõe uma narrativa sobre determinado assunto, articulando imagens e textos, sob a forma de legendas, identificam, apresentam e interpretam elementos e cenas das imagens.
A prática de organizar álbuns de fotografia remonta ao surgimento da técnica. O autor materializa a narrativa do álbum, é ele quem estabelece condições para a existência do mesmo, que consiste na representação dos seguintes elementos: tema (conteúdo); sujeitos (seus atores); o objeto visual (a foto) e a técnica utilizada para arquivar (o álbum). As categorias definidas remontam sua função narrativa, pois ao classificar e ordenar as imagens, uma história é construída numa série documental (ABDALA, 2013).
De tal maneira, tivemos acesso a oito álbuns. Apenas um, da década de 1950, e os demais, de 1960. Os álbuns escolares do Jardim de Infância Modelo de Natal seguem uma única temática. Sua narrativa é clara ao retratar os alunos que estariam concluindo o ciclo da educação pré-escolar e estariam aptos à ingressar no Ensino Primário. Nota-se que há um certo padrão na organicidade dos álbuns fotográficos escolares e que todos seguem uma forma ordem.
Percebemos também que o artefato cultural tanto foram encomendados e produzidos com técnicas e materiais profissionais, identificados pelas inscrições na capa e verso, impressão das legendas e molduras das fotos; quanto, de modo artesanal, observado por escritas à mão, desenhos e figuras. As capas (Figura 3) de cada ano modificam-se. Os álbuns de fotografias dos formandos eram caprichosamente decorados, com pinturas infantis feito à mão.
Figura 3 - Pintura no álbum de fotografia do JIM de 1959
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
Os desenhos animados tinham a função de estimular a imaginação e a fantasia, reproduzindo, muitas vezes, um universo pueril e inocente, representantes da cultura da infância. A imagem de personagens de desenhos populares da Disney representam essa cultura da infância, que penetra em aspectos da vida social da criança, brincando com o imaginário infantil e de adultos (GIROUX, 2001).
Com essas imagens, o retrato traz a memória de cada um dos sujeitos que fizeram parte daquele momento tão especial para a formação educacional das crianças, isto é, os alunos que com honra e louvor finalizam aquela etapa de vida escolar e os profissionais com o exercício e dedicação à promoção de uma instrução pública de qualidade. Nos retratos, destaca-se a individualidade, a expressão de qualidades e virtudes incontestáveis, dignas de eternização (SOUZA, 2001, p. 91).
Figura 4 - Compilação dos álbuns de fotografia do JIM de 1959
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
Chamamos também a atenção para o material usado na confecção do álbum do ano de 1954. Sua capa (Figura 5) é composta em madeira com trabalho marchetaria, a cena compõe pinheiros, montanhas, um caminho que leva até uma casa, e apresenta também o nome da instituição e dos concluintes daquele ano.
O delicado trabalho artístico demonstra o valor social atribuído à festa de formatura, momento em que os alunos estariam apresentando-se diante da sociedade suas apropriações culturais.
Figura 6 - Álbum de Formatura (1954)
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
Aborda Silva (2008) que o um álbum de fotografias assume a função de arquivo, uma vez que é um objeto em que ao mesmo tempo guarda e conserva a memória. Contudo, o autor alerta para a devida “vocação narrativa”, isto é, a capacidade de narrar uma história, e reforça a diferença entre guardar e classificar uma foto. Dessa maneira, a narrativa dos álbuns do Jardim de Infância Modelo de Natal constrói-se na organização e apresentação do: Juramento da Turma, Homenagem de Honra (apresentação do patrono e paraninfo), homenagem especial (diretor e professores), orador da Turma, retrato dos concluintes. Nas imagens à seguir, é possível observar o mesmo juramento sendo reproduzido pelas turmas de 1963 e 1964.
Figura 7 - Álbum de concluintes – JIM (1963)
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
Figura 8 - Álbum de concluintes – JIM (1964
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
O valioso juramento “Creio em Deus. Venero minha pátria. Adoro minha família.
O amor ao próximo vai ser meu lema na vida”, no qual as crianças deveriam memorizar
sucessivamente nos álbuns dos concluintes. O que nos leva a pensar que o juramento não era construído com as crianças para representar os sentimentos dos concluintes, mas que na verdade, ele sintetiza a filosofia da escola projetando socialmente ideais que foram incutidos nas crianças em sua formação. Valores e crenças em Deus, sentimentos de veneração à pátria brasileira, o respeito e amor à família e ao próximo eram elementos fundamentais para a formação daqueles novos indivíduos. Segundo Gouvêa (2007, pgs.20-21)
“Os discursos e práticas de socialização ao se dirigirem à criança, constroem um imaginário sobre a infância, produzindo modelos de gestos, hábitos, comportamentos que são material de socialização nos processos de formação de tais autores. A criança é também produto de tais práticas e discursos.
É nessa perspectiva que a criança se torna depositária de discursos, introjetando valores, normas, condutas e comportamentos civis historicamente que foram produzidos por um ideal de sociedade e repercutem na construção do indivíduo. Assim, ela reproduziria a filosofia defendida pela instituição, característica do contexto social brasileiro. Na tentativa de construir uma identidade institucional, essas escolas criaram as suas próprias tradições, por exemplo, o culto ao patrono e a comemoração do aniversário de criação/do estabelecimento de ensino, a memória dos primeiros diretores, professores e ex-alunos que ganharam visibilidade pública (SOUZA, 2001, p. 91).
O álbum dos concluintes, em seguida, apresenta o paraninfo e patrono da turma, geralmente figuras ilustres da sociedade natalense como podemos constatar na imagem abaixo.
Fotografia 18 - Homenagem de honra, Álbum de Formatura (1962)
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy
A turma de 1962 convida e homenageia a professora Chicuta Nolasco Fernandes, diretora do Instituto de Educação de Natal. As crianças escolhem como Paraninfo da turma Agnelo Alves, irmão do governador Aluízio Alves, pessoa escolhida para ser o padrinho da turma de formandos. Elegem também o patrono Geraldo Magela Cruz, figura importante para a educação do Estado e integrante da Associação dos Professores. O patrono era alguém que serviria de inspiração a turma e que geralmente, representava alguma causa importante socialmente. Abdala (2013) reforça a ideia da valoração atribuída aos patronos e paraninfos, ao afirmar que:
“O retratos dos patronos e diretores das escolas figuram com destaque entre as fotografias que permanecem nas escolas, fixadas em locais onde possam ser vistas. Esses retratos, numa perspectiva mimética, muitas vezes representam a
permanência dos próprios retratados, que continuariam, assim, a zelar pela escola” (ABDALA, 2013, p. 187)
Por meio de acordos firmados entre o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), o Ministério da Educação e Cultura (MEC) e o Governo do estado, “não faltou a ajuda financeira necessária à execução dos serviços de experiência pedagógica” (RIO GRANDE DO NORTE, MENSAGEM, 1960, p. 90). As professoras do Jardim de Infância, unidade do Instituto de Educação de Natal, recebiam bolsas de estudos para aperfeiçoar-se e especializar-se cada vez mais, oferecendo um ensino de qualidade para a infância natalense.
De tal modo, diretores e professores também possuíam seu lugar de destaque no álbum. Eles seriam os grandes mentores da nova geração (NÓVOA, 1989). Os homenageados especiais da turma de 1963 foram: Teresinha Pessoa da Rocha, a ilustre diretora esteve à frente da instituição por quase 10 anos (1960-1970). E as professoras Alda Maria Sampaio Marinho e Lindaura Andrade, na fotografia 19.
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
Confesso que ao ver essas mulheres sendo homenageadas pela turma de 1963, me instiga em saber quem elas são. Quais marcas elas deixaram nas vidas dessas crianças? Quais experiências significativas foram vivenciadas no ano de 1963? São curiosidades evocadas da memória social, uma vez que, partimos da compreensão de que as fotografias teriam essa capacidade de reproduzir ao infinitamente aquilo que “só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente” (BARTHES, 2012, p.14).
Após a apresentação da direção e professoras, o álbum dos formandos traz a fotografia do orador da turma (Fotografia 20) e logo em seguida, dos concluintes do ano. Em cada fotografia, o nome da criança. Em alguns álbuns, percebemos que imagens se perderam ao longo dos tempos.
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy
O orador da turma de 1964 divide a página acompanhado das crianças: Almira Veiga N. da Costa e Aécio Ciríaco da Silva. Petrônio Tercio Bezerra Tinôco representa a Família Tinôco, figuras importantes na política natalense. A estima do orador na cerimônia de formatura seria representar a turma e os valores morais, civis e religiosos adquiridos na/pela instituição.
Observamos que a escolha do orador, nos anos (1954, 1962,1963,1964), fora por um menino. O que nos leva a pensar acerca dos papéis sociais atribuídos aos sexos. Seria um reforço de uma prática sexista? Quais seriam os critérios de escolha? São indagações que surgem, mas que no momento não obtivemos respostas.
Em toda fotografia há uma intencionalidade na sua produção, existe uma mensagem a ser transmitida, até mesmo a textura da fotografia auxilia na provocação dos sentimentos. Kossoy (2001, p.27) aponta que os fotógrafos são filtros culturais e diferentes fatores influenciam em sua atuação, como a escolha do tema, aspectos de tratamento estético, tecnológico, culturais. O registro visual documenta a própria atitude (valores, normas, regras, ideologias) do fotógrafo diante da realidade. Elas selecionam que feição do mundo real vai ser retratado, e isso, um historiador também faz por meio de escolhas.
Fonte: Acervo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy.
Segundo Mauad (2005), “há de se considerar a fotografia como uma determinada escolha realizada num conjunto de escolhas possíveis, guardando nessa atitude uma relação estreita com a visão de mundo daquele que aperta o botão e faz clique”, aqui, a imagem da aluna da turma de formandos de 1953, não foi uma escolha aleatória, traz consigo minhas intencionalidades. Na verdade, todas as fotografias aqui apresentadas representam o meu olhar sobre o tema, uma escolha diante de um “conjunto de escolhas possíveis”.
Os retratos não são representações fiéis. Eles são uma forma simbólica, um gênero composto mediante um sistema de convenções sociais, isto é: a escolha do cenário, a postura, expressão facial e corporal, acessorios e objetos (BURKE, 2017). Assim, a construção da linguagem fotográfica configura-se num processo cujo o autor, conforme Kossoy (1999, p. 26):
“[...] motivado por razões de ordem pessoal e/ou profissional, a idealiza e elabora através de um complexo processo cultural/estético/técnico, processo este que configura a expressão fotográfica. Tal ação ocorre num preciso lugar,
numa determinada época, isto é, toda e qualquer fotografia tem sua gênese num específico espaço e tempo, suas coordenadas de situação”.
O enquadramento da imagem aponta uma expressão firme e séria no olhar das crianças, marcando o ângulo frontal e central da foto. Os “formandos” representam o processo de formação educacional proposta àqueles sujeitos, o qual estariam aptos a ingressarem o ensino primário. Vale salientar que esse retrato traz consigo um recorte parcial do mundo, uma vez que, de acordo com Burke (2017),
“As pessoas retratadas podem ser vistas com maior ou menor distância, com um enfoque respeitoso, satírico, afetuoso, cômico ou desdenhoso. O que vemos é uma opinião “pintada”, uma “visão de sociedade” num sentido ideológico mas também visual. Fotografias não são exceção a essa regra, uma vez que, como argumentado pelo crítico americano Alan Trachtenberg, “um(a) fotógrafo(a) não tem necessidade de persuadir um espectador a adotar o seu ponto de vista, porque o leitor não tem escolha; na fotografia vemos o mundo pelo ângulo da visão parcial da câmera, da posição em que ela estava no momento em que o dispositivo para bater a chapa foi acionado”” (BURKE, 2017, p.181-182).
Percebemos que a materialidade do documento visual demonstra princípios de organicidade que, por sua vez, nos permite adentrar ao universo da cultura escolar. A iniciativa de compor álbuns fotográficos nos aponta a valiosa preocupação dos envolvidos com a preservação da memória institucional, assim como, nos conduz a pensar sobre a intencionalidade em compor apenas álbuns de concluintes.