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Como considera o atual estado do cinema em Portugal?

Tão bom quanto pode ser num pais onde não existem, nem nunca vão existir, condições para assegurar o funcionamento de uma indústria.

Numa altura em que se fazem centenas de filmes em curtos períodos de tempo, quais são as estratégias de divulgação que podem marcar a diferença?

Acredito que o único fator que pode e deve marcar a diferença é a qualidade. A história recente do cinema nacional comprava que não basta uma campanha de marketing agressiva para assegurar o sucesso de um filme.

Na sua opinião, Turismo e Cinema são duas áreas convergentes ou divergentes?

Convergentes.

Pensa que Portugal tem potencialidades para se tornar cenário de filmes de sucesso?

Sim.

Quais são as vantagens que uma cidade pode ter ao ser cenário de um filme?

A promoção e divulgação do seu património, a capacidade de imprimir a sua aura no imaginário de milhões de pessoas que podem nunca ter ouvido falar da mesma.

Considera que as indústrias dos locais onde os filmes são gravados também beneficiam deste fator?

pessoas e necessidades logísticas, consequentemente torna-se capaz de estimular a economia de uma região aos mais diversos níveis.

Numa escala de 0 a 10 quanto considera que as pessoas se deixam influenciar pelo cinema?

Depende de pessoa para pessoa. Mas a história comprava que há poucas artes que se comparem ao cinema em termos da influência que são capazes de obter nas massas.

É capaz de enumerar três filmes que tenham despertado em si a vontade de conhecer o local onde decorre a ação?

La Dolce Vita Lost in Translation O Ultimo Imperador

Considera importante a existência de uma Film Commission na cidade do Porto?

Sim. Considero fundamental.

A Grã-Bretanha criou um mapa com os locais mais importantes da saga Harry Potter e este pode ser levantado em qualquer Embaixada britânica. Este tipo de rotas temáticas tem vindo a ganhar importância em vários países. Pensa que Portugal estaria preparado para investir neste meio de divulgação?

Penso que antes de mais, teríamos que ter algum produto que de forma realista (e não apenas sustentado pela fé de quem ama a sua nação) tivesse um apelo popular tão grande como o da saga supracitada. Para isso, é necessário não só um grande investimento mas também criar as condições necessárias para que os talentos possam emergir e encontrar meios de crescimento. Será que alguma vez teria ouvido falar da

J.K. se ela tivesse permanecido no Porto?

Portugal está em crise. Se por um lado, as pessoas procuram fugir da realidade e uma ida ao cinema ajuda a esquecer os problemas da vida, por outro lado os

cidadãos têm menos poder económico. Pensa que os portugueses vão cortar nas idas ao cinema ou pelo contrário vão manter e até aumentar este hábito para escaparem à dura realidade?

O entretenimento é apenas uma das funções do cinema, existindo propósitos mais profundos e que visam um impacto no espetador que vai muito para além da mera distração. O Cinema é um espaço de reflexão, de interpelação, de contestação e conquista… gostaria de poder dizer que o atual “quadro negro” irá criar as condições para que se veja melhor cinema, mas não, o que se vai passar, de acordo com o que se passa em todos os meios de comunicação, é uma crescente demanda por tudo o que nos reduza à inércia e à passividade. Os Portugueses, na sua esmagadora maioria, não vão ver filmes, vão ao cinema, espaço que tratam da mesma forma que a sua própria sala de estar. Existem de facto reduções nos números de espetadores em sala, não porque as pessoas vejam menos filmes, mas porque perderam completamente a noção do que é ver um filme numa sala de cinema… podem perfeitamente ver no telemóvel e a diferença

será pouca.

Um filme quando é produzido não tem como objetivo servir de brochura dos locais. No entanto, o filme Vicky Cristina Barcelona recebeu duras críticas relativamente ao facto de mostrar mais a cidade espanhola do que se centrar na própria história das personagens. Pensa que a aliança turismo/cinema pode mudar completamente as ações dos realizadores que passarão a criar filmes mais fracos no que concerne ao enredo mas que apostarão mais na divulgação dos locais?

Não é algo que seja previsível. Vai depender sempre dos realizadores e principalmente

da inteligência (ou falta dela) dos produtores.

As maiores produções cinematográficas chegam a incluir cerca de 3000 pessoas. Se um filme deste gabarito fosse rodado na cidade do Porto, pensa que isso iria beneficiar o seu crescimento económico? Em que sentido?

Sim. Em todos, pelo menos durante o período de rodagem. 3000 pessoas comem, dormem e consomem… muito! Se o filme tiver sucesso, ainda recebemos os turistas.

Algumas das suas curtas-metragens foram exibidas nas edições do Fantasporto e noutros festivais do género. Considera este tipo de eventos importante não só para o cinema mas também para o turismo da cidade do Porto?

Sim. A dinâmica cultural de uma cidade é o reflexo da sua dignidade.

Quando escolhe o local de filmagem preocupa-se com a imagem dessa região junto dos espetadores?

Preocupo-me exclusivamente em servir propósitos narrativos, quando falo em ficção. No entanto, já produzi outros filmes com esse tipo de preocupação específica, porque era essa a sua natureza.

A escritora J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter, escreveu os seus capítulos favoritos do primeiro livro no Café Majestic. Pensa que seria vantajosa uma associação entre o filme e o espaço referido?

Não creio que o café Majestic necessite dessa associação para assegurar o seu sucesso, é

uma curiosidade apenas para os fans da saga.

No entanto, ao que parece, a referida escritora era uma assídua do restaurante Chamiço na rua da constituição… talvez esse espaço pudesse ganhar uns pontos extra, pelo

menos enquanto a saga perdurar na memória.

A livraria Lello apresenta uma estrutura que nos remete para Hogwarts, mais uma vez uma referência a Harry Potter. Acha que em Portugal há falta de visão e isso faz com que este tipo de pormenores não seja aproveitado?

Não. Artisticamente, não falta visão em Portugal. O que falta é sensibilidade e transparência política.

É professor na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto. Considera que este tipo de ideias (aliar o cinema ao turismo) deve ser implementado nos alunos durante a sua formação, de modo a criar profissionais mais visionários?

Penso que é apenas um ponto entre uma infinidade a abordar. Como professor, creio que é nosso dever, não formatar os alunos para um tipo específico de trabalho que consideramos que deviam fazer, mas antes estar atento às suas sensibilidades e aspirações pessoais, e a partir dai, dar o nosso melhor para lhes fornecer as ferramentas que necessitam para se realizarem enquanto profissionais e seres humanos.

Os Setjetters são os turistas que viajam para as paisagens que servem de pano de fundo de filmes. Pensa que este tipo de turistas vai aumentar nos próximos anos?

É um nicho muito específico. Esse tipo de turistas vai aumentar, se proveniente de uma economia em expansão (como o caso da China), de resto penso que os números deverão estar em concordância com a linha regular de crescimento verificada até à data.

Que estratégias julga pertinentes para combater a contestação, que muitas vezes surge, das pessoas que moram perto dos locais escolhidos para filmar?

A administração de grandes doses de tolerância e educação cívica.

Pensa que algum dia o cinema se tornará na principal alavanca na promoção das regiões?

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