• Aucun résultat trouvé

Até aproximadamente a metade do livro, Melman (2008a) falava da nova economia psíquica relacionando-a a aspectos da perversão. No entanto, a partir deste ponto, ele traz um tópico intitulado Psicose social e zapping subjetivo, no qual diz que, diante desses novos sintomas que ele evoca, “fizemos uma báscula para a psicose social” (p. 93). Após esta afirmativa, Lebrun questiona-o: “Por que, de repente, quando até aqui falávamos de perversão, evocar a psicose?” (LEBRUN In: MELMAN, 2008a, p. 93).

Percebemos que a escolha do tradutor foi a de manter a palavra zapping na frase. Este termo remete a algo que se move com rapidez, algo que se faz rapidamente16. Uma segunda definição, coloquial, e relacionada à televisão, indica que zap significa: “Usar o controle remoto para mudar rapidamente de um canal para outro”. Zap também pode ter o sentido de       

16 Dicionário Michaelis (2002). Minidicionário Inglês. São Paulo: Editora Melhoramentos.

atacar, fulminar, investir. Diante dessas possibilidades, infere-se que o autor fala de alguma mudança subjetiva repentina, algo na subjetividade que foi atacado rapidamente e modificado, uma espécie de “mudança de canal” subjetivo.

Para responder à questão posta por Lebrun, Melman diz que o problema da relação das perversões com as psicoses sempre foi um grande tema de discussão. Então ele dá um exemplo, que descreve como caricatural, que é a visão de jovens passeando na rua com seus fones de ouvido para escutar música. Segundo ele, tem-se o sentimento de assistir a uma espécie de tentativa mecânica de produzir um ruído alucinatório permanente. “Como se, não suportando mais o silêncio do Outro, devêssemos entrar num mundo em que, sem cessar, haveria vozes, e vozes que não deixam de ter consequências, já que submergem você” (MELMAN, 2008a, p. 93).

Esse exemplo é facilmente verificável ao observar as pessoas nas ruas. Não somente em relação ao fone de ouvido, mas podemos pensar nos telefones celulares, que são praticamente extensões do corpo, e servem a diversas funções, envolvendo estimulação auditiva, visual, tátil. O sistema touchscreen, dá ainda menos trabalho para o usuário, pois ele não precisa mais apertar um botão diversas vezes até chegar onde deseja. Agora com o que é quase um “toque de mágica” se chega muito mais rápido, e mais diretamente ao que se deseja. Melman fala em não mais suportar o silêncio do Outro, e daí a necessidade de estar sempre conectado a algo, mas de forma direta, ou seja, mais uma vez a necessidade de presentação, ao invés da representação.

À semelhança do que já frisamos em relação à perversão, é importante destacar que os autores aqui não falam da psicose enquanto estrutura, ou seja, que teríamos mais sujeitos psicóticos hoje em dia do que em outras épocas. Eles apenas evocam características e traços que pertencem ao campo da psicose (assim como falavam antes da perversão) e que atualmente estariam mais visíveis, mesmo entre os neuróticos, ou as pessoas ditas normais. E esse seria um dos aspectos da mutação cultural apontada por Melman.

Para Melman, esse novo sujeito não é psicótico, mas participa desse sistema, atraído por uma perspectiva, uma promessa (termo usado por ele) que essa nova economia faz brilhar: a promessa de que é possível ter vidas múltiplas. Diversas histórias na literatura e no cinema já trataram deste tema, o que nos faz compreender que é algo que fala de um desejo comum, algo que circula em nossos discursos. Os filmes que abordam as viagens no tempo (por exemplo, De volta para o futuro, Efeito Borboleta), ou as histórias que apresentam o tema do “duplo” (O médico e o monstro, O retrato de Dorian Gray, Clube da Luta, etc.), não

são, todas elas, tentativas de viver uma outra existência? Elas são uma espécie de ensaio do protagonista em outra época da história, ou em outra pessoa, outro corpo.

Ainda há pouco estávamos condenados a levar uma existência e apenas uma. Isto é, sejamos precisos: estávamos condenados a ter um certo tipo de gozo, com histórias sempre idênticas e em companhia de personagens que, de fato, eram sempre os mesmos, histórias, então, que se repetiam, mesmo quando os parceiros mudavam (MELMAN, 2008a, p. 95).

Segundo Melman, o que hoje nos é oferecido é experimentar gozos diversos, explorar todas as situações, e esse seria o verdadeiro liberalismo: o liberalismo psíquico. No mercado, é proposto como se isso fosse comum, participar de existências múltiplas. Isso se traduz, segundo o exemplo do autor, nos percursos de jovens por existências efetivamente múltiplas, no campo profissional assim como no das experiências subjetivas – inclusive as ligadas às identidades sexuais.

Para o autor, isso se trata de um dos efeitos dessa nova economia psíquica, que efetivamente não prepara mais um lugar em que o sujeito possa se sustentar, esse lugar em que o sujeito possa encontrar seu heim, sua “casa”, saber que lá ele está em casa. Melman diz que se trata de casos clínicos que não encontrava antes. E, a propósito de “ocupar um lugar”, Lebrun evoca os casos de crianças hiperativas, apontando que esse sintoma poderia remeter também à nova economia psíquica. Ou seja, a hiperatividade poderia ser um sintoma que fala pela criança sobre sua tentativa de encontrar um lugar de referência, no qual possa se sustentar.

Ao mencionar essas múltiplas possibilidades, Melman fala em sujeitos “flexíveis”, e podemos evocar aí um traço típico do funcionamento psicótico, que seria o de um sujeito que pode “topar tudo” e, assim, ficar à deriva. Calligaris (1989), ao discorrer sobre a estrutura psicótica fora de crise, dá o exemplo de um paciente, que ele percebia que: “[...] era disponível a qualquer coisa. Não no sentido da docilidade, no sentido de que teria sido fácil manipulá-lo, mas no sentido de que qualquer estrada e qualquer direção eram para ele direções possíveis, estradas possíveis” (p. 11).

Lebrun (In: MELMAN, 2008a), então, volta a questionar: “Eu me repito: você fala de perversão e, ao mesmo tempo, você diz que estamos na psicose...” (p. 97). Melman responde que a perversão, nessa questão, é o único amparo, a única proteção contra a psicose. Ela constitui agora o ponto fixo, a única referência possível, a última bússola.

Neste ponto do livro, começa a ficar mais clara a teorização de Melman sobre a psicose e a perversão na mutação cultural. Segundo ele, a perversão se revela então como defesa possível diante dessa espécie de psicose social. Pode-se pensar que a perversão constituiria uma referência, um ponto fixo, pois no funcionamento perverso ainda há um pai (um nome-do-pai) a quem se opor, o qual negar. Na psicose, diferentemente, o pai está foracluído, fazendo com que o sujeito fique à deriva, sem referência, sem uma gravidade que o mantenha fixo no chão. A perversão seria, então, uma tentativa de reconhecer que existe uma referência, mesmo que, para isso, tenha-se que negá-la a todo o momento.