4.6. Results Chain
4.6.1. Economic Transformation Pillar
Ao registrar as três ecologias a do meio ambiente, a das relações sociais e a da subjetividade humana Felix Guattari (2002) manifesta sua indignação diante de um mundo altamente conturbado com o de- semprego, a marginalidade cultural, a solidão e a angústia. O eu ecosófico, tomando emprestado o conceito de Guattari, é a articulação ético-política da subjetividade humana com os outros dois registros eco- lógicos, a saber, o ser-em-grupo e o ser no micro e no macro espaço. A finalidade desse triplo engajamento é, não só, a de promover uma re- construção das relações humanas em todos os níveis, mas também a de processar a reinvenção do meio ambiente, o enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade e as mutações existenciais que dizem respeito à essência da subjetividade (GUATTARI, 2002, p. 16). Segundo o autor, se não houver uma rearticulação dos três registros fundamentais da eco- logia, mencionados acima, pode-se, infelizmente, pressagiar a escalada de todos os perigos: os do racismo, do fanatismo religioso, dos cismas nacionalitários, da opressão e exploração de indivíduos.
A língua, como veículo do pensamento do homem, é a manifesta- ção de sua identidade. A pessoa praticamente assina a sua fala, porque podemos extrair dela a sua origem geográfica e social, o seu nível de escolarização, mais ou menos a idade, o sexo, a ocupação e, principal- mente, os diversos componentes da subjetividade de que fala Guattari (2002): o eu poeta, o eu criança, o eu brasileiro, o eu aprendiz etc. Assim irmanados, linguagem e pessoa funcionam como um ato trans- formador, buscando-se alcançar a atmosfera apropriada, a autonomia em sala de aula.
É esse conjunto de papéis mutantes e dinâmicos que formam e transformam o indivíduo com o qual vamos nos confrontar também na aula de língua estrangeira. Integrar o ensino de uma língua estrangeira à formação do indivíduo deve ser um dos objetivos da aula de língua es- trangeira. Promover atividades de aprendizagem que oportunizem o for- talecimento do eu é uma forma de preservar-se a própria identidade.
Em um artigo intitulado Resgatando narrativas (SILVA et al., 2001), o grupo de pesquisa em Lingüística Aplicada ao Inglês e Alemão do Departamento de Letras Germânicas da UFBA enfatiza o papel da narrativa na aquisição de uma LE narrativa no sentido de Marilene Grandesso (2000), como o relato que cada indivíduo elabora em torno de sua vida.
A fascinação de contar e ouvir histórias, como também o desejo de recriá-las e reescrevê-las, contribuem não só para o enriquecimento do imaginário, mas também para o aprimoramento do processo da es- critura. Construir histórias representa um dos instrumentos fundamen- tais para se rever valores juntamente com nossos aprendizes, bem como para expressar as próprias experiências de vida ou elaborar e reelaborar significados. Para Heidegger, o estar-no-mundo é uma busca constante de significados para que possamos conhecer a nós mesmos e interpretar o mundo. Essa compreensão influencia o modo como relatamos as nos- sas narrativas, como nos situamos no espaço e como interrompemos a leitura habitual que fazemos de nossos relatos, procurando alternativas para que possamos intervir em nossas vidas (SILVA et al., 2001). A nar- ração de histórias reais e de histórias inventadas possui a virtude de ga- rantir uma unidade na mudança: as personagens guardam a sua fisionomia, apesar das vicissitudes que atravessam; desta forma, ajuda- nos a nos perceber enquanto sujeitos coerentes e aceitar as modificações. A aula de língua estrangeira aparece aí, segundo Larrosa (1994, p. 48-49), como um lugar no qual se produzem e se interpretam histórias pessoais. E a experiência de si está constituída, essencialmente, a partir das narrações. Assim, o sentido de quem somos vai depender das histórias que contamos aos outros e daquelas que contamos a nós mesmos. Em particular, das construções narrativas nas quais cada um de nós é, ao mesmo tempo, o autor, o narrador e o personagem principal. Além disso, essas histórias estão construídas em relação àquelas que ouvimos ou le- mos, pois estamos compelidos a produzir a nossa própria narrativa base-
ados nas histórias que vivenciamos. Em resumo, o sentido de quem so- mos é análogo à construção e à interpretação de um texto narrativo que, como tal, obtém seu significado não só das relações intertextuais que mantém com outros textos, como também de seu funcionamento prag- mático em um contexto.
A seguir, mostraremos um exemplo de um texto de um estudante guatemalteco aprendendo alemão na Alemanha e incentivado pela pro- fessora a desenvolver com a classe a sua narrativa, ao compartilhar te- mas comuns a outros alunos estrangeiros, tais como o expatriado, o amor e o sofrimento em duas línguas.
A iniciativa da professora de alemão contribuiu, inclusive, para a construção de um livro conjunto com os alunos. Vê-se, assim, a sala de aula como uma comunidade de aprendizes, onde o professor cria e cons- trói o material didático junto com o aluno, evitando-se com essa cumpli- cidade o caráter de previsibilidade do livro didático e fazendo do apren- diz o personagem principal. É a partir desse trabalho, nesse contexto de comprometimento, que surgirão as questões lingüísticas.
Ausländerkind 2 Sergio L. (Guatemala) Bin stumm geworden durch den Zwang, anders zu sprechen.
Ihr habt mich noch nicht verstanden und wollt mich auch nicht verstehen. Anpassung, magisches Wort:
die Fata Morgana löst sich auf und verläßt mich
nüchterner, isolierter, noch einsamer. Filho de Estrangeiros 3 Sergio L. (Guatemala) Tornei-me mudo por pressão,
para falar de outra forma. Vocês ainda não me entenderam e não querem me entender. Adaptação, palavra mágica: a miragem se esvai
e me deixa mais sóbrio, mais isolado, mais só.
Segundo Grandesso (2000), na tentativa de dar sentido à própria exis- tência, ordenamos nossas experiências em seqüências temporais para obter- mos um relato coerente sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos rodeia. Essa ordenação de vivências se reflete no discurso de cada um através do uso de símbolos e metáforas, que indicam maneiras particulares de se encarar o mundo. Evoluir significa ser capaz de construir uma nova versão a partir da existente. Sendo o processo evolutivo semelhante ao da reescritura, as pes- soas estão sempre entrando nos próprios relatos e apoderando-se deles para fazer os ajustes necessários. Nesse sentido, a autora sugere que as narrati- vas não são estáticas, mas abertas para uma reconstrução transformadora (p. 200); por isso, nossas histórias de vida podem ser sempre recontadas.
Quando temos a oportunidade de relatar as nossas experiências, estamos interagindo com o outro na representação desses relatos. Uma história deve tentar enfatizar, principalmente, aspectos úteis e abertos da existência, não excluindo experiências vividas para que se tenha uma representação justa, real e não distorcida da realidade (OMER, 1997; WHITE e EPSTON, 1993 apud SILVA et al., 2001). Ilustraremos isso
Keine Sprache erlebe ich ganz: Meine Kultur bleibt ein Rätsel in den Pfützen meiner Seele. Eure Sitten sind für mich zerbrechliche Pusteblumen, die nur den Windhauch erwarten, um woanders hinzufliegen. Ich besitze zwei Sprachen, aber dafür keine Heimat. Eure Welt ist nicht die meine, da ihr mich nicht annehmt. Meine Welt ist Dunkelheit, ein trübes Bild,
nur ein Schatten.
Nenhuma língua vivencio totalmente: minha cultura permanece uma charada nas poças de minha alma.
Seus costumes são para mim como dentes de leões,
aguardando apenas uma rajada de vento, para voar para outro lugar.
Eu possuo duas línguas, mas nenhuma pátria. Seu mundo não é o meu já que vocês não me aceitam. Meu mundo é a escuridão, uma pintura turva, apenas uma sombra.
com alguns relatos de alunos estrangeiros aprendendo português para estrangeiros numa escola em Salvador:
Minha estancia no Brasil Corinne S. (alemã)
Eu cheguei para o Brasil no mês de fevereiro. E eu não falei quase nada. A primeira época era muito difícil e me senti como um bebê que deve aprender tudo de novo.
Antes do carneval se sente como a cidade se comença encher. Cada dia mais festas, mais violência, mais turistas e estranjeros. A fevre do carneval se aumenta cada dia.
Foi muito interessante para olhar e sentir mas foi também alarmante! Não sei ainda que devo pensar deste spetaclo; por um lado me impressi- onava e por outro lado tinha medo.
Acho também que o Brasil é o país dos contrastes. De vez em quando é muito interessante mas pode ser também canzativo!
Querido amiga Megy
David L. (canadense/coreano) Eu não gostei de ver no livro. Eu gostei de escrever no livro. Eu não gostei de 1 jogo. Eu gostei de cinema.
Eu gostei de Shopping Senter. Eu gostei de super mercado. do amigo David L.
Meu ideal seria falar... Werner M. (alemão)
Meu ideal seria falar todas as línguas do mundo.
Se eu as falasse, poderia entender todas as pessoas do mundo.
Nao precisaria aprender o português. Todo seria mais fácil.
Se eu viajasse para qualquer país do mundo poderia falar dire- tamente com a gente.
uma ligação, por que poderia entender e falar mais rápido.
Tivesse um estrangeiro na rua em Frankfurt poderia ajudar ele quando ele quis saber alguma coisa.
Poderia ensinar todas as línguas me fizesse contente.
Se uma pessoa falasse ou dissesse uma brincadeira poderia rir, porque entenderia tudo que essa pessoa falasse.
Tivesse um ladrão poderia dizer para ele que não seria interessante rou- bar as minhas coisas porque não tenho coisas caras.
O Tempo
Rudolf S. (suiço) Antigamente
Antigamente eu era pequeno e um pouco gordo; gordo porque comia muito chocolate, sobremesas e outras coisas.
Antigamente eu não fumava.
Não gostava de jogar futeball. Não gostava de ir para a escola. Gostava de ir para a compania de meu pai, ele tem uma madeira (construcão de madeira) para construir muitas coisas de madeira.
Hoje
Gosto de ir para a escola, por exemplo Casa do Brasil em Salvador. Não gosto muito das sobremesas. Hoje não estou muito gordo. Hoje fumo muitos cigarros por dia.
Amanhã
Vou retornar pra casa, talvez vou me casar. Gostarei das crianças. Não acabarei de fumar porque é bom para a saúde?!
É necessário buscar, então, discursos alternativos, que nos permi- tam enxergar significados inusitados para a nossa existência; para rom- per esse círculo vicioso, procuramos novas possibilidades e outras leitu- ras de mundo mais otimistas e mais desejáveis. Assim, aposta-se numa história de vida com um final mais aberto, trilhando-se caminhos já su- geridos em outro artigo do já mencionado grupo de pesquisa, intitulado A filosofia da positividade e o ensino de línguas estrangeiras (SCHEYERL et al., 1999). Nesse ensaio, inspirado nos ensinamentos da pedagogia da positividade de Francisco Gomes de Matos, busca-se
otimizar a prática pedagógica na aula de língua estrangeira, calcando-se na valorização da auto-estima e do respeito aos direitos do aprendiz. Tal postura, certamente, incrementa a aprendizagem, que é um objetivo essencial e constitutivo da subjetividade de cada um.
Através da aprendizagem, o indivíduo vai desenvolvendo o seu modelo interno ou ajustando a própria matriz cognitiva que se constrói no embate com o real: é este modelo dinâmico, em constante constru- ção, que permite ao indivíduo ir aprendendo a aprender, a reorganizar sensações, emoções, pensamentos, crenças e valores (QUIROGA, 1997).