• Aucun résultat trouvé

Elaboration process of Ruhango DDS

O mundo pós-moderno traz a quebra de fronteiras geográficas, a partir da consolidação da “conexão planetária” decorrente das redes midiáticas. Processos de desterritorialização e conseqüentes reterrito- rializações, moldadas por uma dinâmica simbólico-cultural, implicam na organização de “territórios culturalmente mais híbridos, no sentido de permitirem/facilitarem o diálogo intercultural, quem sabe até possi- bilitando a emergência de novas formas, múltiplas, de identificação” (HAESBAERT, 2002, p. 41). A globalização, trazendo a pretensão de pro- mover a homogeneidade cultural, vem também provocando uma crise de identidade nos níveis global, local e pessoal, causando movimentos de

resistência, de revitalização de culturas silenciadas, de afirmação de ele- mentos multiculturais.

Nesse contexto, as línguas consideradas internacionais, como o inglês e o espanhol, ao adquirirem o status de línguas francas, vão per- dendo as características culturais de vinculação às identidades nacionais dos falantes nativos10 e, aos poucos, vão assumindo a tendência para a hibridização cultural. Justifica-se, assim, que o ensino dessas línguas as- suma, primordialmente, o objetivo instrumental de ser veículo de comu- nicação internacional (nas relações pessoais e transacionais), de afirma- ção política das identidades dos aprendizes, de exploração de outros ter- ritórios culturais. Reforçando o caráter instrumental das línguas inter- nacionais, McKay (2000, p. 7-8) aponta três aspectos relevantes entre cultura e língua internacional, baseando-se em Smith: a) os aprendizes de uma língua internacional não precisam internalizar normas culturais de falantes nativos da língua; b) a posse ou propriedade da língua inter- nacional torna-se desnacionalizada; c) o objetivo educacional de apren- dizagem de uma língua internacional é capacitar os aprendizes a comu- nicar suas idéias e sua cultura aos outros. Nesse sentido, a cultura-alvo de ensino passa a ser muito mais a cultura de origem do aprendiz do que a cultura do estrangeiro. Isso sugere que o ensino da cultura não deve envolver uma simples apresentação de fatos, mas um processo crítico e social de compreender outras culturas em relação a sua própria cultura. Seguindo essa perspectiva humanística, temos oferecido oficinas pedagógicas com professores das redes pública e particular de ensino, objetivando, através de uma abordagem ética/estética, a produção de projetos pedagógicos no sentido de desenvolver uma visão crítica sobre crenças, atitudes e valores que emergem no processo de aprendizagem de LE e de assumir o reconhecimento de identidades inseridas na pluralidade cultural. Buscamos, assim, redimensionar a orientação do ensino de cultura estabelecendo três pontos básicos: a) desenvolver a multiplicidade de olhares na percepção das culturas estrangeiras;

b) redescobrir os valores culturais das identidades de origem dos aprendi- zes; c) viabilizar um intercâmbio constante entre múltiplas identidades que permeiam os universos pessoais e profissionais de cada indivíduo; d) afirmar o posicionamento político de minorias marginalizadas.

Nessa proposta multicultural, o professor de LE redimensiona seu papel profissional, distanciando-se de uma postura de alienação e aproxi- mando-se de um comprometimento com a transformação social, tornan- do-se um educador intelectual, um agente de mudança, engajado na desconstrução de estereótipos e na promoção da tolerância das diferenças, da convivibilidade internacional, conforme advoga Giroux (1997, p. 251).

[...] ao combinar a linguagem da crítica com uma linguagem de possibilidade, tais educadores podem desenvolver um projeto político que amplie os contextos sociais e políticos nos quais a atividade pedagógica pode funcionar como parte de uma estra- tégia contra-hegemônica.

Nas referidas oficinas, os professores, seguindo os paradigmas da pedagogia multicultural, são estimulados a produzir projetos pedagógi- cos, a partir de textos autênticos em diversas linguagens, que conduzem ao (re)descobrimento de mundo enfocando um cenário multicultural, à variedade de vozes e de discursos que rejeitem perspectivas etnocêntricas, à problematização de conflitos de identidades, à integração de valores culturais, à possibilidade de se vivenciar uma ética da solidariedade. Nesse contexto, o professor estimula um discurso polissêmico, apresentando novos olhares e novas mentalidades, alimenta o trabalho cooperativo em sala de aula, reforça o pensamento crítico-reflexivo. Como coorde- nadora de algumas dessas oficinas, surpreendo-me com a capacidade criativa dos professores, com a visão crítica que manifestam diante das aplicações pedagógicas baseadas em conteúdos culturais selecionados. Demonstrando um alto nível de motivação durante o processo de pro-

dução de projetos, revelam um forte sentimento de gratificação pessoal evidenciado pelo desenvolvimento da autonomia profissional ao arrisca- rem-se a sair dos roteiros de previsibilidade do livro didático. Enfim, di- ante dos resultados alcançados, é evidente que tais experiências mar- cam, significativamente, a satisfação de crescimento pessoal e profissio- nal. Proponho-me, a seguir, a fazer um breve relato de cinco desses pro- jetos que foram considerados como bem sucedidos na aplicação em sala de aula.

• Em uma proposta interdisciplinar, uma atividade de literatura explora a questão da violência à mulher, através da leitura do con- to “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles11, que narra um episódio no qual a personagem feminina, em um encontro clandestino com seu amante, é envolvida pela voz sedutora, pelo discurso sutilmente sádico do seu parceiro que, de forma surpre- endente, a conduz para o momento e o local precisos a fim de executar um “crime de amor”. A leitura dramatizada do texto envolve a turma, as falas interpretativas se entrecruzam... Des- cobrimos algumas coincidências do roteiro da história e do nome da protagonista (Raquel) com a personagem da telenovela Mulhe- res Apaixonadas, de Manoel Carlos e Ricardo Waddington, que, na ocasião, era apresentada pela Globo. Decidimos, então, fazer uma análise intertextual (conto e telenovela) enfocando o com- portamento machista e violento do amante. Esse projeto se com- pleta na sala de aula de inglês, seguindo a mesma linha temática da aula de literatura, através do trabalho interpretativo feito com a música “Behind the wall”, de Tracy Chapman12, que descreve uma ocorrência de violência assistida pela vizinhança, mas silen- ciada pelo medo da denúncia, como revelam os versos: The police / always come late / if they come at all / And when they arrive / They say they can’t interfere / with domestic affairs...13 O ensino da música

assume, assim, não apenas um caráter lúdico (como geralmente acontece), mas é explorado como linguagem jornalística.

•Ao fazer uma análise crítica do livro didático, uma equipe de professores aponta para a homogeneização cultural das ima- gens ilustrativas das lições que ressaltam a realidade social de grupos hegemônicos. Os professores, então, se propõem a or- ganizar um banco de fotos de grupos socialmente marginaliza- dos, que possam causar no aluno um determinado impacto e gerar a curiosidade para uma pesquisa que vise ampliar sua cons- ciência multicultural. Assim, por exemplo, na lição sobre fa- mílias, preferem substituir a foto de uma típica família branca anglo-americana, geralmente apresentada nos livros sem refe- rência de identidade, por outras fotos que trazem elementos interculturais de famílias menos convencionais, a fim de se- rem pesquisados. Dessa forma, o ensino de vocabulário na lín- gua estrangeira se expande para a exploração de conteúdos da Geografia Social. Imagens diversas de fotos étnicas podem ser resgatadas pela Internet nos vários sites de busca.

• Na comemoração de Halloween, em uma escola pública de Salvador, um professor produz com seus alunos uma peça de teatro na qual apresenta informações históricas sobre a ori- gem do Halloween e desenvolve uma interessante compara- ção entre os componentes culturais que originalmente se encontram na tradição céltica do Halloween com os rituais do Candomblé.14

• Propondo fazer um levantamento de filmes com temáticas interculturais, para serem trabalhados em sala de aula, a profes- sora escolhe o filme “My big, fat greek wedding” (Casamento gre- go), de Joel Zwick e Nia Vardalos (2002). A partir da fala de Toula, personagem principal, no final do filme, “– My family is loud, we fight, but it’s my family and I have to like it the way it is”15, a classe

inicia um debate sobre choque de gerações nas relações familia- res, ressaltando aspectos comparativos em diversas culturas.16 • Escolhendo trabalhar com a linguagem musical, várias can- ções em inglês são selecionadas com intenção de enfocar pre- conceitos, estereótipos, conflitos sociais. A idéia é que o traba- lho não seja exclusivamente lúdico, mas que traga também a oportunidade de demarcar a postura de denúncia expressa por letras associadas a grupos socialmente marginalizados17. Ao co- mentar esse trabalho, propus a inclusão de músicas étnicas, de culturas não valorizadas nos livros didáticos e que podem se tornar excelente material para se trabalhar variedades lingüís- ticas do inglês, assim como conteúdos culturais desconheci- dos.18

Documents relatifs