O encontro com Tamar foi, ao mesmo tempo, inesperado e inusita- do. Embora não seja assistida pelo VIVER, tomou conhecimento de que uma pesquisa a respeito de violência sexual estava sendo realizada e decidiu se informar com a coordenação a fim de obter informações sobre estudo rela- tivos à Sociologia. Segundo ela, este sempre foi assunto que gostou, mas do qual, por muitos desvios da vida, terminou por se distanciar. Por se tratar de uma servidora pública, foi-lhe fornecido o meu número telefônico e assim marcado o encontro.
Tamar é uma mulher de 45 anos, é pequena e caminha sempre olhan- do para o chão, com passos apressados e inseguros. O encontro se deu, pela primeira vez, no pequeno auditório do VIVER, local onde se realizaram qua- se todas as entrevistas. Conversamos sobre o seu interesse por Sociologia. Tamar solicitou indicações de leituras para quem “não sabe nada e tem muita curiosidade”. Indiquei-lhe “O que é realidade”; “O que é etnocentrismo” e outros mais da Coleção Primeiros Passos. “A solidão dos moribundos” de Nobert Elias, pois ela se interessava por temas de saúde, morte e velhice; e de Zygmunt Bauman: “Globalização: as conseqüências humanas”.
“Com estes, você já terá um bom trabalho”, disse. Ao longo de toda a conversa, ela jamais me olhava, desviando-se para percorrer os quatro can- tos da sala como se procurasse algo que sabia que estava lá, mas fora estra- nhamente retirado. Ao mesmo tempo, comprimia compulsivamente as mãos, em movimentos de quem tenta retirar toda a água contida em um pano, e esfregava os pés como se para tirar os próprios sapatos. Ao final, perguntou se poderíamos conversar mais outro dia, com mais tempo e de forma que “ninguém saiba”, pois desejava não ser confundida com as mulheres agredi- das que eu estava entrevistando. “Eu converso com muitas mulheres que não foram agredidas, mas trabalham aqui, advogadas, psicólogas e muitas outras nas reuniões da equipe, apareça quando quiser”, respondi.
Nosso segundo encontro foi muito rápido. Tamar queria apenas me cumprimentar antes de iniciar o trabalho e informar que estava gostando de algumas das leituras que recomendei, enfatizando que achou Bauman “um pouco prolixo”. Na semana seguinte, tivemos encontro decisivo. Antes de fi- nalizar uma das entrevistas, a secretária informou que alguém me aguardava na recepção e perguntava se poderia dispor de tempo para ela. Era Tamar, visivelmente alterada. Ao entrar, quase sem me cumprimentar, disse que gos- taria de pedir perdão por ter mentido:
Não é nada de Sociologia, eu soube de seu trabalho, eu vi uma apresenta- ção sua no Departamento de Polícia Técnica e decidi que já era hora de falar com alguém o que me aconteceu, já faz 25 anos. Eu sofri um estupro e nunca contei isso a ninguém [...] e como isso dói [...] parece que foi ontem e decidi mesmo, porque um dia antes de vir falar com você eu encontrei com o homem que me agrediu, aqui, neste ponto de ônibus aqui da frente... ele me olhou, falou comigo
e saiu...eu fiquei tão transtornada, o chão saiu dos meus pés, eu pensei que ia ficar louca e senti tanta raiva, tanta raiva... eu quero morrer... e essa infecção urinária que todo médico diz que agora só depende de mim [...]
Antes de concluir, já estava em profundos prantos.
Tomei as providências para que se acalmasse. Assegurei-lhe que pode- ria narrar a própria história em outro momento. Entretanto, ponderei na situ- ação em que se encontrava, recomendei um acompanhamento psicológico, a ser efetivado no VIVER ou em outro serviço também indicado para tal finali- dade. A oferta foi recusada, pois sabia que eu era o psicólogo que atendia no Serviço Médico da Polícia Civil e só aceitaria atendimento comigo. Expliquei- -lhe que eram duas as propostas: uma referente à pesquisa; e a outra com finalidade psicoterapeutica. Ela insistiu em me contar a sua história e, depois, iniciar atendimento comigo. Eis a história de Tamar.
Sua família é proveniente do interior: tem cinco irmãos e foi a primeira a vir para Salvador. O objetivo era o de cursar Medicina, pois tivera trajetória escolar acima da média. Em ocasião em que realizou uma avaliação psicoló- gica, o resultado surpreendeu e lhe foi assegurado dispor de nível intelectual que lhe permitiria “ser o que quisesse”. Os primeiros anos em Salvador foram tranquilos. Morava sozinha e seguia rotina normal a fim de obter sucesso em relação à meta traçada. Assim, vivia a monotonia de “casa-estudos” com os planos de prestar vestibular se reafirmando a cada dia. A verdadeira fonte de alegria, porém, era a iminência de noivado com um colega de estudos, por se constituir no primeiro amor de sua vida. Por este motivo se “guardava”, apesar de insistentes tentativas do parceiro visando ao início imediato de uma vida sexual. As recusas se reforçavam, pois, neste campo, o objetivo era construir uma família de modo diverso ao que ela própria havia vivenciado. Isto é, desejava um lar com pai presente e crianças felizes:
Eu não vivi nada disso: meu pai saiu de casa muito cedo e, minha mãe, eu acho que tinha problemas, porque batia na gente por prazer, era surra mesmo, todo dia por razão nenhuma, eu não lembro de fazer coisas erradas, mas lembro dela batendo na gente, muito, muito mesmo. Eu odiava ela e até hoje eu não consigo olhar nos olhos dela, porque, Deus me perdoe, eu não gosto de minha mãe, eu tenho lembranças que eu não sei se você vai achar que eu sou louca,
mas eu lembro de mim na barriga da minha mãe e ela já não gostava de mim como se ela já me agredisse dentro da barriga, eu lembro.
Aí a base para a decisão de constituir uma família diferente. Pensava que iniciar a vida sexual antes do casamento poderia resultar em tornar-se mãe sem um pai e reviver a triste trajetória familiar. História tão triste que a obrigou a criar uma das irmãs, nove anos mais jovem: “Essa irmã minha vivia no meu colo, eu alimentava, protegia das loucuras de minha mãe, hoje ela me chama de mãe, ela diz que tem duas mães”.
Enquanto se preparava para o vestibular, foi aprovada em concurso da Secretaria da Segurança Pública, passando a trabalhar, inicialmente, em delegacias e depois em departamento de perícias. Aí ficou sabendo, pela pri- meira vez, o que era estupro, pelas piadas dos colegas com relação às vitimas atendidas: “Eles ficavam mostrando as fotos (dos exames periciais) da vagina das mulheres agredidas... e as fotos ficavam passando de mão em mão e eles dizendo: ‘Oh... como ficou a desgraçada’ e rindo e dizendo: ‘Ah! Essas mulhe- res descaradas entram nas coisas delas e depois vem dizer que foi estupro?!’ Era horrível”. Destacou-se pelo desempenho e foi rapidamente convidada a trabalhar em diversos setores do Serviço Público Estadual.
O vestibular se aproximava, e neste ambiente de ansiedade começou a estudar sem descanso. Em certa manhã, recebeu a visita de um homem afirmando trazer encomenda do interior, enviada pela mãe. Abriu a porta para recebê-la e foi, durante horas, violentamente estuprada. Estupro que se pro- longou durante muitas horas. Os ferimentos foram muitos, em todo o corpo: seios, rosto, boca, genitais, resultando em sangramento intenso. Após a agres- são, não conseguiu levantar-se do chão, passando aí a noite, vindo a acordar em meio a muito sangue e dores. Estava desesperada. Não saiu de casa du- rante a semana seguinte. Com desculpas, justificou a ausência no trabalho. Aos amigos que telefonavam insistentemente, dizia estar se concentrando nos estudos. A família nunca foi informada do que aconteceu. O namorado tampouco. Não formalizou denúncia na polícia; não procurou assistência médica... cuidou dos próprios ferimentos como pôde. Na semana seguinte, informou ao namorado que terminavam ali o noivado e o namoro: “Como eu ia dizer justo para ele, que tanto insistiu em ter sexo comigo, que eu tinha perdido a virgindade...? Eu não tive como continuar o namoro. Na delegacia?
Para ser motivo de piadas? Não”. Quando procurou um médico contou-lhe outra história: havia feito sexo intenso com o namorado. Não teve condições de realizar as provas do vestibular, ocorrido três semanas após a agressão. Ela foi até o lugar da prova, mas não conseguiu entrar: chorou longamente na calçada da Escola, com profundo “ódio de tudo”.
No mês seguinte, tentou retomar os estudos. Dedicava-se, pensando em outro vestibular. Em algum dia desta época, foi tomada de assombro pela inexplicável presença do agressor dentro da própria casa: sendo mais uma vez violentada. O agressor provocou-lhe menos ferimentos desta vez, pois segundo ele: “Você agora já é minha”. Ele a ameaçava: “Se você quiser pode ir na polícia, eu digo ao Juiz que foi mesmo e que quero me casar com você. Como é que você vai explicar que fez sexo comigo duas vezes?” O argumen- to, que a encheu de horror, consolidou a decisão de, por outra vez, manter silêncio e não procurar a auxílio: “Eu morria de medo de ter de me casar com ele”. As mesmas estratégias foram acionadas: reclusão, desculpas, silêncio. Os meses seguiram, desistiu definitivamente do vestibular e centrou a vida no trabalho. Dedicou-se a reforçar a segurança da casa e aos pouquíssimos amigos. Em tentativa não refletida de esquecer as próprias dores, adotou uma criança muito carente e desnutrida do interior, tornando-se grande pro- blema em sua vida: “Essa menina começou a roubar, a fazer sexo, a tomar drogas, me agrediu... eu não perdoo”.
Surgiram então os sintomas corporais. Primeiramente, ao se olhar no espelho: “Sentia que aquela mulher no espelho não era eu”. Um sentimen- to de despersonalização em que, por breves instantes, sentia que esse “não era o meu corpo, eu queria ter outro corpo, me mordia de ódio”. Em segui- da, nutriu profundo nojo do próprio corpo em razão do qual não conseguia olhar os genitais ou banhar-se por completo. Odiava olhar-se no espelho, as marcas da agressão lhe infundiam profunda repugnância seguida de vô- mitos incomodamente persistentes. As imagens vívidas da agressão, com to- dos os detalhes, sobretudo a lembrança quase alucinatória da voz do agres- sor, não permitia que dormisse à noite. O sentimento de culpa era profundo. Em poucos meses, surgiram outros sintomas que persistem por muitos anos, com remissão espontânea e retorno súbito ao longo de sua vida: começou a cair e se machucar com frequência. Não eram desmaios:
É como se eu tivesse perdido a capacidade de me equilibrar, eu estava andando na rua e simplesmente caía no chão, eu caía direto naquela Praça da Piedade, fui a vários médicos e todos diziam: “Você não tem nada, minha filha”. Até que eu fui a um homeopata e ele falou: “Minha filha, isso é emocional, você só melhora se procurar um psicólogo”.
A sugestão que foi atendida, embora, ao longo de três anos de tera- pia, a profissional nunca soube da agressão sofrida pela paciente. “Eu falava de tudo, menos da violência, como é que ela podia me ajudar?” Continua- va a cair frequentemente, a ponto de formar necrose no tendão de Aquiles. Para corrigir os efeitos de muitas quedas e fraturas, foram implantados pinos nos pés, que ainda hoje a acompanham. Outro sintoma experienciado no período: ao ouvir a palavra “estupro”, a cabeça começava a doer insuportavel- mente, dor similar a que vivenciou durante as agressões, e resistia à ingestão de analgésicos.
Cerca de seis meses após as agressões, surge o sintoma corporal que mais a perturba: uma infecção urinária resistente a todos os tratamentos médicos. Para tratar a infecção urinária, submeteu-se a duas cirurgias, hoje, reconhecidamente desnecessárias. Após busca de cura em vários segmen- tos médicos, veio-lhe diagnóstico por intermédio de seu urologista, recém- -chegado de um Congresso Internacional: “Tamar, eu só lembrava de você porque foi apresentado um trabalho sobre um tipo de infecção urinária como a que você tem: não aparece em exames laboratoriais, não se resolve com cirurgia, não responde bem aos medicamentos e que é resultado de duas situações: ou um aborto traumático ou um estupro”. Tamar: “Mas eu não me enquadro em nenhuma dessas situações”. Resposta evasiva à qual já se acostumara. Na verdade, Tamar já intuía a possível relação entre a infec- ção urinária e o estupro, pois teve início quando, uma vez, caminhando pela cidade, reconheceu o agressor entre os transeuntes e ele se dirigiu até ela e indagou como estava. Além do mais, a infecção urinária sempre voltava quando via o agressor, pois, como terminou por descobrir amarguradamente, ele morava nas imediações de seu bairro.
Os sucessivos encontros, associados ao medo de novas agressões, le- varam-na a decidir mudar-se de bairro e a se casar, às pressas, com um rapaz que vinha demonstrando interesse por ela, mas que ela “Não amava, mas
que me suportava porque eu não queria saber de sexo de jeito nenhum, mas ele dizia que me queria assim mesmo. Mas eu sei que o meu casamento foi fruto do medo”. Um casamento desastroso e ocasião do surgimento de novo sintoma corporal; desta vez, ligado à sexualidade: após anos de casada, “com muita paciência” o seu marido conseguiu fazê-la se interessar pela sexuali- dade; a partir daí “O sexo virou uma loucura para mim, eu hoje tento terminar este casamento que já me fez sofrer tanto e onde eu já fui desrespeitada e agredida, mas o sexo me prende”. Sua sexualidade tornou-se compulsiva. A seu ver, manter relações sexuais três vezes por dia em praticamente todos os dias da semana é algo “anormal”: “Eu faço sexo toda hora e são muitos orgasmos, é um tormento e meu marido me xinga de prostituta por isso e mas eu sinto ódio dele e mais eu estou presa, eu não posso me separar dele porque eu não posso viver sem sexo”.
De todas as escolhas que fez, ou foi levada a fazer, em consequência ou fuga da vivência da condição de abusada – abandonar os estudos, terminar o noivado, não conseguir cursar medicina, adotar uma filha, casar sem amor – sente ainda hoje, passados 25 anos, profundo ódio. A imagem que lhe ocorre quando se refere a ele é de uma grande árvore com ramificações e galhos que nascem uns dos outros e se entrecruzam sem ser possível identificar onde terminam:“Esse meu ódio é uma doença, é um ódio sem solução, se eu souber hoje que ele (o agressor) morreu, foi torturado, preso... nada disso vai curar o meu ódio porque eu vivi uma vida de migalhas... eu fiquei com as migalhas da vida”.
Sempre que revê os rumos da própria existência após as agressões, sente que “ficou parada no tempo”:
É como se o tempo tivesse parado para mim, as coisas seguem, a vida passa por mim, mas eu continuo parada. É como se eu não tivesse vivido, eu mesma. Vou tentar te explicar: a minha sensação é de que as coisas da minha vida, não foram vividas por mim mesma e eu fico aguardando o dia em que eu mesma vou começar a viver, porque até agora é como se outra pessoa estives- se vivendo a minha vida. Meu corpo está emprestado a outra pessoa e eu fico esperando quando é que eu vou voltar. A cada dia eu aguardo o dia em que eu vou me libertar e é tipo um soldado que marcha, marcha, se prepara, mas não vai à guerra.
Muitos detalhes da história de Tamar se cruzam com os de outras mu- lheres que sofreram agressões e têm a sensação de que o fluxo de suas existências foi interrompido para sempre, de que o “tempo se congelou” e a certeza de que as lembranças da agressão não se apagarão mesmo depois de transcorrerem os anos. Mas analisemos ainda a história de outra mulher para em seguida tentarmos compreender o lugar do corpo em tais experiên- cias. Vejamos a história de Rute.
Rute foi agredida há 15 anos, desde então não consegue, sozinha, desenvolver as atividades cotidianas, precisando do marido para levá-la de carro para todos os lugares. Não dirige mais, não cuida da própria conta bancária e abdicou de contatos sociais noturnos, fatos que justifica como decorrentes de ter sido raptada na porta de uma boate, à noite, e – em seguida – violentada. Como um ponto de contato com a história de Tamar, Rute também não registrou denúncia na polícia e não relatou os dolorosos acontecimentos a familiares, amigos ou a quem quer que fosse, com exce- ção de um irmão médico a quem foi obrigada a relatar “por alto” para justi- ficar os consecutivos pedidos de requisições para exames de HIV.
Rute chega ao VIVER sem passar pela delegacia. Enfermeira bem-su- cedida, proveniente da classe alta de Salvador, com familiares de renome na medicina baiana. Eu fui um dos seus primeiros contatos na instituição. Diferente de Tamar, as entrevistas com Rute ocorreram com poucos detalhes, falas curtas recortadas por muitos silêncios. Tivemos encontros que desvia- vam para assuntos variados e quase nunca sobre a agressão que sofrera aos 24 anos, vez que contava com trinta e nove. Falava da agressão sofrida com expressões evasivas como: “Aquilo que me aconteceu”, “aquilo”, “essa coisa”. Por diversas vezes eu achei bom recordá-la que as entrevistas comigo não faziam parte dos atendimentos do VIVER e que ela poderia interrompê-las quando quisesse, porque pareciam lhe causar intenso sofrimento. Rute res- pondia negativamente, referenciando ser boa a oportunidade de falar comi- go: “O senhor não imagina o quanto, esse esforço de falar do que me acon- teceu é muito bom, de lembrar algumas coisas”. E assim, muito lentamente, com prolongados silêncios e muita vergonha, fomos chegando aos fatos.
Nos anos 90, com uma amiga, fora raptada por três homens armados, na porta de uma famosa boate de Salvador, e levada para as imediações
da Estrada Velha do Aeroporto onde foi violentada. Os sofrimentos come- çaram com doloroso sentimento de culpa que, como vimos, é tão comum entre pessoas agredidas sexualmente. Mas, no caso, parecia se revestir de um componente adicional: os pais insistiram e chegaram a proibir que ela saísse na noite em que foi violentada. Desse modo, a culpa redobrava ao recordar as palavras do pai. A violência teria vindo, então, como punição merecida pelo comportamento desobediente. Outro reforço de culpa vinha de ter “tido a oportunidade” de apanhar a arma do agressor enquanto era violentada, mas ter preferido ficar quieta e esperar passar. Quanto às sen- sações corporais vivenciadas, as descreve como se “naquela hora” houvesse perdido o domínio de si, e “outra pessoa estivesse comandando a minha vontade, não era eu, não era eu, eu fiz esforço para não sentir nada, pedia a Deus, orava na hora para ficar indiferente”.
Pela culpa, impôs-se uma série de punições: pensou que não merecia a vivência de um amor verdadeiro e se casou com o primeiro pretendente que surgiu após a agressão: um homem que sabia claramente não amar. Entretanto, representava “certa vantagem”: não ser sexualmente ameaçador, por não gostar de sexo. Vantagem, pois as relações sexuais passaram a ser insuportáveis para ela que, por essa ocasião, começou a sofrer de espas- mos vaginais que impediam a penetração – distúrbio que, em clinica médica, é conhecido como vaginismo. Jamais conseguiu se curar inteiramente do dis- túrbio que desaparece e retorna de modo “aparentemente” espontâneo ao longo de quinze anos. Só “aparentemente” vez que, ao menos, reconhece uma conexão: situações de estresse e preocupação, como desentendimentos com o marido e no trabalho, são fatores que o fazem retornar. Ao longo de to- das as entrevistas demonstrou a mesma descrença quanto às possibilidades de cura: “Uma mulher que vive uma coisa dessas não fica boa nunca mais”. Essa certeza, associada ao sentimento de culpa ainda não superado, a leva- vam a pensar em suicídio, tendo inclusive tentado por duas vezes com a in- gestão de várias caixas de tranquilizantes. Atualmente, leva uma vida muito