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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 196-200)

Crônica do encontro não desejado

Como se debatia no peito o coração, feito passarinho, peito lânguido, peito flácido. Coração de carne e medo. Como se debatia Passarinho indefeso. Voz de soluço e desespero.

Voz molhada em lágrimas. Mãos de sangue e sêmen, Semente do que não deveria ser e não será jamais.

Oh sono! Por favor deixe-me dormir

que minha carne está cansada de viver!

Que cantem os galos! Que amanheça o dia! Fuja algoz! A luz chegou! Por favor, vá embora moço! Por piedade não me roube a ilusão de ser dona de mim,

não me arrebate a alegria que mora em meus olhos. E o sorriso

que minha boca conhece tão bem. Por favor, vá embora,

tenha piedade desta carne inútil! Amanhã, quando o sol sair (e ele sempre sai),

como se fosse a primeira vez

enxergar tudo o que não enxerguei antes e no misto de alegria e ingênua contemplação, descobrir que vale a pena estar

no exato lugar em que se está, depois de tudo acontecido, depois do grito sufocado, depois do nojo e da repulsa por não poder sair estrada afora,

agitando os ensangüentados bambus do desespero.

Mabel Lazaroto

Por intermédio deste poema, sob o pseudônimo de Mabel Lazaroto, uma professora de 45 anos, culta, intelectualizada, com fluência em três idiomas e experiência de vida muito diversificada que incluiu residir 17 anos no exterior, trouxe a público sua experiênciavitimizada pela agressão sexual. O final perturbador de longo e conflituoso casamento no exterior a fez re- tornar ao Brasil com três filhos que, pouco a pouco, saíram de casa, o que a deixou morando sozinha. Especializando-se no ensino de Língua Inglesa, deu início a dura jornada de trabalho, única maneira de manter “um pouco do nível de vida que tinha no exterior”. Fez do apartamento local de parte de

suas atividades profissionais, bem como lugar de reuniões de um ativo grupo de estudos de poesia. Sobre esse tempo se refere:

Porque eu morava sozinha, minha casa era muito frequentada, várias pes- soas vinham muito na minha casa. Até ao ponto – eu morava num apartamento térreo – quando eu chegava de noite do trabalho, às vezes eu não acendia a luz para que as pessoas de fora não vissem que eu estava em casa; porque era eu acender a luz e começar a chegar amigos, amigos. Pessoas pra conversar, gente que toca violão. Eu reunia grupo de estudantes em casa no final de semana pra discutir poesia. Escolhíamos um autor, Cecília Meirelles, e durante um mês todo mundo lia e depois nos reuníamos para falar. Era muito gostoso. Era muito legal.

O ritmo de vida marcava o fim de anos difíceis – o casamento, a do- ença mental do marido e a solidão na criação dos filhos – e o início de um tempo de tranquilidade produtiva. Chegava ao fim uma vida marcada por reviravoltas e angústias no estrangeiro, onde sofrera com a difícil adaptação. Contudo, bruscamente, este ciclo de alegrias foi interrompido. Em uma noite, um dos alunos, um estudante universitário, foi até o apartamento afir- mando ter sofrido um assalto e não ter como retornar para casa, precisando de algum dinheiro para o transporte de retorno. Ao escutar a descrição do cenário, Mabel abriu a porta. Este foi o passo que permitiu ao estudante violentá-la diversas vezes durante o restante da noite, deixando o aparta- mento na manhã seguinte. Muito machucada, procurou a polícia que tentou dissuadi-la de prestar queixa, pois se tratava de um estudante universitário que poderia ter a “vida destruída” por uma acusação infundada. Ainda assim, a queixa foi registrada por insistência de Mabel.

Foi a partir da cena de violência que Mabel percebeu uma virada em sua vida: mudou de apartamento por se sentir insegura onde morava. Já havia sido alvo de várias pressões e visitas de familiares do estudante que com ela insistiam para que não desse sequência à queixa policial. Mudar de apartamento significou o rompimento com todo o ciclo de amizades do bair- ro e também o fim do grupo de estudos poéticos. Começaram os problemas: fobia de dar aulas; desmaios em diversos encontros sociais – não explicados pelos médicos a que recorreu; repugnância seguida de vômitos quando sen- tia o cheiro de perfumes assemelhados ao que o estudante usara quando a agredira, além de profundo e inexplicável sentimento de culpa.

Foi neste ponto da trajetória que entrei em contato com Mabel. Na épo- ca, uma notícia em um jornal de ampla circulação local, permitiu que amigos, vizinhos e colegas de trabalho a identificassem, mesmo que ela não tivesse relatado sua agressão a ninguém. A divulgação pública do estupro, de forma a tornar muito fácil o seu reconhecimento por amigos e vizinhos, a expôs a muitos questionamentos indesejados que iam da curiosidade ao sentimento de pena. Mas preferiu não relatar a mais pessoas. Entre as razões para esta decisão, se destacavam os comentários preconceituosos que estava acostu- mada a escutar sobre pessoas agredidas. Além disso, as pessoas que a identi- ficaram no jornal tampouco teriam sabido apoiá-la, pois haviam formado uma visão pessimista sobre o futuro de quem é agredido.

No entanto, Mabel efetivou amplo movimento de recomposição de vida: buscou o VIVER e iniciou tratamento psicoterápico, experiência já vi- venciada em virtude do casamento tumultuado do qual tentava se livrar. Os resultados preliminares com a polícia e a justiça foram negativos de- vido à dificuldade de constituir provas contra o acusado. A situação do processo judicial caminhava para arquivamento. Porém, empenhava-se em superar a realidade circunstancial:

Essa sensação de não precisar de ninguém — que era o que eu tinha — é como se eu tivesse criado uma couraça, com muitos amigos, muita gente, mas não havia na minha vida realmente quem compartilhasse os meus momentos. Aí de repente eu me deparo com isso [o estupro], foi muito ruim, eu me senti muito frágil. Foi uma situação horrível. Não que eu seja uma pessoa controlado- ra, não é isso, mas eu sempre achei que tinha tudo sobre controle e de repente eu vi que não era assim. Eu tive que recomeçar a pensar o quanto outra pessoa seria importante, eu não seria só. “Ah, não é mais uma mulher sozinha, tem uma pessoa”. Não entraria uma pessoa, eu acho que um homem pensaria duas vezes antes de tentar entrar na minha casa porque tenho uma pessoa.

A Internet foi o ponto de partida. Uma série de encontros foi marcada, mas nenhum deles exitoso, até o encontro casual, no Aeroporto de Salvador, com um jovem senhor que lhe fez rir bastante. Característica masculina que ela achava fundamental e que logo a cativou. Um ano e meio depois, esta- vam morando juntos. Decisão tomada após um grave ferimento no pé que a impediu de cuidar-se sozinha. Finalmente, o prazer de sentir-se cuidada

por um homem e dele receber toda atenção. Período de contentamento que lhe foi fundamental, apesar de logo em seguida se desfazer em meio às crises de ciúmes do companheiro que passou a espancá-la violentamente. Em dada ocasião, o namorado provocou-lhe um grave ferimento na cabeça, que a obrigou a se hospitalizar. Após a recuperação, novas agressões. O na- morado quebrou-lhe o braço, entre outras ações ameaçadoras: destruiu-lhe objetos pessoais como estojo de maquiagem e aparelho celular; escondeu pertences do dia-a-dia: documentos e óculos – sem os quais não conseguia desenvolver atividades, devido à miopia –; destruiu a mobília que ela ha- via levado para a casa dele. Às tentativas de superação da agressão sexual somavam-se a busca de saída para a “armadilha” em que se envolveu:

Eu acho que no momento o meu conflito maior é a pessoa com quem es- tou morando, a impressão que eu tenho é como se fosse uma armadilha, porque pra fugir de uma coisa que eu achava que era... Porque eu podia ter feito o meu processo em casa, só, me refeito. Não foi imediato também, eu não fui morar logo, foi mais de um ano depois. Porque eu tinha essa idéia, né: “Poxa, eu não posso mais ficar sozinha”, e não é isso, não é por aí.

Estava vivendo a ansiosa impossibilidade do fim imediato do rela- cionamento, pois temia que as ameaças do namorado se concretizassem e viesse a ser assassinada. As ameaças que sofria ganharam plausibilidade ao descobrir que o companheiro era praticante de delitos, entre os quais trá- fico de drogas. As ameaças agora lhe pareciam bem concretas. Adotou uma série de mudanças em que se misturaram a busca da superação da agres- são sexual e das frustrações amorosas: raspou os cabelos; destruiu todos os vestidos e roupas que poderiam torná-la objeto do desejo masculino; o sentimento de culpa havia atingido o ponto máximo. Considerava-se cul- pada de atrair as atenções do agressor sexual, do mesmo modo que atraiu para si a desgraça de um relacionamento agressivo. Outros recursos foram acionados: fez ampla mudança na nova casa de forma a que os móveis não ficassem na mesma posição em que estavam quando foi agredida pelo namorado; voltou a escrever poesia, sem intenção de publicar, mas apenas para ‘falar consigo mesma’, é dessa época o poema, Crônica de um encontro

não desejado. Retomou a religiosidade, voltou a ser Batista. A leitura da Car-

uma atividade diária. Reiniciou o antigo hábito de ler e descobriu o autor mais importante em toda a trajetória de recuperação: Harold Kushner, em especial os livros: Quando tudo não é o bastante e Quando coisas ruins acon-

tecem às pessoas boas:

Mabel: Tenho na minha casa literatura de poetas judeus, poetas chilenos, dos poetas uruguaios. Eu tenho muita coisa assim. Tenho livros italianos, que eu estudo italiano também, tenho muita coisa. Aí quando aconteceu isso [o estupro] eu falei: “Eu preciso ler alguma coisa que me ajude a botar no eixo tudo, né? Eu gosto muito de um escritor chamado Kushner que é um rabino, mesmo ele não compartilhando algumas ideias do cristianismo que eu compartilho, né, mas ele tem uma visão assim de Deus, da vida, do ser humano, belíssima! Aí eu li o que eu lhe dei aqui: Quando tudo não é suficiente... Suficiente ou bastante? Em português qual seria? Quando tudo não é o bastante. Ele é muito bom, muito bom. Ele é baseado no livro de Eclesiastes que é um livro muito polêmico da Bíblia, né?

Entrevistador: É. E é um livro pessimista.

Mabel: Não, hoje ninguém mais imagina. Mas, olhe, você lê o livro sobre o Eclesiastes e você vê que o Eclesiastes é fantástico porque te coloca que por mais que você seja fraca, você está aqui pra isso, pra viver e pra desfrutar do que a vida te oferece. Desfrutar das pessoas e de... é muito legal. O livro dele é muito bom, porque ele coloca também essa crise que a pessoa tem de chegar aos 40, aos 45 anos e achar que não fez nada da vida, e ver os filhos e você se sentir responsável... Porque na verdade, eu me senti responsável por tudo que acontece na minha vida e na vida de meus filhos. Engraçado, Gessé, que eu não tinha nem ideia do que o livro ia me apresentar. Eu precisava ler. Eu tive um sonho, alguém me falando umas coisas, e como eu tinha começado a ler o livro nessa noite, eu abri numa página e o que a pessoa me falou no sonho estava escrito ali. Foi muito legal, eu me emocionei muito. Olha, é isso que eu tô precisando! Eu sonhei alguém me dizendo isso: “Deus quer que você seja feliz”.

Mabel já se submetia à psicoterapia há um ano, quando tivemos o nosso segundo encontro. Relatou-me a mais nova conquista, talvez a mais decisiva: havia superado finalmente o atormentador sentimento de culpa, combinação de Kushner e a psicoterapia:

Quer dizer, então tudo isso era realmente assim na minha cabeça muito complicado. “Poxa, será que eu fui realmente culpada? Meu Deus! Alguém teve lá em casa pedindo ajuda, dizendo que foi assaltado e quando eu abro a porta vem e me machuca tanto e a culpada sou eu? Mas hoje eu sei que eu não tive culpa. Lógico, que eu não deveria ter aberto a porta, mas eu não abri a porta pra um desconhecido, eu abri a porta pra uma pessoa que já tinha estado em minha casa. É isso. Ah, eu comecei a achar que minha roupa era muito curta... No começo, realmente, eu pensei muito no que é que eu tinha feito, onde eu tinha errado pra passar por aquilo [estupro]. Mas nessa época eu já estava fazendo terapia e aí eu comecei a ver que não... É como eu digo pra você. A partir do mo- mento que eu entendi que eu não tinha causado[...] Porque nós fomos criados assim: sempre educados assim a achar que temos culpa, culpa, culpa... Não sei porque. Então, a partir do momento que eu entendi que eu não tinha provocado, que não era eu que tinha o problema, mas era ele[...] Ele [o agressor] é que tem o problema, não fui eu que provoquei, isso me ajudou muito. Eu voltei a usar as roupas que eu usava antes. Até deixei o meu cabelo crescer já... de repente eu fui vítima de uma violência, aconteceu isso... Vou organizar minha vida, tentei voltar às minhas atividades normais, dou aula, saio pra qualquer lugar, chego em casa a qualquer hora, vou a festas e tudo, não me sinto ameaçada, já entendi que o problema era ele e não eu.

E sobre Kushner:

O último livro dele agora é “Que tipo de pessoa você quer ser?”, trata da ética. É muito legal. Como ser uma pessoa ética na nossa atualidade. É muito bonito. Não são livros religiosos, ele não te empurra nenhum tipo de religião. Ele analisa os personagens da história, a atitude deles como seres éticos e como isso pode se aplicar... É muito bom os livros de Kushner . Eu tenho um relaciona- mento, meu conhecimento de Deus e o que ele é em minha vida. Eu não me sinto abandonada por Deus. Eu entendi que não há condições no meu comportamento pra poder gostar de mim, que Ele é um Ser Superior e por ser Superior gosta de mim, é importante pra mim e o mais importante é que eu sei que ele não espera que eu seja perfeita, porque Ele é especial. Isso me ajudou muito. Quer dizer, tudo isso partiu... desencadeou. Então hoje eu já não me cobro mais .

Alguns meses depois, nos encontramos novamente e ela narrou como saiu da crise vivenciada; embora ainda não tivesse se libertado do violento relacionamento:

Ah, com certeza eu acho que isso... que nunca na minha vida entrei em desespero foi justamente porque acredito em Deus, sei que Deus me ama. Por me sentir uma pessoa muito sensível nessas coisas espirituais, por me sentir muito abençoada por Deus, eu já passei momentos na minha vida assim, de você... e agora? Eu orava, pedia a Deus, de repente vê, então eu me considero até hoje... nunca me considerei abandonada por Deus nem nada. Então essas coisas que es- tão acontecendo, por exemplo, que eu tive, agradeço pela vida, pelo aprendizado que eu passei, porque estou aprendendo com ele, realmente eu estava chateada, mas eu tenho aprendido muita coisa com ele. Eu me considero uma pessoa feliz. Eu sou agradecida a Deus de viver, de ter meus olhos, sabe? De tanta coisa que eu tenho na minha vida e que pra mim são valiosas.

Apesar de se considerar curada, sentia que às vezes tinha “recaídas”. Recentemente, estava em um ônibus e sentira o perfume do jovem que a agredira, isso a obrigou a descer de imediato e a vivenciar instantes de grave ansiedade. Ao contrário das outras vezes, as recaídas passaram a ser de curta duração, após as quais conseguia continuar suas atividades. Assim me des- pedi de Mabel Lazaroto. Havia abandonado a terapia. No transcurso de dois anos, pode se ver livre dos principais sintomas. A terapeuta, apesar de consi- derar a atitude precipitada, considerou a história clínica como bem sucedida. O relato é suficiente para ilustrar percurso de recomposição em que ganha relevância a mobilização de anteriores vias de equacionamento de crises. Vias que no passado se mostraram eficazes e que compunham o seu horizonte biográfico, entram novamente em cena para lidar com a situação radicalmente nova de ser violentada: a religiosidade, a psicoterapia, o uni- verso intelectual, a poesia.

Apesar de a corporeidade não se presentificar explicitamente, foi pos- sível verificar certas ativações corporais: o corte dos cabelos, a mudança no modo de vestir-se. O corpo também continua implicado na memória do crime, como verificado pela reação ao perfume do agressor. Lidar com os desdobramentos da agressão parece envolver, em algum nível, a aquisição de modos de tratar a memória corporal. Ademais, indicaremos com maior

clareza o lugar do corpo nos processos de recomposição existencial através da história de Diná.

A MOBILIZAÇÃO DO CORPO NOS CAMINHOS DA

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